A “nova onda rosa”: um recomeço mais desafiador

AMÉRICA DO SUL

A “nova onda rosa”: um recomeço mais desafiador

Acervo Online | América Latina
por Cairo Junqueira e Lívia Milani
30 de setembro de 2022
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Embora a retomada do termo para ilustrar uma oscilação de preferências políticas na região não seja necessariamente um problema, é importante ter em mente as diferenças entre os dois períodos históricos e ter clareza de que o contexto é mais desafiador atualmente

As recentes vitórias da esquerda na América do Sul, somadas à provável eleição de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, têm reforçado a percepção de um novo ciclo político na América do Sul, levando alguns analistas a falarem em uma nova “onda rosa”. Essa expressão foi usada por comentaristas políticos para se referirem ao predomínio de líderes progressistas na América do Sul no começo dos anos 2000. Entre os mais destacados estavam: Hugo Chávez, Lula da Silva, Pepe Mujica, Evo Morales, Néstor e Cristina Kirchner. Embora a retomada do termo para ilustrar uma oscilação de preferências políticas na região não seja necessariamente um problema, é importante ter em mente as diferenças entre os dois períodos históricos e ter clareza de que o contexto é mais desafiador atualmente. Caso contrário, mais do que iluminar a conjuntura recente, o uso da expressão pode levar a erros de interpretação.

Para evitar possíveis erros de análise da conjuntura, elencamos quatro das diferenças principais entre o início do século e o momento contemporâneo: i) a instabilidade política e a maior organização das extremas-direitas, ii) o cenário econômico mais desafiador para os governos de esquerda, iii) a intensificação das rivalidades entre potências no âmbito internacional, iv) os desafios enfrentados pelo regionalismo latino-americano.

Em um primeiro momento a dimensão sobre instabilidade política pode não indicar uma característica da região aplicada somente à contemporaneidade. Rupturas institucionais marcadas ora por impeachments e ora por tentativas de golpe de Estado parecem ser um aspecto político central da América Latina. O passado colonial, as sucessivas incursões militares dos Estados Unidos e o aparecimento de ditaduras são traços indeléveis desse processo. Na década de 1990 a América Latina foi palco de sete intervenções militares, enquanto nos anos 2000 esse número caiu para três. O período histórico da onda rosa original foi, em seu início, marcado por uma momentânea amenização da instabilidade. Os governos progressistas conseguiram não apenas completar seus mandatos, mas garantir a reeleição. A partir de 2010, contudo, o cenário se modificou.

Durante os anos 2010 houve inúmeros protestos e levantes sociais, movimentos que também fazem parte do atual panorama regional. No Brasil a saída de Dilma Rousseff em 2016 e a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 colocaram diversas reticências sobre a estabilização de sua democracia; na Venezuela de Maduro as crises sociais e o aparecimento de Guaidó se autodeclarando presidente situaram o país ainda mais em isolamento; na Bolívia o ex-presidente Morales enfrentou oposição popular após início do seu quarto mandato; no Chile e no Equador a insatisfação econômica tomou conta das ruas em 2019; e o Peru, entre 2016 até 2022, já contou com cinco mandatários assumindo a cadeira de presidente.

Petro, atual presidente eleito da Colômbia, e o presidente do Chile, Gabriel Boric, durante a posse do último, no dia 11 de março. (Foto: Reprodução Twitter Gustavo Petro)

Nesse meio as lideranças de esquerda voltam a aparecer. Citamos o caso de Lula no Brasil, mas tem-se Boric no Chile, Petro na Colômbia, Fernandez na Argentina, Castillo no Peru e Lopez-Obrador no México. Entretanto, a principal novidade comparada ao período da “Onda Rosa” está do outro lado do espectro político. Há um movimento bem articulado entre setores de extrema-direita não somente na região, onde encontramos o neopatriotismo de extrema direita, mas internacionalmente. Basta ver o que representou o governo de Trump nos Estados Unidos entre 2017 e 2020, bem como o de Orbán na Hungria, governo recentemente nomeado de “autocracia eleitoral” pelo Parlamento Europeu, além da recente eleição de um partido com raízes fascistas na Itália pela primeira vez desde 1945. A extrema-direita encontra-se organizada globalmente e na América Latina e nada garante uma onda duradoura, ou mesmo a consolidação de um ciclo de governos progressistas.

