ENTREVISTA

Amor entre mulheres, memória e amadurecimento: Rai Gradowski fala sobre “Cercas Vivas”

Entre lembranças da adolescência e desafios do presente, o livro traz personagens LGBT+ em busca de autonomia e pertencimento

A escritora curitibana Rai Gradowskiestreia na literatura comCercas Vivas(Editora Zouk), romance que combina amadurecimento, dilemas morais e um vínculo interrompido pelos trânsitos da juventude. Narrado em primeira pessoa por Bianca, a obra acompanha a jovem que, ao herdar a casa da avó, precisa lidar com as memórias afetivas do lugar, revisitar os sentimentos da adolescência e enfrentar o mistério que envolve o passado familiar. O livro conta com texto de orelha da escritora Julia Dantas e blurb de Carol Bensimon. 

Dividido em 18 capítulos, o romance se destaca pelo ritmo fluido, a linguagem visual e a construção de personagens que dialogam com experiências urbanas contemporâneas. Além disso, a autora imprime nas páginas uma ficção realista que explora dilemas morais e afetivos a partir de um enredo aparentemente cotidiano.  

Com referências que evocam o imaginário dos anos 1990 e 2000, de cadernos da Tilibra a trilhas sonoras com The Calling, Cercas Vivasdialoga diretamente com a geração millennial. Entre locadoras de filmes e tardes dividindo fones de ouvido, a narrativa revisita a adolescência, transformando memórias em um tecido literário que costura mistério, amadurecimento e identidade. 

Rai Gradowski nasceu em 13 de julho de 1989, em Curitiba. É escritora, advogada e especialista em Escrita Criativa pela PUCRS (2025). Desde 2021, assina a docx, coluna de autoficção disponível no Curitiba Cult e no Substack 

Confira na íntegra a entrevista com a autora: 

As relações familiares e amorosas estão entre os temas centrais de Cercas Vivas. Como surgiu essa escolha? 

Os principais temas do livro se resumem ao desenvolvimento e amadurecimento da personagem Bianca; a imposição de suas escolhas e vontades quando desafiada pela vida nas mais variadas formas, seja pela avó e seu passado, ou por Martina e seu futuro. O livro trata de pontos também sensíveis e traz provocações que levam a dilemas morais. Mas também traz, e muito, dessa relação afetiva e meio conturbada entre Bianca e Martina.  

Quando eu comecei a escrever o Cercas Vivas, o planejamento ia por um caminho. Estava ali a mudança de Bianca para casa da falecida avó, a situação do caderno, outras plantas, ok, mas não tinha previsão de uma relação mais importante Bianca-Martina. Até aí, a ideia era trazer uma personagem numa fase de mudança, de amadurecimento, e colocar em paralelo questões e dilemas trazidos com a avó que necessitariam de enfrentamento. Conforme desenvolvia a narrativa e colocava mais a Martina em cena, eu percebi que a história seguia para outro lado, para outras preocupações. Tinha potencial para explorar na relação daquela personagem com a Bianca. Explorar a questão da autonomia e identidade da Bianca frente a outras provocações. E aí a trama foi fluindo muito em relação às duas, às inseguranças de Bianca.  

Na tentativa de retratar uma vivência lésbica próxima à minha realidade, à minha geração, aquele friozinho na barriga comum a algumas pessoas ao meu redor, decidi que queria escrever sobre isso, sobre elas. 

Isso se tornou mais uma camada de enfrentamento da Bianca em seu projeto de autonomia e amadurecimento, que acabou me encontrando no momento em que comecei a escrever. 

Qual é a importância da sua participação em oficinas literárias para o surgimento do livro? 

Eu comecei a escrever o livro numa oficina de romance da Carol Bensimon, em junho de 2021. Na época, era pandemia e eu fazia várias oficinas de escrita curtas online. Essa foi a primeira que ficou mais longa. Em uma determinada aula, a Carol passou o exercício de projeto literário de um romance. Eu não fazia ideia do que escrever, não tinha uma história na manga que quisesse contar, nem nada disso. O meu interesse maior naquele momento era o próprio ato da escrita. Era estudar o escrever. Eu queria escrever porque eu estava gostando de inventar. Do prazer com o próprio ato da escrita. Prazer com o ato da criação. Mas aí eu tinha acho que uns quinze dias para pensar na premissa de um romance, dar o tom, ponto de vista, estruturar e escrever as três primeiras páginas.  

Então eu tomei algumas decisões práticas como de que seria um romance linear, que eu escreveria em primeira pessoa, e que a personagem seria alguém que poderia ser do meu mundo, poderia ser qualquer amiga minha, poderia ser eu, optando isso pelo tipo de linguagem que eu queria abordar, o tipo de referência que queria trazer.  

