A sofisticada persuasão dominical fascistizada de Malafaia no contexto eleitoral de 2026
O pastor utiliza uma estratégia de vitimização e personalização da política para converter sua autoridade religiosa em influência eleitoral direta
“Pelo Senhor, marchamos sim,
Seu exército, poderoso é
Sua Glória será vista em toda terra”
– Nosso General é Cristo
“O agitador fascista transforma o fervor religioso
em submissão política”
– Theodor W. Adorno
O púlpito evangélico brasileiro tornou-se, nos últimos anos, um espaço privilegiado de circulação política. Nele, as fronteiras entre mensagem religiosa, opinião pública e intervenção eleitoral são continuamente recozidas. Diferentemente das décadas de 1980 a 2000, a política não aparece necessariamente como algo externo à experiência religiosa. Ao contrário, é reinterpretada a partir de categorias como fé, pertencimento, ameaça, proteção, cidadania e, sobretudo, autoridade pastoral, ou, nos termos de Michel Foucault, “poder pastoral”. O discurso de Silas Malafaia na Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), nos cultos da manhã e da noite de 6 de setembro, constitui material particularmente relevante para observar sutilezas densas desse processo. Isso porque sua mensagem não se limita à manifestação de preferências eleitorais, mas constrói uma determinada ideia de cidadania, voto e representação e, principalmente, posiciona o próprio pastor diante de um mundo político apresentado como hostil.
Para compreender esse tipo de intervenção, retomo Theodor W. Adorno e sua formulação sobre o “agitador fascista”. A categoria não deve ser tomada simplesmente como sinônimo de dirigente partidário, militante de organização fascista ou ator de extrema-direita. Em Adorno, o agitador constitui uma figura comunicacional e psicológica cuja força reside menos na apresentação racional de um programa político do que na mobilização de disposições afetivas, na produção de identificações e na construção de uma relação particular entre líder e audiência. Em Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista (2015), Adorno observa a predominância de declarações ad hominem na propaganda fascista, dirigidas mais a pessoas e inimigos do que a problemas políticos objetivos. A política é, desse modo, personalizada seus conflitos complexos são condensados em figuras, ameaças e antagonismos. Por esse motivo precisa-se de uma teoria complexa que perambula entre as ciências sociais e a psicanálise como sua teoria.
O agitador não precisa convencer seu público apenas por meio de argumentos. Procura expressar aquilo que já se encontra latente na audiência, oferecendo uma linguagem capaz de organizar medos, ressentimentos, frustrações e expectativas de pertencimento. Daí a importância da identificação entre líder e seguidores. Adorno trabalha, nesse sentido, com a figura do “grande pequeno homem”, uma liderança excepcional e próxima, poderosa e semelhante aos demais, capaz de ocupar uma posição de autoridade sem deixar de apresentar-se como parte daqueles que compartilham as mesmas ameaças. Em sua análise da propaganda radiofônica de Martin Luther Thomas, pregador cristão de extrema-direita, Adorno mostra como a vitimização do líder pode transformar uma ameaça individual em coletiva. A perseguição deixa de ser apenas uma experiência pessoal e passa a funcionar como mecanismo de mobilização do grupo.
A aproximação é interessante porque Thomas também era um pregador cristão que utilizava um meio de comunicação de massa, o rádio, para potencializar sua agitação de projeto autoritário. Não se trata, evidentemente, de estabelecer uma conexão histórica direta entre Thomas e Malafaia. São personagens pertencentes a contextos distintos. Mas, a contribuição de Adorno está em oferecer instrumentos para perceber a recorrência de determinadas formas de construção da autoridade, da ameaça, do inimigo e da vitimização. Tampouco se pretende afirmar que setores evangélicos ou suas lideranças compartilhem essas características. O argumento é mais circunscrito pois determinados discursos de Malafaia aproximam-se de mecanismos descritos por Adorno da “propaganda fascista”, especialmente quando a confrontação política é personalizada e organizada em torno da figura do líder. É nesse registro que deve ser compreendida sua afirmação recorrente de que pretende “destruir” adversários, como no caso de Alexandre de Moraes, expressão registrada pela imprensa.
