A permanência da lógica imperial na América Latina

Ao contrário do imaginário difundido, a política externa norte-americana jamais esteve intrinsecamente comprometida com a promoção da democracia

Poucas ideias atravessaram a história da política externa dos Estados Unidos com tanta persistência quanto a convicção de que a América Latina constitui uma esfera de influência natural de Washington. Sob diferentes linguagens da proteção contra o colonialismo europeu à defesa da democracia, da segurança hemisférica à contenção de potências rivais essa lógica imperial foi sendo continuamente atualizada, sem jamais ser abandonada. Sob a chamada Doutrina Trump, ela retorna de forma explícita, articulando coerção econômica, pressão diplomática e disputa geopolítica aberta, e reinscreve o continente no centro de uma competição global marcada pela assimetria de poder. Compreender esse movimento exige revisitar alguns marcos centrais dessa trajetória.

A Doutrina Monroe, proclamada em 1823, surgiu no contexto das independências latino-americanas e afirmava que o continente não deveria voltar a ser alvo de colonizações europeias. Apresentada como gesto de solidariedade às novas repúblicas, a doutrina funcionava, na prática, como um aviso estratégico às potências europeias, delimitando o hemisfério como área de vigilância e influência dos Estados Unidos. Ao declarar que qualquer tentativa de recolonização seria considerada ameaça direta à sua segurança, Washington inaugurava uma lógica hemisférica que se consolidaria ao longo dos séculos seguintes.

Outro elemento central dessa doutrina foi a separação simbólica entre o “Velho Mundo” europeu e o “Novo Mundo” americano. Embora formulada como mecanismo de proteção contra conflitos externos, essa distinção foi gradualmente reinterpretada como fundamento ideológico de uma ordem regional hierarquizada, liderada pelos Estados Unidos. Sob esse argumento, Washington passou a reivindicar para si um papel singular na mediação de disputas no continente, estabelecendo uma forma de tutela indireta sobre seus vizinhos.

Ato em frente ao Consulado dos Estados Unidos contra a invasão na Venezuela.
Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil

A promessa de não intervenção nos assuntos internos europeus completava essa arquitetura discursiva. Ao afirmar neutralidade em relação aos conflitos do Velho Mundo, os Estados Unidos buscavam legitimar moralmente sua exigência de afastamento europeu das Américas. Com o tempo, porém, esse equilíbrio se rompeu: a doutrina deixou de ser apresentada como acordo de respeito mútuo e passou a funcionar como carta branca para a expansão da influência estadunidense no hemisfério.

Essa inflexão tornou-se explícita com o Corolário Roosevelt, em 1904. Theodore Roosevelt transformou o monroísmo em um direito unilateral de intervenção, afirmando que os Estados Unidos poderiam agir militarmente sempre que julgassem haver “instabilidade crônica” em países do continente. A partir desse momento, a doutrina deixou de ser defensiva e passou a operar como instrumento direto de controle político e territorial.

Sob essa lógica, multiplicaram-se as ocupações militares no Caribe, justificadas pelo discurso da estabilização econômica e da prevenção de intervenções europeias. Cuba, Haiti e República Dominicana tornaram-se exemplos emblemáticos de um intervencionismo que não se limitava ao envio de tropas, mas incluía o controle de alfândegas, a reconfiguração de instituições estatais e a imposição de novas constituições. Em nome da ordem, consolidaram-se protetorados de fato, que restringiram severamente a soberania dos países envolvidos.

Essas experiências contribuíram para sedimentar o chamado Big Stick, a diplomacia da força, que combinava negociação com ameaça militar permanente. A estabilidade hemisférica deixava de ser concebida como resultado do diálogo entre iguais e passava a ser garantida pela imposição assimétrica de poder, com as Forças Armadas estadunidense ocupando papel central na política externa.

Durante a Guerra Fria, essa lógica foi transvestida de anticomunismo sob a Doutrina de Segurança Nacional. O hemisfério tornou-se uma fronteira ideológica onde a soberania regional era secundária ao alinhamento estratégico com Washington. Sob o pretexto da contenção, os EUA institucionalizaram o apoio a golpes e ditaduras, consolidando a ideia de que a democracia latino-americana era sacrificável em nome da estabilidade do bloco ocidental.

No início do século XXI, a Doutrina Bush introduziu uma nova camada a essa tradição. No contexto pós-11 de setembro, a noção de guerra preventiva redefiniu os parâmetros da hegemonia norte-americana. Embora direcionada prioritariamente ao Oriente Médio, essa lógica teve impactos profundos no hemisfério ao reforçar a ideia de que os Estados Unidos poderiam agir unilateralmente para “defender a democracia” e “proteger a segurança global”.

