A queda de Donald Trump e as perspectivas do governo Biden

ENTRE O INTERNO E O EXTERNO

A queda de Donald Trump e as perspectivas do governo Biden

por Henrique Campos de Oliveira, André Pires Batista Coelho e Murilo Jacques Barbosa
3 de dezembro de 2020
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No plano de governo de Joe Biden, dentre as principais diretrizes para política externa, está “restaurar a liderança internacional americana”. A restauração seria pelo exemplo, reforçando os pilares democráticos do país

A vitória eleitoral de Joe Biden na corrida presidencial nos EUA, confirmada em 08 de novembro, pelas principais agências de notícias internacionais, apesar das contestações judiciais em curso, já pode ser considerada como um dos principais acontecimentos do início da terceira década do século XXI. Menos pelo impacto relativamente diminuto em relação a capacidade de reduzir as profundas fraturas e divisões da sociedade norte-americana, como conflitos raciais, de classe e ideológicos, mas mais por uma perspectiva de alteração de uma lógica internacional que pode vir a representar o retorno a uma agenda mais cooperativa entre as principais potências mundiais ao longo dos próximos anos.

Neste sentido, a observação da dinâmica do comércio internacional nas últimas duas décadas nos traz pistas sobre como foi possível, em período relativamente curto na história, a ascensão e a queda de um presidente não alinhado à ordem multilateral, mas que paradoxalmente, realizou tentativas de políticas, internas e externas, ainda que desencontradas, para corrigir os principais desvios da macroeconomia dos EUA. Principalmente, o impacto perverso da manutenção de uma balança comercial deficitária e a perda contínua e crescente dos empregos intensivos em mão de obra, dois indicadores que refletem o aceleramento das desregulamentações iniciadas no sistema internacional desde a década de 1970 e o aprofundamento da globalização nos últimos 30 anos.

Esse movimento de interdependência e interconectividade global foi acompanhado pela internacionalização da produção de manufaturas para países periféricos, principalmente, do leste asiático. A China soube aproveitar as oportunidades desse ambiente gerando alterações tanto na oferta de manufaturas mais competitivas quanto também na demanda por insumos. A antiga relação entre centro fornecedor de manufaturas e periferia fornecedora de insumos foi alterada. Deslocou-se o centro fornecedor de manufaturas e exportador de força de trabalho para a, até então, isolada China. Ao mesmo tempo foi rompido o movimento de crises cíclicas da periferia fornecedora de produtos primários exportadores. O resultado foi a crise econômica atingir o centro, não via questões de ordem fiscal, estas contidos pelos fluxos de capitais financeiros e dividendos oriundos das grandes empresas multinacionais em atividades offshore. A crise foi de confiança face à oferta de crédito sem lastro a uma população que observa a contração da sua renda, principalmente da classe média.

Eleitor de Joe Biden com bandeira após sua vitória nas eleições – Crédito: Unsplash
Reversão eleitoral e mudanças na política externa dos EUA

O governo Obama veio como tentativa para superar tal condição com uma política de mais gastos públicos e tentativas diplomáticas de isolamento da China pelo Tratado Transpacífico (TTP) ou críticas à sustentabilidade do seu modelo de desenvolvimento econômico. O êxito do democrata foi relativo. A concretização disso é justamente a ascensão de Trump em 2017. A população dos Swing states do rust belt, constituído predominantemente por trabalhadores do setor manufatureiro (especialmente o automotivo), viu na proposta protecionista de Trump uma fórmula nada inédita de busca pelos rendimentos e empregos perdidos quando da redefinição da divisão internacional do trabalho dos anos 1980/1990; padrão dos regimes nacionais populistas que emergiram no entre guerras, como alternativa para o paradigma liberal democrata.

Contidos pela dissuasão nuclear, as grandes potências não se limitam a preparação para o conflito. Desenvolvem tecnologias via seus complexos militares industriais que transbordam inovações absorvidas pelo setor privado nas disputas comerciais. Assim, Trump tendeu a romper com a tradição estadunidense do pós segunda guerra de liderar as instâncias multilaterais. Além de esvaziar a Organização Mundial do Comércio (OMS), frente às limitações de um conflito direto, passa para a disputa via a guerra comercial contra a China desde 2018, como tentativa de dar resposta a base que o elegeu para tornar a “America great again”.