O que interessa, portanto, é observar se alguns dos dispositivos descritos por Adorno da “agitação fascista” que ajudam a compreender o funcionamento contemporâneo de um púlpito politizado e ampliado pelas redes sociais. O discurso de Malafaia oferece material para pensar um processo de fascistização do púlpito, ou aquilo que aqui denomino um “cristofascismo brasileiro”, dos púlpitos. O pastor afirma respeitar a autonomia eleitoral de seus fiéis, mas simultaneamente insiste que está sendo perseguido, desmoralizado e ameaçado de prisão. O voto permanece formalmente pertencente ao indivíduo, mas este é convocado a considerar a situação do pastor. A política deixa de ser apresentada apenas como escolha entre candidatos e passa a assumir a forma de resposta diante de uma ameaça. A perseguição converte-se, assim, em mecanismo de agregação, produzindo um “nós” ameaçado e um “eles” responsável pela ameaça.

1.O voto é seu, mas a perseguição também é nossa
Malafaia inicia sua intervenção política no púlpito estabelecendo uma espécie de salvaguarda diante da legislação eleitoral: “Eu não vou extrapolar a lei eleitoral eu tô debaixo de uma lei eleitoral e não vou ser ilegal”. A frase delimita o espaço entre a mensagem religiosa e aquilo que poderia configurar uma intervenção eleitoral ilícita. Entretanto, logo depois, essa fronteira começa a ser tensionada “Mas é muito fácil vocês saberem quem eu apoio, principalmente para deputado federal, estadual, que nos representa”. O “empresário da fé” não precisa formular uma ordem eleitoral direta, mas basta indicar aqueles que “nos representam”. Os candidatos deixam, assim, de ser apenas indivíduos que disputam cargos e passam a ocupar o lugar de extensões políticas de uma comunidade e, mais particularmente, de uma liderança religiosa. É nesse contexto que aparece uma das passagens centrais do discurso da Ceia:
“Você sabe que no mundo político estão dizendo: ‘Será que o Malafaia tem força?’ porque uma das coisas mais difíceis na política é transferir voto. Isso é você indicar alguém e essa pessoa ser eleita. Isso é uma das coisas mais difíceis que têm. E eles estão dizendo assim: ‘Será que o Malafaia tem força?’ e quando você consegue transferir voto eles te respeitam 10 vezes mais. Então nessa hora crucial que nós estamos vivendo no país e nesse momento que eu tô vivendo e que também querem atingir vocês, eu quero dizer, já vou terminar e quero deixar isso aqui bem claro: Pastor não é dono do voto de ninguém. O voto é um exercício da tua cidadania”
A frase final funciona como dispositivo de legitimação. Malafaia reconhece que existe uma expectativa política sobre sua capacidade de “transferir voto” e, portanto, reconhece que sua autoridade religiosa pode converter-se em força eleitoral. Entretanto, imediatamente o agitador afirma “Pastor não é dono do voto de ninguém”. A negação afasta formalmente a imagem tradicional do “voto de cabresto” e apresenta o fiel como sujeito autônomo. Essa autonomia, contudo, aparece depois de o pastor explicar justamente a importância política de demonstrar sua capacidade de eleger representantes. O voto continua pertencendo ao fiel, mas sua utilização é inscrita em uma relação de autoridade na qual o pastor define a importância política daquele voto.
É nesse ponto que a formulação adorniana sobre a personalização da propaganda fascista se torna produtiva. A atenção desloca-se dos problemas objetivos para figuras, inimigos e lideranças. No discurso de Malafaia, como linha de agitação fascistinizada, a questão eleitoral é rapidamente personalizada. A pergunta não é apenas quem será eleito, mas se “Malafaia tem força”. A eleição transforma-se em teste de sua capacidade política. A operação fica ainda mais evidente quando afirma:
“Eu só peço a vocês a consciência nesse momento. Quer votar no candidato do teu bairro, da tua cidade, do teu amigo, da tua rua? Ok, irmão. Do teu sindicato? Legal. Quem sou eu para impedir você? Mas eu só queria que você tivesse a consciência desse momento, dessa perseguição que eu tô sofrendo”.