Na América Latina, isso se traduziu na securitização de temas internos, como migrações, narcotráfico e instabilidade política, convertidos em ameaças à segurança nacional dos EUA. Essa mudança justificou maior presença militar, programas de vigilância, cooperação policial e monitoramento estratégico, aprofundando a dependência regional nos campos da inteligência e da defesa. Ao mesmo tempo, governos críticos à política externa norte-americana passaram a ser enquadrados como obstáculos à estabilidade hemisférica, intensificando-se pressões diplomáticas, sanções e processos de isolamento.

É nesse terreno que emerge a Doutrina Trump, talvez a versão mais explícita e menos disfarçada do monroísmo contemporâneo. Diferentemente de formulações anteriores, ela assume abertamente a herança da Doutrina Monroe, agora aplicada a novos campos de disputa: telecomunicações, infraestrutura portuária, energia, minerais críticos, fluxos migratórios e cadeias produtivas estratégicas.

Documentos oficiais passaram a afirmar que os Estados Unidos detêm legitimidade para liderar o Hemisfério Ocidental, reivindicando uma primazia que ecoa diretamente o espírito do século XIX. Essa ambição está intimamente ligada à contenção da influência de potências extrarregionais, sobretudo da China.

Nas últimas décadas, Pequim avançou de forma estrutural sobre a América Latina, deslocando os Estados Unidos de sua posição histórica de principal parceiro comercial da região. Se até o início dos anos 2000 Washington exercia ampla supremacia econômica, hoje é a China quem ocupa esse espaço em grande parte do continente. A reação estadunidense não se limita à concorrência comercial: trata-se de uma estratégia geopolítica de contenção, marcada por práticas neomercantis como tarifas, sanções, acordos seletivos e pressões diplomáticas cujo objetivo é romper ou enfraquecer os laços sino-latino-americanos e restaurar a hegemonia dos EUA em um território ainda concebido como zona de influência privilegiada.

Como aponta Alfredo (2025), a ênfase no comércio como campo de conflito e não apenas de cooperação remete a uma forma contemporânea de mercantilismo, na qual tarifas, subsídios e medidas protecionistas tornam-se ferramentas centrais da política externa trumpista, reinterpretando práticas econômicas historicamente associadas à competição estratégica entre Estados.

Essa estratégia opera menos por intervenções militares diretas e mais por instrumentos econômicos, tecnológicos e informacionais, pressionando governos a rever contratos, parcerias e decisões estratégicas. Trata-se de uma atualização do Big Stick, agora sob a forma de coerção híbrida: um mix de força militar, pressão econômica e guerra de narrativas.

Ao comparar Monroe, Roosevelt, Bush e Trump, emerge um fio condutor inequívoco: a convicção persistente de que a América Latina integra uma esfera de influência que deve permanecer sob vigilância e controle dos Estados Unidos. Ao contrário do imaginário difundido, a política externa norte-americana jamais esteve intrinsecamente comprometida com a promoção da democracia. Desde o pós-Segunda Guerra Mundial, Washington tem reiteradamente priorizado a defesa de seus interesses estratégicos e econômicos, apoiando golpes de Estado e regimes autoritários sempre que processos democráticos ameaçaram essa ordem.

A novidade, portanto, não está no princípio, mas nos instrumentos. O que muda é o como, não o porquê. Se o século XX foi marcado por ocupações, golpes e intervenções diretas, o século XXI se estrutura em torno de sanções, disputas tecnológicas, operações híbridas e guerras de influência.

Nesse contexto, a América Latina volta a ser tratada menos como um conjunto de nações soberanas e mais como um tabuleiro estratégico em disputa, reafirmando sua inserção histórica e subordinada na economia internacional. Como advertia Celso Furtado, a ausência de um projeto autônomo de desenvolvimento e de articulações regionais robustas tende a reproduzir padrões de dependência e especialização regressiva. Sem mecanismos sólidos de integração e coordenação política, a região permanece vulnerável a pressões externas que limitam sua soberania e restringem suas possibilidades de desenvolvimento autônomo.

 

Mauricio Alfredo é Mestre em Educação, Professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior

 

Bibliografia 

Alfredo, Taís – O retorno do mercantilismo na América de Donald Trump – Observatório da Imprensa – 25 de setembro de 2025, edição 1357.

Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/economia/o-retorno-do-mercantilismo-na-america-de-donald-trump/

 

 

 

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