A repressão contra os uigures no controlado mundo do “sonho chinês”

UM MILHÃO DE PESSOAS JÁ PASSARAM PELOS CAMPOS DE REEDUCAÇÃO

A repressão contra os uigures no controlado mundo do “sonho chinês”

por Rémi Castets
1 de março de 2019
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Se é difícil avaliar o número de uigures presos ou que passaram pelos centros de reeducação – fala-se em 1 milhão –, é certo que um sistema de vigilância sem precedentes persegue os muçulmanos do Xinjiang, punidos não pelo que fizeram, mas pelo que podem fazer. Xi Jinping promove essa política de repressão como um modelo de segurança

O que está acontecendo no Xinjiang, no extremo oeste da China? Em setembro de 2018, a organização Human Rights Watch alertou sobre violações dos direitos humanos de uma amplitude sem precedentes contra os uigures – população turcófona e muçulmana –, e também contra cazaques, uzbeques etc.1 As autoridades chinesas negam e falam em combate ao “radicalismo” e ao “terrorismo” alimentado pela oposição diaspórica uigur e pelas potências estrangeiras. Entre os países muçulmanos, silêncio total.

O certo é que um programa denominado Transformação pela Educação, criado na década de 1990 para “reeducar” os seguidores da seita Falun Gong, foi adaptado e ampliado no Xinjiang para todos os indivíduos oriundos de minorias muçulmanas cuja lealdade ao regime desperte a mais remota dúvida. Na falta de dados oficiais, é impossível quantificar precisamente o número de pessoas atingidas. Segundo o pesquisador Adrian Zenz, que se baseia no exame de contratos públicos para a construção ou expansão de instalações de detenção, mais de 10% da população uigur, o equivalente a 1 milhão de pessoas, ou teria passado por esse programa, ou estaria presa.2 Ao contrário do que ocorre nos campos de reforma pelo trabalho (laogai), aqui os suspeitos não vão para o tribunal e podem ficar presos por períodos indeterminados. Os trabalhos de Zenz e os relatórios das organizações de direitos humanos mostram que a mecânica repressiva tem diversos níveis, incluindo desde aulas abertas de reeducação até centros fechados com disciplina de ferro. Baseados na patologização do pensamento contestatário, esses dispositivos pretendem “erradicar os vírus ideológicos” e tratar os indivíduos de acordo com seu grau de recalcitrância.

 

Polo energético estratégico

De forma protocolar, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos solicitou direito de acesso. As autoridades chinesas acabaram reconhecendo a existência dessas estruturas, apresentando-as como lugares de educação patriótica e centros de formação profissional destinados a promover a integração das minorias. Ali se combinam sessões de educação patriótica e de autocrítica, interrogatórios e cursos de idiomas para pessoas que não ficam tão à vontade em mandarim. Mas testemunhos na mídia estrangeira dados por pessoas que fugiram do país após serem libertadas compõem um cenário mais sombrio do que aquele descrito pela mídia chinesa: eles descrevem condições severas de detenção, forte pressão e até mesmo atos de tortura psicológica e física. Em meados de fevereiro, o governo turco, leal defensor dos uigures, sentiu-se obrigado a emitir uma declaração de protesto.

Essa nova onda de repressão, de altíssima intensidade, é mais uma na história de um Xinjiang muitas vezes agitado por violentas revoltas, sempre enfrentadas com uma resposta repressiva ainda maior – engrenagem da qual os dirigentes chineses não conseguem sair.

Cercada por altas montanhas, a região foi por muito tempo um ponto crucial da rota da seda. Na virada do primeiro milênio de nossa era, ela passou por intervalos de dominação chinesa, sob as dinastias Han, Sui e Tang.3 Todas tentaram evitar que as confederações das estepes, as quais ameaçavam os flancos setentrionais do império, pudessem tirar proveito do maná gerado pelo controle dessas rotas comerciais.