Se atentem, pois a estética da liberdade eleitoral é preservada. O fiel pode votar em diferentes candidatos e o pastor pergunta: “Quem sou eu para impedir você?” Mas essa liberdade é imediatamente atravessada pela exigência de “consciência”. O problema deixa de ser apenas em quem o fiel deseja votar e passa a ser se ele compreende “esse momento” e, sobretudo, “essa perseguição”. A perseguição funciona, portanto, como elemento reorganizador da escolha eleitoral. Ela não elimina formalmente a liberdade do voto, mas atribui-lhe um horizonte moral: o fiel é chamado a considerar a situação do pastor antes de decidir.
2.“Eu preciso me fazer representar”: a extensão política da autoridade pastoral
A dimensão da representação aparece de maneira ainda mais direta quando Malafaia afirma:
“E mais do que nunca eu preciso me fazer representar. No estado do Rio de Janeiro, no estado de São Paulo, no estado de Minas Gerais, em Brasília, no estado de Pernambuco, no estado do Paraná, tem gente me representando como deputado federal, estadual. Nesses estados que eu tô citando para você, eu só pediria a sua consciência”.
O enunciado “eu preciso me fazer representar” produz a passagem do indivíduo para uma espécie de corpo político do empresário da fé. Não se trata somente de apoiar candidatos, mas de produzir representantes em diferentes territórios. Como liderança religiosa, Malafaia não precisa ocupar pessoalmente um cargo parlamentar para exercer influência sobre o Legislativo. Pode permanecer no púlpito e construir uma rede de representantes. A autoridade pastoral, nesse movimento, direciona-se simultaneamente para o território e para as instituições. A passagem é seguida por outra formulação explícita:
“O que é que vale mais, o que é mais importante: é a sua paixão política, é quem você gosta, é o cara da tua rua, é o cara da tua cidade, é o cara do teu estado, ou essa situação que o seu pastor quer desmoralizá-lo e o objetivo é me prender?”
A oposição é significativa para qualquer agitador fascista. De um lado estão as escolhas ordinárias do cidadão, o candidato da rua, da cidade, do estado, aquele de quem o eleitor gosta. Do outro, encontra-se a situação de um pastor apresentado como desmoralizado e ameaçado de prisão. Esse tipo de propagandista cristofascista constrói, assim, uma espécie de diatribe entre a preferência eleitoral e a defesa da liderança. O eleitor não é convidado apenas a escolher um candidato e é chamado a decidir diante da situação de seu representante. A política organiza-se, então, pela lógica da proteção da liderança.
O mecanismo adorniano do “grande pequeno homem” pode ser mobilizado aqui sem precisar ser reiterado ao longo de toda a análise. O líder precisa ser suficientemente importante para ser ameaçado e próximo para que seus seguidores reconheçam sua própria condição naquilo que ele afirma sofrer. Poder e vulnerabilidade reforçam-se mutuamente pois quanto maior a força atribuída ao líder, mais significativa pode parecer a ameaça que afirma enfrentar. A vulnerabilidade transforma-se, desse modo, em componente da própria autoridade.
3.A igreja entre o céu e a cidadania terrena
No segundo discurso, realizado em um domingo à noite, Malafaia retorna à questão da autonomia do eleitor:
“Agora eu vou dizer uma coisa aqui para a igreja para os meus amados irmãos (…) o voto é seu; pastor não é dono do voto de ninguém. É um exercício da tua cidadania. Eu tenho muita consciência disso, o voto é seu, você é dono do seu voto”.
A repetição do argumento é significativa. Malafaia inicia o tema reafirmando a propriedade individual do voto e, em seguida, estabelece uma comparação com outras igrejas:
“Existem igrejas por aí (não quero citar nome, não vou citar nome para denegrir) que líderes grandes dizem pros pastores das igrejas: ‘ó, eu vou ver lá na zona eleitoral onde tá a tua igreja como é que vai ser a votação do nosso candidato’ (…) ‘se não tiver um número condizente eu te arranco da igreja’. Isso é uma imoralidade, isso é uma indecência. Eu jamais vou medir pastor aqui pela quantidade de quem votou ou não votou”.
A comparação constrói uma imagem de diferenciação. Malafaia se distancia de um líder que controla diretamente o voto, fiscaliza resultados eleitorais ou ameaça seus pastores. Sua autoridade apresenta-se como legítima justamente porque não assume explicitamente a forma coercitiva do “voto de cabresto”. Essa distinção, contudo, não elimina seu poder político sobre o púlpito. Ao contrário, seu poder pode operar pela preservação da aparência de autonomia do fiel: em vez de “você deve votar em determinado candidato”, surge “o voto é seu, mas tenha consciência”. Em vez da ordem, uma lembrança. Em vez da punição, uma narrativa de perseguição.
