A profecia que se autorrealiza em um palco de competição aberta
Minas é uma espécie de swing state, ou estado-pêndulo, na terminologia norte-americana: um território em que a disputa permanece aberta e cujo vencedor pode mudar de uma eleição para outra
- Minas Gerais e os limites do termômetro eleitoral
No primeiro turno das eleições presidenciais, realizado no dia 4 de outubro de 2026, Flávio Bolsonaro obteve 47% dos votos e venceu em 15 estados, enquanto Lula obteve 45,2% dos votos e venceu em 11 estados e no DF. Os demais candidatos, juntos, obtiveram 7,8% dos votos, brancos e nulos somaram 4,7% e registrou-se 21% de abstenção. Em Minas Gerais, Flávio teve um desempenho ligeiramente melhor, terminando o primeiro turno com 48,2% dos votos contra 43,3% de Lula. As abstenções também ficaram em patamar superior, 22,8%. No segundo turno, a abstenção no estado caiu de 22,8% para 20,3%, em Minas Gerais, acompanhando um movimento nacional de queda (de 21 para 19%, menor abstenção em vinte anos).
Em um resultado inédito, o candidato que saiu atrás no primeiro turno conseguiu virar no segundo. Lula terminou com 51,79% contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. No estado de Minas Gerais o resultado foi de 50,43% para Lula contra 49,57% para Flávio, uma diferença menor do que a observada nacionalmente. No primeiro turno, Lula tinha ficado com uma desvantagem de 588.612 votos no estado. Ao final do segundo, o petista obteve 1.162.163 votos a mais no estado, o único no qual registrou-se uma virada na liderança em todo o país.
A eleição presidencial de 2026 confirmou a importância de Minas Gerais na disputa nacional, frequentemente resumida pela regularidade histórica segundo a qual o candidato vencedor no estado também vence a eleição nacional. Essa coincidência alimentou a imagem de Minas como um termômetro eleitoral do país, capaz de antecipar o resultado presidencial. Em 2026, porém, essa interpretação precisa ser considerada com cautela: embora Lula tenha vencido tanto nacionalmente quanto em Minas, a disputa no estado foi extremamente apertada, e a distribuição municipal dos votos apresentou diferenças que uma leitura agregada não consegue revelar. Saber quem venceu em Minas não é suficiente para explicar como essa vitória foi construída, quais territórios foram decisivos ou quais estratégias permitiram ampliar a votação entre os turnos.
A máxima de que “quem ganha em Minas ganha no Brasil” pode funcionar, em alguma medida, como uma profecia autorrealizável. Repetida à exaustão no debate político e eleitoral, ela não apenas alimenta a expectativa de que o resultado mineiro antecipe o nacional, mas também estimula os próprios candidatos a tratar o estado como uma arena estratégica incontornável. Com 16.377.659 eleitoras e eleitores aptos a votar em 2026, Minas Gerais reúne um dos maiores eleitorados do país, atrás apenas de São Paulo. Mas sua importância não decorre apenas de seu peso demográfico.
Diferentemente de estados cuja configuração eleitoral apresenta clivagens mais consolidadas – como São Paulo, onde a oposição entre capital e interior expressa, em linhas gerais, diferentes inclinações políticas, ou a Bahia, que há cerca de duas décadas entrega sistematicamente expressivas votações ao PT –, Minas apresenta um eleitorado mais heterogêneo e uma disputa mais aberta entre forças políticas de diferentes orientações. Não é um estado inteiramente identificado com o petismo, tampouco um território de predomínio incontestável da direita. Essa configuração faz de Minas uma espécie de swing state, ou estado-pêndulo, na terminologia norte-americana: um território em que a disputa permanece aberta e cujo vencedor pode mudar de uma eleição para outra.
Desde 2018, quando Bolsonaro venceu no estado, seguido pela vitória de Lula em 2022, ganhou força a interpretação de que Minas poderia assumir definitivamente esse papel na política brasileira. Em 2026, essa expectativa foi renovada: a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno alimentou prognósticos de que o estado poderia se descolar da tendência nacional, eventualmente rompendo a tradicional coincidência entre os resultados mineiro e brasileiro. Isso, entretanto, não se confirmou. A força da máxima “quem ganha em Minas ganha no Brasil”, combinada à heterogeneidade demográfica, cultural, socioeconômica e política do estado, parece oferecer aos presidenciáveis uma motivação adicional para investir pesadamente nessa disputa. Ao fazê-lo, porém, eles cumprem uma das principais exigências da cartilha de qualquer candidatura presidencial competitiva no país: construir presença, alianças e capacidade de mobilização em Minas Gerais. A profecia pode, assim, contribuir para produzir as condições de sua própria realização.
