A resistência do audiovisual indígena produzido durante a pandemia

ENTREVISTA - CINEMA INDÍGENA

A resistência do audiovisual indígena produzido durante a pandemia

por Cristiano Navarro
6 de outubro de 2021
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Alexandre Pankararu Santos nunca havia produzido audiovisual tão intensamente quanto neste período de pandemia pelo qual estamos passando. A demanda por informações e denúncias geradas pela situação de violências e vulnerabilidade à qual os povos indígenas foram expostos em tempos de Covid-19 resultou, até aqui, em cinco curtas, um média-metragem e uma web-série realizados em parceria com sua companheira, Graciele Guarani Kaiowá.

Para estas produções, Alexandre tem acionado uma rede de comunicadores e realizadores de cinema indígena a partir da posição que ocupa como Assessor de Comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme) com intuito de ampliar o alcance as vozes dos povos indígenas em nível nacional e internacional.

Como pesquisadores da Plataforma de Antropologia e Respostas Indígenas à Covid-19 (Pari-c), Alexandre e Graciele apresentaram sua primeira nota audiovisual abordando as dificuldades de acesso à água pelo povo Kapinawá no sertão pernambucano durante a pandemia. O caso também foi retratado em uma nota etnográfica publicada no portal da PARI-c. Além de “Plantando Água”, também estão disponíveis os filmes “Nossos espíritos seguem chegando”, de Kuaray Poty/Ariel Ortega e Bruno Huyer, e “Saúde da Terra”, de Olinda Muniz Wanderley, “Plantando Água”, que inaugura o canal Pari-cine no Youtube abrindo a série de documentários produzidos pela plataforma, foi o vencedor da Mostra Audiovisual da Mostra 4a RAS (Mostra Audiovisual da IV Reunião de Antropologia da Saúde – Eventos Críticos e Cotidianos de Saúde).

Produção “Plantando água” (Divulgação)

A direção de “Plantando Água” é de Graciele Guarani e a direção de fotografia e montagem são de Alexandre Pankararu, com quem conversamos.

Produção audiovisual indígena mostra os impactos da pandemia entre os povos
Alexandre Pankararu filmando com a companheira Graciela Guarani (Foto: Arquivo pessoal)

Como tem sido pra você trabalhar com audiovisual neste período de pandemia a partir da experiência na Apoinme e na Pari-c?

Alexandre Pankararu – Quando entramos neste isolamento social com todo mundo em casa, sem poder sair por conta da pandemia, naturalmente se gerou uma demanda muito grande de ações através da comunicação. Isso causou um aumento muito grande de demanda pra nós que trabalhamos com a questão do audiovisual. Trabalhar na pandemia tem seus pontos negativos e pontos positivos.

Foi uma experiência boa, porque acabamos descobrindo vários outros realizadores de cinema e comunicadores dentro das pessoas. Fomos obrigados a desenvolver e nos atualizar muito nessa questão do audiovisual à distância, coisa que a gente não tinha costume de fazer. Tivemos que nos especializar e acabamos também puxando mais pessoas para o nosso lado. Como não podíamos sair para fazer as gravações, pegar os depoimentos e captar imagens, acabamos orientando as pessoas como elas fariam essas coisas para mandar pra nós. E a princípio as pessoas não tinham muita dificuldade de filmar. Absorveram bastante o aspecto de planos, de entender roteiro. Mas a maior dificuldade que elas tiveram foi de usar os aplicativos para enviar as imagens em alta qualidade.

O ponto negativo que nós encontramos foi a falta daquele vínculo que criamos quando saímos a campo para pegar as entrevistas, para conversar com as pessoas, construindo um vínculo social e afetivo com os entrevistados, com as pessoas envolvidas no filme. Esse é o ponto mais negativo que eu que eu observei.

No mais, foi uma experiência nova, mas que deu certo. Porque não só realizamos o “Plantando águas” e os outros que sairão pela PARI-c. Nessa pandemia, eu e minha companheira fizemos quatro curtas, um média e uma web-série. Produzimos mais do que presencialmente.

Quais efeitos a pandemia teve na comunicação do movimento indígena?

