A organização dos sem organização: oito conceitos para pensar o “inverno brasileiro” - Le Monde Diplomatique

PROTESTOS NO BRASIL

A organização dos sem organização: oito conceitos para pensar o “inverno brasileiro”

por Rodrigo Guimarães Nunes
12 de agosto de 2013
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A discussão oscila entre dois extremos: ou a massa é um mero agregado de indivíduos, ou um todo indiferenciado e disformeRodrigo Guimarães Nunes

Há alguns anos, Alain Badiou se perguntava sobre o sentido de maio de 68 ser conhecido na França como “eventos de maio”: “se dizemos que um evento tem ‘evento’ por nome, isto quer dizer que ainda não encontramos seu nome”.[1] Talvez para situá-los confortavelmente no passado, alguns começam a falar no Brasil dos “eventos de junho”. O fato é que nenhum nome (Revolta do Vinagre, Revolta da Tarifa, Inverno Brasileiro…) pegou; ao contrário da Primavera Árabe, do Occupy Wall Street, do 15M espanhol, do YoSoy132 mexicano e do Diren Gezi turco, o movimento brasileiro, se assim se pode chamá-lo, não tem nome. Qual é o nome de uma legião, quando legião é seu nome?

Não é apenas questão de reconhecer uma identidade (“quem é essa gente?”), mas de identificar uma vontade (“o que eles querem?”). Embora os fatores desencadeadores mais evidentes (violência policial, aumento do custo de vida, impactos dos megaeventos esportivos) sejam relativamente generalizados, “o movimento” se manifestou por coisas variadas, algumas até contraditórias; mais que uma diversidade de vozes, uma diversidade de vontades.  Como aponta uma análise da atividade das redes sociais no período, as instituições a quem a democracia representativa atribui as funções de mediar entre indivíduos e de formar a vontade coletiva –  partidos, sindicatos e mídia tradicional – “perderam o posto de intermediário privilegiado” e o “monopólio de interpretação” na proporção inversa à que o movimento crescia. Partidos, sindicatos e movimentos organizados, que se julgava serem detentores exclusivos do poder de mobilizar multidões, em que pese sua visível decadência neste sentido, depararam-se com o que lhes era impensável: um movimento de massa sem organizações de massa.

Entre a compulsão de lamentar nostalgicamente a falta de unidade e aquela, simétrica, de celebrar efusivamente a pluralidade, parece haver algo que se perde. A discussão oscila entre dois extremos: ou a massa é um mero agregado de indivíduos, ou um todo indiferenciado e disforme. No primeiro caso, temos o mito dos indivíduos atomizados que se conectam em resposta a chamados de Facebook ou Twitter; no segundo, o da turba irracional que dissolve as individualidades, agitada por aleatórias paixões de grupo. Nem uma coisa nem outra, esta massa possui diferenciação interna: se a pensamos como uma rede, esta tem zonas mais densas e organizadas, de conexões, afinidades e identidades, algumas delas preexistentes aos protestos (Comitês da Copa, Movimento Passe Livre…). E esta diferenciação é contínua: indivíduos e zonas que os agrupam estão em movimento e transformação, ganhando ou perdendo conexões, mudando de identidade e tamanho, gravitando para perto ou longe de outras zonas. Em que pese a importância das redes sociais, então, o movimento sem nome não se criou “do nada” entre indivíduos desconectados, mas a partir de alguns núcleos que, se não o “organizam” como um todo, não deixam de ser um dado fundamental de sua estrutura.[2]

