A Rússia voltou - Le Monde Diplomatique

DIPLOMACIA BELIGERANTE

A Rússia voltou

por Jacques Lévesque
2 de dezembro de 2013
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Enquanto as revelações de espionagem sistemática dos aliados embaraçam Washington, Moscou enfileira sucessos na cena internacional (Snowden e Síria). Herdeira de uma diplomacia temida, mas enfraquecida após o fim da URSS, a Rússia acredita ter finalmente retomado o posto de grande potênciaJacques Lévesque

(Os presidentes Barack Obama e Vladimir Putin durante encontro do G8, em Lough Erne, Irlanda)

Nos últimos meses, o presidente russo Vladimir Putin teve dois grandes sucessos na cena internacional. Em agosto, ofereceu asilo ao técnico em informática norte-americano Edward Snowden, autor de vazamentos retumbantes dos sistemas de vigilância digitais da Agência Nacional de Segurança (National Security Agency, NSA). Ele pôde, assim, vangloriar-se do fato de a Rússia ter sido o único Estado do mundo capaz de resistir às exigências de Washington. Até mesmo a China havia tirado o corpo fora, seguida pela Venezuela, Equador e até Cuba, que multiplicaram o grupo que evitou se comprometer.

Paradoxalmente, as pressões exercidas pelo vice-presidente Joe Biden e pelo próprio presidente Barack Obama junto aos governos tentados a acolher o jovem norte-americano contribuíram amplamente para o sucesso de Putin. Washington agiu como se Snowden representasse um risco para a segurança quase compatível ao que encarnava o antigo dirigente da Al-Qaeda, Osama bin Laden. Eles inclusive obtiveram de seus aliados que interditassem seu espaço aéreo ao avião do presidente boliviano Evo Morales,1 suspeito de transportar o técnico em informática. Tal atmosfera contribuiu para colocar em evidência a “audácia” de Putin tanto no panorama político russo quanto no internacional. Em Moscou, muitos de seus oponentes felicitaram seu gesto, em nome da defesa dos direitos e das liberdades civis.

Mas o verdadeiro sucesso, com um alcance muito maior, aconteceu no caso sírio. Graças à promessa que Putin conseguiu arrancar de Bashar al-Assad – destruir, sob controle internacional, todas as armas químicas de seu país –, Obama teve de suspender “provisoriamente” os bombardeios punitivos que cogitava. Até então, a Casa Branca havia ameaçado a Rússia de isolamento internacional, difamando-a por seu apoio ao regime de Damasco e sua oposição a todas as sanções da ONU. Agora, Putin aparece como o homem de Estado que conseguiu evitar uma expedição militar de consequências duvidosas.

Ainda nesse caso, sua vitória foi facilitada pelo cálculo equivocado da administração norte-americana. Depois de ter engolido a recusa do Reino Unido em se associar à operação que planejava, Obama estava prestes a conhecer um segundo fracasso, com consequências imprevisíveis, em sua tentativa de obter o aval do Congresso. Mesmo “inacreditavelmente limitadas”, segundo os termos do secretário de Estado John Kerry,2 as represálias militares eram notoriamente repugnantes a ele. No dia seguinte ao acordo, o jornal Izvestiadava a seguinte manchete: “A Rússia socorre Obama” (12 set. 2013).

De modo prudente, o presidente russo não manifestou a mesma ironia triunfalista que seus bajuladores. Em conjunto com sua diplomacia, ele viu nesses últimos acontecimentos um sinal dos tempos e uma oportunidade histórica que não podia ser desperdiçada de jeito nenhum.

Há dois anos, a atitude da Rússia no conflito sírio coloca em evidência concomitantemente seus medos e suas frustrações, mas também seus objetivos e suas ambições a longo prazo no panorama internacional. Ao mesmo tempo, esclarece os problemas enfrentados por Putin internamente.

As duas guerras da Chechênia (1994-1996 e 1999-2000) deixaram muitas sequelas. Mesmo que os atentados e ataques contra as forças da ordem não tenham mais o mesmo alcance e não façam mais tantas vítimas, eles continuam frequentes no Cáucaso do Norte e se propagam de forma lenta e contínua em particular no Daguestão e na Inguchétia. Os grupos militantes chechenos são menos coordenados, mais dispersos, mas sempre presentes.

Sensação de rebaixamento

Tal qual o fazem observadores norte-americanos como Gordon Hahn, pesquisador do Center for Strategic and International Studies (CSIS), em Washington,3 grande parte da imprensa russa estima que centenas de militantes vindos da Rússia combatam na Síria contra o regime. Isso poderia explicar a continuidade das entregas de armas ao governo de Al-Assad. Para Putin e seus aliados, um colapso do Exército sírio faria do país uma nova Somália, mas com muito mais armas, numa região bem mais perigosa e com possibilidade de oferecer uma base de apoio aos combatentes que operam na Rússia. Foi preciso tempo para esses temores começarem a ser partilhados em Washington, ou, então, a resistência das forças fiéis a Al-Assad tinha sido subestimada.