Essa questão ganha relevância diante da diversidade territorial, social e política de Minas Gerais. O estado reúne regiões com estruturas econômicas, trajetórias históricas e configurações políticas distintas. O Norte e o Nordeste mineiros apresentam padrões eleitorais diferentes daqueles observados em partes do Sul, do Triângulo e do Oeste. A Região Metropolitana de Belo Horizonte e os municípios industriais, por sua vez, possuem dinâmicas próprias, que tampouco podem ser reduzidas a uma divisão simples entre áreas favoráveis à esquerda e áreas favoráveis à direita. Essa heterogeneidade significa que conquistar Minas exige mais do que alcançar uma votação expressiva em alguns grandes centros ou mobilizar eleitores de um único perfil social. Pressupõe construir apoio em territórios diversos, nos quais as lideranças políticas, as redes partidárias e as condições de mobilização também variam.
É justamente nesse ponto que a imagem do estado como simples termômetro eleitoral se mostra limitada. A coincidência entre o resultado estadual e o nacional não explica as diferenças internas do estado, as mudanças entre os turnos nem as formas pelas quais os candidatos buscaram mobilizar eleitores e lideranças locais. Tampouco esclarece como a disputa presidencial se articulou às eleições estaduais e proporcionais, nas quais partidos e candidatos podiam compartilhar referências ideológicas nacionais sem necessariamente atuar de forma coordenada. Para compreender o resultado, é preciso observar não apenas a distribuição dos votos, mas também as estratégias de campanha, a presença dos candidatos nos municípios e o papel desempenhado por parlamentares, lideranças regionais e redes políticas na mobilização eleitoral.

- A disputa pelo território: onde Lula e Flávio Bolsonaro fizeram campanha
A campanha presidencial em Minas Gerais foi marcada por estratégias distintas de ocupação do território. Segundo levantamento de dados em veículos de mídia, Minas foi o estado mais visitado por Lula durante a campanha e o terceiro mais visitado por Flávio Bolsonaro. Lula realizou sete viagens ao estado durante o período eleitoral, enquanto Flávio Bolsonaro fez cinco, embora a contagem varie conforme se considerem deslocamentos, municípios visitados ou agendas específicas.
No primeiro turno, Lula concentrou suas atividades em Belo Horizonte e Montes Claros, além de uma passagem por Governador Valadares, em agosto, para acompanhar uma obra rodoviária na condição de presidente da República – agenda que não deve ser confundida com atividade de campanha. Suas ações eleitorais incluíram caminhadas, atos públicos e um encontro com mulheres. Flávio, por sua vez, esteve em Belo Horizonte, Juiz de Fora, Governador Valadares, Teófilo Otoni e Montes Claros, participando de motociata, caminhadas e atos de rua, em agendas que contaram com a participação de aliados como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL).
No segundo turno, os dois candidatos ampliaram ou redirecionaram suas agendas no estado. Lula esteve em Juiz de Fora e Ipatinga em 16 de outubro, acompanhado, entre outras lideranças, da prefeita Margarida Salomão (PT) e da então candidata eleita ao Senado Marília Campos (PT). Em 24 de outubro, Flávio encerrou sua campanha em Minas com uma motociata e um ato em Belo Horizonte, percorrendo o trajeto entre a Praça do Papa e a Praça da Liberdade em cima de um trio elétrico. Estiveram presentes Nikolas Ferreira, o governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos), o candidato derrotado ao governo Flávio Roscoe (PL) e o senador eleito Domingos Sávio (PL), além de outras lideranças políticas. Flávio também passou por Capelinha e Nanuque durante o segundo turno, enquanto Lula realizou uma agenda em Belo Horizonte. A escolha das localidades revela que a disputa não se limitou à capital: incluiu cidades do Norte de Minas, da Zona da Mata, do Vale do Rio Doce e do Vale do Aço, com diferentes posições no mapa eleitoral.