Essa sutil operação aproxima-se da análise adorniana da propaganda fascista como uma técnica de organização dos afetos. Para o filósofo, sua eficácia não depende fundamentalmente da construção de uma argumentação sistemática, mas da capacidade de mobilizar disposições, medos, ressentimentos, desejos de pertencimento e necessidades de identificação já existentes. A propaganda não produz necessariamente do zero as convicções políticas de seus destinatários; ela organiza e direciona afetos e predisposições socialmente constituídos, oferecendo-lhes objetos, inimigos e autoridades por meio dos quais podem adquirir forma política.
É justamente nessa dimensão que a influência indireta das instituições religiosas pode adquirir relevância para a compreensão dos movimentos de extrema-direita. Certas estruturas religiosas não precisam determinar diretamente o comportamento eleitoral de seus fiéis para participar desse processo. Ao produzir vocabulários, formas de autoridade, percepções sobre ordem e desordem e classificações acerca daqueles que devem ser protegidos ou combatidos, podem contribuir para a formação das disposições a partir das quais determinados discursos políticos encontram receptividade. A afirmação da liberdade do voto pode, assim, coexistir com uma orientação sobre como o mundo político deve ser percebido e sobre quais escolhas aparecem como legítimas. É nesse contexto que se insere a afirmação de Malafaia:
“Só que a igreja não é formada por gato, cachorro, rato e elefante. A igreja é formada por gente que pertence a um contexto social. Jesus não eliminou a cidadania terrena, povo de Deus! Mateus 22, 21: ‘Dai a César o que é de César. Dá a Deus o que é de Deus’. Nós não podemos ser alienados sociais”.
Em seu enunciado, fecha-se a passagem entre religião e política. A igreja não é apresentada como uma comunidade retirada da sociedade, mas como instituição formada por sujeitos que possuem uma “cidadania terrena” e que, por isso, devem participar da vida pública. A passagem bíblica é mobilizada para legitimar teologicamente essa presença e afastar a interpretação segundo a qual a fidelidade religiosa exigiria retirada da “política secular”.
O movimento é, portanto, duplo, o cristão deve permanecer religioso e, simultaneamente, atuar no mundo político. É nesse ponto que Malafaia avança para além da intervenção institucional direta. Para o agitador, a igreja pode exercer poder político de maneira indireta, não apenas quando orienta explicitamente o voto, mas quando participa da formação dos sujeitos que votam, interpretam conflitos sociais e reconhecem determinadas autoridades, pautas ou grupos como legítimos ou ameaçadores. Em Adorno, a mediação institucional é fundamental porque a religião não precisa produzir diretamente uma escolha política para contribuir com as disposições afetivas sobre as quais discursos autoritários podem atuar. A técnica encontra-se também na capacidade de formar sensibilidades políticas antes mesmo que elas se tonifiquem em comportamento eleitoral.
4.A perseguição como dispositivo de mobilização
Ao longo do discurso, a centralidade da perseguição ganha maior densidade. Este agitador fascista “mui cristão” trabalha menos pela elaboração sistemática de um programa do que pela mobilização de disposições afetivas. Ressentimentos, inseguranças, frustrações e sentimentos de ameaça são organizados em uma narrativa na qual seus fiéis passam a compreender a si mesmo como integrante de uma coletividade sitiada. Um vetor decisivo dessa propaganda é a transformação de problemas políticos em problemas pessoais. Em vez de discutir estruturas sociais, o discurso concentra-se em pessoas, inimigos e lideranças. No caso de Malafaia, a eleição é rapidamente personalizada na pergunta sobre sua “força”. A política é apresentada a partir de sua representação e a ameaça, mobilizados junto a sua própria persona pública.
