A trajetória textual e política de uma “tatuagem no tororó”

ENTEXTUALIZAÇÃO

A trajetória textual e política de uma “tatuagem no tororó”

por Marco Túlio de Urzêda-Freitas
15 de julho de 2022
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As trajetórias textuais são, também, trajetórias políticas, visto que a entextualização, que faz emergir novos repertórios a partir de um “texto original”, se efetiva a partir de escolhas ideológicas histórica e culturalmente atravessadas por relações de poder

Em fevereiro de 2021, viralizou na internet um vídeo da cantora Anitta retocando uma tatuagem na região anal. Originalmente postado em sua conta na rede social para adultos, Only Fans, o vídeo mostra Anitta agachada sobre a mesa do tatuador, com o traseiro voltado para ele e gritando de dor. Em outra rede social, a cantora falou sobre a origem do vídeo – que não era recente – e brincou: “Quem tem c* tem medo ou tem tatuagem”. Na época, o vídeo suscitou comentários em diferentes espaços virtuais e midiáticos, os quais esboçavam reações de surpresa e condenação frente à atitude inesperada de Anitta. Com o passar do tempo, no entanto, os ânimos foram se acalmando e o vídeo foi gradativamente perdendo espaço, até se cristalizar como mais um dado “controverso” na biografia da nossa Girl from Rio.

Mais de um ano após o episódio, a tatuagem de Anitta voltou a circular de forma viral na mídia e nas redes sociais, a partir da sua citação em outro contexto interacional. Essa recontextualização se deu em meados de maio, quando o cantor sertanejo Zé Neto, dupla de Cristiano, disse, em um show no interior do Mato Grosso: “Nós somos artistas e não dependemos de Lei Rouanet. A gente não precisa fazer tatuagem no ‘toba’ para mostrar se a gente está bem ou não”. Além de explicitar a orientação política do cantor – através do ataque direto à Lei Rouanet, um dos principais alvos da rede bolsonarista –, a fala de Zé Neto incitou a revolta dos fãs de Anitta nas redes sociais. Em pouco tempo, a mobilização dessa revolta abriu espaço para desvelar o esquema de desvio de verba pública que está por trás dos cachês pagos a muitos cantores sertanejos, como o próprio Zé Neto e seu companheiro, em cidades do interior do país.

Devido aos valores exorbitantes cobrados por shows feitos em municípios de pequeno porte, um dos principais focos de investigação foi o cantor Gusttavo Lima, que chegou a ter um show de R$704 mil cancelado após o Ministério Público concluir que as despesas da festa em que o show se realizaria ultrapassavam em 40% os gastos da cidade com saúde ao longo de 2021. Por meio de uma live, o cantor foi a público se explicar, afirmando que é um cidadão honesto e que paga seus impostos em dia. Durante a live, Zé Neto apareceu e tentou confortar o “irmão”, insistindo que a culpa de toda aquela situação era dele e que estava atravessando uma fase ruim. Disse para Gusttavo Lima que não precisava se explicar e aconselhou: “cuidado com as palavras”. Mesmo assim, não tardou para que as investigações sobre a contratação de cantores sertanejos por prefeituras do interior se alastrassem pelo Brasil, levando à criação da hashtag #CPIdoSertanejo, que chegou a alcançar os trending topics no Twitter. Essa, inclusive, foi a rede social que Anitta escolheu para se manifestar sobre o caso: “E eu achando que tava só fazendo uma tatuagem no tororó”.

Foto: reprodução/Instagram

Linguagem

A mobilização viral de sentidos sobre a tatuagem de Anitta, em dois momentos distintos, nos convida a refletir sobre uma postura que muitos de nós – a maioria, talvez – tendem a manter: subestimar o caráter dinâmico e performativo da linguagem e dos textos que produzimos, consumimos e fazemos circular. O primeiro ponto a ser questionado é o nosso entendimento de texto, comumente centrado na palavra escrita. Uma vez que a linguagem pode se manifestar de várias formas passíveis de leitura, um texto pode ser toda e qualquer unidade linguística que possibilite aos sujeitos se engajar em processos de construção de significados no mundo social. A exemplo do vídeo de Anitta retocando a tatuagem, que se constitui por uma série de elementos discursivos que se entrelaçam na referida composição textual, e que desencadeou um movimento efervescente de produção de significados no Brasil. Assim compreendido, o vídeo expande o caminho de interação com o espectador, passando de um produto meramente assistido para um texto a ser interpretado, o que faz o público se mover da posição de receptor para a posição de leitor e assumir um lugar ativo na construção de sentidos sobre o vídeo-texto. Afinal, os significados não estão no texto que se lê, mas no processo de leitura, que, segundo a linguista Ingedore Koch, repousa visceralmente na interação entre texto e leitor.

