A revanche de Flandres - Le Monde Diplomatique

POLÍTICA

A revanche de Flandres

Edição - 4 | Bélgica
por Jean-Yves Huwart
1 de novembro de 2007
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Com altos índices de crescimento econômico, os flamengos não querem mais carregar nas costas os atrasados valões, que os humilharam no passado. E as tensões autonomistas põem em risco a frágil unidade nacional belga

Vindo de Valenciennes, a rodovia nacional 60 cruza o oeste da Valônia antes de penetrar na região de Flandres, rumo a Audenarde e Gand. A trilha oferece um passeio pela Bélgica contemporânea. De Peruwelz a Saint-Sauveur, do lado valão, a paisagem é campestre. As oficinas têxteis fecharam há anos. Nada, ou quase nada, entrou em seu lugar. Pólos planejados de atividade econômica ? que os belgas chamam de zonings ? brotaram nesse cantinho da província de Hainaut. Mas eles constituem em essência um punhado de galpões ou empresas de baixo valor adicionado. O fabricante de produtos à base de batata, Lutosa, é um dos únicos grandes empregadores da região. Alguns quilômetros mais além, o cenário muda. A artéria se alarga. As construções industriais se sucedem. São o testemunho de uma realidade econômica vigorosa. Você chegou a Flandres.

Flandres (cujos habitantes falam o idioma flamengo) faz parte, em 2007, das trinta regiões mais ricas da União Européia: seu produto interno bruto (PIB) por habitante atualmente ultrapassa em 23% a média européia e a taxa de desemprego na região não chega aos 6,5% [1]. O contraste com a Valônia (cujos habitantes falam o idioma francês) é cruel. Do outro lado da fronteira lingüística, o PIB por habitante é inferior em 10% à média dos Vinte e Sete (os países da União Européia) e a taxa de desemprego ultrapassou os 15% após um quarto de século [2]. Um em cada dois candidatos a emprego ficou sem trabalho nos últimos 24 meses. O desemprego entre pessoas com menos de 25 anos beira os 30%.

Ocorre que a Valônia ainda não acabou de digerir a crise da indústria pesada das décadas de 60 e 70. É verdade que nos últimos anos as águas da economia valã deram sinais de agitação. As exportações da região estão em alta e a taxa de criação de empresas igualmente. Contudo, a despeito das substanciais ajudas européias, e a despeito dos planos de mobilização, como o Contrat d?Avenir [3], a recuperação parece lenta. O governo da Valônia investe atualmente 1,5 milhão de euros por quatro anos na pesquisa, na inovação e na formação, mas os efeitos desse plano só se farão sentir dentro de dois ou três anos.

Farta das promessas de reerguimento, a opinião pública flamenga perdeu a paciência: estima-se que a persistência do atraso valão esteja lhe saindo cara demais. De fato, a região flamenga, mais produtiva, contribui bem mais que sua vizinha para as receitas do Estado federal belga. O déficit social aí é menor. Em breve, sua solidariedade direcionada à Valônia representará 3,3% do PIB do país [4].

“É mais ou menos como se cada flamengo pagasse todo dia um caneco de cerveja para um valão”, ilustra o economista e filósofo flamengo Rudy Aernoudt [5]. “Nada exorbitante, em comparação com outros intercâmbios existentes na Europa.” Em média, as transferências de Flandres para a Valônia equivalem à cota que as regiões mais ricas da França consagram ao Languedoc-Roussillon e são risíveis em relação ao que a região de Estocolmo, na Suécia, paga à Lapônia.

Flandres no entanto não presta mais atenção nessas comparações, uma vez que o problema não deriva apenas das transferências. Sua classe política está amargurada. E coleciona más novas em alguns setores estratégicos. Em setembro, o grupo farmacêutico Jansenn, cuja implantação na província flamenga de Limbourg parecia irrepreensível, anunciou a supressão de 688 empregos, ao mesmo tempo em que a gigante química Bayer suprimia trezentos postos de trabalho às margens do Escaut [6]. O comércio de diamantes de Anvers, por sua vez, sofre a concorrência cada vez maior de Dubai. Quanto à fábrica da Audi em Bruxelas (que os flamengos, ao contrário dos bruxelenses e valões, consideram parte de Flandres), jóia das montadoras automobilísticas belgas, parece mais uma vez em suspenso menos de um ano após a última reestruturação.

As empresas flamengas sentem sua competitividade ameaçada. De onde o consenso em favor de uma flexibilização drástica do quadro econômico. Os dirigentes querem reformas liberais e estão convencidos de que não serão capazes de obtê-las com os representantes francófonos a seu lado. Além do fosso cultural, um abismo ideológico se abriu igualmente entre as duas comunidades. A classe política francófona permanece dominada pelo Partido Socialista (PS), que, a partir das duas legislaturas federais precedentes, freou a adoção de medidas visando ampliar a flexibilidade do trabalho ou aliviar de forma significativa a carga tributária das empresas. Agastados com o que consideram como entraves francófonos, os governantes flamengos querem recuperar sua liberdade de manobra: exigem assim que para as regiões sejam transferidas novas competências (emprego, imposto sobre pessoa jurídica, direito trabalhista, além de alocações familiares).

