Ancara e Moscou, um jogo perdido na Síria - Le Monde Diplomatique

OFENSIVA CONTRA OS CURDOS

Ancara e Moscou, um jogo perdido na Síria

por Akram Belkaïd
31 de outubro de 2019
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A operação Fonte de Paz permitiu ao Exército turco assumir o controle de uma parte do nordeste sírio. A Turquia encerra assim a experiência de confederalismo democrático do Rojava. O acordo concluído com a Rússia consagra a influência de Ancara sobre a região fronteiriça e permite que o regime sírio recupere territórios até então sob controle de forças curdas

Em 9 de outubro, o Exército turco, apoiado por milícias sírias aliadas, entrou em muitos pontos do nordeste da Síria. Essa região curda, politicamente autônoma desde 2013 e comumente chamada de Rojava (“o oeste”, em curdo), ou Curdistão sírio, ou ainda Sistema Federal Democrático do Norte da Síria, era até então controlada pelo Partido da União Democrática (PYD), ramo sírio do Partido do Povo Curdo (PKK).1 Precedida por bombardeios intensos que não pouparam a população, a operação Fonte de Paz rapidamente levou à captura de várias cidades fronteiriças, incluindo Tell Abyad. Penetrando por quase 30 quilômetros em território sírio e assumindo o controle de grande parte da rodovia M-4, principal via de comunicação na região, Ancara alcançou um de seus primeiros objetivos, buscado por muito tempo: romper a continuidade territorial da entidade federal democrática do Rojava.

A marcante constância dos atores do conflito sírio constitui uma das chaves para entender a ofensiva turca e suas consequências. Com esse ataque, Ancara comprometeu-se totalmente com sua estratégia de longo prazo, que visa suprimir qualquer base de retaguarda do PKK e ao mesmo tempo fortalecer sua influência política e econômica para além de sua fronteira meridional. De sua parte, o presidente sírio, Bashar al-Assad, condenou a violação de seu território, mas tira proveito da situação para recuperar áreas anteriormente controladas pelo PYD. Já a Rússia pretende manter o árbitro absoluto do conflito – uma ambição facilitada pela vontade muitas vezes reiterada de Donald Trump de tirar os Estados Unidos do atoleiro sírio. Assim, foi a retirada norte-americana que deu o sinal para o início da operação. Em 6 de outubro, após uma conversa por telefone com seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdoğan, o inquilino da Casa Branca anunciou a saída de seus soldados da Síria. Três dias depois, Ancara lançou sua ofensiva.

A boy wearing a Turkish flag stands next to a Turkish soldier in the town of Tal Abyad, Syria October 23, 2019. REUTERS/Khalil Ashawi TPX IMAGES OF THE DAY – RC1FEACF7860
Aniquilar a experiência do Rojava

A invasão forçou as forças curdas a apelar para o Exército sírio para proteger as cidades que ainda dominavam. Em vários lugares, como na cidade de Kobane, que foi alvo, em 2015, de combates acirrados entre os curdos e a Organização do Estado Islâmico (OEI), as Unidades de Proteção do Povo (YPG), o braço armado do PYD, e seus aliados árabes reunidos nas Forças Democráticas da Síria (FDS) retiraram-se para dar lugar às tropas de Al-Assad. O ataque provocou uma onda de indignação no Ocidente por causa do abandono dos curdos, aliados dos Estados Unidos na luta contra a OEI; mas isso não foi muito além. Os parceiros europeus de Washington tomaram nota da retirada norte-americana e a França também decidiu colocar ao abrigo seus soldados presentes no Rojava. Negando ter dado o sinal verde ao ataque turco, Trump alimentou a confusão ao multiplicar mensagens contraditórias e ameaçar Erdoğan com medidas de retaliação significativas, ao mesmo tempo que lhe impunha apenas sanções mínimas. Em 17 de outubro, seu vice-presidente, Mike Pence, também trabalhou pela conclusão de um frágil cessar-fogo entre o Exército turco e as forças curdas.