O segundo ponto a ser considerado é que os textos não são construções estáticas, que emergem de um espaço definido e mobilizam significados únicos a partir de um “lugar de origem”. Ao contrário, textos são construções líquidas e possuem trajetórias, o que implica reconhecer que os seus significados se movimentam, adquirindo novas roupagens em diferentes etapas do seu percurso. Não por acaso, o pesquisador Daniel Silva utiliza a metáfora da viagem para se referir à textualização: “parece que viajar é de fato o destino dos textos”. Essas viagens acontecem quando um texto é retirado de seu “contexto original” – entre aspas, pois todo texto carrega rastros de outros movimentos textuais, configurando-se, assim, como parte de uma trajetória – e posto em circulação em outro contexto, movimento que Richard Bauman e Charles L. Briggs chamam de entextualização: “o processo de tornar o discurso extraível, de fazer uma extensão da produção linguística em uma unidade – um texto – que pode ser retirada do seu contexto interacional”. É o que acontece quando Zé Neto cita a tatuagem de Anitta durante o seu show. Ao fazê-lo, o cantor retira o vídeo-texto de 2021 de seu contexto interacional “de origem” e o recoloca em circulação em outro contexto, abrindo espaço para um novo processo de construção de significados.

Por fim, o terceiro ponto a ser colocado é que o processo de significação não é uma atividade que se realiza unicamente no plano discursivo. Se reconhecemos o caráter performativo da linguagem, isto é, a sua capacidade de produzir ações concretas no mundo, não há como entender os textos e suas trajetórias como fenômenos passivos, destinados à mera descrição da realidade. Como produtos da linguagem, os textos são também construções performativas, na medida em que a sua circulação, em diferentes contextos, produz efeitos concretos sobre a vida social. Analisando a trajetória textual da tatuagem de Anitta, vemos que os significados mobilizados através da sua circulação via redes sociais, em 2021, e da sua entextualização por Zé Neto, em 2022, produziram movimentos e efeitos potencialmente visíveis. No primeiro recorte, o vídeo-texto suscitou discussões sobre a postura da cantora, levando a um julgamento público da sua decisão de fazer/retocar uma tatuagem na região anal, de permitir a filmagem do procedimento e/ou de publicar o vídeo em uma rede social. Já no segundo recorte, a citação do vídeo-texto deslocou o foco da postura de Anitta para a hipocrisia de Zé Neto, levando a uma reação popular que desencadeou uma série de investigações, em âmbito nacional, sobre a origem dos cachês pagos a cantores sertanejos em cidades do interior.

Aqui, poderíamos questionar: como pode o mesmo texto – o vídeo da tatuagem de Anitta – produzir efeitos tão distintos? Ora, o ponto é justamente este: não se trata de um mesmo texto. Embora a citação da tatuagem carregue traços de seu “contexto de origem”, o fato desse movimento acontecer em outro contexto recalibra a trajetória do vídeo-texto, inaugurando, através da sua repetição, novos repertórios de sentido e, consequentemente, produzindo novos efeitos sobre a realidade. Em princípio, esse fato aponta para o caráter situado dos textos, no sentido de localizar a sua produção em contextos específicos, que possibilitam certos movimentos, e não outros. Afinal, como pondera o linguista Jan Blommaert, os textos “têm um ‘conteúdo’ particular que se relaciona a um momento social, político e histórico particular”. Por outro lado, a entextualização do vídeo em 2022 permite observar o fluxo da linguagem e dos textos através de contextos, no sentido de reconhecer os movimentos incertos e cambiantes aos quais o processo de significação está sujeito. A questão que se coloca, portanto, é compreender que, ao ser retirado de um espaço e ser posto em circulação em outro, um texto se transforma em outro texto, o que torna complexo – ou impossível – identificar a sua origem e prever os seus efeitos, já que discursos são repetida e cotidianamente (des-re)contextualizados na interação e nos fluxos textuais.