O resultado foi um vácuo de poder nestas instâncias, ocupados pela própria China, e a pouca capacidade de reverter o déficit comercial e criar postos de trabalho.

A incapacidade de Trump em retornar com parte das cadeias produtivas intensivas em trabalho para os EUA demonstra o papel de controle dos principais preços macroeconômicos relativos (juros básicos, inflação e preço da moeda) pelo setor financeiro do país norte-americano, viciado, principalmente após a crise de 2008, em títulos da dívida do tesouro emitidos pelo FED[1] e no oceano de liquidez da moeda de curso internacional, o dólar[2], que respondem cada vez mais pelo contínuo déficit da balança comercial e pelo endividamento do tesouro, que já passa dos 100% do PIB da maior economia do mundo. Neste sentido, a pandemia agravou ainda mais a situação macro econômica dos EUA, com retração econômica e o aumento do desemprego no curto prazo.

Assim, os estados pêndulos[3], que deram apoio a Trump, voltam seu suporte aos democratas, uma vez que não visualizaram, em quatro anos de presidência Trump, o retorno da renda e dos empregos industriais prometidos em 2016. Soma-se a isso, estados tradicionalmente republicanos como a Geórgia, mais que, por questões relacionadas ao racismo, passaram a apoiar Biden.

Chega-se a questão: o que Biden pode apresentar de novo como política comercial e externa, não somente em relação a Trump, mas, inclusive, sobre a proposta neoliberal dos democratas?

No seu plano de governo, dentre as principais diretrizes para política externa, está “restaurar a liderança internacional americana”. A restauração seria pelo exemplo, reforçando os pilares democráticos do país. Esse é o argumento por trás do artigo escrito por ele na Foreign Affairs: “Porque a América deve liderar novamente”.  De acordo com o texto, pelo exemplo, serão combatidas as nações que não compartilham dos valores democráticos. Assim também será construída uma rede de nações em prol da democracia, principalmente nos países africanos e da América Central, que também terão investimentos disponibilizados pelos EUA para reduzir sua condição de pobreza. Neste último caso, seria também uma forma de atenuar a pressão migratória ao sul.

Além dessa nada inédita convicção estadunidense do grande defensor e disseminador da democracia mundo afora, o programa fala de recredenciar alianças como a OTAN e resgatar a liderança sobre a agenda climática.

O que chama mais atenção, tanto no seu artigo quanto no plano de governo, é o que não está presente lá. Se o leitor buscar as siglas da Organização Mundial do Comércio e Organização das Nações Unidas, não será identificada nem se quer uma vez no localizador de palavras do browser. O que se verifica é uma diretriz específica e objetiva nas palavras do programa “qualificar nosso povo para ter sucesso na economia global com uma política externa voltada a classe média”. Esta é a resposta explícita do democrata para o Rust belt tão fundamental na sua eleição.

Enquanto o novo presidente se apresenta em prol da classe operária industrial, o que resta às instâncias multilaterais do comércio e aos demais países? Quase nada, a não ser o apoio à democracia e a liderança dos EUA para além das Organizações Internacionais. Não há muita expectativa a ser criada sobre uma ruptura com a posição unilateral nos assuntos comerciais e cooperação internacional defendida por outros presidentes além, inclusive, de Trump. Os EUA, sob os democratas, não necessariamente vão resgatar as instâncias multilaterais, mas sim competir, também por esta via, pela sua liderança mundial. Embora mantenha o unilateralismo, tenderão a não manter a posição isolacionista exercida por Trump.