A comparação entre as agendas, contudo, exige cautela. Embora as visitas permitam identificar prioridades territoriais e estratégias de mobilização, elas não demonstram, por si só, que a presença dos candidatos tenha produzido determinado resultado eleitoral. Tampouco há estimativas de público comparáveis e confiáveis para todos os eventos. Mais do que medir o impacto direto de cada passagem, interessa observar como as campanhas combinaram a presença dos presidenciáveis com a atuação de aliados, candidatos locais e redes políticas já estabelecidas. Em um estado extenso e eleitoralmente heterogêneo como Minas Gerais, a disputa pelo território envolveu tanto a escolha das cidades visitadas quanto a capacidade de mobilizar lideranças e estruturas políticas em diferentes regiões.
A disputa presidencial também mobilizou parlamentares com diferentes trajetórias e recursos de comunicação política. Entre os reeleitos, Nikolas Ferreira (PL), que recebeu 3.119.318 votos, destacou-se como uma das principais lideranças do bolsonarismo e teve participação direta na campanha de Flávio Bolsonaro no segundo turno, contribuindo para organizar os chamados “Bloquinhos do Nikolas”, posteriormente rebatizados de “Bloco do 22”, e liderando mobilizações em Belo Horizonte e em outras cidades.
No campo da esquerda, André Janones (Rede), reeleito com 78.780 votos, voltou a mobilizar sua experiência com comunicação digital em favor de Lula. No segundo turno, criou o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que reuniu 1,8 milhão de apoiadores em três dias, buscando transformar a circulação de mensagens em ações de mobilização eleitoral. Às vésperas da votação do 2o turno o canal já contava com mais de 10 milhões de inscritos.
Já Ana Elisa (PT), eleita pela primeira vez com 524.219 votos, foi a segunda candidata mais votada para a Câmara dos Deputados em Minas Gerais. Aos 21 anos, a estudante de Direito e influenciadora foi incorporada às discussões sobre a comunicação da campanha de Lula, contribuindo para o debate sobre como ampliar a presença do campo progressista nas redes sociais e alcançar públicos mais jovens. Em conjunto, os três casos ilustram diferentes formas de articulação entre representação parlamentar, comunicação digital e mobilização eleitoral: enquanto Nikolas atuou diretamente na campanha bolsonarista, Janones e Ana Elisa participaram de iniciativas voltadas a fortalecer a campanha petista, evidenciando a importância das redes digitais na disputa presidencial de 2026.
As manifestações de rua constituíram uma dimensão importante da campanha em Minas Gerais, especialmente na reta final do segundo turno. Entre os atos com a presença de Lula, destacaram-se o comício na Praça da Estação, em Belo Horizonte, em 21 de agosto; a caminhada no bairro Maracanã, em Montes Claros, em 17 de setembro, com trio elétrico e a participação de Marília Campos (PT), Áurea Carolina (PSOL), Patrus Ananias (PT) e Jarbas Soares (13); e a caminhada de 2 de outubro, também na capital, entre a Praça da Liberdade e a região da avenida Pasteur, que reuniu milhares de apoiadores.
Aproximando-se o segundo turno da eleição de 2026, Lula participou de caminhadas em Juiz de Fora e Ipatinga, em 16 de outubro, e encerrou sua agenda mineira em 21 de outubro, em uma carreata pelo centro de Belo Horizonte, da região da avenida dos Andradas até a Praça Raul Soares. Nessa última mobilização, a campanha estimou a presença de 200 mil pessoas, número que não foi confirmado por uma contagem independente. Lula percorreu parte do trajeto em carro aberto ao lado da primeira-dama Janja, da senadora eleita Marília Campos, do ministro de Minas e Energia Alexandre Silveira (PSD), do ministro Rui Costa (PT) e do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT); também participaram Patrus Ananias, Jarbas Soares, André Janones, Ailton Krenak e artistas como Fernanda Takai e Djonga. Em Juiz de Fora, a mobilização prosseguiu mesmo fora da agenda do candidato: nos dias 23 e 24 de outubro, apoiadores realizaram manifestações que reuniram milhares de pessoas, com participação de lideranças locais, entre elas a prefeita Margarida Salomão (PT) e a deputada federal Ana Pimentel (PT). Em conjunto, os atos mostram que a campanha combinou a presença direta do presidenciável em polos regionais com mobilizações organizadas por aliados e apoiadores, embora a ausência de estimativas padronizadas de público dificulte uma comparação rigorosa da dimensão de cada manifestação.