Desde 2015, Ancara se opôs constantemente a um projeto de entidade curda autônoma cuja viabilidade era então reforçada pela aliança militar entre curdos sírios e ocidentais. Destacando a proximidade política entre o PYD e o PKK, uma organização considerada terrorista pelos Estados Unidos e pela União Europeia, as autoridades turcas afirmam lutar contra o terrorismo e rejeitam a ideia de um Curdistão sírio que poderia oferecer uma base de retaguarda para os ativistas do PKK e, mais ainda, formar o núcleo de um futuro Curdistão, reunindo curdos da Turquia e da Síria. Outra motivação não confessada: Ancara não quer que a experiência concreta e altamente midiatizada de confederalismo democrático igualitário tentada no Rojava possa melhorar a imagem internacional do PKK e de seu braço sírio, que passaram em meados dos anos 1990 do marxismo-leninismo ao municipalismo libertário e à ecologia social.2

Para se precaver contra possíveis ataques curdos, Erdoğan quer criar uma zona-tampão de 400 quilômetros de comprimento por 30 quilômetros de largura no norte da Síria, como explicou em 24 de setembro na Assembleia Geral das Nações Unidas. A ideia não é nova. Em outubro de 1998, após três anos de tensão diplomática e de confrontos esporádicos entre os exércitos dos dois países, a Turquia obteve da Síria a assinatura do Acordo de Adana, que previa o fechamento dos campos de treinamento do PKK no norte do país e um direito de intervenção militar em uma zona de 6 quilômetros de largura ao longo da fronteira.3 Esse acordo levou a uma lenta normalização das relações turco-sírias, ao mesmo tempo que forçava Abdullah Öcalan a fugir de Damasco, de onde liderava o PKK. Alguns meses depois, o líder histórico curdo foi preso e sequestrado no Quênia pelo serviço secreto turco.

Mais recentemente, em 7 de agosto, Washington e Ancara concordavam quanto ao estabelecimento de uma “zona de segurança” no Rojava. Embora muito vago, esse acordo deveria ter alertado as autoridades curdas. No entanto, elas não ficaram preocupadas com ele, convencidas de que o texto permaneceria sem efeito, como foi o caso do anúncio de Trump, feito em dezembro de 2018, de uma retirada dos soldados norte-americanos da Síria, em nome de sua promessa eleitoral de tirar os Estados Unidos de “guerras sem fim”.

Por três anos, a Turquia empenhou-se em enfraquecer o projeto curdo no Rojava dividindo seu território por meio de ofensivas direcionadas que levaram à ocupação prolongada de territórios sírios. No verão de 2016, a operação Escudo do Eufrates, realizada a um só tempo contra as YPG e, na margem, contra a OEI, permitiu que o Exército turco assumisse o controle da cidade de Jarabulus, a oeste de Kobane. Em janeiro de 2018, foi todo o cantão de Afrin, um dos três pilares territoriais da federação do Rojava, que ela conquistou no final da campanha Ramo de Oliveira. Com a Fonte de Paz, Ancara talvez não seja capaz de colocar em prática completamente sua zona-tampão, mas terá matado o projeto de autonomia curda no nordeste da Síria, pelo menos em sua concepção inicial.

O governo turco diz que o corredor permitirá também acolher 2 milhões de refugiados sírios, dos 3,6 milhões que atualmente vivem em seu território. Há muita tensão com a população local, bastante irritada pelas declarações das autoridades sobre o custo supostamente exorbitante desses refugiados para o país. A transferência proposta teria, portanto, um efeito positivo em um contexto político interno tenso e agravado por grandes dificuldades econômicas. É claro que, com exceção do Partido Democrata do Povo (HDP, esquerda pró-curda), que criticou a intervenção militar, toda a oposição se colocou em apoio a Erdoğan em um forte movimento nacionalista. Mas essa união sagrada não vai durar, e o presidente turco precisa recobrar seu prestígio depois que seu partido, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), perdeu várias municipalidades, entre elas Istambul e Ancara, nas eleições da primavera passada.

O projeto do corredor também estabelece uma nova fronteira para os interesses econômicos turcos. Erdoğan pretende torná-lo uma zona de influência onde, por exemplo, os novos vilarejos destinados a acolher refugiados repatriados serão construídos – como já é o caso em Afrin – por empresários turcos, apoiadores habituais do AKP a partir de agora confrontados com o declínio das encomendas públicas nas cidades perdidas pelo partido islamo-conservador. Assim, o Rojava se tornaria uma reserva para essas empresas e ofereceria uma continuidade geográfica à província de Hatay, há muito tempo síria e ligada à Turquia desde 1939 – o regime de Damasco ainda reivindica esse apêndice, onde fica a cidade de Antioquia, que os mapas oficiais situam sistematicamente em território sírio.

O presidente turco parece convencido de que seu homólogo norte-americano não impedirá seus planos na Síria. Nem as mensagens peremptórias,4 nem as ameaças de sanções agravadas, nem os debates recorrentes em Washington sobre uma exclusão da Turquia pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) têm influência sobre ele.5 O risco de uma transferência para fora da Turquia das cinquenta ogivas nucleares abrigadas na base de İncirlik – que significaria de fato o fim da adesão da Turquia à Otan – não preocupa mais; ele prefere discordar regularmente sobre o direito de seu país de possuir uma arma atômica.6 Convidado para a Casa Branca em 13 de novembro, Erdoğan terá tido tempo de sobra para avançar seus peões no tabuleiro de xadrez sírio.

