RESENHA

‘A Natureza das Coisas Invisíveis’ e o olhar infantil sobre a vida e a morte

Filme da brasiliense Rafaela Camelo retrata a inocência da infância e o desprendimento da velhice frente a questões existenciais

Ouvi falar no filme A Natureza das Coisas Invisíveis como muita gente recebe suas recomendações cinematográficas hoje em dia: pela internet. Um perfil no X, cujo nome não é relevante, estava afirmando categoricamente que o cinema brasileiro só faz filme sobre a ditadura militar. Esse comentário, para a surpresa de ninguém, foi recebido com uma enxurrada de críticas, argumentos contrários e xingamentos. Mas um internauta chamou a minha atenção por reagir da melhor maneira possível: divulgando uma lista de filmes lançados em 2025 que não falam desse momento sombrio do nosso país.

Escondida atrás da tela do meu celular, aproveitei o bate-boca para anotar os títulos e, mais tarde, dei play no longa-metragem de 1h30 de duração, sem nem ter visto o trailer antes. O filme da diretora e roteirista brasiliense, Rafaela Camelo, conta a história de duas meninas que se conhecem em um hospital durante as férias escolares e se tornam amigas em meio à dura realidade do centro médico.

Glória, de 10 anos, precisa de cuidados constantes da mãe enfermeira após um transplante de coração. Sem ter com quem ficar nas férias, ela acaba passando os dias no hospital onde a mãe trabalha. É ali que ela conhece Sofia, da mesma idade, que acompanha a bisavó internada após um acidente doméstico. Entediadas por estarem presas naquele ambiente, as duas começam a explorar o hospital juntas e, pouco a pouco, constroem uma amizade.

A Natureza das Coisas Invisíveis
Crédito: Divulgação/Vitrine Filmes

Com o passar das cenas, uma trama aparentemente simples se mostra extremamente sensível e delicada. A diretora conseguiu captar o descobrimento do mundo de uma forma muito natural, como se a câmera fosse uma terceira criança ali presente. Esse é, provavelmente, o motivo pelo qual o filme seja tão autêntico: a vida e a morte são apresentadas pela perspectiva infantil, de quem ainda está tentando entender a realidade.

O longa também acerta nas reações das mães com os questionamentos infinitos de suas filhas. Larissa Mauro, que interpreta Antônia, mãe de Glória, e Camila Márdila, que dá vida a Simone, mãe de Sofia, abordam com sutileza e honestidade questões existenciais, muitas vezes evitadas por adultos. Mas isso não quer dizer que elas sejam mães perfeitas. Suas frustrações e inseguranças também aparecem, especialmente ao lidarem com as pré-adolescentes. São duas gerações que, à sua própria maneira, estão constantemente aprendendo sobre a vida.

Outra boa surpresa do longa se deu na abordagem humana da transsexualidade de Sofia. O filme em momento algum fala de preconceito, deixando perceptível o esforço da diretora em tratar a transição como algo natural, sem que esse fosse o único elemento central da vida daquela personagem, mas ainda assim referenciando sua morte identitária ao afirmar que o “meninozinho” de Simone morreu.

O sensível e delicado A Natureza das Coisas Invisíveis, eleito o melhor filme brasileiro na 49° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, está disponível na Netflix para aqueles dispostos a se juntarem às duas meninas para quem sabe, enfrentarem juntos a desordem da vida.

 

Maria Paula Azevedo é jornalista.

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