Ainda sobre Douglas Barros e Nego Bispo
Entre a crítica ao romantismo de esquerda e a potência das lutas territoriais, o embate entre Douglas Barros e Nego Bispo revela os impasses de pensar a transformação social fora ou dentro da modernidade
Passaram-se dois meses do texto de Douglas Rodrigues Barros denominado “Contra Nego Bispo” [1]. A produção digital frenética de “acontecimentos” tornaria pouco útil qualquer insistência nesse debate a partir desse texto em específico se não fosse pela vitória da ocupação de 34 dias da multinacional Cargill pelo movimento indígena com a revogação do decreto 12.600 do Governo Federal que lançava as bases para a privatização dos rios Tocantins, Madeira e Tapajós[2]. Organizações indígenas foram enfáticas na reivindicação do “rio como entidade viva, dotada de existência, memória e espiritualidade, razão pela qual sua proteção deve ocorrer de forma integral.”[3] Esta vitória se deu apesar desse pensamento? Se quisermos colocar nos termos da crítica de Barros a Bispo, qual a medida da impotência da “luta cosmológica”?
O objeto da crítica de Douglas Barros ao romantismo pueril de esquerda se perdeu ao longo do debate inaugurado com seu texto “Contra Nego Bispo”. Também por culpa de seus interlocutores, mas não só: o paralelo proveitoso entre o romantismo alemão e a culpa resignada de um setor de esquerda da classe média branca se transformou, ainda nos primeiros parágrafos, na caracterização de uma liderança quilombola como um mentor religioso “inconscientemente alemão”. O objeto perdido já foi interpelado inúmeras vezes por meio de críticas à esquerda universitária, aos influencers, e aos movimentos estéticos e culturais de classe média que não se compromete com a luta política. Acho mais interessante abordar a crítica aos escritos de Nego Bispo sob o ponto de vista das práticas das populações quilombolas, indígenas, camponeses e outras caracterizadas por Bispo como “não colonizadas”.
Minha hipótese é que há uma oposição externa entre “modernos” e “não modernos” como questão de fundo não apenas do texto, mas também do debate que se seguiu. Para Bispo, isso não seria um problema, pois as noções de totalidade e dialética se opõem à sua “guerra de denominações”; mas acredito que Barros repita o mesmo gesto ao não levar esse mesmo conceito de totalidade – da qual o significante “modernidade” seria o melhor representante – até suas últimas consequências. Vou tentar reconstituir o problema em três passos: primeiro, trazendo a concordância entre Nego Bispo e certa linha da tradição marxista; depois, recuperando pontos críticos dessa mesma tradição que coadunam com a crítica de Douglas Barros; por último, explorando os limites dessa crítica e as possibilidades de sua superação.
Nego Bispo, inconscientemente comunista[4]
[Vejamos a sentença] “o trabalho é a fonte de toda riqueza e toda cultura”. O trabalho não é a fonte de toda riqueza. A natureza é a fonte dos valores de uso […], tanto quanto o é o trabalho, que é apenas a exteriorização de uma força natural, da força de trabalho humana. […] Os burgueses têm excelentes razões para atribuir ao trabalho essa força sobrenatural de criação; pois precisamente do condicionamento natural do trabalho segue-se que o homem que não possui outra propriedade senão sua força de trabalho torna-se necessariamente […] um escravo daqueles que se apropriaram das condições objetivas do trabalho. – Crítica ao programa de Gotha de Marx[5].
Não podemos ignorar que há similaridades entre a crítica à ontologia do trabalho e à ontologia da separação entre humano e natureza, presente nesses excertos de Marx e Adorno, e as formas de produção nos quilombos de acordo com Nego Bispo.
Como podemos interpretar nesta leitura bíblica, o trabalho (castigo) foi criado pelo Deus dos cristãos para castigar o pecado, portanto, o seu produto dificilmente servirá ao seu produtor […] Talvez por isso o produto concreto do trabalho (castigo) tenha evoluído facilmente para a condição fetichista de mercadoria sob o regimento do “Deus dinheiro”. Nas religiões de matriz afro-pindorâmicas a terra, ao invés de ser amaldiçoada, é uma Deusa e as ervas não são daninhas. […] As pessoas, ao invés de trabalhar, interagem com a natureza. – Colonização, Quilombos de Nego Bispo[6].