Ironia do destino,dia 10 de junho de 2007, o PS, após duas décadas no poder, perdeu as eleições para o Legislativo na Valônia e em Bruxelas. O partido não é mais incontornável. Mas a mão boa chegou tarde demais nesse jogo: pelo lado flamengo, a lógica autonomista segue de agora em diante a pleno vapor e nada parece querer detê-la. O ímpeto pela autonomia ? no qual está enxertada a busca de uma homogeneidade cultural e geográfica definitiva ? tornou-se irreprimível. Pois extrai sua força das conquistas da Flandres contemporânea.

Ao longo da primeira metade da existência da Bélgica, Flandres não era reconhecida nem culturalmente, nem economicamente. O francês era a língua da burguesia, da literatura, da política. Flandres, decerto, podia se orgulhar de um passado glorioso: Bruges, Gand e Anvers haviam brilhado por séculos na Europa. Mas, na aurora do século 20, as grandes fábricas encontravam-se majoritariamente na Valônia. Seus engenheiros eram exportados para a Rússia ou a Austrália, ao passo que os operários flamengos migravam? para a Valônia. Seus habitantes, tidos como os mais empreendedores do Velho Continente, faziam questão de ignorar o flamengo, considerado um dialeto popular.

As frustrações da população e das elites no norte do país atiçaram os brios flamengos. Para recuperar seu lugar, Flandres devia voltar a ser próspera. Logo após a Primeira Guerra Mundial, esse objetivo virou uma obsessão entre a classe mandante. Em 1926, foi fundada a associação Vlaams Economisch Verbond. Uma instituição bancária essencialmente flamenga, a Kredietbank, nasceu alguns anos depois. Ela iria financiar e encaminhar centenas de pequenas e médias empresas para os mercados de exportação. O crescimento do intercâmbio comercial, com o Congo e outras regiões, injetou ânimo no tráfego do porto de Anvers.

Essa espiral virtuosa se ampliou a partir dos anos 50. Os investidores estrangeiros, notadamente americanos, acorreram em massa a Flandres para lucrar com as oportunidades de ouro, a excelente localização e os generosos auxílios econômicos prodigalizados pela Bélgica. Os responsáveis políticos flamengos se valeram de seu peso demográfico para fazer pender em seu benefício as decisões tomadas no seio do Estado belga [7]. Este se endivida profundamente a fim de financiar a construção, em Flandres, de colossais infra-estruturas. Pouco a pouco, a indústria belga espalha-se em direção ao norte do país e para o litoral. A taxa de desemprego ? 19% no norte, contra 8% no sul, ao final dos anos 40 [8] ? reencontra seu equilíbrio progressivamente. Em 1967, Flandres ultrapassa a Valônia em termos de PIB por habitante. A relação de dominação se inverte de forma durável [9].

Essa reviravolta deve-se tanto à coerência da política de longo prazo empreendida em Flandres quanto à falta de reação da classe dirigente valã. Depois de 1945, a indústria valã, que sofrera menos danos com os bombardeios, conseguiu recomeçar mais rápido que as de outros países. O reverso da medalha foi que seus equipamentos tornaram-se obsoletos, pois os acionistas não reinvestiram com a rapidez necessária. Lentamente, a concorrência foi mordendo fatias do mercado. A indústria carvoeira e depois as usinas siderúrgicas fecharam, dando lugar, nos anos 60, a uma enxurrada de demissões.

Reagindo, o Estado alocou meios consideráveis para amortecer esses terríveis abalos. O setor público, por exemplo, escancarou as portas para acolher a mão-de-obra desempregada. Mas os poderes públicos prepararam mal a reconversão do velho parque industrial, principalmente estatizando a fundo perdido as empresas já de antemão condenadas.

Gerir o caos social na Valônia, ao mesmo tempo em que financiava o desenvolvimento econômico de Flandres, estava além da capacidade da Bélgica: no início dos anos 80, a dívida pública chegou perto de 100% do PIB. E o governo do país teve de desvalorizar o franco para evitar a bancarrota.

Foi nessa mesma época que as reformas institucionais de 1980, 1988 e 1993 fizeram da Bélgica um Estado federal: dali para a frente, as regiões valã, flamenga e bruxelense passariam a conduzir suas próprias políticas econômicas.

Ao longo dos vinte anos seguintes, Flandres continuou a colher o que plantou. Em compensação, Bruxelas e Valônia, vítimas de suas próprias divisões internas, não conseguiram lucrar com a autonomia regional. Na capital, o desemprego cresce, a uma taxa que beira os 20%. Na Valônia, áreas como Arlon, Mouscron ou a província do Brabant valão se desenvolveram nos anos 90. Mas o movimento não se estendeu ao restante da região.

Flandres saboreia uma revanche histórica [10]. Ninguém, no entanto, parece saber como pôr um ponto final nesse processo de emancipação. Se a tendência, na Espanha, na França ou no Reino Unido, é a descentralização dos poderes, a independência de Flandres criará um tumulto no Velho Continente. É por isso que a Europa inteira está de olho nas ações flamengas. E seus políticos bem

*Jean-Yves Huwart é jornalista da revista belga Trends-Tendances e autor de Le second déclin de la Wallonie (Bruxelas, Racine, 2007).



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