A ofensiva chinesa sobre a informação. - Le Monde Diplomatique

MÍDIA

A ofensiva chinesa sobre a informação.

por Pierre Luther
4 de março de 2011
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Longe de limitar sua presença no comércio, nas grandes obras e na exploração das matérias-primas, a China está implantando aos poucos no mundo inteiro, veículos de informação de Estado que desempenaham uma dupla função de comunicação e de inteligência.Pierre Luther

Se definirmos o “soft power” como o poder de influenciar as ideias e os comportamentos, vale acrescentar, então, que uma das suas componentes estratégicas é a informação e a sua difusão na escala mundial. Assim, lançando mão de acordos de cooperação e disponibilizando gratuitamente notícias da atualidade, artigos e programas radiofônicos, ou ainda implantando veículos de comunicação, a República Popular da China (RPC) desencadeou uma ofensiva de sedução, visando consolidar seu prestígio e ampliar sua presença em muitos países onde, na falta de meios e de um real interesse, as antigas grandes potências vêm se apagando.

Assim, aCNC World, o canal de difusão ininterrupta de noticiário na língua inglesa da agência de notícias Xinhua(China Nova), foi lançada em 1º de julho em Pequim. Difundida por cabo, por satélite, pela Internet e pelo telefone celular, ela tem por objetivo “apresentar uma visão internacional dentro de uma perspectiva chinesa”, segundo explica o seu diretor, Li Congjiun. Ou seja, trata-se de fazer concorrência à estadunidense Cable News Network(CNN) e à British Broadcasting Corporation (BBC) no campo da difusão ininterrupta de informações televisivas. A CNC World promete estar presente em todos os continentes e anuncia ainda que irá ganhar o reforço da publicação de jornais nas línguas japonesa, russa, portuguesa, árabe e francesa.

O governo chinês, em janeiro de 2009, anunciou um investimento de US$ 6 bilhões na CNC World e em três outros órgãos de informação: a China Central TV(CCTV), a agência Xinhua, e o People Daily,a versão internacional na língua inglesa do Cotidiano do povo. Essa ajuda é motivada pela preocupação em melhorar a imagem da China no exterior e tornar mais eficiente a difusão do ponto de vista de Pequim. Com efeito, todos esses veículos dependem exclusivamente do governo central, da central da informação do Conselho de Estado, do qual eles são as ferramentas.

No que constitui uma diferença considerável em relação aos veículos de informação ocidentais – mesmo que alguns destes sejam financiados por uma taxa pública e que os seus responsáveis sejam nomeados pelo poder –, a sua linha editorial é uma pura emanação das orientações diplomáticas governamentais.

O objetivo de Pequim é de investir em todos os mercados do planeta para neles difundir suas informações sem se preocupar com rentabilidade. Isso também diz respeito à radiodifusão, sobretudo na África, onde ela representa o principal meio de informação da população.

Em 27 de fevereiro de 2006, em Nairóbi – capital do Quênia, onde desde 1987 está implantada a principal representante africana daXinhua–, a RádioChina International(RCI) inaugurou uma antena a mais de cinco mil quilômetros de Pequim. Veiculada na faixa de FM em chinês, inglês e swahili, esta emissora da China no exterior foi a primeira de uma centena que o governo chinês pretende implantar nas ondas mundiais. O presidente da rádio, Wang Gengnian, anunciou a sua intenção de “elevar a qualidade da difusão, aumentar a proximidade dos nossos programas e torná-los mais agradáveis de ouvir”,segundo um artigo publicado na versão francesa do seu site na internet1.

A RCI também se preparava, em agosto de 2010, para inaugurar antenas e dar início a programações em Dacar (Senegal) e em Niamey (Níger), tendo como objetivo no médio prazo difundir programações em francês, em chinês e nas línguas locais.

Daqui para a frente, na África, é por meio da sucursal da Xinhua em Bruxelas que as pessoas se informam das decisões das instâncias europeias. E, de modo ainda mais decisivo, é cada vez mais por meio da Xinhua e em função das suas dezenas de acordos de parceria, que os camaroneses acompanham os eventos que ocorrem no Chade; os congoleses, o que acontece na Tunísia; os zimbabuenses, no Senegal; os beninenses, no Egito…

Longe de ser anódina, esta cooperação coloca o ponto de vista chinês – e a sua abordagem pragmática que incitou Pequim, por exemplo, a abster-se no Conselho de Segurança das Nações Unidas por ocasião da votação de resoluções contra o Sudão a respeito do Darfur2 – no centro da vida política africana, assim como no Oriente Médio e na maior parte dos países menos avançados da Ásia ou da América do Sul.