O gesto teórico que vai da separação do homem e do animal no “pecado original” à negatividade do trabalho fundada nessa separação encontra uma correspondência na noção de comunismo dos Manuscritos econômico-filosóficos de Marx[7]. São muitos os pontos de contato entre o pensamento de Bispo e os elementos mais “anarquizantes” do pensamento de Marx[8]
Apesar de todas essas confluências entre o comunismo de Bispo e Marx, preciso destacar que o pensamento marxista (e eu diria também, toda a teoria crítica desde Hegel) é incompatível com qualquer pretensão de que é possível acabar com o capitalismo por decreto, por consenso ou por qualquer verdade revelada seja pela ciência ou pela religião; nem pela evocação da própria noção de “comunidade” ou mesmo de “comunismo”. O conceito de verdade jamais poderia ser posto sem que ele próprio fosse o resultado ou a totalidade de um movimento. Nesse sentido, qualquer conceito de “comunismo” só seria verdadeiro se o seu conteúdo trouxesse consigo o processo de superação do capitalismo – e, finalmente, – da política, do trabalho, da cisão entre humano e natureza etc.
Fora da colonização e fora da modernidade
Então… a política de cotas, ela tem essa parte muito necessária, que é a parte da confluência nas retomadas. […] Então, como nós temos uma base de transformar as armas em defesa, então, a universidade para nós é a arma colonialista que nós precisamos transformar em defesa – Entrevista a Nego Bispo por Walter Kohan[9]
Há uma tensão em Bispo entre uma aproximação em direção ao “saber escriturado” como tática de defesa e um princípio de separação contra o qual qualquer “contaminação” deveria ser denunciada. Essa fronteira se justifica por um princípio de Bispo de que não se pode descolonizar o que jamais foi colonizado. Mas mesmo nesse ponto, temos também o seguinte:
Tem uma galera que não quer, sabe, largar o palito do pirulito. […] Isso não é só nas universidades, nos sindicatos, nas ONG […] [e] em todo lugar. Até nos quilombos também, porque os quilombos também foram atacados. Nós não somos imunes ao colonialismo. Nós estamos lutando contra nós estamos tentando nos unir, mas não somos imunes. – Entrevista a Nego Bispo por Walter Kohan
Apesar dessas tensões, o sentido geral do pensamento de Bispo é mesmo o da fronteira entre dois modos de vida incomensuráveis; e de uma política que aposta nessa fronteira enquanto uma barreira de contingência contra a violência colonial[10]. Douglas Barros está correto ao apontar o enclausuramento desse pensamento e as várias categorias e artifícios que disto decorrem. O apelo à diferença epistemológica das cosmovisões, à identidade do contracolonialista e até a um certo pessimismo tecnológico presente nas falas de Bispo talvez ressoem bem aos ouvidos da classe média branca justamente nas piores tendências de “folclorização” e exaltação de uma cultura que se quer estática – como um grande museu a céu aberto, porém delimitados por seus muros – daquela forma de vida que olhamos como um acervo etnográfico, uma planta ornamental.
Esse tipo de racismo dissimulado, denunciado eficazmente por Frantz Fanon em seu Racismo e Cultura[11], possui sua contraparte por uma política colonial que efetivamente enclausura as populações colonizadas em espaços geográficos administrados e continuamente expropriados pela metrópole, o que se atualiza na forma de gestão do Estado neoliberal em uma gestão de territórios e de identidades. É importante notar que a transformação da ideia e efetividade do quilombo de uma política de autodeterminação – inclusive com os aspectos de uma contra-violência organizada na defesa do território – para uma tutela do Estado é denunciada pelo próprio Nego Bispo nas porções centrais de seu pensamento.