- A virada de Lula e a geografia eleitoral do segundo turno
A inversão do placar em Minas Gerais no segundo turno – o único estado do país a registrar alteração de liderança – é o elemento central dessa disputa. A ampliação do alcance territorial de Lula garantiu a liderança em 528 cidades (contra 325 de Flávio Bolsonaro), resultando na virada do resultado em 76 municípios, todos migrando da direita para a candidatura petista.
Contudo, a alteração nesses 76 municípios deve ser lida à luz das margens eleitorais: em 56 deles, a diferença que favorecia Flávio no primeiro turno não passava de 500 votos (como em São Joaquim de Bicas, onde a vantagem inicial era de apenas um voto). Paralelamente ao avanço em cidades médias e pequenas, a sustentação da vitória estadual dependeu do adensamento do eleitorado nas metrópoles. Apenas na capital, Belo Horizonte, a candidatura de Lula agregou cerca de 149 mil votos adicionais entre as duas etapas, somando mais de 529 mil novos sufrágios quando considerados os 30 maiores polos urbanos do estado.
Gráfico 1: Cidades de Minas em que Flávio venceu no 1º turno e Lula venceu no 2º
As 20 cidades com maior mudança entre os turnos (de um total de 76 cidades)

O Gráfico 1 permite identificar localidades em que a diferença entre os dois candidatos se alterou mais intensamente, oferecendo exemplos concretos da recomposição territorial da disputa. Entre os municípios destacados, Itabirito chama a atenção pela magnitude da mudança em favor de Lula, com um deslocamento de aproximadamente nove pontos percentuais na diferença entre os candidatos. Localizado na região central de Minas Gerais, próximo à Região Metropolitana de Belo Horizonte, o município ilustra como as viradas também ocorreram fora das áreas tradicionalmente associadas à maior votação petista.
Outros casos apresentados no gráfico, como João Monlevade e Congonhas, permitem investigar a dinâmica eleitoral em municípios com importante presença industrial e mineradora. Já a inclusão de Santa Luzia, Ibirité, Sabará, Juatuba e Matozinhos chama a atenção para o entorno metropolitano de Belo Horizonte. Esses municípios oferecem pistas para examinar se a ampliação da votação de Lula alcançou diferentes áreas urbanas e periféricas.
No Sul de Minas, localidades como Três Pontas, Cambuquira, Guaxupé e Carrancas mostram que as viradas também ocorreram em uma região na qual a direita tem presença eleitoral importante. Em conjunto, os casos destacados indicam que a mudança do vencedor municipal não ficou restrita a uma única região, embora não permitam, por si só, concluir que tenha ocorrido uma transformação uniforme em todo o estado.
A margem de votos no primeiro turno ajuda a compreender como essas viradas foram possíveis. São Joaquim de Bicas, por exemplo, registrou uma diferença de apenas um voto a favor de Flávio: 8.139 votos, contra 8.138 de Lula. No segundo turno, Lula passou a liderar no município. Considerando o conjunto das 76 cidades, a vantagem inicial de Flávio foi inferior a 500 votos em 56 delas. Esse dado, referente à totalidade dos municípios com virada, mostra que muitas disputas começaram bastante equilibradas. A figura das 20 cidades permite visualizar parte desse fenômeno, mas não deve ser tomada como uma descrição exaustiva de todos os casos.
Além de examinar a participação dos municípios onde Lula obteve viradas em cima de Flávio Bolsonaro, é importante considerar, também, cidades onde ele ganhou mais votos entre os dois turnos em termos absolutos. O aumento da votação de Lula não se concentrou em uma única região ou perfil de município. Embora Belo Horizonte tenha liderado, com 149.091 votos a mais no segundo turno, o crescimento também foi expressivo em cidades de diferentes regiões e características socioeconômicas: Uberlândia, no Triângulo Mineiro, acrescentou 40.122 votos; Juiz de Fora, na Zona da Mata, 33.400; Montes Claros, no Norte de Minas, 21.151; Uberaba, também no Triângulo, 18.715; Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, 9.677; Ipatinga, no Vale do Aço, 9.322; e Poços de Caldas, no Sul de Minas, 8.985. A lista inclui ainda municípios metropolitanos, como Contagem (34.561 votos a mais) e Betim (22.202), cidades de tradição industrial e mineradora, como Itabira (8.662), e centros regionais de menor porte, como Viçosa (5.935) e Ouro Preto (6.058). No conjunto, os 30 municípios com maiores aumentos absolutos somaram 529.203 votos adicionais para Lula, indicando que o crescimento eleitoral se distribuiu por territórios diversos, e não apenas pela capital ou por uma região específica.