No que tange aos objetivos da política internacional, com frequência se reduzem os interesses russos no conflito sírio à preservação de Tartus – a única instalação (mais do que base) militar naval da Rússia no Mediterrâneo – e à manutenção no poder de um de seus clientes no mercado armamentista. Sem serem totalmente negligenciáveis, essas considerações não explicam a obstinação de Moscou, que procura sobretudo retomar um lugar e um papel na ordem social pós-soviética.

Desde 1996, com a ascensão do acadêmico Evgeni Primakov ao Ministério das Relações Internacionais, bem antes da chegada de Putin (que se tornou presidente em 2000), um consenso se instalou no seio das elites políticas. Desde então, ele não deixou de ser reforçado: os Estados Unidos procuram impedir o reerguimento da Rússia como potência. Os partidários de tal análise veem a prova disso nas ampliações sucessivas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para os países bálticos e do Leste, e na vontade norte-americana de incluir a Geórgia e a Ucrânia, em violação às promessas feitas a Mikhail Gorbatchev para arrancar seu consentimento à integração da Alemanha unificada na entidade. Washington, afirmam os diplomatas russos, procura diminuir a influência de seu país até mesmo na região mais legítima de seus interesses.

Para o Kremlin, a manobra do Conselho de Segurança da ONU pelos Estados Unidos e seus aliados para a imposição de sanções internacionais e ainda mais para guerras como a do Kosovo, em 1999, e do Iraque, em 2003, constitui uma maneira de evitar qualquer renegociação numa base que obrigaria Washington a tomar uma posição que não fosse marginal aos interesses russos. Moscou expressa uma aversão profunda com relação às operações militares externas e, pior, às mudanças de regime orquestradas sem o aval do Conselho de Segurança.

Ao se opor a qualquer operação contra a Síria, a Rússia invocou constantemente o precedente líbio de 2011. Ela se absteve quando do voto da Resolução n. 1.973, cujo objetivo proclamado era proteger as populações, mas que foi deformado para justificar uma intervenção militar e a queda de Muamar Kadafi.

Em Moscou predomina hoje uma visão essencialmente geopolítica das relações internacionais – velha tradição na Rússia. Desde 1996, o objetivo central e oficial da política externa é reforçar a tendência à multipolaridade no mundo. Realista quanto às capacidades atuais e até mesmo futuras de seu país, Putin – como Primakov, antes dele – estima que a Rússia precisa de parceiros para avançar nessa via multipolar.

A China tornou-se, então, o mais importante de seus parceiros estratégicos. A união dos dois países no Conselho de Segurança é permanente, principalmente no caso sírio, assim como foi no do Irã e da Líbia, ou da guerra do Iraque de 2003. Mais paciente e confiante em seus meios, Pequim deixa Moscou ocupar a cena principal na defesa de suas posições comuns.

Desde o princípio dessa parceria, os analistas ocidentais predizem seu desmoronamento, em razão dos temores das elites russas diante do peso demográfico e econômico da China. No entanto, a cooperação não para de crescer, tanto no plano econômico (exportação do petróleo e das armas russas) como no político (acordos no seio da Organização de Cooperação de Xangai)4 e militar: quase todo ano acontecem manobras e exercícios conjuntos implicando forças aéreas, terrestres e navais.

Reequilíbrio da ordem mundial

Claro, existem zonas de atrito, por exemplo, a respeito do comércio com os países da Ásia Central pós-soviética, onde a China, desde 2009, ultrapassou a Rússia. Mas Pequim até agora respeitou a preferência dos interesses geopolíticos de seu vizinho e não procurou introduzir suas bases. O governo chinês reconhece o Tratado de Segurança Coletiva assinado entre Moscou e a maioria dos Estados da região.5 Por outro lado, apesar das solicitações repetidas do Kremlin, que quer uma cooperação entre a Otan e o Tratado de Segurança Coletiva como base da cooperação no entorno do Afeganistão, os Estados Unidos sempre se recusaram, preferindo tratar separadamente com cada Estado todos os problemas, como a instalação de bases ou a passagem dos fornecimentos para suas tropas.