Após os portugueses estabelecerem a rota marítima contornando a África, o gradual abandono das rotas terrestres em prol dos caminhos pelo oceano marcou o início de um longo declínio para esses oásis. Quando, em meados do século XVIII, esses territórios, convertidos ao islamismo entre os séculos X e XVII, foram conquistados pela dinastia Qing (1644-1712), eles já haviam perdido sua centralidade. O fechamento da China, o isolamento da região e, em seguida, o conflito sino-soviético acabaram por torná-lo um enclave estratégico aos olhos do poder central chinês.

Essa província, uma das mais pobres do país, voltou a se desenvolver à medida que foi recuperando sua importância na configuração regional e internacional. Após a instalação das tropas de Mao Tsé-tung, em 1949, ela foi integrada ao restante do país por meio de investimentos públicos, que se intensificaram no início dos anos 2000, com a Política de Desenvolvimento do Grande Oeste. Isso foi acompanhado por um fluxo maciço de pessoas da etnia Han, majoritária na China, o que fez surgir novas cidades no norte, nos anos 1950-1960, e, nas décadas posteriores, deu novos contornos aos velhos oásis do sul.

Hoje o Xinjiang é atravessado e conectado ao restante do país por uma malha de rodovias de alta qualidade e por uma rede ferroviária ligada a linhas de alta velocidade. Graças ao impulso das empresas estatais e das unidades de produção desenvolvidas pelas colônias do Corpo de Produção e Construção,4 a província se especializou na mineração e na produção agrícola (algodão, tomate, frutas).

Esse território três vezes maior do que a França tornou-se um polo energético estratégico – ele abriga um quarto dos hidrocarbonetos e 38% das reservas nacionais de carvão. Como a China deseja limitar sua dependência das importações, as empresas do país extraem dali um sexto da produção nacional de petróleo e quase um quarto da de gás natural. Oleodutos e gasodutos ligados às regiões centrais e costeiras foram rapidamente instalados, a partir dos anos 1990-2000, para transportar as torrentes de hidrocarbonetos que alimentaram o crescimento chinês. Agora as autoridades apostam em infraestruturas de carvão liquefeito e na geração de energia eólica, solar e hidrelétrica.

Após a implosão da União Soviética e depois com o lançamento do projeto das novas “rotas da seda” (Belt and Road Initiative, BRI), de iniciativa do presidente Xi Jinping, a abertura do espaço da Ásia Central fez do Xinjiang um trunfo na estratégia de projeção do poder chinês na Ásia. Fazendo fronteira com o Paquistão, o Afeganistão e países da ex-União Soviética, ele abriga um nó de eixos de transporte ferroviários, rodoviários e energéticos com os quais a China conta para garantir seu abastecimento e expandir sua economia em direção à Europa. A estabilidade desses espaços vizinhos parece vital para o regime, que os considera terrenos muito propícios, se não estiverem sob um cuidado rigoroso, para o desenvolvimento do islamismo, ou de uma pesada influência norte-americana.

Embora o Estado chinês tenha gradualmente consolidado sua soberania na região, a lembrança de insurreições que culminaram em breves episódios de independência,5 a recorrência de rebeliões e, mais recentemente, a proliferação de ações violentas, até atos terroristas, causam preocupação. Esse território centro-asiático de domínio turcófono, outrora chamado pelos geógrafos ocidentais de Turquistão Oriental, ou Turquistão Chinês, é marcado por fortes particularismos e por uma instabilidade que sempre preocupou os imperadores chineses. Quando os Qing quiseram fazer dele sua “nova fronteira” (significado de xinjiang em mandarim), os círculos nostálgicos da teocracia sufi, que, até então, exerciam autoridade ali, fizeram da defesa do islã uma ferramenta de mobilização contra um poder sino-manchu não muçulmano. No início do século XX, passam a se distinguir as áreas de predomínio nômade cazaque e quirguiz, no norte e nas montanhas do Pamir, e oásis povoados de sedentários uigures, no sul e no leste.