- Analisando tendências em Minas e no Brasil (2006-2026)
A comparação entre os mapas eleitorais de Minas e do Brasil na eleição presidencial ao longo de duas décadas (Figura 1) permite identificar que o estado acompanha algumas transformações nacionais, mas também conserva uma configuração territorial específica. De 2006 a 2026, o estado passou de uma ampla predominância territorial das candidaturas do PT para uma configuração mais competitiva, na qual áreas de apoio à direita ganharam espaço e se consolidaram, sem que isso eliminasse as diferenças regionais que historicamente caracterizam o voto mineiro.
Em 2006, Lula venceu em 737 dos 853 municípios mineiros, o equivalente a 86,4% do total. Em 2010, Dilma Rousseff manteve essa predominância territorial, vencendo em 687 municípios (80,5%). Em 2014, contudo, sua vantagem se reduziu: Dilma foi a candidata mais votada em 608 municípios (71,3%), enquanto Aécio Neves venceu em 245 (28,7%). A sequência revela uma redução progressiva da extensão territorial das vitórias petistas antes da eleição de 2018, quando a distribuição municipal se tornou muito mais equilibrada. Naquele ano, Jair Bolsonaro venceu em 445 municípios mineiros, contra 408 de Fernando Haddad. Em 2022, Lula recuperou terreno, sendo o mais votado em 564 municípios (66,1%), enquanto Bolsonaro venceu em 289 (33,9%). Em 2026, a comparação entre os turnos mostra uma nova ampliação da presença territorial de Lula: ele passou de 452 municípios vencidos no primeiro turno para 528 no segundo, enquanto Flávio Bolsonaro recuou de 401 para 325.
Figura 1: Mapa da eleição presidencial – Brasil e Minas Gerais, 2006-2026

Essas mudanças em Minas Gerais podem ser compreendidas à luz de transformações mais amplas na geografia eleitoral brasileira. A partir de 2018, a polarização entre o PT e o bolsonarismo passou a organizar de maneira mais explícita a disputa presidencial, mas seus efeitos não se distribuíram igualmente pelo território. No plano nacional, o Nordeste permaneceu como importante área de apoio às candidaturas petistas, enquanto o bolsonarismo consolidou presença expressiva no Sul e no Centro-Oeste. Minas Gerais apresenta convergências com esse padrão, mas também diferenças relevantes: o Norte e o Nordeste mineiros formam áreas de apoio territorial consistente a Lula, enquanto municípios do Sul, do Triângulo Mineiro e de partes do Oeste apresentam presença mais frequente de candidaturas da direita. Essa configuração mostra que as divisões eleitorais nacionais não se reproduzem de maneira perfeitamente simétrica dentro do estado.
As diferenças regionais também convidam a considerar as características socioeconômicas dos territórios. No Norte de Minas e nos vales do Jequitinhonha e do Mucuri, a continuidade do apoio a Lula pode ser examinada em relação à proximidade histórica e socioeconômica de parte dessas regiões com o Nordeste, assim como à presença de municípios rurais e de localidades com maiores desafios de desenvolvimento. Essa interpretação, entretanto, não deve ser reduzida a uma associação direta entre pobreza e voto no PT: trajetórias partidárias, redes políticas locais, composição social e estratégias de campanha também podem contribuir para explicar os resultados.
No Sul de Minas, no Triângulo e em partes do Oeste, a presença persistente de municípios favoráveis à direita oferece outra linha de investigação. A estrutura produtiva, a importância da agropecuária e do agronegócio e as relações entre centros urbanos e áreas rurais são dimensões relevantes para compreender as diferenças territoriais. Entretanto, os resultados de 2026 mostram que essas características não determinam automaticamente o comportamento eleitoral. No Triângulo Mineiro, por exemplo, Flávio Bolsonaro venceu em Uberlândia e Uberaba, enquanto Lula virou o resultado em municípios como Tupaciguara e Iturama. A diversidade dos resultados dentro de uma mesma região econômica sugere que a relação entre estrutura produtiva e voto é mediada por outros fatores sociais e políticos. Compreender essas diferenças exige, portanto, ir além das características econômicas regionais e examinar também as trajetórias eleitorais, as configurações políticas locais e as estratégias de mobilização.