A perseguição que afirma sofrer torna-se, assim, uma técnica discursiva de agregação. Ela produz um “nós” e um “eles” e aproxima a comunidade da liderança. Quando o agitador afirma que estão querendo atingi-lo e que “também querem atingir vocês”, realiza uma transferência decisiva liga sua figura pastoral à igreja e passa a compartilhar com os fiéis a condição de ameaça. O mecanismo não significa que toda afirmação de perseguição seja, por si só, fascista. A precisão conceitual exige distinguir a denúncia legítima de conflitos e ameaças da utilização recorrente da vitimização como estrutura de organização da realidade política. O problema analítico surge quando a perseguição passa a ordenar o universo do conflito a partir de uma oposição entre aqueles que defendem e aqueles que ameaçam.
Nesse sentido, a figura não precisa apresentar continuamente um programa político detalhado. Tal como no caso de Thomas, analisado por Adorno, a forma da comunicação funciona como instrumento para produzir adesão e fortalecer a relação entre líder e audiência. O fenômeno adquire novas dimensões no ambiente das redes sociais. O púlpito não termina quando finda o culto: sua mensagem pode ser reproduzida, recortada, comentada e transformada em conteúdo. O líder religioso passa a atuar simultaneamente diante da congregação presencial e de uma audiência ampliada pelas plataformas digitais. A autoridade pastoral converte-se também em autoridade comunicacional.
5.Poder sob a forma de vulnerabilidade
Há, nessa narrativa, uma dimensão particularmente importante. A perseguição é produzida por uma liderança que não ocupa uma posição social desprovida de recursos. Au contraire, Malafaia possui uma estrutura religiosa consolidada, ampla circulação pública, presença nas redes sociais, instrumentos de comunicação e capital político e econômico. Ainda assim, (ordinariamente) a imagem construída é a de alguém ameaçado. Essa aparente contradição ajuda a compreender a força política da vulnerabilidade. Essa expressão de pregador agitador pode apresentar-se como poderoso e, simultaneamente, como vítima; sua própria força pode ser mobilizada como explicação para a perseguição que afirma sofrer. Se os adversários o atacam, isso pode ser apresentado como demonstração de sua capacidade de incomodá-los. A vulnerabilidade converte-se, assim, em recurso de mobilização.
No universo religioso, esse mecanismo pode adquirir ainda maior intensidade porque a perseguição política pode ser reinterpretada por meio de uma gramática cristã do sofrimento do justo, como a via crucis de Jesus. O perseguido deixa de ser apenas um ator político ameaçado e pode aparecer como alguém submetido a uma provação semelhante àquela enfrentada por Jesus e por seu seguimento. A resistência passa, então, a ser sinal de fidelidade. A linguagem política da perseguição conecta-se a uma gramática religiosa previamente disponível de provação, injustiça, resistência, fidelidade e combate. A defesa da liderança assume, consequentemente, uma dimensão de defesa da própria comunidade.
Da autoridade pastoral à representação política: a persuasão fascistizada no púlpito
Em conjunto, os discursos de Silas Malafaia, em 6 de setembro, evidenciam uma forma sofisticada de politização do púlpito evangélico. Por isso, utilizou-se uma teoria social fina de comunicação constante entre as ciências sociais e a psicanálise como a adorniana. Isso porque, não se trata simplesmente de transformar o culto em palanque eleitoral. O procedimento é mais complexo. Preserva-se formalmente a autonomia do eleitor ao mesmo tempo que se estabelecem os termos afetivos e morais pelos quais essa autonomia deve ser exercida. Malafaia afirma que “o voto é seu”, rejeita a imagem daquele que controla diretamente os fiéis e, simultaneamente, convoca-os a considerar “essa situação” de perseguição, a reconhecer representantes políticos e a pensar sua escolha a partir da defesa de uma comunidade. Assim, a contribuição de Adorno, sobre o agitador fascista, está justamente em deslocar a análise do conteúdo explícito das declarações para a forma de comunicação política produzida pelo púlpito. Personalização do conflito, construção de inimigos, mobilização afetiva, identificação entre líder e audiência e transformação da ameaça individual em ameaça coletiva constituem, nesse sentido, dispositivos relevantes para compreender a fascistização da linguagem religiosa.
A contradição aparente entre “pastor não é dono do voto” e a convocação para que o fiel considere a situação do pastor não precisa ser tratada simplesmente como incoerência. Ela revela uma modalidade específica de exercício da autoridade quando o poder religioso não necessita eliminar a liberdade individual para produzir orientação política; pode operar por meio dela. O fiel permanece formalmente livre, mas sua liberdade é atravessada por uma estrutura de significados produzida pela autoridade religiosa. Para o agitador fascista a perseguição ocupa papel central nesse processo porque transforma uma disputa política em experiência moral compartilhada. O tipo de agitador que é Malafaia não se faz apenas como pastor com preferências políticas, mas como liderança ameaçada. Quando essa ameaça é apresentada como ameaça aos fiéis, a representação pastoral passa a funcionar também como representação comunitária.