Mas eu ainda não sabia o que queria contar. Sobre o que queria escrever. E isso eu só fui descobrir de verdade, meses e meses depois, quando eu acabei a primeira escritura.  

Como teve a ideia de ambientar a narrativa em Curitiba? 

Eu sou uma pessoa muito visual. Minha escrita é muito referenciada no que enxergo. E pensando numa ideia de cenário mais concreto para imaginar ali uma história se desenvolvendo, veio a casa. Tem uma casa bem de esquina, do outro lado da rua do meu apartamento. Da minha varanda, sentada em lótus no sofá onde sempre escrevo, naquele silêncio desconcertante e barulhento da pandemia meus olhos não desgrudavam daquela casa. E aí que eu defini que aquele seria meu cenário. Eu precisava imaginar um mundo acontecendo dentro daquela casa. É engraçado que eu tenho vários e vários textos que essa casa aparece de alguma maneira, como um berço mesmo para eu imaginar minhas histórias. Enfim, decidi que minha personagem estaria se mudando para aquela casa, indo morar sozinha pela primeira vez. Mas como? E aí que surgiu a avó Luci, e um mistério ali para ajudar o andamento do livro. Na época era outra coisa, a história era outra. Mas já envolvia plantas, certamente meu inconsciente pressionado a colocar uma ideia no papel foi buscar lá nos meus primórdios farmacêuticos. Depois amadureci para o que eu queria falar, provocar, e fui adaptando. Desenvolvi para oficina o exercício pedido. Sinopse. Estrutura. Primeiras Páginas. Gostei, e decidi continuar aquele projeto.  

Então, a personagem Martina não fazia parte da história, num primeiro momento? 

Fui frequentar a oficina permanente da Baubo, com a Julia Dantas e Cacá Joanello, e quando eu efetivamente comecei a colocar em prática todo aquele planejamento detalhado, a personagem Martina surgiu com tudo e virou o jogo. E aí me envolvi com Martina e com Bianca. E vi que minha história começou a caminhar justamente para relação entre elas. Acho que por reconhecer ali uma vivência lésbica perto da minha realidade, da minha geração, percebi que também era sobre isso que eu queria escrever, porque era isso, que de certa maneira, eu queria ler. 

Por pouco mais de um ano frequentando a oficina permanente da Baubo, desenvolvi a primeira escritura do Cercas Vivas, trazendo como folhetim os capítulos nos encontros de segunda à noite. Foi uma experiência muito bacana porque de tempos em tempos os participantes levavam textos de seus projetos, e toda turma dava pitaco, e depois as deusas da Baubo devolviam o texto com revisões e sugestões. Finalizei a primeira escritura em agosto de 2022 e dei uma distanciada do texto por uns meses. E depois reescrevi tudo mudando o tempo verbal, mexendo no texto, no foco da história. Quando terminei, enviei mais uma vez para edição e revisão da Julia Dantas e da Cacá Joanello. No começo de 2024, ele ficou pronto. 

Capa do livro "Cercas Vivas": é uma arte abstrata com semelhanças à flores e cores: rosa, azul, vermelho e verde
Crédito: Divulgação/Editora Zouk

O que representa para você a publicação do livro? 

Cercas Vivas é a materialização do mundo imaginário e paralelo que tanto acessei nos últimos anos. Um projeto que no começo eu queria desenvolver para pôr em prática o que estava estudando de escrita, e que de repente me envolveu e eu mergulhei tão fundo que passou a dominar completamente meus dias, meus pensamentos. Acho que todo processo de escrever um livro é intenso, cheio de pontas afiadas tanto de euforia como de inseguranças. E foi nesse processo que a escrita mudou totalmente lugar na minha vida, tomando o papel central. Eu lembro que para finalizar a obra, estava com um hiper bloqueio criativo e aí comentei com minha namorada que eu não conseguia terminar porque não queria que Bianca e Martina parassem de existir, mas ela respondeu que era quando eu terminasse que elas iam começar a existir de verdade, nascer para o mundo.  

Sua produção literária dialoga bastante com a realidade. Quais são seus principais objetivos ao fazer essa escolha? 

Desde que comecei, escrevo ficção realista, em prosa.  O Cercas Vivas é meu primeiro romance, mas dentro dos meus contos eu já sigo essa linha de ficção realista, uma literatura urbana. Eu acho que a ficção tem um papel primordial na sociedade. Seja para causar reflexões, revoltas, gerar empatia, ou produzir dopamina com o ato da imersão na leitura. 

Me considero uma pessoa criativa, imaginativa. Eu gosto de inventar. Mas eu também gosto da realidade. Gosto de pensar o momento em que vivemos. Então eu tento imprimir nos meus textos essa realidade ficcional do contexto urbano, das relações afetivas, em especial das relações LGBT+. 