As áreas metropolitanas e os municípios industriais constituem um terceiro eixo importante. A diversidade eleitoral observada em torno de Belo Horizonte e em cidades ligadas à indústria e à mineração sugere que a oposição entre regiões mais favoráveis à esquerda e áreas de maior presença da direita não é suficiente para explicar todos os resultados. A urbanização, a estrutura ocupacional, as desigualdades sociais, os deslocamentos pendulares e as redes de mobilização política podem ajudar a compreender por que municípios próximos apresentam padrões eleitorais diferentes. Para testar essas hipóteses, seria necessário combinar os resultados eleitorais com indicadores municipais de renda, escolaridade, urbanização, ocupação e estrutura produtiva.
A comparação histórica também exige distinguir a distribuição territorial das vitórias da participação de cada candidato no total de votos. O fato de Lula ter vencido em 528 municípios, em 2026, não significa, necessariamente, que tenha obtido a mesma proporção dos votos válidos do estado. Cada município conta igualmente no cálculo do número de vitórias, independentemente de seu eleitorado. Por isso, os mapas são especialmente úteis para observar a extensão geográfica do apoio a cada candidatura e as mudanças na distribuição dos municípios vencidos, mas não substituem a análise dos totais de votos e das margens de vitória.
Em conjunto, a comparação entre Brasil e Minas Gerais mostra que o estado acompanha transformações nacionais, como a redução da predominância territorial petista ao longo da década de 2010, a polarização de 2018 e a recuperação territorial de Lula em 2022 e 2026. Ao mesmo tempo, o estado preserva uma geografia eleitoral própria, marcada pela continuidade do apoio a Lula no Norte e no Nordeste mineiros e pela presença de áreas de maior força da direita no Sul, no Triângulo e em partes do Oeste.
Também vale a pena examinar em que medida os resultados eleitorais no estado se aproximam dos resultados nacionais e se há estabilidade ou variação ao longo do tempo. O Gráfico 2 revela uma mudança importante na relação entre o comportamento eleitoral de Minas Gerais e o resultado nacional. Entre 2006 e 2014, o percentual de votos válidos obtidos pelo PT no segundo turno das eleições presidenciais em Minas Gerais foi sistematicamente superior à média nacional, embora essa diferença tenha diminuído progressivamente: de 4,36 pontos percentuais em 2006 para apenas 0,76 em 2014. A partir de 2018, observa-se uma inversão dessa relação: o percentual de votos petistas em Minas Gerais passa a ficar abaixo do resultado nacional, diferença que alcança 3,06 pontos percentuais naquele ano. Em 2022 e 2026, entretanto, a distância volta a diminuir, mantendo Minas entre as unidades da Federação cujo resultado mais se aproxima do nacional (respectivamente, terceiro e segundo lugar em proximidade). Assim, mais do que uma correspondência permanente entre as preferências eleitorais dos mineiros e a média brasileira, o gráfico evidencia uma capacidade persistente de Minas Gerais de acompanhar as tendências nacionais, ainda que tenha ocorrido uma mudança no posicionamento relativo do estado no espectro eleitoral: de um desempenho do PT acima da média brasileira até 2014 para resultados abaixo dela a partir de 2018.
Gráfico 2: Proximidade dos resultados eleitorais em Minas e no Brasil[1]
Percentual de votos válidos do PT no segundo turno presidencial 2006-2026

- Uma disputa presidencial em meio à fragmentação política estadual
Os resultados das eleições para o governo estadual com a eleição de Cleitinho (Republicanos) no primeiro turno e de Marília Campos (PT) e Domingos Sávio (PL) para o Senado revelam uma configuração política marcada pela presença expressiva de diferentes forças e lideranças. Contudo, assim como ocorreu no Brasil, também em Minas Gerais, a extrema direita teve um desempenho extremamente positivo nas urnas. A composição da bancada mineira na Câmara dos Deputados é uma clara evidência disso. Dos 53 deputados federais eleitos por Minas Gerais em 2026, 37 renovaram seus mandatos, o equivalente a 69,8% da bancada. Entre os reeleitos, predominam parlamentares de partidos classificados nesta análise como de extrema-direita, que somam 18 cadeiras, 12 delas ocupadas por integrantes do PL. A esquerda reúne oito parlamentares, enquanto a direita reúne seis. As demais posições ideológicas têm representação menor. Consideradas conjuntamente, direita e extrema-direita correspondem a 64,9% dos deputados reeleitos. Entre os 16 novos integrantes da bancada, a extrema-direita também ocupa posição expressiva, com dez parlamentares, nove deles do PL. A esquerda tem quatro representantes, todos do PT, e a centro-esquerda, dois, do PV e do PSB. Esses dados apontam para a força eleitoral e parlamentar da direita, especialmente do PL, mas também para a presença de uma representação de esquerda capaz de disputar espaço no estado.
