Ameaças que pairam sobre nós
A América do Sul se militariza, e o que antes era um território de paz hoje se converte em um território de disputas no qual os Estados Unidos já praticam uma guerra híbrida
No dia 3 de janeiro deste ano, Nicolás Maduro e sua esposa foram sequestrados pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, em uma ação militar espetacular que quebrou todas as resistências e retirou de seu país o presidente da Venezuela, sem nenhuma baixa norte-americana.
No dia 15 de janeiro, Lula convocou uma reunião emergencial com os chefes das Forças Armadas e perguntou se temos como nos defender de uma ação similar no Brasil. A resposta é frágil, e volta à tona a falta de investimentos em modernização e armamento.
A questão da defesa do país já se colocava em razão dos atritos com os Estados Unidos ocorridos em 2025. Em 3 de novembro de 2025, depois da aprovação do PL pelo Senado, a Câmara dos Deputados aprovou o repasse de R$ 30 bilhões para reaparelhar e modernizar Exército, Marinha e Aeronáutica. Dinheiro extra, fora das regras do arcabouço fiscal.[1]

A Marinha encomendou oito fragatas da classe Tamandaré, equipadas para guerra antiaérea, antissubmarino e de superfície, e reforçou seu programa do submarino nuclear.[2] A Aeronáutica impulsiona a construção no Brasil dos caças Gripen, comprados da Suécia e com uma linha de montagem no Brasil. O Exército impulsiona a fabricação de carros de combate blindados e sistemas de inteligência. Todas as Forças compram munições e encomendam drones e mísseis. A indústria bélica brasileira ganha impulso.
Na avaliação do governo, há um risco crescente de conflitos militares com os Estados Unidos e os demais países que constituíram recentemente o Escudo das Américas, em uma reunião no dia 7 de março de 2026. Eles formam uma coalizão política e militar comandada pelos Estados Unidos, com a participação de outros 17 países latino-americanos. A Doutrina Donroe (“As Américas para os norte-americanos”) se propõe a combater toda forma de expressão de autonomia ou soberania nacional diante das imposições dos Estados Unidos.
Em 10 de março deste ano, o Congresso do Paraguai aprovou um acordo com os Estados Unidos que permite a presença de militares norte-americanos e de membros do Departamento de Defesa no país. O mesmo tratado permite a livre circulação de aeronaves, barcos e veículos operados pelo Departamento de Defesa. Fica acordado que os Estados Unidos terão uma base militar no país.
A Argentina fez acordo por cinco anos com a Quarta Frota do Comando Sul dos Estados Unidos para cooperação militar no patrulhamento do Atlântico Sul. Do acordo constam transferência de tecnologia, treinamento e interferência direta norte-americana contra eventuais “ameaças”.[3] Em construção, uma base militar norte-americana na Patagônia argentina.[4] No momento, a base militar de Ushuaia permite a presença de forças especiais navais norte-americanas, por força de um decreto administrativo do governo Milei.
No Equador, os Estados Unidos já atuam na luta contra o “terrorismo”.[5]
Na região Norte, o Exército brasileiro já deslocou efetivos e reforçou sua presença na fronteira com a Venezuela, hoje um protetorado norte-americano. Além disso, seguindo a proposta da Política de Transformações (modernização e maior eficiência), o Exército determinou que 20% de seu efetivo esteja em elevado grau de prontidão para cenários de defesa e de resposta rápida, e designou cinco brigadas para essa condição – ao todo, são cerca de 25 mil soldados.6
Mesmo com todo esse esforço, nossa vulnerabilidade é enorme. E podemos ter problemas caso se efetive o pedido de Flavio Bolsonaro para que Trump classifique o PCC e o CV como organizações terroristas, uma vez que a legislação americana permite a intromissão em outros países para combater o terrorismo.
A realidade é que a América do Sul se militariza, e o que antes era um território de paz hoje se converte em um território de disputas no qual os Estados Unidos já praticam uma guerra híbrida, isto é, um conflito que combina táticas militares com ações não convencionais para derrotar um adversário sem necessidade de um confronto bélico. Combinam-se ações de manipulação de notícias e fake news, roubo de dados, ciberguerra, pressão econômica, financiamento das oposições, influência em processos eleitorais, lawfare (guerra jurídica). Mas o confronto bélico sempre está no horizonte, como forma de pressão.
Não tenhamos dúvidas de que o Brasil está sendo atacado. Trump não aceita nossa defesa da soberania, nosso esforço de defesa do multilateralismo para sair de sua dependência, nosso esforço de industrialização, nosso esforço de integração latino-americana e com o Brics.
Os Estados Unidos, associados às plataformas digitais, vão tentar interferir em nossas eleições, como já ameaçou Elon Musk, que teve sua empresa X suspensa temporariamente de operar no Brasil em 2024 por recusar-se a obedecer à legislação brasileira.
Também é preciso levar em conta que o bolsonarismo pede o apoio de Trump em sua campanha eleitoral, chegando a desfraldar a bandeira norte-americana em manifestações de rua. Parte do empresariado se coloca contra o governo petista e em apoio a Flavio Bolsonaro.
A disputa eleitoral será renhida, e do resultado depende a sobrevivência da democracia ou seu fim.
[1] Lei Complementar n. 221/2025.
[2] “Marinha do Brasil contratará segundo lote de fragatas classe Tamandaré, elevando frota para 8 navios”, Poder Naval, 10 fev. 2026.
[3] Tatiana Carlotti, “Argentina assina acordo de cooperação militar com Comando Sul dos EUA por cinco anos”, Opera Mundi, 21 maio 2026.
[4] “Construção de base militar dos EUA na Patagônia argentina gera repúdio da população”, Brasil de Fato, 22 maio 2022.
[5] Jamil Chade, em depoimento no Instagram, instagram.com/reels/DVvVOyhCHBM/.
6£ São Brigadas de Infantaria de Paraquedistas, Aeromóvel, da Selva, Mecanizada e Blindada, perfazendo algo como 25 mil efetivos.