Você também tem um atento trabalho na construção de cenas. Qual é a importância disso na sua literatura? 

Minha escrita é bastante fluída, visual, coloquial e urbana. Eu tento aproximar pequenos detalhes da vida e do cotidiano trazendo realidade para o texto. Acho que nesse momento, pensando que estamos em constante mudança, posso me definir como alguém que trabalha muito com cenas, meu texto costuma ter esse movimento, talvez porque escreva em movimento, referenciando muito do que enxergo no dia a dia.  

No caso do Cercas Vivas, eu sigo com essa linguagem fluída e coloquial. Para o livro adotei a estrutura linear clássica de três atos, fazendo um super planejamento antes de iniciar a escrita. Cada ato com seu objetivo, cada capítulo com sua intenção – planejado em cenas o andamento do livro. Conforme o texto foi sendo construído, fui adaptando o planejamento, mexendo uma coisa aqui outra ali dentro do quadro de cortiça.   

Quais são os seus projetos atuais de escrita? 

Eu estou trabalhando em um novo romance, projeto que comecei a desenvolver na especialização em Escrita Criativa na PUCRS, e que agora está aí, maturando para os próximos passos e decisões. Continuo assinando a .docx, newsletter de autoficção que sai tanto no Curitiba Cult como no Substack. Também quero usar da especialização em Escrita Criativa e focar em outros trabalhos com texto, como revisão, edição, preparação, elaboração de oficinas, enfim, continuar imersa nas palavras. 

O que foi mais desafiador ao escrever Cercas Vivas: acessar memórias, estruturar o mistério ou construir o amadurecimento da personagem? 

Como se trata de um livro totalmente ficcional, as memórias acessadas se enquadram mais como referências genéricas, marcadores de determinados períodos, ou também relativos a espaços.  

A estrutura do mistério foi a primeira coisa que fiz, e a que tive mais facilidade, encarando como um ponto bem prático mesmo. O mistério funcionou como um facilitador para dar andamento na narrativa. A estrutura do mistério foi a espinha dorsal do texto, e a partir dali, conforme desenvolvia a escrita, fui abrindo ramificações na narrativa, inclusive para intensificar a história entre Bianca e Martina.  

Já o amadurecimento das personagens foi certamente o mais difícil. Eu primeiro precisei escrever o texto inteiro para conseguir entender quem era minha personagem – como ela agia frente a determinadas situações que fui apresentando ao longo dos capítulos. Quando terminei, entendi quem era Bianca, quem era Martina, sobre o que era meu livro. Aí, numa segunda escritura, dando aquelas mexidas, aprofundei as personagens, principalmente nos primeiros capítulos.  

O livro lida com uma vivência lésbica realista e cotidiana. O que era essencial preservar nessa representação? 

Tentei preservar principalmente a dinâmica da relação entre Bianca e Martina. As incertezas, inseguranças e também o desejo que atordoam Bianca durante a narrativa. A ideia era trabalhar com a tensão do antes da relação, mostrar um pouco do jogo de controle entre elas. O ponto era apresentar uma relação entre duas gurias, que não estão em momento nenhum problematizando ou pensando sobre estar em uma relação homoafetiva. Não é sobre isso. Ser lésbica, no livro, não é um evento extraordinário, mas um dado da vida das personagens. O que me interessava era mostrar uma relação atravessada por afetos contraditórios, sem idealização, porque é nessa esfera das imperfeições que a experiência se torna reconhecível. 

Como você enxerga a importância de narrativas LGBT+ dentro da literatura urbana atual? 

Acredito ser crucial a existência de narrativas LGBT+ – em que se opta como personagens, como foco, pessoas LGBT+ ainda tão invisibilizadas e silenciadas na sociedade. E aqui não coloco só no sentido de narrativas para pensar sobre essas relações, ou de tornar essas vivências exemplares ou heroicas, mas de inscrevê-las no espaço da cidade como parte legítima do presente. Escrever e materializar essas vivências, mostrar essas personagens ocupando os espaços urbanos, sejam bares, praças, ruas, ambientes de trabalho, registrando modos de vida, afeto, relações comuns entre indivíduos. A partir disso, há uma expansão do que se tem de experiência comum em uma sociedade cisheteronormativa. Esses corpos deixam de ser exceção e passam a fazer parte do cotidiano da cidade, passam a pertencer. As existências são naturalizadas e complexificadas, não apenas representadas.  Se amplifica a ideia de quem ocupa a cidade, e de que histórias merecem ser contadas.  

 

Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na Editora Orlando e na Com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário. 

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