A tentação do pior - Le Monde Diplomatique

ELEIÇÕES NOS ESTADOS UNIDOS

A tentação do pior

por Serge Halimi
2 de setembro de 2012
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Obama já aceitou um plano de redução do déficit orçamentário cortando gastos sociais sem aumentar o nível – estranhamente baixo – dos impostosSerge Halimi

A gangrena do setor financeiro norte-americano provocou uma crise mundial da qual conhecemos os resultados: hemorragia de empregos, falência de milhões de proprietários de imóveis, cortes nos serviços sociais. Contudo, quatro anos depois, por efeito de um paradoxo singular, não foi possível evitar a chegada à Casa Branca de um homem, Williard (“Mitt”) Romney, que deve sua imensa fortuna às finanças especulativas, ao deslocamento de empregos em direção a região com menores salários e aos charmes (fiscais) das Ilhas Cayman.

Sua escolha do parlamentar Paul Ryan como candidato republicano à vice-presidência dá uma amostra do que podem se tornar os Estados Unidos se, no próximo dia 6 de novembro, os eleitores cederem à tentação do pior. Barack Obama já aceitou um plano de redução do déficit orçamentário cortando gastos sociais sem aumentar o nível – estranhamente baixo – dos impostos sobre as rendas mais altas do país.1 Ryan, contudo, julga essa medida democrata muito insuficiente. Seu programa, ratificado pela Câmara dos Representantes (majoritariamente republicana) e ao qual Romney já aderiu, reduzirá ainda mais os impostos (em 20%), levando-os ao teto máximo de 25%, jamais alcançado desde 1931; aumentará as despesas militares em 15% até 2017; e dividirá em dez a parte do déficit orçamentário no PIB norte-americano. Como Ryan espera realizar todas essas metas? Conferindo ao setor privado – ou à caridade – as missões civis essenciais do Estado. Assim, o plano de saúde dos indigentes terá seu orçamento amputado em… 78%.2

Desde o início de 2011, Obama aplica uma política de austeridade tão ineficaz nos Estados Unidos como fora dele. Ora se gaba pelas (raras) boas notícias econômicas, cujos créditos atribui à sua presidência; ora imputa as más (como a situação do desemprego) à obstrução parlamentar republicana. Tal dialética não remobilizou seu eleitorado, mas o presidente norte-americano acredita que o temor ao radicalismo de direita de seus adversários lhe garantirá o segundo mandato. Mas o que fará nesse segundo momento, se dilapidou as promessas de seu primeiro governo? E agora que as próximas eleições para o Congresso, em novembro próximo, indicam que o parlamento estará mais à direita do que quando ingressou na Casa Branca?

Uma vez mais, um sistema fechado em benefício de dois partidos que rivalizam em troca de favores acordados em meio a negociatas vai obrigar milhões de cidadãos norte-americanos – desencorajados pela indulgência de seu presidente – a votar novamente em Obama. Os eleitores se resignarão, uma vez mais, com a escolha entre o mau e o pior. O veredicto popular, contudo, não estará isento de consequências externas: a vitória de um Partido Republicano indignado pelo “assistencialismo”, determinado a destruir de vez o Estado social e a instalar no poder cristãos fundamentalistas com paranoia e ódio contra os muçulmanos, faria escola entre a direita europeia, acometida pela maioria dessas tentações.

Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).



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