Essa pandemia não é só uma pandemia, ela é também várias epidemias juntas ao mesmo tempo. Especialmente pela questão da violência contra os povos indígenas, são vários tipos de violência que vieram neste pacote, o que demandou muito a comunicação social. Nessa situação, a gente tinha que denunciar, relatar e informar como estavam os casos, curas e óbitos pela Covid-19. Além disso, houve um aumento do número de conflitos territoriais, com as forças anti-indígenas aproveitando que estávamos em isolamento, sem poder sair de casa, para invadir terras indígenas, assassinar lideranças e ameaçar nossos povos. Promovendo vários tipos de violência: desde queimar patrimônio indígena a queimar as matas. O Congresso também agiu de maneira muito desfavorável. Além das ações desse Governo, que é totalmente contrário aos direitos dos povos indígenas. Então, a boiada realmente passou e está passando. Isso tudo trouxe uma demanda muito grande. Infelizmente, no meio dessa demanda, as boas notícias foram poucas.

Como você percebe a mobilização da produção audiovisual a partir da Pandemia?

Uma coisa interessante e boa que aconteceu também é que nós, os comunicadores sociais indígenas, acabamos nos unindo no Brasil inteiro e fora dele. Porque além disso nós, comunicadores, também fomos ameaçados. Muita gente está com medo de golpe e de uma ditadura, mas a ditadura está presente, não é? Então com essas informações que a gente está produzindo e divulgando, a pressão do Estado também vem contra nós, comunicadores indígenas, que sofremos ameaças do Ministério Público e de agentes do Estado, tentando nos coagir para não publicar denúncias ou tirar publicações do ar. Então, isso acabado criando uma corrente muito forte para trabalhar na Comunicação Social.

Como foi para você filmar com os riscos de contaminação?

Nós tivemos poucas experiências de sair a campo. Tivemos contato não fisicamente, mas com o sofrimento de vários povos e também tínhamos a dimensão real da coisa. A gente viu que um dos problemas do coronavírus é a falta de informação. Não só a falta de informação, mas as pessoas se omitiram também a buscar informações. Nós saímos pouco, duas ou três vezes, para pegar depoimentos, mas fomos com todo cuidado, usando máscara, álcool, óculos e sempre mantendo a distância. Apesar de termos entrevistado só familiares, aqui mesmo no meu povo. E graças a Deus não fomos contaminados.

Como a Pari-c pode colaborar no fortalecimento das redes de comunicadores e realizadores audiovisual indígenas?

Eu considero a ideia fantástica, pois ela só reforça aquilo que vimos fazendo. É um espaço para aprofundar a pesquisa do impacto da pandemia nos territórios. Por meio do PARI-c, a gente nota melhor a percepção das epidemias que eu comentei, toda essa questão da violência gerada diretamente ou indiretamente pelo vírus. Mas também constata a solidariedade, uma grande corrente solidária. A PARI-c é a possibilidade de estar produzindo pesquisa e intercâmbio, não só do audiovisual, mas também nos relatórios por meio da escrita, de áudios, da oralidade. Produzir esse conhecimento é muito importante.

O que você pode falar dos filmes produzidos?

O filme que lançamos agora, o “Plantando Águas”, vem daquele pressuposto de como os povos indígenas se atualizaram para sobreviver durante a pandemia: para sobreviver, começaram a plantar águas, criar açudes. O próximo filme que a gente vai lançar fala de como fizemos para nos proteger durante a pandemia. E outros filmes estão sendo realizados, todos muito importantes.

E todos falam de autonomia?

Sim. É autonomia. Porque houve muita informação e desinformação sobre Covid-19, mas o que se sobressaiu positivamente foram lugares onde prevaleceram a informação e o conhecimento ancestral. Durante a pandemia, eu e minha companheira produzimos um filme chamado Kuña Kue a partir de um relato de uma Guarani Mbya e outro de uma mulher Pankararu. O que elas recomendaram sobre tratamentos contra Covid era a mesma coisa. E essa recomendação são mensagens vindas de nossos deuses que fazem esse conhecimento circular entre nós. Como disse um outro pajé aqui da nossa região, “nosso povo Fulniô parou de morrer quando nós paramos de tomar os remédios que vocês mandavam para nós e escutamos nossos deuses”. Eu achei impressionante, porque ele se referia aos remédios que os médicos passavam, que era o “kit-covid”. Então, essa organização e conhecimento que os povos indígenas tiveram foi forte e provocou muita gente do governo.

Cristiano Navarro é jornalista.



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