A Rússia pós-soviética e a memória do império perdido

FUTURO RUSSO EM SEU PASSADO GLORIOSO

A Rússia pós-soviética e a memória do império perdido

por Virgínio Gouveia
11 de agosto de 2021
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Provavelmente nenhum outro país do planeta está, atualmente, tão inspirado por seu passado quanto a Rússia. Para ser mais exato, seria preciso dizer que não é o país que está fascinado, mas sim, uma vanguarda política, ortodoxa e oligárquica

Na Rússia de hoje a privatização estatal de certos eventos históricos relevantes, os quais nos remetem, de modo solícito à memória da Rússia imperial e até mesmo socialista, servem como uma espécie de cola nacionalista unificadora. Naturalmente, o principal, mas não o único, evento nesse arsenal é a vitória na Grande Guerra Patriótica, modo como é conhecida a Segunda Guerra Mundial para os russos.

 

O fantasma do império russo ronda o espaço pós-soviético

Observa-se o quanto a política sobre a memória configura-se como algo especialmente relevante, ao passo que o governo russo a usa para controlar o “seu território histórico”. Nos últimos anos, um monumento representando Josef Stalin foi instalado no centro de Moscou; um busto em homenagem ao príncipe Vladimir, que estabeleceu o cristianismo ortodoxo na Rússia, foi posto próximo ao Kremlin.

A estátua do príncipe poderia ser facilmente substituída por qualquer outro monumento que representasse a figura de mais um personagem histórico da Rússia medieval, do czarismo ou de qualquer outro secretário geral da finada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, exceto Vladimir Lênin.

Aos poucos as imagens do fantasma histórico russo imperial estão ocupando o espaço no mundo russo contemporâneo. Aqui e ali cruzamos com bustos de Ivan III, czar que unificou a Rússia; Alexandre III e Ivan IV, o Terrível: primeiro governante da Rússia a assumir o título de czar, sob seu reinado a Rússia  conquistou a Tartária e a região da Sibéria, além também de ter transformado o país em um estado multiétnico.

Curiosamente durante as duas últimas décadas do mundo pós-soviético nenhuma estátua foi construída para homenagear a imperatriz Catarina, a Grande. Imperatriz russa que governou o país de 1762 a 1796 e teve a proeza de anexar a Crimeia, pela primeira vez, em 1783. Diga-se de passagem: após a tentativa frustrada de Pedro, o Grande; muito antes de Nikita Kruschev cedê-la em caráter amistoso à República Socialista da Ucrânia em 1954 e quase três séculos antes da (re)anexação realizada por Vladimir Putin em 2014.

O colonialismo e a expansão territorial russa foi um processo histórico de descoberta e conquista de novos espaços territoriais dominados pelos russos. Em meados do século 19 a Rússia era de longe uma das maiores potências do planeta, com um alcance territorial que se estendia para o Alasca, Ásia Central, Cáucaso, Ucrânia e Finlândia, alcançando inclusive a Ilha Sacalina que está localizada mais próxima à Pequim do que Moscou.

Enquanto os impérios europeus ocidentais se aventuravam na grande expansão marítima comercial, o império russo realizava sua expansão territorial para o leste, sudoeste e sudeste, alcançando, até mesmo, o oceano pacífico. Em 1542 a Rússia já havia conquistado a Sibéria ocidental; em 1620 a central e em 1650 a oriental. Em 1671 alcançou o oceano pacífico e, em 1742, deu-se a exploração do Alasca.

Hoje, como sabemos, nem o império russo (1721-1917), nem muito menos a União Soviética (1922-1991) existem mais. Esta segunda, aliás, nasceu da necessidade de construir um mundo pós-imperial, não obstante, por força das contingências históricas e para garantir sua própria sobrevivência no tabuleiro geopolítico internacional viu-se –  especialmente após 1945 – quase que “obrigada politicamente” a comportar-se como um império.

Em política o modo como os Estados narram a sua própria história deve encontrar mais sentido de ser em seu desejo político presente e em sua intrínseca prospecção futura, do que exatamente, no que fora concretamente a história desse passado. O que seria a Rússia de hoje?

Três décadas após o colapso do bloco soviético e em um cenário político encharcado pela ideologia ortodoxa feudal, talvez poderíamos compreender melhor a Rússia de Putin estudando o seu passado. Mais de um século após a queda do absolutismo russo –   estaria mesmo a Rússia pós-soviética rondada pelo espectro dos Romanov?

Rússia
A Família Imperial Russa em 1913 no Palácio de Livadia (Imagem: Domínio público)

Rússia: memória, sentido e poder 

Em janeiro de 2014, quase ninguém deu a devida atenção ao fato de a cúpula dos políticos ligados ao Kremlin, governadores regionais do partido Rússia Unida foram presenteados pela administração presidencial com livros de pensadores do século 19. Curiosamente, em pleno século 21, Putin é visto por muitos como Pedro, o Grande – czar que fundou o império russo em 1721. Enquanto outros insistem em aproximá-lo a Alexandre I, o czar russo que contribuiu para a derrota de Napoleão em 1815.