Eu arriscaria dizer que o ponto alto da crítica de Douglas a Bispo poderia ser colocado na forma da dialética: a negação expressa na ideia de “contracolonialismo” não poderia estar desimplicada do próprio colonialismo, principalmente quando se coloca como uma crítica externa. Um princípio cosmológico ou ético que se coloca de modo externo ao capitalismo estaria desde já condenado pela sua impotência em transformá-lo. A filosofia que resulta dessa tentativa seria um irracionalismo uma vez que
uma irracionalidade como essa, tratada com tal zelo e tolerada pela ratio como se formasse uma espécie de área de proteção ambiental, estaria de fato, justamente por isso mesmo, já abandonada à ruína e não conteria em si mais força alguma, seria completamente impotente.” – Introdução à dialética de Adorno[12]
Um pequeno exemplo poderia demonstrar o significado dessa discussão para a vilipendiada noção de “modernidade”. O quilombo de Palmares, em toda as suas contradições é tão parte da “modernidade” quanto a profissionalização e aprimoramento técnico dos mercenários e de suas armas que permitiu ao império português destruí-lo. Então eu poderia arriscar que certo subjetivismo do tipo de pensamento de Bispo, seria consequência de uma das contradições da própria modernidade.
Acho pertinente voltar uma última vez a questão da “classe média branca”, alvo inicial do texto de Barros. Uma recepção do pensamento de Bispo por esse público poderia implicar no oposto de suas intenções pessoais: uma ampliação do individualismo e da velha “culpa branca” que agora se atualizaria ao incluir o próprio corpo como lócus de uma reforma moral. Creio que seja no ponto alto da crítica de Douglas, precisamente no ponto em que sua crítica é mais verdadeira, onde mora o problema. Ao ler Nego bispo com os olhares voltados à esquerda retraída, Douglas não enfrentou com toda a seriedade o significado de que Bispo, os quilombolas, os indígenas e as comunidades de terreiro fazem parte da modernidade, ao menos se quisermos enxergá-la de modo total.

Uma certa modernidade hipostasiada
Para além das noções de igualdade e liberdade, outra promessa da modernidade que também não foi cumprida é o espraiamento do “modo de produção especificamente capitalista” a todos os poros da realidade material. Me refiro aqui não só à unidade chamada por Chico Mendes de “povos da floresta” e de outros povos autóctones mundo afora, mas também a outras formas de produção (e reprodução da vida) que se desenvolvem nos vestígios de produções capitalistas anteriores: em terras degradadas pela monocultura, espaços abandonados de extração industrial de madeira ou minerais etc[13].
Não é à toa que tem sido recuperada a tese de Rosa Luxemburgo de que a tomada violenta de recursos e trabalho que fizeram história na acumulação primitiva de capital representa uma necessidade estrutural do Capital em expropriar algo que está “fora”[14]. Ora, mas estariam os povos quilombolas fora da modernidade? Concordo com Douglas que não, mas a seriedade dessa resposta nos obriga a questionar sobre a pretensão de “irracionalismo” da consciência que daí advém. Qual seria o momento de verdade do irracionalismo?
O irracionalismo como um todo abriga a tendência de permitir que se dê lugar àquilo que, coloquemos assim, foi negligenciado no decurso do próprio processo europeu de progressivo esclarecimento e que foi subjugado pela dominação racional. Refiro-me ao elemento mais vulnerável, impotente, àquilo que há de meramente existente, ao que foi esconjurado como transitório e que não pode ser conservado em formas eternas. – Introdução à dialética de Adorno.
Não estou querendo imputar essas afirmações de Adorno à Douglas Barros, e já apresentei aqui um excerto dele em outro texto que dá conta da recusa desta “historiografia filosófica da razão” que passa por um “processo europeu de progressivo esclarecimento”. Mas quero propor uma formulação enfática: a proposição de que havia uma “necessidade de esclarecimento” por parte de todos os povos que foram alcançados pelo colonialismo europeu é falsa[15]. Mesmo a pretensão de que apenas uma dominação externa racional poderia retirar certas formações sociais de estruturas sociais estratificadas e violentas já pressupõe o tipo de “sociedade sem história” que foram a muito superadas pela antropologia contemporânea.