A intenção não é disputar com a China dentro dos fóruns mundiais. Mas, sim, criar alternativas a estes fóruns, já sob considerável liderança e participação chinesa. A duas dimensões para exercer essa liderança são: sustentabilidade e democracia. O plano comercial, certamente será tangenciado por estas questões, impondo novas barreiras para moldar preferências e comportamentos, enquanto o investimento maciço será desprendido para subsidiar a produção manufatureira e agrícola do país. Além, claro, da atual disputa em torno da tecnologia para o tráfego de dados e informações. A guerra fria 5G é o principal lócus de tensionamento com os chineses. Esse é o segmento que mais vem se alimentando do transbordamento de tecnologia do Complexo Industrial Militar de ambos os países. Na impossibilidade de um conflito direto, a corrida no setor de telecomunicação alimenta pela latente e crônica condição de preparação das grandes potências para a guerra.

Biden escreveu no dia 10 de novembro, no Twitter: “Quando eu converso com líderes estrangeiro, eu lhes digo: A América está voltando. Nós vamos voltar para o jogo”[4]

O aviso é claro, os EUA seguirão dispostos a manter a posição de liderança. Mas a posição hoje não é tão confortável como fora outrora. O país internamente apresenta problemas de coesão social com o antagonismo exercido pela liderança personalista de Trump. Externamente, os EUA nunca tiveram uma potência tão próxima a ameaçar sua hegemonia como tem a China hoje.

 

A guerra comercial e seus desdobramentos internos e externos

De Kissinger[5] a Robert Zoellick[6], os EUA terão que cooperar com a China. Nada fácil para um presidente que terá que responder a sua base eleitoral de forma altiva, assim como fez Trump, reiterando a superioridade do país ao passo que precisa ter senso de proporcionalidade, muito diferente de Trump, para entender o atual, e real, poder dos EUA.

O comércio internacional será um dos maiores desafios. Afinal, como ser líder pelo exemplo sendo o primeiro a exercer protecionismo? Ao passo que, se assim não for, não irá conseguir cumprir com a árdua promessa de estabelecer o padrão de vida do estadunidense médio.

Dos desafios imediatos, há uma forte tendência à desvalorização do dólar, puxado pelas contínuas emissões identificadas acima e pelo plano de investimentos em infraestrutura interna do programa Biden. Do outro lado, a política ativa de internacionalização do Renminbi, realizada pelo Estado chinês. Não se espera uma perda relevante de protagonismo do dólar no curto prazo, mas os desequilíbrios macroeconômicos em um ambiente internacional desregulamentado tendem a provocar o acirramento da competitividade e da rivalidade entre empresas e nações.

Como o novo governo democrata pode trazer algo de novo, que supere Trump, e ao mesmo tempo seja distinto do esgotado modelo neoliberal, sem passar por instâncias multilaterais? O tensionamento global passa a confrontar com a polarização interna. Os interesses domésticos e o contexto externo apresentam pouca margem de consenso. Se ampliar o já tradicional protecionismo estadunidense, como Trump fez, dificilmente irá contribuir para o reaquecimento da economia global e, como a história nos mostra, o comércio é presságio de conflito.

Se apostar no resgate liberal, irá comprometer o compromisso com a classe média dos EUA via fuga de postos de trabalho para atuação offshore das empresas multinacionais. Aparentemente, as fichas estão depositas em um new green deal repaginado com adição da responsabilidade social. Será o suficiente para superar a guerra fria 5G e resgatar o american way of life?

A condução da política de Joe Biden será voltada a engajar os EUA novamente no multilateralismo. Biden foi um dos responsáveis pela construção do Tratado Transpacífico (TTP) quando era vice-presidente, projeto este anunciado no último ano do governo Obama. A esperança seria que, com a possível eleição de Hillary Clinton, o TTP fosse adiante, o que não ocorreu de fato, se transformando em um dos grandes alvos de crítica da campanha de Trump para 2016, que alegava um impacto na perda de postos de trabalho para o povo americano. A adesão da opinião pública e do eleitorado ao argumento trumpista resultou em seu completo abandono da pauta pelos próprios democratas em discursos de campanha.