Do ponto de vista econômico, a onda rosa original foi fortemente favorecida pelo assim chamado boom das commodities, uma situação na qual alguns dos principais produtos exportados pela América Latina foram favorecidos pela alta demanda internacional, inclusive chinesa. No momento atual, relatório da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) descreve um cenário externo marcado por maiores desafios para a região, incluindo pressões inflacionárias e baixo crescimento econômico mundial.

O caso da Argentina é um exemplo interessante desse cenário desfavorável. Frente às dificuldades em manter os pagamentos da dívida externa e com uma inflação galopante, o governo de Alberto Fernandez foi levado a recorrer a negociações para refinanciar a dívida do país com o FMI. A decisão foi criticada e causou divisões internas, sendo que o deputado Máximo Kirchner, filho da atual vice-presidente, deixou a liderança do bloco governista no Congresso em protesto. Em um contexto econômico mais desafiador, garantir uma política macroeconômica soberana e consensual tem se mostrado um desafio crucial, nem sempre com desfechos favoráveis.

Um dos fatores que, de acordo com a Cepal, ampliaram a complexidade do contexto econômico é a guerra na Ucrânia. Esse fato, no entanto, não tem reflexos apenas econômicos, mas explicita também um cenário mais desafiador do ponto de vista da política internacional, marcado pelas intensas rivalidades entre as principais potências. Assim, ainda que haja um cenário de desconcentração de poder e contestação à hegemonia dos Estados Unidos, há constrangimentos relevantes ao protagonismo sul-americano.

Durante os anos 2000, os governos progressistas buscaram fortalecer uma demanda de multipolaridade no âmbito internacional, favorecendo a ideia da América do Sul como um dos blocos de poder. Na reunião de assinatura do tratado de constituição da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), em 2008, Lula afirmou que “uma América do Sul unida mexerá com o tabuleiro do poder no mundo, não em benefício de um ou de outro dos nossos países, mas em benefício de todos“.

Quatorze anos depois, o cenário é de fragmentação sul-americana e a tendência de multipolaridade parece concretizar-se sem a incorporação da região – ou mesmo de países sul-americanos como polos de poder. Mesmo que haja uma percepção de declínio relativo dos Estados Unidos, Rússia e China apresentam-se como os atores (re)emergentes protagonistas. As rivalidades explícitas entre estes três atores globais dificultam uma estratégia de equilíbrio entre eles, com os Estados Unidos demandando a tomada de posição e dificultando a manutenção de relações cordiais simultaneamente com esses três países. A demanda chinesa por commodities, por sua vez, tem contribuído para a tendência de desindustrialização regional e para um comércio internacional cada vez mais centrado em exportações para a Ásia.

Para lidar com essa situação, a cooperação regional poderia ser uma estratégia relevante. Contudo, o cenário atual do regionalismo latino-americano é distinto do observado no início do século. Naquele período passamos pelo chamado regionalismo pós-hegemônico marcado pela criação de organizações de contestação hegemônica e de busca por maior autonomia, a exemplo da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba). Atualmente o debate se centra no seguinte questionamento: o regionalismo latino-americano representa uma retomada das diretrizes liberais e comerciais presentes nos anos 1990? Aqui as respostas são múltiplas, mas podemos atestar que não, o que se observa hoje é um cenário sui generis de predileção por fóruns e organismos regionais com institucionalidade limitada, fluidez e informalidade, destacando-se os casos do Grupo de Lima e do Fórum para o Progresso da América do Sul (Prosul).

Com os pontos avaliados, destacamos que qualquer tentativa de mimetismo político e analítico para ser aplicada em pleno início da década de 2020 é insuficiente para responder às demandas ou caracterizar o contexto dos dias de hoje na América do Sul. Não se trata plenamente de uma reedição da onda rosa, pois a conjuntura atual se diferencia da anterior ao menos nos quatro pontos levantados. Não somente o entorno regional apresenta novidades, mas os governos progressistas enfrentam novas demandas internas e internacionais ao mesmo tempo. Se adaptar a isso é o grande desafio a ser enfrentado no curto prazo.

 

Cairo Junqueira é professor da Universidade Federal de Sergipe e coordenador do Observatório de Regionalismo. Lívia Milani é pesquisadora de pós-doutorado no Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas, no âmbito do projeto Capes-Print (processo número 88887.310463/2018-00, bolsa 88887.583366/2020-00).



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