Um segundo aspecto mais importante desse excerto de Adorno está no que podemos chamar de um critério de “transitoriedade” e “impotência” ao qual o irracionalismo faria justiça. Como disse Erahsto Felício, os avanços e recuos dos latifundiários em relação aos territórios tradicionais e os assentamentos, a constatação de que “cada palmo de terras tomadas por quilombolas, indígenas, extrativistas, geraizeiros, de fecho e fundo de pasto… são terras a menos no mercado de terras do capital.”[16] nos impedem em falar sobre impotência. E a catástrofe climática em curso não nos permite ver os povos tradicionais como mais transitórios do que o próprio capitalismo. E não é possível negligenciar a consciência de uma diferença entre o modo de produção nesses territórios e nossa própria consciência “moderna” se formos capazes de perceber que o modo de produção especificamente capitalista também é um modo de produção de indivíduos. Já ultrapassamos cem anos de uma discussão sobre a “subjetividade capitalista”, as “formas jurídicas capitalistas”, os “modos de representação capitalista”, a “produção do indivíduo neoliberal” e outras coisas do tipo. Teríamos que desconsiderar toda a produção antropológica dos últimos cinquenta anos e a palavra dos próprios intelectuais indígenas e quilombolas para afirmar, sem reservas, de que a posição “mítico-religiosa” – que está longe de ser exclusiva de Bispo – não constitua um momento da razão.
Um pensamento que se desenvolveu por um enclausuramento – primeiro colonial e depois pelos próprios capitalistas e o seu Estado – geográfico, mas que teve de se defrontar e lutar sob todas as formas possíveis contra o Capital, produziu um excedente, produziu um excedente que “assume a aparência de uma contradição absoluta”: produziu a “não-modernidade”. E, claro, também produziu uma “modernidade” como o seu contrário. Ignorar essa contradição significaria hipostasiar[17] a própria modernidade como o significado do que a Europa, em sua própria “clausura”, teria desenvolvido e “difundido” pelo mundo. É a própria hegemonia do modo de produção capitalista no seio de um Capitalismo enquanto “sistema-mundo” que nos obriga a situar a totalidade dessa nossa realidade enquanto uma realidade contraditória, enquanto uma dialética. Entretanto todas as advertências que fazemos nesse sentido não pode nos levar a hipostasiar a própria dialética enquanto nosso ponto de chegada.
Como já apontamos, há contradições na fala de Nego Bispo. E contradições ainda maiores entre essa fala singular e a prática do Quilombo Saco-Curtume, a teoria e a prática da CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) e a teoria e a prática da vida e luta dos povos que lutam pela terra. Esse pensamento, com todas as suas contradições, urge ser lido sob esse marco da modernidade.
Um aceno à “cosmopolítica” e comentários finais
Não é fácil para mim compreender um pensamento que atribua aos meus tão queridos objetos o status de sujeitos. Não posso fingir um certo ceticismo toda vez que oram “a cobra que vem de dentro do rio”, que ouço sobre o sonho de Kopenawa com os guardiões invisíveis Xapiri das florestas[18], que li o relato de Bispo em que seu avô lhe sugere pedir licença a um boi. Não sou branco, mas minha parte da “culpa moderna” aparece toda vez que lembro que me foram necessários que antropólogos tão modernos quanto eu – como David Graeber ou Eduardo Viveiros de Castro (pra ficar em nomes intelectualmente “opostos”) – fossem até os Merina em Madagascar ou aos Arawete no Pará para que eu pudesse acreditar que os povos “não modernos” assim pensavam e de que eles não são loucos. Me parece que o “animismo” de combate que leio em Bispo ou Kopenawa seja um “pensamento efetivo”, que encontra sua efetividade em uma luta contra o Capital.
Não são poucos os intelectuais indígenas ou quilombolas se pensam como estando inseridos num mundo que é expropriado pelo capital, mas que resistirão ao modo de produção capitalista e a produção de uma subjetividade capitalista. Se eles estiverem certos disso, então poderiam conceber sua estratégia política não a fim de “superar” a economia política, mas derrubá-la à partir “de fora”. Ou seja, de forma não-dialética. Mas como?
