A vitória da direita será o caminho para a corrupção voltar aos seus dias de glória - Le Monde Diplomatique

ELEIÇÕES

A vitória da direita será o caminho para a corrupção voltar aos seus dias de glória

por Raphael Silva Fagundes
23 de outubro de 2018
compartilhar
visualização

O aparelhamento de todo o sistema para tomar o poder foi realizado de forma bem sucedida pela extrema direita

O erro da esquerda foi ter acreditado no processo democrático, ou melhor, nas instituições que zelam pela democracia que, por sua vez, mostram-se claramente contrários a ela (a ambiguidade aqui foi proposital). Desde o golpe, o PT vinha com críticas fortes à violação aos eleitores que não tiveram o seu voto respeitado. Críticas que se fortaleceram com a prisão de Lula neste ano. Uma prisão totalmente política que pretendia, obviamente, impedir o ex-presidente de concorrer às eleições, já que aparecia com folga em primeiro lugar em todas as pesquisas.

Mas, assim que começaram as eleições, as esquerdas amenizaram a crítica a esse processo eleitoral fraudulento e parcial. Quando Lula finalmente foi proibido de concorrer, mesmo com a recomendação da ONU, uma crítica fraca apareceu, sem muitos reboliços. Provavelmente porque se acreditou que, mesmo com o candidato do PSL liderando em todas as pesquisas, Haddad iria conseguir os votos de Lula e chegaria no segundo turno. Depois de todas as pesquisas dizerem que Bolsonaro perderia para qualquer um na segunda etapa das eleições, o PT e as esquerdas botaram fé nas urnas.

Como que depois de tudo, as esquerdas acreditaram em uma possível vitória nas urnas? Depois do STF, TSE, a imprensa, os empresários, o mercado financeiro, todos se apresentarem contrários ao PT, ainda assim, ingenuamente, depositaram fé no processo democrático.

Agora veio à tona essa história dos disparos de fakenews em mensagens do Whatsapp. O que a Justiça está fazendo? Nada! Ou pelo menos nada que seja realmente capaz de interferir no segundo turno e impugnar a eleição de um candidato claramente antidemocrático. O que o PT já deveria esperar, já que desde há muito, o Judiciário se mostrou contrário à sua volta ao poder. Não há como esperar muito da democracia quando as forças que existem para defendê-la estão fazendo de tudo para miná-la.

O mais curioso de tudo isso é que a direita, que saiu privilegiada com toda essa sujeira, assegura que existe fraude nas eleições para impedir a sua vitória. Isso é bizarro. E o mais bizarro foi a esquerda comprar esse discurso e dizer que não há fraudes. A verdade é justamente o oposto: houve fraude para impedir o PT de vencer. Mas o discurso contra as instituições foi surrupiado das esquerdas e reaproveitado pela direita.

O aparelhamento de todo o sistema para tomar o poder foi realizado de forma bem sucedida pela extrema direita. De modo que até o povo caiu nessa. Ao calar a voz de Lula chegamos ao fim de uma época. As esquerdas vão precisar se recompor longe desse sistema que depositou suas esperanças no reacionarismo.

Até a bandeira contra a corrupção, explicitamente de esquerda, também foi surrupiada pela direita. Foram os governos petistas que mais combateram a corrupção que se infiltrou no país com maior intensidade a partir da ditadura militar. A ideia de que a corrupção aumentou é enganosa, pois o que aconteceu é que os casos vieram à tona graças às investigações incentivadas pelos governos petistas.

Foi no período militar que as empreiteiras corruptas cresceram. Aliás, a ideia de retornar a um Brasil de 40, 50 anos é justamente para voltar a impunidade. A lógica para estancar a sangria é a seguinte: colocando um presidente que convenceu grande parte da população de que não é corrupto não será mais necessário combater a corrupção. A fé cega, é o ópio do povo. A ideia que prevaleceu no regime militar foi a mesma. Os próximos anos serão de uma investida agressiva dos corruptos que agirão por trás de um governo que assegura, apenas verbalmente (já que não há nenhuma proposta escrita de combate à corrupção), ser honesto.

Soma-se a isso a ideia de cassar opositores. Mesmo que não ocorra a cassação propriamente dita, o descrédito com a esquerda será bem grande. A partir daí, quando esta fizer denúncias de corrupção contra o governo, a maior parte da população seduzida pelo tirano, que é invenção da esquerda que mente para derrubar o mito. Seus seguidores já agem dessa maneira hoje…

Recuperar o discurso radical, a bandeira contra a corrupção e a crítica aos aparelhos do Estado é de extrema importância para recompor a esquerda. E quando, em um futuro distante, chegar ao poder novamente, não poderá se apoiar na mesma estrutura corrupta que se erguirão nos governos que virão. Será necessário combatê-la logo de cara.

O maior erro do PT foi ter traído o socialismo fechando acordos com empresários corruptos (provenientes do período militar) para chegar ao poder. Combateu a corrupção, o que é da natureza da esquerda, mas deixou esses empresários soltos confiando que eles não o trairiam. Mas eles traíram. O erro do sapo foi confiar no escorpião. Contudo foi bem feito, serviu de lição para que no futuro não faça acordo com corruptos para se manter no poder.

Será através desses acordos com corruptos que o PSL se manterá no poder por alguns anos, mas acredito que em um momento o povo acordará e exigirá novamente o combate à corrupção. Por ora, não é o momento de a esquerda agir no sentido de querer voltar ao poder, pois a maior parte da população está contra ela. É hora de uma reeducação, recuperando o elemento que vilipendiou quando chegou ao poder: a crítica. Crítica não aos valores, mas à estrutura econômica, às relações trabalhistas, voltando a falar em nome do trabalhador.

A ideia de luta de classes se tornou ultrapassada muito mais pelo abandono das esquerdas ao tema que pelo surgimento de qualquer teoria da terceira via. A esquerda preferiu a conciliação de classes. Se a esquerda retomar esse conceito perdido, ela voltará com força e será extremamente útil na luta pelo poder popular.

 

*Raphael Silva Fagundes é doutor em História Política pela Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.



Artigos Relacionados

Roraima

A cupinização do sistema de proteção ambiental

Online | Brasil
por Herick Feijó Mendes e Fernando César Costa Xavier
Eleições

A política não cabe na urna

Online | Brasil
por Mariana de Mattos Rubiano
IMPACTOS DA CRISE E DA GUERRA NA ECONOMIA CHILENA

Surto inflacionário agrava a crise alimentar

por Hugo Fazio

Junho de 2022: o plano Biden para a América do Sul

Online | América Latina
por Luciana Wietchikoski e Lívia Peres Milani
PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO POLÍTICA E SOCIAL

A reta final da Constituinte chilena

Online | Chile
por David Ribeiro
ARGENTINA

Isso não pode acontecer aqui...

Séries Especiais | Argentina
por José Natanson
RESENHAS

Miscelânea

Edição 180 | Brasil
ENTREVISTA – EMBAIXADORA THEREZA QUINTELLA

Balança geopolítica mundial deve pender para o lado asiático

Edição 180 | EUA
por Roberto Amaral e Pedro Amaral