Após o colapso do império, em 1912, os sucessivos senhores da guerra chineses enfrentaram o crescimento de uma oposição autonomista ou separatista inédita. Ela contava com uma nova geração de militantes, representada, à direita, por um movimento panturco e, à esquerda, por uma cena comunista apoiada e mantida pela União Soviética até o final da década de 1940. A vitória de Mao Tsé-tung e dos comunistas, em 1949, e em seguida as políticas repressivas que precederam e acompanharam a Revolução Cultural (1966-1976) desativaram essas redes.

 

A virada de 1989

Nos anos 1980, porém, com a chegada ao poder do setor reformista do Partido Comunista Chinês (PCC), o partido e a administração estatal foram buscar representantes das minorias para tentar envolvê-las no aparato de Estado. Surgiram espaços de liberdade cultural e religiosa, e uma esfera militante nacionalista “anticolonial”6 se regenerou nas universidades e nos círculos intelectuais uigures. Após os anos de proscrição da Revolução Cultural, parte da sociedade voltou-se novamente para o islã e, no sul, reconstituiu uma rede de madraças na qual foram criados círculos de talips (estudiosos da religião). Alguns defendiam a islamização das normas sociais e até a instauração de um Estado islâmico independente. Foi o caso da tentativa de insurreição em Barin, em 1990,7 de uma rede estruturada alguns meses antes, o Partido Islâmico do Turquistão Oriental.

Em 1985, 1988 e 1989, em Urumqi e outros oásis, manifestações denunciaram a colonização demográfica, a discriminação e a desigualdade étnica, e a falta de autonomia política. Lideradas por associações estudantis, às vezes ao lado de círculos religiosos, elas degeneraram na depredação de prédios públicos, especialmente no início de 1989. Nesse ano, enquanto o Tibete era sacudido por violentos tumultos em março e Pequim era abalada pelos eventos na Praça da Paz Celestial em junho, o partido temia que a situação saísse do controle no Xinjiang, ainda mais quando a implosão da União Soviética abriu caminho para a independência de povos turcófonos primos dos uigures.

O retorno da ala conservadora do PCC fez desaparecer, entre os círculos autonomistas ou separatistas, qualquer esperança de negociação sobre as políticas colocadas em prática na região. O partido, a Associação Islâmica do Xinjiang (uma organização de intermediação representante dos muçulmanos), a administração regional, as estruturas de ensino religioso, a escola, a universidade, tudo foi pouco a pouco sendo posto sob controle. Os quadros não muito dóceis, excessivamente religiosos ou considerados muito complacentes com o autonomismo ou com o separatismo foram afastados ou até punidos.

Entrou em ação uma política de progressivo enrijecimento do controle sobre a sociedade. Para evitar a prisão, os militantes nacionalistas mais engajados se uniram às diásporas uigures da Ásia Central, da Turquia e do Ocidente, outrora pró-comunistas ou panturcas, com o objetivo de fomentar, dentro das organizações locais, uma luta pelos direitos humanos no modelo tibetano. Essa estratégia não violenta ganhou definitivamente os nacionalistas em 2004, quando suas organizações se uniram e fundaram o Congresso Mundial Uigur, sediado em Washington.

No Xinjiang, à medida que a repressão se espalhava, as tensões aumentavam. Multidões uigures enfurecidas tomaram as ruas, como em Khotan, em 1995, e Yining, em 1997. Com o desmantelamento das madraças do sul, parte dos círculos islâmicos nacionalistas consideravam que o partido estava em guerra contra o islã e contra a identidade islâmica dos uigures. Talips e algumas células nacionalistas mergulharam na clandestinidade. Eles formaram grupelhos defensores da ação violenta, até mesmo do terrorismo. Entre 1990 e 2001, de acordo com as autoridades chinesas, foram perpetrados “duzentos incidentes terroristas, com 162 mortos”.8 Mas pouco a pouco esses grupos foram desmantelados.