Bom, eu creio que a parte mais problemática está aí. Mas não porque essa pergunta não encontra resposta, mas pelo conteúdo dessa resposta como podemos ler em Nego Bispo ou mesmo na tentativa de síntese política que Viveiros de Castro chamou de “Cosmopolítica”[19]. Primeiro, a de que a resistência incansável por um lado e a necessidade do capitalismo expropriar continuamente algo que está fora dele implicaria em uma crise estrutural do Capital. A organização política dessa resistência seria central para impor que, seja lá o que fosse erguido no lugar do “mundo capitalista”, fosse obrigada a respeitar a multiplicidade de “vários mundos”. Segundo, pois haveria algo de “não moderno” no nosso mundo moderno que escapa da contradição interna entre “homem e natureza”: todas aquelas relações tidas como parte da esfera da reprodução social como o cuidado dos idosos, a criação dos filhos e a vida religiosa etc. que porventura ainda não tivessem sido capturadas pelo Estado ou mediadas pela forma-mercadoria. A estratégia seria tentar fazer com que esses indivíduos “superassem” essa consciência moderna por meio de uma insubordinação dessas comunidades necessárias a reprodução social ao Capital em coalizão com os povos que já estariam “fora” dessa “outra dialética” com o capital. Por isso a insistência na luta pela epistemologia, por acreditarem que essa “consciência comunitária” estaria de alguma forma adormecida nos indivíduos.
Eu não estou defendendo essas variantes da cosmopolítica e não possuo nenhuma solução pronta para o nosso problema aqui. Afinal, será necessária uma luta teórico-política: não há qualquer solução “filosófica à priori” para derrotar o Capital. Vou terminar este “ensaio” com uma resposta abstrata, infelizmente. Pego emprestado de Giovanni Zanotti a tentativa de encontrar um leninismo já em Hegel. Ele consistiria não no abandono imediato, não dialético, da razão, mas uma razão que trabalha para extinguir a si mesma. Uma força produtiva que se desenvolve não para hipostasiar, “ontologizar” o trabalho, mas “tornar o trabalho gradualmente supérfluo, por meio do próprio trabalho”[20]. Hipostasiar certa concepção “modernizadora” da modernidade é o mesmo que hipostasiar o momento de não liberdade do trabalho e hipostasiar o momento violência e dominação sobre a natureza – ambos os quais a crítica indígena e quilombola quer abolir. Entretanto hipostasiar o momento de verdade dessa não-modernidade consistiria em hipostasiar o enclausuramento forçado e a violência e o sofrimento psíquico da resistência que foram analisadas e lamentadas amiúde por Fanon.
Talvez seja precisamente o pensamento indígena que permite a essa modernidade dar um passo além e sair de sua letargia. Uma razão que de alguma forma inclui o que no pensamento indígena sobre o Capital faz saltar o nosso próprio entendimento coletivo sobre o Capital[21]. Inclui o que na prática indígena se apresenta como uma luta efetiva contra o Capital que não permitiu nem que eles desaparecessem, e que não permitiu que o Capital se expandisse até os seus limites lógicos. Se não pudermos gritar junto a estes para “abolir” o trabalho ou abolir o Estado imediatamente, não podemos esquecer jamais de nossa política de extinguir o trabalho, extinguir o Estado. Relembrar isso é o mínimo que podemos fazer para que também não bloqueemos a nossa própria solidariedade a todos condenados da terra.
Este ensaio foi escrito após longas conversas com alguns amigos, aos quais agradeço pelo diálogo e pela paciência: Lucas Ferreira, Kézia Castro e Gabriele Pereira. Houve outros “interlocutores” que “conheço” apenas pela voz ou pela leitura, mas que também preciso agradecer por me inspirarem a escrever este texto: Giovanni Zanotti, Agnes Costa e Jean Tible. Por último, devo agradecer à Douglas Barros e à Nego Bispo por terem me feito pensar.
João Gabriel Nascimento de Almeida é Mestre em economia pela UFABC e doutorando em economia pela UNICAMP.
[1] Artigo de mesmo título. Disponível em https://blogdaboitempo.com.br/2026/01/21/contra-nego-bispo/
[2] Referência a notícia amplamente discutida e veiculada na imprensa. Disponível em: https://amazoniareal.com.br/vitoria-dos-indigenas-lula-revoga-decreto-de-privatizacao-de-hidrovias-na-amazonia/
[3] Citação a nota da COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) sobre a revogação do decreto 12.600. Disponível em: https://coiab.org.br/coiab-celebra-suspensao-da-dragagem-no-tapajos-e-defende-revogacao-definitiva-do-projeto/
[4] Esse “inconscientemente” não reflete a realidade sobre Nego Bispo e está aqui apenas para parafrasear o próprio texto de Douglas Barros em que ele chama Bispo de “inconscientemente alemão”.