Até pouco antes dos protestos massivos de junho, quem acreditava que não há política de massa sem organizações de massa argumentava que o “ativismo” das redes sociais produz apenas laços fracos (“curtir”, “compartilhar”), e não o grau de compromisso que um movimento de rua exige. Estavam errados? Não necessariamente. Numa zona mais densa e organizada, a quantidade e intensidade dos laços entre os indivíduos que a integram é maior. Precisamente, o contágio dos protestos não avançou de laço fraco em laço fraco, átomo em átomo, mas num movimento entre zonas de laços mais fortes (Comitês da Copa, frentes de luta pelo transporte público, núcleos do Anonymous e seus entornos) e uma cauda longa de laços fracos.[3] Mais que isso, em situações especiais, como as vistas em junho, a quantidade de conexões possibilitada pelas mídias sociais pode se converter na qualidade de laços mais fortes. Estes são casos em que, para um número expressivo de indivíduos, o limiar de participação (a “inércia” entre o apoio passivo e o engajamento efetivo) se torna mais baixo. Quanto mais baixo o limiar, mais pessoas vão às ruas; quanto mais pessoas vão às ruas, mais laços – especificamente, mais laços fortes – são criados. É assim que o movimento se alastra.[4]

Mas o que cria estas situações especiais? Estaria mentindo quem dissesse ter a fórmula. O que se pode ver é que os núcleos formaram a “infraestrutura” básica do contágio num primeiro momento. À medida em que a onda crescia, eles não se dissolviam no interior do movimento, que se mantinha internamente diferenciado; pelo contrário, tendiam a crescer, agregando mais conexões e nós. Ao mesmo tempo, porém, o influxo de novos nós logo passa a exceder sua capacidade de agregação, e sua importância é relativizada pela emergência de novos núcleos, ou a entrada de outros já existentes (por exemplo, agrupamentos de direita). O número de conexões e a intensidade dos laços cresce muito e rápido; forma-se um sistema-rede (o “movimento”) radicalmente maior e radicalmente mais diverso, com uma topografia bastante distinta da infraestrutura original. Não é o caso que as demandas e vontades expressas se dissolveram num genérico “contra tudo que está aí”, mas que elas se tornaram menos audíveis em meio a um número maior de vozes.[5]

Assim como o ouvido sintetiza o som de incontáveis ondas quebrando num único “ruído no mar”, a pauta difusa e os mínimos denominadores comuns, vistos de perto, são uma pluralidade de vontades, clara ou confusamente formuladas. Mas houve, além disso, uma tentativa deliberada da mídia corporativa de ressignificar o movimento como genericamente anti-status quo, a fim de atingir o governo federal. A reação dos núcleos desencadeadores foi, então, chamar a atenção para os temas específicosde seu início (transporte público, policiamento, Copa etc.) – sinalizando, justamente, uma estrutura interna que não era nem atomização (“cada cabeça, uma sentença”), nem o indiferenciado (“contra tudo que está aí”). A manobra, que dependeu da criação de novos núcleos e identidades, como assembléias populares e ocupações, foi bem-sucedida em evitar a apropriação.

O auge do temor que os protestos pudessem ser “sequestrados” pela oposição foi quando mais se ouviram críticas a sua falta de “direção”. Pelo modo como usavam a palavra, os críticos pareciam partir de três premissas: apenas organizações de massa podem ser “direção”; apenas uma estrutura formal de liderança, como as destas organizações, é capaz de formar uma vontade coletiva; na ausência destas organizações, há apenas ou uma multidão de átomos, ou uma turba disforme, facilmente manipulável.

Os movimentos surgidos em todo mundo desde 2011 demonstram que as três estão erradas. Uma característica fundamental de sua diferenciação interna é a liderança distribuída.[6] Não se deve concluir daí que seus “verdadeiros” líderes estão escondidos em alguma parte; mas que, ao invés de “sem líderes”, eles formam “lideranças” de forma contínua e espontânea. Que tipo de liderança?

Deve-se entender a “horizontalidade” destes movimentos como ausência de estruturas formais de liderança, não no sentido (absurdo) que cada indivíduo teria, a cada momento, exatamente o mesmo peso que qualquer outro. A ausência destas estruturas, e portanto de critérios institucionais para definir quem é ou pode ser “líder”, somada a um sistema-rede densamente conectado, onde a informação viaja rápido e novas conexões aparecem a todo momento, significa que um indivíduo ou grupo não precisa de um status pré-estabelecido de “liderança” para lançar uma ideia ou iniciativa capaz de conquistar adesões exponencialmente maiores que qualquer ideia ou iniciativa que tenham tido antes.