Em março de 1996, o PCC estabeleceu uma lista de orientações rigorosas para erradicar as atividades potencialmente subversivas.9 Foram realizadas várias campanhas “Mão Pesada” (1997, 1999, 2001), levando ao desenvolvimento de sessões de educação patriótica, a uma proliferação de leis definindo o espectro das práticas subversivas e a grandes ondas de prisões. O mesmo documento destacava a necessidade de incentivar a entrada de pessoas da etnia Han no Corpo de Produção e Construção. A questão era limitar severamente a construção de mesquitas, impor líderes que tivessem “amor à pátria” na direção dos locais de culto e organizações religiosas, registrar todos os indivíduos que tivessem alguma formação em escolas religiosas sem autorização e tomar “severas medidas” para evitar que a religião viesse a intervir nos assuntos sociais e políticos.10 A Anistia Internacional estima que foram feitas pelo menos 190 execuções entre janeiro de 1997 e abril de 1999.11

 

Mais de trezentas vítimas de terrorismo

Nessa época, um punhado de militantes islâmicos nacionalistas que haviam se reunido em áreas paquistanesas e afegãs estabeleceram conexões com as redes talibãs do comandante Jalaluddin Haqqani. Esse grupelho, chamado pela China de Movimento Islâmico do Turquistão Oriental, penou para atrair a atenção das ricas redes da Al-Qaeda recentemente instaladas no local. Com recursos limitados, ele tinha dificuldades para se projetar em um Xinjiang onde as redes adormecidas haviam sido amplamente esmagadas. Aproveitando o contexto pós-11 de Setembro e a captura de elementos do Movimento Islâmico do Turquistão Oriental por forças norte-americanas durante sua intervenção no Afeganistão, as autoridades chinesas elaboraram a retórica das “três forças” (sangu shili): terrorismo, separatismo (étnico) e extremismo religioso. Assim, conseguiram colocar no mesmo saco círculos democráticos nacionalistas ou autonomistas não violentos, interessados em promover os valores do islã no campo social e político; jihadistas do Movimento Islâmico do Turquistão Oriental; e, mais amplamente, todos os espíritos contestatários.

Nessa década, as redes do Movimento Islâmico do Turquistão Oriental, ou o que restava delas, recuadas no Vaziristão, assumiram o nome de Partido Islâmico do Turquistão (PIT), após sua integração na internacional jihadista da Al-Qaeda. Eles usaram as redes sociais para incitar a violência. Embora a amplitude do monitoramento da internet realizado pela China dificulte o acesso a suas publicações, após um longo período de calma o sul do Xinjiang e sua capital, Urumqi, passaram por uma série de atentados. Esta começou em 2008, com a aproximação dos Jogos Olímpicos, e ganhou impulso em 2009, quando violentas rebeliões opuseram uigures e hans em Urumqi,12 fazendo oficialmente 197 mortos – pelo menos três quartos deles hans. A região ficou sob forte pressão. A internet foi cortada durante vários meses, mas os ataques se multiplicaram.

Alguns desses atos parecem ter sido premeditados por células ligadas ao PIT, como os ataques em Kashgar, em 2011, mas muitos deles, como agressões com arma branca contra policiais ou civis, parecem mal preparados e cometidos por uma juventude que simplesmente assistiu aos vídeos do PIT ou de outros movimentos jihadistas. Muitas ações violentas chocaram a opinião pública chinesa, às vezes ultrapassando as fronteiras do Xinjiang: o atentado com um automóvel na Praça da Paz Celestial em outubro de 2013 (cinco mortos, dois turistas e três atacantes), o da faca na estação de Kunming, em março de 2014 (31 mortos e 143 feridos), e o de maio de 2014 em um mercado de Urumqi (43 mortos e mais de noventa feridos). Seguiram-se outros atentados de menor escala, e 2014 foi um ano sombrio, com mais de trezentas vítimas do terrorismo, contra apenas um punhado por ano durante a primeira década do milênio.