Putin não busca uma competição a qualquer preço com os Estados Unidos, para a qual ele, evidentemente, não possui meios. É certo que, se cada um acusa o outro de adotar uma mentalidade de Guerra Fria, isso pode gerar confusão. Mas quando a Rússia se alegra com as derrotas internacionais de Washington, é mais por despeito do que por espírito de revanche. Assim, ela não deseja uma derrota dos Estados Unidos no Afeganistão nem sua retirada precipitada do país. Quanto ao enfrentamento no caso sírio, isso diz respeito, em primeiro lugar, às regras do jogo internacional. A Rússia procura um reequilíbrio da ordem mundial que faria que suas relações com os Estados Unidos e com o mundo euro-atlântico recomeçassem sobre uma base nova – o que não impede também que haja uma competição feroz em alguns setores onde ela se encontra bem armada: assim, ela tem grandes chances de ver seu projeto de gasoduto South Stream ganhar do projeto Nabucco, apoiado por Washington.6

Está na hora de o grande reequilíbrio perseguido obstinadamente pelo Kremlin acontecer? Sua ambição de recuperar outro papel que não o de subalterno estaria se realizando? O sucesso de Putin no caso sírio alimenta o sentimento – ou talvez a ilusão – de que a multipolaridade estaria se impondo a Washington. A deserção do Reino Unido, o aliado incondicional dos Estados Unidos, seria um sinal dos tempos, assim como os debates que se seguiram após o encontro do G20 em São Petersburgo, onde uma oposição a qualquer aventura militar na Síria se expressou com força.7 A aversão que se manifestou no Congresso norte-americano seria outra.

Para os analistas russos mais sóbrios, não se deve mirar nos neoisolacionistas do Congresso, mas em Obama, ou seja, em quem não quer um desengajamento desestabilizador, mas deseja um alívio dos conflitos mais perigosos com base em compromissos internacionais – sendo os dois conflitos mais ameaçadores os que dizem respeito à Síria e ao Irã (e que estão estreitamente ligados), para cuja solução a Rússia estima poder contribuir muito.

A aproximação entre Washington e Moscou no caso sírio começou bem antes da espetacular reviravolta de setembro. Em maio de 2013, John Kerry tinha expressado ao seu homólogo russo sua aprovação a respeito do projeto de uma conferência internacional consagrada ao futuro da Síria, continuando ao mesmo tempo a exigir a saída de Al-Assad. No encontro do G8 de junho em Lough Eme, na Irlanda do Norte, uma declaração comum sobre a Síria foi retardada para obter o aval de Putin. O compromisso de Al-Assad de se desfazer de suas armas químicas, se for confirmado, dará ao dirigente russo uma legitimidade junto às chancelarias ocidentais.

Moscou já insiste há meses para que Teerã participe da conferência internacional planejada, a fim de que ela tenha uma chance de se realizar. Até agora, estimulados por Israel, os Estados Unidos recusaram. É por isso que a Rússia se empenha em ativar o diálogo iniciado entre Obama e o novo presidente iraniano, Hassan Rohani. Mesmo um princípio de compromisso no caso nuclear facilitaria uma dinâmica de grupo. Moscou trabalha, inclusive, para reforçar suas relações com o Irã, que se degradaram após seu alinhamento com numerosas sanções solicitadas por Washington ao Conselho de Segurança em 2010. Na época, Moscou anulou a entrega de mísseis de defesa antiaérea SS-300 a Teerã.

Oportunidade desperdiçada

Não é a primeira vez que Putin busca estabelecer uma relação forte com os Estados Unidos, sobre a base de uma igualdade ao menos relativa. Isso foi visto após os ataques de setembro de 2001, quando ele acreditou ver a abertura de uma fresta de oportunidade. Sem condição prévia, ele facilitou a instalação de bases militares norte-americanas em seus aliados da Ásia Central para a guerra do Afeganistão. E para significar sua vontade de ir ainda mais longe nesse abrandamento, ele fechou as últimas instalações militares soviéticas de vigilância em Cuba (pouco importantes, é verdade). Mas, nos meses que se seguiram, George W. Bush deu o sinal verde final para a entrada das três repúblicas bálticas na Otan e anunciou a retirada norte-americana do tratado de defesa antibalística (ABM), que limitava estritamente as armas de defesa antimíssil. O avanço chegou ao fim. Putin estima que agora seja possível retomar uma cooperação mais bem-sucedida.

Uma hipoteca importante pesa, no entanto, sobre as chances de tal evolução; e ela tem a ver com os negócios internos russos. Desde seu retorno à presidência, em 2012, num contexto de manifestações populares de oposição de grande amplitude em Moscou, Putin, para melhor estabelecer seu poder, passou a cultivar o antiamericanismo como um dos componentes do nacionalismo russo. Isso aparece principalmente nas leis que obrigam as ONGs russas que recebem financiamentos do exterior, mesmo que sejam poucos, a se declararem a serviço de interesses estrangeiros. Encontra-se aqui um rastro de sua formação na KGB, que o leva a ver as manobras e influências externas como a causa essencial dos problemas internos e como fatores de instabilidade política. Um agravamento ou, pelo contrário, uma correção do déficit de legitimidade de seu poder pesará inevitavelmente na realização de suas ambições internacionais.

Jacques Lévesque é professor da faculdade de Ciências Políticas e Direito da Universidade de Québec, em Montreal, e autor, entre outros livros, de 1989, la fin d’un empire: l’URSS e la libération de l’Europe de l’Est. [1989, o fim de um império: a URSS e a libertação do Leste Europeu], Paris, Presses de Sciences Po, 1995.



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