“A sociedade brasileira vive um fracasso medonho” - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA CLÁUDIO ASSIS

“A sociedade brasileira vive um fracasso medonho”

por Guilherme Henrique
novembro 5, 2018
Imagem por Daniel Kondo
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Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, cineasta pernambucano analisa polarização no país e fala sobre seu próximo filme, Piedade, que será lançado em 2019

“Machista é o caralho”, esbravejou Cláudio Assis quando os microfones do Le Monde Diplomatique Brasil estavam prestes a ser desligados, terminada a entrevista em um hotel no centro da cidade de São Paulo. O desabafo, carregado de ironia e incômodo, faz menção às vaias que o diretor recebeu no Festival de Brasília de 2015. Meses antes, uma intervenção sua durante um debate entre Anna Muylaert e Lírio Ferreira, no Recife, lhe rendeu o rótulo de machista.

À ocasião, Assis deixou o palco do festival com o prêmio de melhor filme, com seu último longa-metragem, Big Jato. A obra também venceu nas categorias de melhor roteiro (Hilton Lacerda e Ana Carolina Francisco), atriz (Márcia Calixto), ator (Matheus Nachtergaele) e trilha sonora (DJ Dolores).

Polêmicas à parte, o novo filme do cineasta pernambucano não foi visto no festival deste ano. “Brasília já foi, não é?”, questionou o diretor. “De qualquer maneira, não sei se iam me querer por lá”, afirmou em seguida. Assim, o quinto longa-metragem de Cláudio Assis, intitulado Piedade, deve estrear fora do Brasil. “Estamos tentando o Sundance”, adiantou. A próxima edição do tradicional evento, sediado em Utah, nos Estados Unidos, será entre 24 de janeiro e 3 de fevereiro de 2019.

Com roteiro de Hilton Lacerda (parceiro desde Amarelo manga) e Ana Carolina Francisco, Piedade, ainda que provavelmente estreie no exterior, é um filme brasileiro, sobre o Brasil. Ambientado na região metropolitana do Recife, Cláudio Assis narra a presença de tubarões no litoral pernambucano, afetados pelas mudanças ambientais provocadas pelo capitalismo. “No filme, empresários construíram um porto e acabaram com os dois rios da região. Os tubarões não têm mais onde encontrar alimento; com isso, eles se perdem e vão para o Recife. É uma alegoria da realidade, mas é também um filme singelo”, explica.

Piedade terá alguns parceiros habituais de Cláudio, como Irandhir Santos (Baixio das bestas e Febre do rato) e Matheus Nachtergaele (Amarelo manga, Baixio das bestas e Big Jato), mas também inaugura novas relações, com Cauã Reymond e Fernanda Montenegro. A presença de Fernanda Montenegro, aliás, é enaltecida em momentos diversos da entrevista. “A grandeza que a Fernanda tem é muito importante”, disse Assis. Na obra, a atriz interpreta Carminha, proprietária de uma pousada na cidade e que teve o filho roubado na maternidade, interpretado por Cauã Reymond, dono de um cinema pornô. A descoberta do vínculo entre os personagens se dá após a morte de Fernanda Montenegro no filme.

Ao longo dos últimos anos, Cláudio Assis tem sido questionado por filmes considerados “violentos”. Em Amarelo manga, uma vaca é abatida com facadas na cabeça, enquanto o sangue escorre pelo chão e o animal é arrastado por uma corda. A sexualização infantil foi o tema de discórdia em Baixio das bestas, quando o corpo da atriz Mariah Teixeira foi utilizado para denunciar a prostituição infantil nos recônditos do país. “Meu gênero é ficção, mas se choca muito com o documentário”, argumenta Assis, que define Piedade como um “beijo na sociedade” e um trabalho que “move as pessoas de lugar”.

Representante da produção exponencial do cinema pernambucano iniciada em meados da década de 1990, ao lado de Lírio Ferreira (Baile perfumado, 1996), Cláudio Assis acredita que a filmografia contemporânea, inclusive no eixo Rio-São Paulo, está tomada pelo estilo Globo Filmes. “O cinema brasileiro, hoje, padece de uma vontade própria. Ou a gente luta e bota pra foder nesses caras, ou vamos fracassar” analisa. A apatia cinematográfica está refletida em uma sociedade “polarizada e com abstinência de veracidade”, critica.

Confira os principais trechos da entrevista.

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Houve sempre uma cobrança por investimentos contínuos no cinema brasileiro para fugir dos “ciclos de produção”. Nós alcançamos esse estágio?