Mais ou menos ao mesmo tempo, a implantação do PIT no Afeganistão, ao lado do Talibã, e principalmente na Síria, onde conseguiu estabelecer redes, deixou os chineses ainda mais preocupados. O envolvimento do PIT no conflito sírio fez crescer seus efetivos e seu apoio. Depois de mostrar serviço em combate ao lado dos outros componentes da Frente Al-Nusra, e agora de Hayat Tahrir al-Sham, no noroeste da Síria, ele foi equipado com material pesado e conseguiu mobilizar centenas de combatentes. O PIT era uma ameaça aos interesses chineses em algumas regiões onde podia projetar ações – Paquistão, Afeganistão, Oriente Médio –, mais do que no próprio Xinjiang. Na verdade, a sociedade uigur parecia pouco inclinada a aderir à sua interpretação rígida do islã, e a “Grande Muralha de Aço”13 desejada por Xi continuava a limitar significativamente sua margem de manobra na China.

No entanto, para a população um limite foi ultrapassado com a onda de detenções e condenações (incluindo à pena capital), após as rebeliões de 2009. Para muitos, estava encerrada a idade de ouro dos anos 1980, quando conflitos entre comunidades ainda podiam ter mediadores. O ressentimento contra o poder central chinês se transformou em um ressentimento contra os hans, entendidos como colonizadores arrogantes que consideravam os outros como indivíduos de segunda classe, cuja única opção era submeter-se e sinizar-se, para se tornarem aceitáveis.

O “viver juntos” proposto pelo governo central baseava-se em uma homogeneização demográfica e cultural sinizadora e em um forte controle das instituições da região autônoma pelos quadros hans. Enquanto a língua uigur dava lugar ao mandarim nas escolas, e o controle da polícia e da administração era incessantemente reforçado, a implantação han seguia seu curso e exacerbava na população local a sensação de estar sendo afogada pelos chineses.14

No início dos anos 2010, os hans representavam 40% dos 22 milhões de habitantes da região (contra 6% em 1949), e os uigures, mais de 45% (contra 75% em 1949). Essa supremacia na administração e na economia, junto com a desconfiança dirigida aos nativos, contribuiu para manter no ponto mais baixo na escala social uma parcela significativa dos uigures. Embora o Estado garantisse mais da metade do orçamento regional e por muito tempo tenha permitido um crescimento de dois dígitos por meio de investimentos maciços, os uigures, com menos educação ou simplesmente discriminados mesmo tendo diploma, não tiraram grandes benefícios desse crescimento.

Como novo homem forte do país, o presidente Xi prometeu erradicar pela raiz a ameaça terrorista, redefinido a abordagem de segurança. Organismos de contraterrorismo foram reestruturados e colocados sob uma supervisão mais estreita do governo. O controle de minorias e assuntos religiosos, antes sob a responsabilidade de diversas administrações, além de associações religiosas ditas “representativas”, passou ao encargo do centralizador Departamento do Trabalho da Frente Únida do Partido.15

O aparato jurídico também foi remodelado. Em novembro de 2014, a Assembleia da Região Autônoma do Xinjiang já aprovara uma lei reformando as regulações religiosas regionais de 1994, com o acréscimo de dezoito artigos para modernizar o sistema de acreditação dos imãs, de controle das mesquitas e do que restava das estruturas de ensino religioso, que já sofriam intensa vigilância.16 Em 2017 foi lançado um novo pacote de medidas em nome da luta contra o “extremismo religioso”. Para muitos muçulmanos, tais medidas têm uma dimensão intrusiva: foi proibido ter a barba considerada “anormal” e usar o véu em locais públicos…