Figura 2: Posição ideológica dos deputados(as) federais eleitos(as) por Minas Gerais em 2026

Esse quadro mostra que a política mineira preserva seu caráter competitivo já destacado em outras análises que situam o estado entre os sistemas políticos marcados por uma competição eleitoral de alta intensidade, ausência de chefes políticos e/ou famílias políticas dominantes. Por outro lado, como destacaram recentemente Rocha e Neves, na última década, o estado passou por transformações que impactaram a estrutura da competição política estadual: os recursos necessários à coordenação das elites – controle do governo, liderança eleitoral, estrutura partidária e capacidade de articulação de alianças – se dispersaram entre diferentes atores, sem que nenhum deles fosse capaz de reuni-los simultaneamente. A indefinição do cenário pré-eleitoral no estado não foi mais do que um sintoma dessa crise de coordenação política.
Podemos retomar esse argumento, agora, à luz dos resultados eleitorais. A força eleitoral de determinadas lideranças e partidos não elimina a fragmentação da coordenação política, assim como a proximidade ideológica não implica convergência automática entre estratégias, candidaturas e alianças. Minas Gerais pode, assim, apresentar uma bancada federal com forte presença da direita e, ao mesmo tempo, uma estrutura de competição estadual na qual a articulação entre lideranças e projetos políticos permanece dispersa. É importante, portanto, não confundir a concentração de força eleitoral e parlamentar em determinados partidos com a capacidade de coordenação política do campo a que pertencem: a primeira não implica necessariamente a segunda.
Essa distinção também ajuda a compreender a relação entre a eleição presidencial e as disputas estaduais. A polarização nacional atravessa a política mineira, influencia o posicionamento de lideranças, orienta estratégias de campanha e oferece referências para a mobilização de eleitores. Isso não significa, porém, que a disputa presidencial determine automaticamente a organização da competição no estado. O alinhamento a Lula ou a Flávio Bolsonaro pode aproximar atores que compartilham referências ideológicas e interesses eleitorais, mas não elimina divergências sobre candidaturas, alianças, distribuição de recursos e projetos de poder em Minas Gerais. Tampouco garante que lideranças identificadas com o mesmo campo nacional atuem de forma coordenada durante a campanha.
A dinâmica estadual possui seus próprios centros de gravidade: o controle do governo, a capacidade de construir alianças partidárias, a força eleitoral de lideranças regionais e a presença de redes políticas com bases municipais. Esses recursos podem ser mobilizados em favor de uma candidatura presidencial, mas também podem alimentar disputas entre atores que buscam ampliar sua própria influência. Assim, o apoio ao mesmo candidato à Presidência não implica necessariamente cooperação nas eleições para governador, senador ou deputado. Da mesma forma, alianças construídas no plano estadual podem reunir partidos e lideranças que adotam posições distintas na disputa nacional. A articulação entre os dois níveis depende, portanto, de negociações e estratégias específicas, e não apenas da proximidade ideológica.
Em Minas Gerais, essa relativa autonomia das disputas ajuda a explicar por que a força eleitoral da direita e da extrema direita não se traduz necessariamente em uma liderança estadual incontestada ou em uma estratégia comum. A fragmentação também afeta o campo da esquerda, cujas referências nacionais e partidárias não asseguram, por si sós, a convergência entre lideranças e projetos estaduais. A eleição presidencial funciona, assim, como um eixo importante de organização da competição, mas seus efeitos são mediados pela configuração política mineira. Mais do que simples reflexo da polarização nacional, o estado constitui um espaço em que alinhamentos presidenciais, disputas regionais e estratégias partidárias se combinam – nem sempre de maneira convergente – na produção dos resultados eleitorais.
Marta Mendes é doutora em Ciência Política, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL-UFJF). nepol.blog.br
Dilla Roman é mestranda em Ciências Sociais e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL-UFJF).
[1]Cada ponto representa uma unidade da Federação (UF); a posição vertical apenas evita a sobreposição dos pontos. Quanto menor a distância horizontal até a linha do resultado nacional, maior a semelhança entre o percentual de votos do PT na UF e no Brasil.