CLÁUDIO ASSIS – Olha, eu acho que em Pernambuco nós conseguimos regularizar uma produção. Agora, o restante do país, incluindo o eixo Rio-São Paulo, está devendo. Há a necessidade de fazer um cinema autoral, que dê respostas, que não seja uma Globo Filmes, pautado nos assuntos da Rede Globo ou do SBT. Falta muito para chegarmos a isso. Mas estamos conseguindo algumas coisas, atingindo alguns espaços.

Não é só fazer cinema. A questão é para quem você faz cinema. O cinema brasileiro, hoje, padece de uma vontade própria. Nós estamos fadados a ter um cinema que precisa mostrar a que veio sempre.

 

Você fala de um certo “coronelismo” entre os cineastas mais antigos e que isso tem aparecido nos diretores contemporâneos. Por que isso acontece?

O coronelismo está nos meios de produção. Você não vê o cinema pautado pela liberdade, seja sexual, de cor, do que for. A sociedade brasileira vive um fracasso medonho. Nós estamos vivendo uma crise política. Há uma ascensão dos militares, da direita, que também se reflete no cinema, nas artes. É um clima de abstinência de veracidade. O cinema brasileiro padece desse factoide: “Ah, porque fazer o filme de fulano não dá”. O cinema é precioso. São várias gerações que vão ver aquilo que eu fiz. É uma vertente que precisamos preservar e lutar por ela. Ou a gente luta e bota pra foder nesses caras, ou a gente vai fracassar.

 

Seus filmes falam de algumas impotências perante a vida, como a evangélica Kika (Dira Paes), de Amarelo manga, a Auxiliadora (Mariah Teixeira), em Baixio das bestas, e o Zizo (Irandhir Santos), de Febre do rato. A sociedade brasileira também vive essa impotência?

Nós vivemos um momento crucial da sociedade brasileira. Estamos juntando o joio e o trigo. As eleições mostram isso, com toda a polarização. Acredito que enfatizar as várias discriminações, seja racial, homossexual, é papel do cinema. Não abro mão de fazer o que eu quero, do jeito que eu quero. Vou dizer às pessoas o que sinto. Pode falar o que for do meu cinema, mas não abro mão de realizar o que acredito.

 

Seus filmes sempre foram descritos como violentos. Você acha que isso tem a ver com o fato de você vir do Nordeste e de uma ideia preconcebida que as pessoas podem ter sobre a região?

Engraçado você dizer isso, porque as pessoas se esforçam para ser quem elas não são. Elas se formam de um caráter que é “obrigatório” da condição que elas vivem. Elas tentam dizer coisas que não são verdadeiras. O meu cinema quer dar voz a todo mundo. Precisamos construir uma sociedade onde todos convivam e possam ser quem elas são. É preciso abominar o machismo, a religiosidade. É foda lutar por um mundo melhor. A miséria humana é muito grande. Colocamos as pessoas falando de coisas fundamentais para a vida humana, mas, ainda assim, não encontramos respaldo.

 

Um dos personagens de Febre do rato diz, em determinado momento, “haver o cheiro de podridão no ar”. Qual é o cheiro que seus filmes exalam?

Os meus filmes têm cheiro da vida, das pessoas que andam, que conversam e que amam. De quem luta pela vida. São trabalhos honestos, da vida como ela é. Misturo muito com o documentário, basta ver Febre do rato ou Amarelo manga. Eu transcrevo uma coisa que é da ficção e coloco como realidade.

 

Seus filmes têm muita afetividade e vários elementos da poesia marginal. O quanto os poetas de Olinda, a poesia radical, influenciaram sua forma de fazer cinema?

Tentei ser poeta, ator. Acabei convivendo com pessoas que são poetas da vida, marginais, mas que são essencialmente poetas. Chico Science, Xico Sá, Zizo e tantos outros que viveram comigo. Eu consegui ser um poeta do meu jeito. Minha poesia aconteceu por meio do cinema. O cinema é uma arte em que você junta poetas, escritores, tudo em um só local. No fim das contas, eu acho que consegui ser um pouco de tudo isso.

 

Você costuma dizer que o nordestino tem um lirismo que vem da infância. O que é esse lirismo?

A formação religiosa, cultural e musical do Nordeste é composta por diversas formas de musicalidade. A gente traz o repente, o maracatu, o bumba meu boi. O Nordeste é o berço do Brasil. Tem a ver com a formação do meu caráter. O Brasil precisa reconhecer o Nordeste.