Essa “cooperação ‘sul-sul’ entre países em vias de desenvolvimento” – um conceito popularizado pelo antigo presidente Jiang Zemin por ocasião da cerimônia de abertura do 1º Fórum sobre a cooperação sino-africana, em 10 de outubro de 2000 – tem lá o seu charme todo especial: está fora de questão exercer qualquer ingerência e menos ainda dar lições de boa governança a quem quer que seja, quer seja no que diz respeito aos direitos humanos, à corrupção, às normas ambientais ou ao direito do trabalho.

Por ocasião da Cúpula Mundial da Mídia organizada em outubro de 2009 pela agência Xinhua, que reuniu cerca de 300 jornalistas de mais de 170 países, o presidente Hu Jintao exortou os convidados a “caminhar juntos e contribuir para a construção de um mundo harmonioso de paz duradoura e de prosperidade comum3.

Esse mundo harmonioso já está sendo construído. Ele conta com o exército de “pequenos artesãos” integrado pelos jornalistas dos veículos de comunicação chineses que atuam no exterior, recrutados menos pela sua competência profissional do que pela sua fidelidade ao regime. Atuando em todos os continentes, eles exercem funções múltiplas, inclusive as de agentes de inteligência e de representantes do império, promotores de uma “cooperação mutuamente benéfica” e porta-vozes dos discursos oficiais.

“Aqui, se você quiser que os jornalistas assistam à sua coletiva de imprensa, é preciso dar-lhes algum presente”. Ahmadou, presidente de uma associação em Bamako que pediu para não ter seu nome citado, descreve nesses termos as “ajudas de custo” oferecidas aos jornalistas junto com as declarações ou comunicados de imprensa que eles publicarão, então, de bom grado. Qual jornalista solicitando uma autorização para reportagem ou pedindo uma entrevista na África já não recebeu como resposta outra pergunta visando descobrir quanto ele cobraria pela matéria a ser executada? Acostumada há longa data com essa confusão de atividades, a imprensa africana e panafricana há muito banalizou as práticas – mesmo se ela não detém o monopólio desses procedimentos – das páginas de publicidade compradas por empresas nacionais quando da publicação de dossiês a respeito dos seus países, da maquiagem dos números de venda, das “entrevistas exclusivas” que não passam de reportagens publicitárias disfarçadas. São procedimentos sempre lucrativos para as partes envolvidas – para não falar a palavra corrupção – que as organizações profissionais da imprensa do Níger e do Senegal decidiram denunciar, em setembro passado. Lembrando aos diretores dos jornais que cabe a eles pagar seus empregados, elas exigem o fim do pagamento aos jornalistas de per diem ou de “despesas de transporte”, tanto por parte do setor privado quanto do setor público.

Mas esse panorama pouco reluzente, herdado em parte da “Françáfrica”, onde os veículos de comunicação realmente independentes podem ser contados nos dedos da mão, está prestes a ser substituído por outro que não fica muito atrás: o da “Chináfrica”. Daqui para a frente, os veículos de comunicação africanos estão sendo alimentados de modo ininterrupto pela agência Xinhua, uma potência com os seus 10.000 assalariados, dos quais cerca de 150 correspondentes atuam no continente.

 

No Togo, onde as relações com a China nunca estiveram tão boas, um acordo de parceria vincula desde 2007 o portal oficial da República à agência Xinhua. Esta última concluiu entendimentos similares com Tunísia, Marrocos, Argélia, Camarões, Congo, Gabão, Burundi, Síria, Egito… e dezenas de outros países dos quais ela se tornou, por conta disso, uma das principais fontes de informação.

No total, aXinhua difunde cerca de mil notícias por dia em sete línguas (chinês, inglês, francês, espanhol, árabe, russo e português), que são destinadas aos seus assinantes pelo mundo afora. Ela também transmite artigos e reportagens para jornais editados em 150 países, além de trocar fotos com dezenas de agências de notícias e fornecer aos seus assinantes um serviço informático pronto para ser usado.