É nesse ponto que a noção adorniana permite compreender a dimensão fascistizante dessa retórica sem reduzir o fenômeno a uma equivalência histórica com o fascismo europeu ou com a experiência analisada nos EUA. O que importa é a recorrência de dispositivos com a fabricação de um “mundo ameaçador”, a identificação de inimigos, a personalização da política, a mobilização da vulnerabilidade do líder e a produção de uma comunidade emocionalmente implicada no conflito. O agitador fascista cristão não precisa determinar integralmente o que seu público deve pensar mas pode oferecer, antes, uma forma pela qual a realidade passa a ser interpretada. No caso de Malafaia, essa linha ganha força porque se realiza a partir de uma liderança dotada de recursos religiosos, políticos e comunicacionais capazes de prolongar o púlpito para além do espaço cúltico.
Esse fenômeno analisado, portanto, não reside simplesmente na entrada da religião na política, tampouco na existência de preferências eleitorais entre pastores e fiéis. Seu ponto decisivo está na transformação de categorias religiosas (autoridade, pertencimento, provação, perseguição, proteção e fidelidade) em recursos para interpretar o conflito político e orientar afetivamente a ação eleitoral. Quando o pastor afirma que não é dono do voto, preserva a linguagem da autonomia; quando pede “consciência” diante da perseguição, atribui um sentido específico a essa autonomia; quando afirma que precisa “se fazer representar”, converte autoridade pastoral em projeto de representação política cristofascista. O púlpito, desse modo, não abandona sua função religiosa ao entrar na política. Ele produz uma trilha religiosa de compreender a política, na qual cidadania, pertencimento e defesa da liderança passam a integrar uma mesma gramática. É justamente nessa passagem (da autoridade pastoral à representação, da vulnerabilidade individual à ameaça coletiva e do voto formalmente livre à escolha moralmente enquadrada) que se encontra a sofisticada persuasão dominical fascistizada sobre a cobertura do cristianismo empresarial.
Este trabalho é fruto das pesquisas desenvolvidas no Grupo de Estudos Religião e Cidades (RE-CID). Agradeço especialmente às suas e aos seus integrantes pela interlocução, pelas discussões e pela circulação nas igrejas evangélicas durante o período eleitoral, experiências fundamentais para a construção das reflexões aqui apresentadas.
Fábio Py é doutor em História pela UERJ e em Teologia pela PUC-RIO. Coordenador do RE-CID – Grupo de Estudos Religião e Cidade, professor adjunto do PPGSP – IUPERJ -UCAM.
Referências bibliográficas
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FOUCAULT, Michel. O sujeito e o poder. In: DREYFUS, Hubert L.; RABINOW, Paul. Michel Foucault: uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
MALAFAIA, Silas. Santa Ceia | Etapa 1 | Pr. Silas Malafaia | 06/09/2026. [Culto]. Assembleia de Deus Vitória em Cristo – ADVEC. YouTube, 6 set. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uP8Z34opPqc. Acesso em: 16 set. 2026.
MALAFAIA, Silas. Santa Ceia | Etapa 2 | Pr. Silas Malafaia | 06/09/2026. [Culto]. Assembleia de Deus Vitória em Cristo – ADVEC. YouTube, 6 set. 2026. Disponível em: canal oficial da Assembleia de Deus Vitória em Cristo – ADVEC. Acesso em: 16 set. 2026.
BERGAMO, Mônica. “Alexandre de Moraes vai ter que me prender para me calar”, diz Silas Malafaia após abertura de ação penal no STF. Folha de S.Paulo, 19 ago. 2026.
LEMOS, Davi. “Ele vai ter que me prender para me calar”, diz Malafaia ao acusar Alexandre de Moraes de perseguição. BNews, 19 ago. 2026.
PODER. Campanha é minoria barulhenta nos cultos evangélicos. Folha de S.Paulo, 17 set. 2022.