O objetivo do TTP era justamente criar um bloco de aliança comercial no combate à ascensão econômica chinesa, principalmente no Pacífico, reunindo à época 36% do PIB mundial através de acordos de livre-comércio entre países como México, Canadá, Japão, Chile, Austrália, entre outros[7]. O então presidente Barack Obama chegou a declarar que não deixaria a China ditar as regras da economia no mundo e alertou para a importância de uma maior atenção e controle do mercado consumidor dos Estados Unidos, sendo o país norte-americano o responsável por ditar tais regras.

Além da questão comercial, havia um outro ponto de importância nesta formação de alianças, uma vez que a ascensão de duas potências na Ásia, China e Rússia, também exigia uma atenção em termos militares principalmente em relação à Shanghai Cooperation Organization (SCO), organização em que chineses e russos conduzem uma gestão estratégica na Ásia Central. O reflexo desta intenção dos norte-americanos em se opor ao SCO era a possível inclusão de países sem grande expressão econômica como Brunei, Vietnã e Nova Zelândia no TTP, reforçando o argumento que havia de fato o intuito de estabelecer pontos de referência militar.

É pouco provável que o TTP seja ressuscitado, mas há uma perspectiva que haja uma diferenciação por método, mas não por essência; ou seja, a busca pelo combate à ascensão da China continua através do estabelecimento de cinturões de parceiros para conter a escalada de avanço chinês no comércio mundial. Há uma necessidade explícita de reconstrução das relações dos Estados Unidos com blocos regionais, principalmente a União Europeia. Vale reforçar que o momento mundial é completamente diferente do auge do multilateralismo, na década de 1990, em que os Estados Unidos conseguiam ditar as regras do livre comércio, o que parece a princípio um contrassenso: um livre comércio com interferências. Naquele momento, o país norte-americano conduzia a inserção da China no mercado mundial através de investimentos massivos, guiando seus movimentos e inserindo os chineses nos organismos internacionais, como a Organização Mundial do Comércio.

Os anos 2000 foram palco de uma China em progressiva evolução, ampliando sua base industrial e estabelecendo como foco prioritário a Ciência, Tecnologia e Inovação, o que possibilitou avanços na indústria bélica, aeroespacial e na tecnologia da informação. A ascensão do país asiático no comercio internacional, via suas multinacionais (Privadas e Estatais), resultou em perdas relativas de antigas bases comerciais sólidas dos norte-americanos, impactando na dinâmica do comércio exterior dos Estados Unidos e interferindo nas relações econômicas mundiais como um todo.

A grande questão em torno da China é a incógnita em relação aos seus passos em busca da proeminência como nação dominante. O que a China realmente quer? A noção de estratégia na China é bem diferente da ocidental: suas ações são sempre parcimoniosas em busca resultados à longo prazo, com correntes que afirmam que essa seria uma das suas maiores vantagens competitivas em busca da supremacia mundial, uma vez que os chineses já vêm conduzindo seu plano de modernização desde a Revolução de 1949. Em contrapartida, o ocidente, com seu direcionamento político democrático, conduz políticas de curto prazo pela necessidade de resultados rápidos em que os policy makers necessitam de aprovação de sua base política e da sua opinião pública para sua manutenção no poder. Como a estratégia de disputa de poder mundial não se conduz em uma temporalidade breve, os chineses, com governo centralizador, levariam vantagem por controlar os atores secundários no processo decisório.

A China mantém o discurso oficial de que sua pretensão continua não sendo substituir os Estados Unidos como a única grande potência mundial. O que a China realmente quer – e que fica nítido nas conduções de sua política externa – é ampliar sua rede de influência global contribuindo para seu fortalecimento econômico e, tão importante quanto, consolidar bases geopolíticas regionais. Apesar do movimento progressivo e gradual, que conduz a uma influência chinesa cada vez maior, a China não parece pretender, pelo menos em curto espaço de tempo, promover um embate decisivo com os Estados Unidos à moda antiga, ou seja, com movimentos bélicos que possibilitaram antigas – e atuais – potências, a adquirirem o status de supremacia perante as outras nações do mundo.