As coisas ficaram ainda piores desde que Chen Quanguo assumiu a frente do PC local, em 2016, com as mesmas funções que exercia na região autônoma do Tibete. Segundo Adrian Zenz,17 o orçamento destinado à segurança explodiu. Forças policiais especiais e equipamentos de contenção de revoltas foram reforçados. O recrutamento atingiu o pico entre meados de 2016 e de 2017, com mais de 90 mil policiais, doze vezes mais que em 2009, com o objetivo de implantar uma antena dos Escritórios de Segurança Pública em cada vila ou povoado. Chen também fortaleceu o programa Como uma Família: funcionários hospedam-se regularmente com os habitantes, às vezes por vários dias, para identificar comportamentos subversivos, pressionar para que sejam feitas denúncias e realizar educação patriótica. Mais de 1 milhão de funcionários estariam envolvidos, especialmente nas áreas rurais do sul.

Estudo de comportamentos “incomuns”

Além disso, o Xinjiang tornou-se um vasto campo de teste das joias da vigilância high-tech e da segurança de big data.18 Smartphones podem ser submetidos a verificação a qualquer momento nos postos de controle policial e nos diversos checkpoints montados ao longo das estradas. O extenso sistema de vigilância por vídeo com reconhecimento facial foi aprimorado. A maioria dos uigures teve de entregar seu passaporte, reduzindo a zero as esperanças de quem sonhava em fugir para o exterior.

Para o poder chinês, a questão não é mais monitorar a sociedade e punir quem comete irregularidades. A coleta de dados por meio da Plataforma Integrada de Operação Conjunta, combinada com o estudo de comportamentos “incomuns”, tem o objetivo de antecipar e classificar os indivíduos de acordo com seu nível de lealdade e do risco de segurança que representam. Entre os numerosos critérios de identificação, figura a estadia em um dos 26 países “de risco”.19 Falar com estrangeiros ou com pessoas que tenham ido para o exterior, baixar o aplicativo de comunicação proibido WhatsApp, ter barba, não beber álcool, não fumar, comer alimentos halal, guardar o Ramadã, não comer carne de porco, querer dar aos filhos nomes muçulmanos considerados subversivos, como o do profeta: são muitos os sinais suspeitos.

Universitários renomados, artistas e até atletas famosos desapareceram de repente – possivelmente internados – ou foram postos em prisão domiciliar. Nos últimos meses, condenações às vezes muito pesadas foram executadas. Por exemplo, o ex-diretor do Escritório de Supervisão Educacional do Xinjiang e o ex-reitor da Universidade do Xinjiang foram condenados à morte por “tendências separatistas”. Após ser preso em 2014, o economista e escritor Ilham Tohti, uma das últimas figuras críticas dos círculos intelectuais uigures, foi condenado à prisão perpétua.

As autoridades celebram a redução da violência nos últimos meses. Mas, mesmo na China, muitos observadores estão preocupados – embora não ousem dizê-lo publicamente – com os níveis de frustração gerados por essas políticas a longo prazo. Dirigentes locais, imãs ou intelectuais que ainda querem aparar as arestas já não têm recursos para isso. A cegueira do Estado ao crescimento das tensões prepara o caminho para novas explosões de violência.

 

*Rémi Castets é doutor no Instituto de Estudos Políticos (IEP) de Paris e diretor do Departamento de Estudos Chineses da Universidade Bordeaux Montaigne.

 

1 “‘Eradicating ideological viruses’. China’s campaign of repression against Xinjiang’s Muslims” [“Erradicando vírus ideológicos”. A campanha de repressão chinesa contra os muçulmanos do Xinjiang], Human Rights Watch, Nova York, 9 set. 2018.

2 Adrian Zenz, “‘Thoroughly reforming them towards a healthy heart attitude’: China’s political re-education campaign in Xinjiang” [“Uma verdadeira reforma em busca de sentimentos saudáveis”: a campanha chinesa de reeducação política no Xinjiang], Central Asian Survey, Abingdon-on-Thames, set. 2018.