Nesse amálgama imperial russa embora exista a preservação simbólica-formal (leia-se – imagens esvaziadas de sentido originário) das conquistas soviéticas, como observar-se o uso propagandístico do Sputnik soviético no batismo da vacina russa – Sputnik V – ou quando assistimos o grandioso desfile para rememorar a vitória dos soviéticos contra o exército nazista de Hitler na Grande Guerra Patriótica. Por outro lado, há um ponto predominante da estratégia política da memória histórica, o qual consiste numa espécie de atualização e astuciosa refeudalização da política em marcha.

Ao passo que todos os espectros do velho império cumpre um acerto de contas histórico. Isto é, os fantasmas da Rússia imperial destruída pelos bolcheviques em 1917 vingam-se através da consciência temporal do cristianismo ortodoxo; do conservadorismo russo “pan-eslavófilo” e do eurasianismo contra os vermelhos e tudo aquilo que assemelha-se aos valores ocidentalistas.

Ousadamente poderíamos também apostar numa outra hipótese mais instigante, segundo a qual haveria então na Rússia de Putin uma espécie de “(re)conciliação histórica/formal” entre a Rússia imperial e a Rússia socialista sintetizada na Rússia contemporânea pós-soviética.  O nome do maior partido da Rússia atual nos oferece uma dica – Rússia Unida. Unir o irreconciliável. Nós não já assistimos esse filme?

No Brasil tornou-se comum caracterizar os governos do PT como governos de conciliação de classes. Na Rússia não tratar-se-ia de uma simples conciliação de classes mediada por determinado governo, mas sim, de uma (re)conciliação de mundos absolutamente diferentes. Não precisamos nos esforçar muito para demonstrar que essa (re)conciliação formal oculta um vulcão de conflitos adormecidos.

Assim, então, a equação dar-se-ia nos seguintes termos: o tradicionalismo memorial do império russo e o cristianismo ortodoxo em matrimônio com o Estado e seus sustentáculos do capitalismo oligárquicos compõem o essencial do poder político. Por outro lado, o que restou do velho Partido Comunista ressurgido na década de 1990 sob a forma do Partido Comunista da Federação Russa e tudo aquilo que pode ser consumido como nostalgia soviética pode conviver no mesmo país, na medida em que se encontrem em um degrau político inferior do poder e que possam, sempre que for conveniente, ocupar o lugar daqueles que serão cooptados. Como uma espécie de potenciais consciências traidoras.

O tema da traição ideológica parece ser um tópico muito mais profundo. Ele nos exigiria argumentar sobre o colapso construído através de uma dialética interior – o qual resultou no fim da União Soviética. Afinal de contas, não poderíamos escapar da indagação: como os comunistas tornaram-se oligarcas?

Quando Trotski, em seu exílio na Noruega, redigiu a Revolução Traída (1937), o grau de traição dos revolucionários encontrava-se em um estágio “tão ínfimo” da contrarrevolução. Ao passo que hoje – se comparássemos a traição stalinista com o golpe da contrarrevolução oligárquica capitalista levado a cabo no ínicio dos anos de 1900 – o lider soviético, mesmo com todos os seus desvios,  poderia ser visto atualmente como “um expoente da Revolução Permanente”.

Na Rússia, nada é mais difícil de prever do que o passado. A frase compreende o passado como produto permanente de uma (re)configuração. Isto é, o passado trata-se de algo muito mais complexo do que simples acontecimentos, sobretudo, comporta em si mesmo, a hermenêutica do poder, na qual a história é encarada e compreendida pelas preocupações políticas do presente.
Na Rússia de hoje, todos nós percebemos a tentativa de transformar o futuro russo em seu passado glorioso. Trata-se da busca pela (re)fundação de um império perdido, onde presenciamos um esforço de resgatar, após o colapso do bloco soviético, todas as páginas das mais gloriosas vitórias históricas do passado, instrumentalizando-as em um projeto de futuro. O que se transfigura em algo absolutamente discernível se considerarmos a configuração geopolítica atual. O quão próximo as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) se encontram das fronteiras delineadas ao leste europeu e o lugar que a Rússia ocupa no tabuleiro geopolítico mundial.  À vista disso, a estatização da memória histórica torna-se algo explicitamente compreensível.

Eis a força do impacto: a verdade genuinamente russa contra a russofóbica verdade do mundo. Como não nos deixa esquecer a teoria marxista, trata-se de um preceito geopolítico fundamentado nos conflitos maniqueístas entre Estado-nações – o qual nega a existência profunda e irreconciliável das classes.  No entanto, seja sob o manto do comunismo, do czarismo ou sob o poderio do capitalismo oligárquico pós-soviético, a Rússia nunca deixou de ser um território geopolítico perpassado por conflitos complexos.

Seja como for, o futuro de um país cercado e constantemente ameaçado, com uma história agitada e uma complexidade composta de mais 100 etnias diferentes convivendo no mesmo território, dependerá de sua própria capacidade de manter-se unido internamente.

Aliás, é justamente onde encontra-se a missão trans-histórica dos fantasmas da Rússia imperial ou/e socialista rondando o espaço pós-soviético na Rússia contrarrevolucionária de Vladimir Putin.

 

Virgínio Gouveia é doutorando em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com estadia em andamento no Instituto de Filosofia de Moscou/ Rússia – Academia de Ciências da Rússia (Rossiyskaya Akademiya  Nauk, Ran)



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