O 14° plano quinquenal (2021-2025)[8], aprovado em plenária no dia 29/10/2020, identifica um aprofundamento da estratégia iniciada em 2013, com o planejamento da internacionalização do capital chinês direcionado pelo projeto da Nova rota da Seda. Os focos da China para o novo quinquênio contemplam um modelo de circulação dual, em que as dinâmicas econômicas internas e externas se auto alimentam. O direcionamento interno é focar na inovação tecnológica e na abertura do mercado interno, e o direcionamento externo é aumentar a presença de empresas Chinesa no mundo. O projeto não escrito é controlar a infraestrutura do comércio internacional, ao mesmo tempo em que o aumento do PIB per capita interno permite uma relativa maior abertura de seu mercado interno, aprofundando assim a interdependência chinesa no mundo e colocando o Estado asiático em posição de ditar algumas regras do jogo internacional.

Em caráter regional, há certamente uma condução para um protagonismo chinês, mas sua influência é direcionada de forma indireta, uma espécie de atuação empreendedora, viabilizando projetos locais de infraestrutura, defesa e dinamização da economia. Apesar da política ambígua, uma questão parece clara: a China, pelo menos na Ásia e na Oceania, pretende deslocar o centro de poder para Pequim, em detrimento da atuação dos Estados Unidos. Essa parece a avaliação mais próxima da realidade, na qual há realmente uma política para afastar os norte-americanos da região.

Os chineses aproveitaram bastante o vácuo deixado pela falta de habilidade do governo Trump em conduzir um movimento mais ativo no Pacífico, na Ásia Central e no Sudeste Asiático. No entanto, há uma tendência de novas tensões com países asiáticos alinhados aos EUA, principalmente em relação à Taiwan, sempre em relações diplomáticas conflituosas[9], e a Índia, Austrália e Japão,  que ensaiaram recentemente a formação do Quad[10], grupo formado com a presença direta dos EUA, em claro alinhamento para conter as investidas chinesas no Mar do sul da China.

Green New Deal: a saída para os EUA e Europa

Diante do exposto, não restam dúvidas que a política externa será o pilar central do governo Biden. O presidente inclusive foi duas vezes presidente da Comissão das Relações Exteriores do Senado e, como vice-presidente de Barack Obama, cumpriu muitas funções diplomáticas que foram confiadas a ele pelo então presidente. Biden ainda possui um grande número de trabalhos, artigos e declarações com foco em política externa. Essa familiaridade também foi importante para que ele conseguisse agregar uma base de apoio essencial para sua campanha: os ambientalistas.

A volta dos Estados Unidos ao Acordo de Paris é tida como certa já no início do mandato. Essa volta será conduzida unilateralmente pelo presidente Biden uma vez que, neste caso, não há necessidade de envolvimento de outras instituições políticas para a aprovação, como o Congresso do país por exemplo. Basta uma decisão executiva, assim como ocorreu na saída do Acordo, feita por Trump de forma unilateral. Joe Biden adotará, em paralelo, grande parte das regulamentações ambientais que Trump desconsiderou, atendendo de imediato o anseio desta base ambientalista que fez parte da sua vitória na corrida à Casa Branca, além de atrair a atenção da opinião pública no país e no mundo.

Na Europa há também um movimento de uma “mancha verde” em setores estratégicos da atividade econômica, como transportes e construção civil, por exemplo. Segundo a Comissão Europeia[11], há investimentos previstos de 2,2 bilhões de euros em 140 projetos “verdes” na área de transportes, dinamizando a economia e gerando novos postos de trabalhos. O projeto, chamado de European Green Deal além de contemplar projetos na infraestrutura de transportes, tem também o foco nos greener fuels for transports, através da conversão de matrizes dos transportes para combustíveis tidos como mais limpos e que impactam menos o meio ambiente.

Com os europeus já seguindo este caminho, a melhor opção para os Estados Unidos retomarem seus processos de alianças e restabelecer um movimento multilateral é, de fato, a busca por uma associação com a Europa neste “movimento verde”. A estratégia se apresenta como a mais plausível para solidificar uma frente comum de negociações com a China, uma vez que é muito improvável que haja uma convergência entre norte-americanos e chineses por conta de embates geopolíticos, sem perspectiva de solução: a China quer reconhecimento da sua emergência regional, do seu projeto One Belt One Road, e EUA não aceitarão.