Imagens de TV e reportagens de rádio também começaram a ser objetos de programas de trocas. O que está em jogo não é tanto a possibilidade para agências africanas ou árabes exangues de terem as suas informações repercutidas na China quanto a possibilidade para a China de poder contar na África com canais que lhe permitam difundir sua visão do mundo.

Enquanto a África está praticamente ausente dos jornais ocidentais (exceto em caso de catástrofe excepcional), a versão para o grande público do site em língua francesa da agência Xinhua coloca o continente em terceira posição, após as rubricas “China” e “Mundo”, as quais são seguidas pelas rubricas “Economia”, “Cultura”, “Esportes”, “Sociedade e Saúde”. Em agosto passado, O Diário do Povo abriu uma sucursal em Abuja, capital da Nigéria. Desde então, o seu site publica, além de artigos sobre a vida política e os negócios nesse país, a totalidade dos resultados das partidas de futebol… Muito zelosa em “paparicar” seus amigos africanos, a publicação aborda essa cooperação em meio a um estado de espírito de “confiança política mútua, de igualdade, de cooperação econômica mutuamente benéfica e de diálogo cultural interativo”, como explicou Li Yunshan, membro do departamento político do Comitê Central do Partido Comunista, durante uma reunião em setembro de 2007 com 40 oficiais da imprensa africana.

A incessante coreografia dos seminários aos quais são convidados tanto os jornalistas quanto os funcionários públicos africanos tem por objetivo conquistar preciosos aliados e tecer relações interpessoais que ajudarão a pôr panos quentes nos protestos populares que as práticas das empresas chinesas andam provocando de maneira regular e sistemática nos países onde elas se implantam.

Fundada em 1959, a Agência de notícias senegalesa APS é considerada pela Organização Internacional da Francofonia (OIF) como a mais utilizada nos países francófonos da África Ocidental. Os seus parceiros são aInternational Islamic News, baseada na Arábia Saudita, um órgão da Conferência Islâmica Mundial; a Fundação Konrad Adenauer, no quadro do seu programa de apoio à democracia; a OIF; e de maneira recente a Agência China Nova, Xinhua News.

Já a Agência de notícias africana APA, a primeira agência privada no continente, baseada em Dacar, recebeu da embaixada da China nessa cidade, em outubro de 2009, um apoio financeiro institucional de 6 milhões de francos CFA, o qual incluía uma câmera de TV e uma assinatura de apoio aos seus serviços.Terá sido este um primeiro passo visando possivelmente atrair a simpatia deste concorrente dos veículos de comunicação oficiais?

A China Nova – que antes de 1949 tinha por nome a Agência Vermelha de Informação da China – não é uma agência de notícias igual às outras. Considerada no seu país como “os ouvidos, os olhos, a garganta e a língua do partido4”, ela mantém o monopólio absoluto da difusão das notícias e depende totalmente das autoridades para funcionar, tendo um nível equivalente ao de um ministério. Sem vocação comercial – diferentemente das agências de notícias mundiais, tais como a Agence France Presse(AFP), a britânica Reuterse a estadunidense Associated Press –, ela cumpre, portanto, uma função estratégica de primeiro plano.

Enquanto a AFP hoje está presente em 165 países, com 110 escritórios e 50 correspondentes; enquanto a Reuters dispõe de uma rede de cerca de 150 correspondentes; enquanto a AP possui escritórios em 72 países, a Xinhua contava com 100 escritórios de correspondentes em 2009 e 130 em julho de 2010. Uma estratégia de expansão contínua que, segundo a revista semanal Newsweek, deveria conduzi-la a dispor no médio prazo de 200 escritórios no exterior, com cerca de 6.000 jornalistas mobilizados pelo mundo afora5.

Ainda que todo esse contingente talvez não possa garantir aos africanos, sul-americanos, árabes e asiáticos uma informação digna de confiança, seguramente ele fará com que os dirigentes chineses estejam a par de tudo o que diz respeito aos seus países respectivos e, mais ainda, estejam informados dos seus “interesses mútuos”.

Pierre Luther é jornalista.



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