 

Trajetórias

Outra questão que devemos considerar é que as trajetórias textuais são, também, trajetórias políticas, visto que a entextualização, que faz emergir novos repertórios a partir de um “texto original”, se efetiva a partir de escolhas ideológicas histórica e culturalmente situadas e atravessadas por relações de poder. Além disso, o processo de significação e seus efeitos refletem disputas ideologicamente posicionadas sobre modos de vida e sobre formas de organização da vida social. Tendo como base o vídeo-texto de Anitta, essa característica pode ser observada em ambos os recortes da sua trajetória. Em 2021, o processo de significação da tatuagem produziu disputas sobre os modos de vida de uma mulher, na medida em que grande parte da discussão recaiu sobre a liberdade da cantora em relação ao seu próprio corpo. O objetivo era definir a postura de Anitta e das pessoas que, por ventura, resolvam fazer uma tatuagem em uma região íntima do corpo. Por sua vez, em 2022, tal processo fomentou disputas sobre a hipocrisia do mundo da música sertaneja e de seus conluios com a imoralidade política que muitos cantores criticam. O objetivo era desvelar a farsa moral que encobre os ataques à Lei Rouanet e contrastá-las com a ética e o sucesso de uma mulher/cantora desprendida de convenções morais. Vemos, assim, que a tatuagem de Anitta possui uma trajetória textual e política, uma vez que os seus processos de textualidade e significação, como diria Jan Blommaert, se relacionam com aspectos sociais, históricos, culturais e políticos que transcendem o texto.

A trajetória textual da tatuagem de Anitta não deixa restar dúvidas sobre o caráter dinâmico e performativo da linguagem, o que nos conclama a refletir mais criticamente sobre a nossa relação com os textos que produzimos, consumimos e fazemos circular. Uma vez colocado em circulação, um texto não pode ser controlado, mantendo-se fiel ao seu “contexto de origem” e a sentidos previamente estabelecidos. Ao ser lançado no mundo social, o texto está sujeito a um movimento de (re)leitura constante, o qual se expressa através de suas múltiplas entextualizações e dos processos de significação que elas instauram. Nessa trajetória incerta, muitos efeitos inesperados podem acontecer, fato que se comprova na própria fala de Anitta sobre os caminhos do seu vídeo-texto: “E eu achando que tava só fazendo uma tatuagem no tororó”. Possivelmente, Anitta não se referia apenas a #CPIdoSertanejo, mas também ao fato irônico de que a hipocrisia moral que estrutura o governo Bolsonaro e sua rede de apoio – da qual participam grandes nomes da música sertaneja – tenha sido desvelada justamente por uma “tatuagem no tororó”. Ou seja, no que se refere às trajetórias textuais, as intenções de quem faz um texto circular pouco ou nada importam para os efeitos que ele pode produzir. Daí a relevância do conselho de Zé Netto a Gusttavo Lima: “cuidado com as palavras”.

O que é preciso extrair desse episódio, tão simbólico do Brasil contemporâneo, é que a linguagem, os textos e os significados são imprevisíveis e incontroláveis, pois são construções forjadas no e a partir do movimento. Um texto nunca é somente um texto e tampouco se apresenta como o mesmo texto, portanto, os seus significados e efeitos estarão sempre à deriva e em disputa. Disputa essa que, como já dito, não se restringe ao plano discursivo, sendo atravessada por aspectos e relações que transcendem o texto e a própria linguagem. Assim, o caminho para um entendimento mais amplo dos textos, sobretudo no mundo de fluxos e contradições em que vivemos, parece ser de fato a análise das suas trajetórias, o que, nas palavras de Daniel Silva, significa reconhecer “a longa viagem que constitui os processos de textualização”. Uma viagem que é longa, incerta e essencialmente política.

 

Marco Túlio de Urzêda-Freitas é doutor em Estudos Linguísticos e professor universitário. Contato: marcotulioufcultura@gmail.com

 



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