3 A dinastia Han durou de 206 a.C. a 220 d.C.; a Sui, de 581 a 618; e a Tang, de 618 a 907. Mas seu domínio sobre o Xinjiang não necessariamente se manteve ao longo de todo o reinado.

4 Essas brigadas, criadas em 1954 e mantidas sob comando militar, são responsáveis tanto por colonizar como por proteger as fronteiras.

5 Emirado de Kashgar de Yacoub Beg, entre 1864 e 1877; Emirado de Khotan, depois República Turca Islâmica do Turquistão Oriental em Kashgar, em 1933-1934; República Pró-Soviética do Turquistão Oriental nos três distritos do norte do Xinjiang entre 1944 e 1949.

6 Dru Gladney, “Internal colonialism and the Uyghur identity: Chinese nationalism and its subaltern subjects” [Colonialismo interno e identidade uigur: o nacionalismo chinês e seus sujeitos subalternos], Cahiers d’études sur la Méditerranée orientale et le monde turco-iranien (Cemoti), n.25, Paris, jan.-jun. 1998.

7 Formados no modelo afegão, os jihadistas batalharam por mais de dez dias.

8 “East Turkistan forces cannot get away with impunity” [Forças do Turquistão Oriental não podem sair impunes], People’s Daily, Information Office of State Council, Beijing, 21 jan. 2002.

9 Cf. “China: State control of religion, update number 1” [China: controle estatal da religião, dados atualizados 1], Human Rights Watch, mar. 1998.

10 “Devastating blows: Religious repression of Uighurs in Xinjiang” [Golpes devastadores: repressão religiosa sobre os uigures no Xinjiang], Human Rights Watch, 11 abr. 2005.

11 “China: Gross violations of human rights in the Xinjiang Uighur autonomous region” [China: brutais violações dos direitos humanos na região autônoma uigur do Xinjiang], Anistia Internacional, 31 mar. 1999.

12 Ler Martine Bulard, “Quand la fièvre montait dans le Far West chinois” [Quando a temperatura subiu no extremo oeste da China], Le Monde Diplomatique, ago. 2009.

13 Instalações de defesa construídas sob as montanhas. Cf. Tom Phillips, “China: Xi Jinping wants ‘Great Wall of Steel’ in violence-hit Xinjiang” [China: Xi Jinping quer “Grande Muralha de Aço” contra violência no Xinjiang], The Guardian, Londres, 11 mar. 2017.

14 Gardner Bovingdon, The Uyghurs in Xinjiang: Strangers in Their Own Land [Uigures do Xinjiang: estrangeiros em sua própria terra], Columbia University Press, Nova York, 2010.

15 Jérôme Doyon, “Actively guiding religion under Xi Jinping” [Empenho no controle da religião por Xi Jinping], Asia Dialogue, 21 jun. 2018. Disponível em: <http://theasiadialogue.com>.

16 “The modern Chinese State and strategies of control over Uyghur Islam” [O Estado chinês moderno e suas estratégias de controle sobre o islã uigur], Central Asian Affairs, v.2, n.3, Washington, DC, 2015.

17 Adrian Zenz, op. cit.

18 Josh Chin e Clement Bürge, “Twelve days in Xinjiang: How China’s surveillance State overwhelms daily life” [Doze dias no Xinjiang: como o vigilante Estado chinês domina a vida cotidiana], The Wall Street Journal, Nova York, 19 dez. 2018.

19 Afeganistão, Arábia Saudita, Argélia, Azerbaijão, Cazaquistão, Egito, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Indonésia, Irã, Iraque, Líbia, Malásia, Nigéria, Paquistão, Quênia, Quirguistão, Rússia, Somália, Síria, Sudão do Sul, Tailândia, Tadjiquistão, Turquia, Turcomenistão, Uzbequistão.



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