Desta forma, as tensões se darão entre coalizões comerciais, com papel central dos Estados e das multinacionais, que tenderão a dar ênfase às questões climáticas e dos direitos humanos (principalmente no que tange a questão de refugiados). Todavia, as instâncias multilaterais podem ser cada vez mais esvaziadas, ao passo que os polos da guerra comercial já instituem redes, acordos e até instituições próprias.

A capacidade diplomática será ainda mais exigida, principalmente nos países que não estão nos centros mais dinâmicos do capitalismo. Saber barganhar e evitar alinhamentos pessoais ou ideológicos será ainda mais vital para Estados periféricos que almejem alavancar sua inserção no comércio internacional. A America latina, e o Brasil em especial, não precisam necessariamente escolher um lado, visto que o acirramento das tensões tende a abrir janelas de oportunidade em várias frentes. Saber capitaneá-las será o grande desafio.

Henrique Campos de Oliveira é pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisa em Humanas (CRH) UFBA e professor do curso de Relações Internacionais da Unifacs

André Pires Batista Coelho é pesquisador do Labmundo-BA, mestre em Relações Internacionais pela UFBA

Murilo Jacques Barbosa é professor do Curso de Relações Internacionais de Unifacs e coordenador da revista WR

 

[1]  Pacotes de estímulos da primeira onda da Covid-19 de 2 trilhões de dólares e programa de recompra de títulos públicos pelo FED. Novo pacote de estímulos em discussão no Congresso (segunda onda), com propostas de planos de novas emissões de até 9 trilhões de dólares. Ver: https://www.cnbc.com/2020/11/02/china-drops-us-treasurys-impact-on-us-deficit-and-coronavirus-stimulus.html acessado em 15/11/2020

[2] 2 trilhões de moeda em circulação, em outubro de 2020, ante 833 bilhões em julho de 2008 de acordo com o FED. Ver: https://fred.stlouisfed.org/series/CURRCIR  acessado em 15/11/2020

[3]  Principalmente os que confirmaram a derrota do Republicano por poucas margens de votos em 2020 – Wisconsin, Michigan e Pensilvânia que em 2016 deram 46 delegados para Trump.

[4] Do inglês original: “When I’m speaking to foreing leaders, I’m telling them: America is going to be back. We’re going to be back in the game”.

 

[5] KISSINGER, Henry. Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

[6] ZOELLICK, Robert B.. America in the World: a history of u.s. diplomacy and foreign policy. Nova Iorque: Twelve, 2020.

[7] NINIO, Marcelo. Parceira Transpacífica pode reduzir exportação brasileira em até 27%. Jornal Folha de São Paulo. p.A13, 6 de outubro de 2015. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/paywall/login.shtml?https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/10/1690597-parceria-transpacifico-pode-reduzir-exportacao-do-brasil-em-ate-27.shtml> Acessado em 08/11/2020.

 

[8] Ver: https://news.cgtn.com/news/2020-10-30/China-s-14th-Five-Year-Plan-prioritizes-dual-circulation-innovation-V0w9FR2ZNe/index.html: acessado em 15/11/2020

[9] A China continental classifica Taiwan como uma província rebelde, a formação remete a guerra civil vencida pelos comunistas em 1949, o KMT se refugiou na ilha de formosa após a derrota no continente. A China requer a reintegração de Taiwan no modelo de “um pais, dois sistemas” – padrão adotado com as regiões administrativas semi-autonomas de Macau e Hong Kong, devolvidas para a administração do governo Central no final do século XX.

[10] Ver:  https://oglobo.globo.com/mundo/em-toquio-pompeo-mobiliza-japao-australia-india-contra-china-24679236: acessado em 15/11/2020

[11] EUROPEAN COMMISSION. Boosting the EU’s Green Recovery: EU invests over €2 billion in 140 key transport projects to jump-start the economy. Press Release. 16.07.2020. Disponível em: <https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/ip_20_1336> Acessado em: 13 de novembro de 2020.

 



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