[5] Cit. Karl Marx. Crítica ao programa de Gotha. Editora Boitempo, 2012.
[6] Cit. Antônio Bispo dos Santos. Colonização, quilombos: modos e significações. INCTI, 2015.
[7] “Este comunismo é, enquanto naturalismo consumado = humanismo, e enquanto humanismo consumado = naturalismo. Ele é a verdadeira dissolução do antagonismo do homem com a natureza e com o homem.” . Karl Marx. Manuscritos econômico-filosóficos. Boitempo, 2004.
[8] Algo como “toda política é um instrumento colonialista, porque a política diz respeito à gestão da vida alheia. Política não é autogestão.” de Bispo remete a “ontonegatividade da politicidade”, se quisermos usar um termo de José Chasin; A condenação de Bispo ao Estado quando diz que “qualquer governo que governar este Estado será um governo colonialista, porque o Estado é colonialista.” remete a um juízo sobre o Estado semelhante ao encontrado desde o Manifesto do Partido Comunista até o fim da vida de Marx.
[9] Cit. Walter Omar Kohan e Antônio Bispo dos Santos. Entrevista com Nego Bispo. 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/trans/a/tmg39NCmG3CytMcNDr5nWML/?format=html&lang=pt
[10] “Escrevendo e palavreando nós podemos estabelecer, não um limite, mas uma fronteira entre os saberes: o saber escriturado e o saber oralizado.” – Entrevista a Nego Bispo por Bianca Tavolari . Podcast 451 MHz ep. #135, 2025 (2023). Disponível em: https://quatrocincoum.com.br/podcasts/podcast/transcricao-nego-bispo-no-451-mhz/.
[11] Frantz Fanon. Racismo e cultura em: Em defesa da revolução africana. Terceiro Mundo, 1980.
[12] Theodor Adorno. Introdução à dialética. Editora UNESP, 2022.
[13] Produções tanto que se dão exclusivamente para subsistência como outras que entram ao mundo das mercadorias no que Anna Tsing outrora chamou de “acumulação por aproveitamento”.
[14] Pode (e deve) ser contestada os meandros teóricos que Rosa usou para tanto à luz dos mais recentes avanços da filologia sobre a teoria do valor em Marx. Mas não é por acaso a recuperação do sentido mais geral de sua concepção sobre a acumulação de capital.
[15] Sejam as populações indígenas “contra o Estado”, estudados por Pierre Clastres ou as confederações dos Iroqueses, cuja etnologia foi estudada por Marx em seus últimos anos.
[16] Citação ao texto de Erahsto Felício na Teia dos Povos. Disponível em: https://teiadospovos.org/quanto-falamos-em-autonomia-territorial/
[17] “Hipóstase” é um conceito importante para a filosofia e para a teologia, mas possui um conceito específico em Hegel que está presente na crítica de Douglas. Poderia ser definido, como o fez Adorno, “o firme [e] o inalterável [que] aparece de antemão à filosofia dialética […] como um fenômeno de endurecimento, a saber: […] o falso embasamento da coisa finita, acabada, absolutizada enquanto fundamento”.
[18] Referência a “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa Yanomami e Bruce Albert de 2010.
[19] Cit. Eduardo Viveiros de Castro. Cosmopolítica. Disponível em: https://teiadospovos.org/cosmopolitica/
[20] Cit. Giovanni Zanotti “Dialética do trabalho. Sobre o Hegel de Adorno”. Disponível em: https://www.ojs.hegelbrasil.org/index.php/reh/article/download/359/277
[21] As conexões entre os manuscritos econômico-filosóficos e “cosmologias” que não separam “homem de natureza” podem ser encontradas em “Marx Selvagem” de Jean Tible de 2013. Esta mesma obra discute nossa hipótese de que uma “novidade” sobre o Capital que é revelada pela luta e crítica indígena não é incompatível com a crítica marxista.