Seu alcance pode ser mais amplo (as ocupações de câmaras de vereadores em todo Brasil) ou menos (a decisão de tomar um atalho numa manifestação); pode estabelecê-los como referências futuras, ou não.[7] Se “horizontalidade” não quer dizer igualdade absoluta, é porque não existe uma topografia plana, um mercado ideal de opiniões: nós mais conectados tendem, obviamente, a ser mais ouvidos. Ao mesmo tempo, novas iniciativas e lideranças podem emergir a todo momento, reconfigurando a topografia. Todos são potencialmente iguais no sentido de que são potencialmente líderes – embora na prática, a cada momento, alguns sejam sempre “mais iguais” que os outros.

Nestas condições, “direção” não é nem um título vitalício que se adquire por lutas passadas, nem uma propriedade mágica que adere a estruturas formais; é apenas o nome que descreve quem se demonstra, na prática, capaz de direcionar o curso do movimento em um momento dado. “Direção”, em resumo, é quem dirige, no momento em que dirige.A massa se move por meio da iniciativa destes diferentes núcleos em diferenciação contínua; vários deles ao mesmo tempo, de tamanhos e alcances maiores e menores, cada um uma direção imanente, temporária e (relativamente) espontânea.

E agora, em que direção apontam as direções? O processo de re-diferenciação que estamos vendo – em que o “movimento” único, que sai as ruas enquanto tal, tem se especificado em alvos e ações mais focadas (passe livre, Fora Cabral, Aldeia Maracanã…) –, além de ser natural, talvez resulte diretamente do esforço para impedir as tentativas de apropriação. Em todo caso, ao contrário de um Occupy Wall Street, que durante meses discutiu se era legítimo apresentar demandas, o movimento brasileiro desde o início teve algumas claramente definidas: redução das tarifas, fim das remoções, desmilitarização da polícia… O que se vê no momento é, em geral, a identificação dos alvos e pontos de pressão taticamente relevantes para a obtenção de objetivos ainda não alcançados.

Engana-se quem pensa que o fim (temporário?) das grandes manifestações de rua significa que aquele momento passou. Como dizem os espanhóis a respeito do 15M, o “DNA” de junho segue ativo, entrando em novas combinações, mutando de formas inesperadas. Mesmo que não vejamos mais marchas de um milhão de pessoas, criou-se um sistema-rede muito mais denso e extenso que antes, o que significa que o potencial de contágio e a capacidade latente de mobilização são muito maiores agora que há alguns meses.

A questão que se coloca, então, o que fazer daquilo que vai além das demandas específicas – o desejo expresso pelas ruas de transformações propriamente sistêmicas da política, dos mecanismos de participação, das relações entre estado e população, capital e trabalho? Como combinar o retorno a pautas localizadas e objetivos imediatos com este horizonte mais amplo?

Muito sobre isso se aprenderá nos próximos meses; mas uma reflexão sobre o tema mais diretamente ligado à eclosão do movimento – o passe livre – pode ajudar. A riqueza desta luta, que lhe permitiu assumir ressonância tão ampla, está em partir de um objetivo claro, imediato e amplamente consensual (redução das tarifas) para uma discussão mais ampla (lucro das empresas, qualidade dos transportes) e objetivos de médio prazo (abertura das planilhas, passe livre para alguns setores etc.), apontando sempre para uma transformação radical das relações entre capital e trabalho, população e estado (transporte de qualidade gratuito, financiado pela redução do lucro das empresas e impostos progressivos). No que o marulho de vozes começa a se diferenciar em demandas específicas, manter acesa a possibilidade de objetivos mais amplos talvez dependa de conseguir dar a estas demandas este tipo de direcionalidade.

Rodrigo Guimarães Nunes é Professor de filosofia na PUC-Rio, coordenador do grupo de pesquisa Materialismos(CNPq) e membro do coletivo editorial de Turbulence.



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