 

Chico Díaz afirma que você tem uma “ternura difícil”. O que isso quer dizer?

As pessoas me veem de uma forma diferente. Uma forma é como eu ajo diante da sociedade e outra é como eu trabalho. Meu trabalho é honesto, sincero. Eu dou espaço para todo mundo, como dão pra mim. Perguntam se “trabalhar com Cláudio é diferente”. Não, é igual. Já ouvi críticas porque dei liberdade demais. Dou espaço até para que você diga não para mim. Pode entrevistar quem você quiser que trabalhou comigo e você vai ouvir que eu dei chance para todo mundo.

 

Por que a imagem que se tem de você não é boa?

Porque eu não abro mão de nada, para ninguém, nem pro diabo. Quem quiser gostar de mim tem que me aceitar assim. Sou feito de carne e osso como todo mundo. Para fazer o que eu faço, do jeito que eu faço, para ter os parceiros que tenho… Tenho Fernanda Montenegro trabalhando comigo, entende? Pode jogar pedra em mim, mas não joga pedra na minha arte. Minha arte precisa ser respeitada. Sou verdadeiro, sou sincero. Eu sou do caralho.

 

Do que trata Piedade, seu próximo filme?

Piedade, no Recife, é uma praia onde foi encontrado o primeiro tubarão da região. O filme fala de uma invasão. Quando eu era adolescente, lutávamos muito contra a imposição do Porto de Suape. Piedade é a fábula de uma corrente marítima que toma conta do Recife. No filme, empresários construíram um porto e acabaram com os dois rios da região. Os tubarões não têm mais onde encontrar alimento; com isso, eles se perdem e vão para o Recife. É uma alegoria da realidade, mas é também um filme singelo, contemporâneo e contemplativo. É mais uma tentativa de acerto, de transpirar alguma possibilidade de realização.

 

A Fernanda Montenegro faz a personagem que é dona de uma pousada e que resiste ao avanço capitalista. Como foi trabalhar com ela?

É uma pessoa maravilhosa. Fantástica. Eu ofereci algumas coisas pra ela de conforto e tal, mas ela recusou tudo. A Fernanda faz o papel de uma mãe que tem o filho roubado na maternidade, e ela só encontra com ele depois da morte. É um papel fundamental. A grandeza que a Fernanda Montenegro tem é muito importante. Todos que estiveram no filme, o Cauã Reymond, Gabriel Leoni, Irandhir Santos, fizeram muito. Por causa deles que o filme é bom. Tem o Jorge Du Peixe na trilha sonora. É um filme que eu recomendo.

 

Isso do espiritismo e da religião que estará em Piedade aparece com muita força em seus outros filmes, como em Amarelo manga. Qual é o peso da religiosidade na sua vida?

Eu não acredito em religião. Mas eu acredito que a religião faz parte do universo das pessoas, e eu respeito isso. Eu brinco, tiro onda com ela. Coloco a religião nos meus filmes porque ela é fundamental, mas não que ela faça parte da minha existência. Mas, sem dúvida, ela está no meu diálogo com as pessoas, no universo do qual faço parte.

 

Quando você lançou Big Jato, seu último longa-metragem, disse que ele era “um beijo na sociedade”. O que será Piedade?

Também não deixa de ser um beijo. É um beijo de um tubarão, um pouco mais forte. Mas é um filme necessário e digno de ser visto. Para mim, é um trabalho que move as pessoas de lugar, que transgride um conceito social do que estão acostumados a ver no cinema. Mas é um filme tranquilo de ver.

 

Você considera seus outros filmes “tranquilos”?

Acho que sim. São trabalhos que provocam, que fazem você pensar. Quando eu assistia a filmes ou quando promovia os cineclubes, sabia que um filme era bom quando me fazia pensar. Você sai do cinema, senta em um bar, na calçada, e sente necessidade de conversar com alguém sobre a obra a que assistiu. O cinema exige um compromisso social e cultural. Estou fazendo Piedade há dois anos. Não vou entregar um longa-metragem que não fará você pensar. Para mim, cinema é coisa séria. Eu não sei quando vou fazer outro filme, então tenho que lutar para que esse seja bem-visto, honesto com as pessoas, digno do olhar. Cinema não é só diversão, pipoca e Coca-Cola.

 

Há algum tipo de reflexão sobre como seu cinema será interpretado daqui a alguns anos ou isso não o preocupa?

O cinema que eu faço vai ser visto por muitas décadas. Eu não me preocupo muito com isso, porque ainda quero fazer mais.

 

*Guilherme Henrique é jornalista



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