 

Remodelagem democrática

Em contrapartida, ele sabe que tem mais que nunca de contar com Vladimir Putin. Este último não condenou a invasão turca e trabalhou para impedir qualquer resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas com esse objetivo. Moscou deixou para seu aliado iraniano a tarefa de criticar a violação da soberania síria e se contentou em pedir a Erdoğan que “pensasse bem” sobre sua ação. Essa indulgência é explicada pelo principal objetivo da Rússia na crise síria. Para Moscou, a prioridade é fortalecer o regime de Al-Assad, permitindo que seu Exército recupere o controle do território perdido desde o verão de 2011. É o que Moscou não para de repetir para a Turquia e para o Irã no contexto do processo de Astana, que visa encontrar uma solução política para a crise síria. Antes da ofensiva turca, Damasco controlava apenas 60% do território. Uma recuperação, mesmo parcial, do Rojava aumentaria essa proporção para 70-75%. Até agora, as negociações com o PYD, conduzidas sob a liderança de Moscou, tropeçavam na questão da autonomia do Curdistão sírio, com Al-Assad se recusando a ouvir falar do assunto, e os curdos fortemente confiantes no apoio norte-americano, rejeitando qualquer concessão. O ataque turco obrigou os últimos a rever para baixo suas ambições, cedendo o controle de certas áreas ao Exército sírio. Paradoxalmente, a invasão turca permitiu a Damasco recuperar algumas partes de seu território.

Moscou terá de convencer Ancara a restituir no todo ou em parte territórios sírios ocupados pelo Exército turco. O jogo está longe de ser ganho. De fato, a Turquia pretende manter nessa área uma influência econômica, mas também política. Suas milícias aliadas, como o Exército Nacional da Síria (ex-Exército Livre da Síria) e Ahrar Al-Charkiya (os [homens] livres do Leste), cujos alguns membros foram considerados culpados de abusos contra os curdos nos primeiros dias da operação Fonte de Paz,7 ainda querem a queda do regime de Al-Assad. Por seu lado, as autoridades de Damasco não veem com bons olhos a instalação de refugiados que lhes são a priori hostis e que poderiam alimentar com novos recrutas os grupos rebeldes. A relutância do poder sírio é, no entanto, atenuada pelo fato de essas populações serem de língua árabe. Sua instalação no Rojava – do qual elas não são originárias – teria o efeito de diluir a presença curda. Em outras palavras, os turcos contribuiriam para uma remodelação demográfica desfavorável aos curdos, oferecendo a Damasco uma alavanca adicional para colocar fim a qualquer veleidade de autonomia.

As negociações russo-turcas também envolverão a província de Idlib, onde a influência de Ancara permanece importante junto aos grupos rebeldes que a controlam, entre os quais Hayat Tahrir Al-Cham (ex-Frente Al-Nosra) e a aliança pró-turca da Frente de Libertação Nacional. As concessões feitas à Turquia no Rojava dependerão do sinal verde concedido por Ancara ao regime sírio e de seu aliado e protetor russo, para pôr fim à oposição armada em Idlib. Para Damasco, recuperar essa província localizada perto da capital e da costa do Mediterrâneo é mais urgente que assumir o controle total sobre o nordeste do país.

Paradoxalmente, Moscou pretende aproveitar a invasão turca para promover um diálogo direto entre Ancara e Damasco. Tendo em vista que os países ocidentais não desistiram de um dia colocar Al-Assad diante de um tribunal internacional para crimes de guerra, isso constituiria um reconhecimento da perenidade de seu regime. Até agora, Erdoğan se recusa a discutir com seu homólogo sírio, mas vozes se fazem ouvir na Turquia para que uma reunião como essa ocorra.8 Enquanto isso, a operação Fonte de Paz poderia acelerar a reintegração da Síria à Liga Árabe, cujos membros condenaram a “agressão turca”.9 Durante uma visita oficial à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos, em meados de outubro, Putin pediu aos dois países que facilitassem esse retorno e contribuíssem financeiramente para a reconstrução da Síria.

 

Akram Belkaïd é membro da redação do Le Monde Diplomatique.

 

1 Ler Mireille Court e Chris Den Hond, “Une utopie au cœur du chaos syrien” [Uma utopia no coração do caos sírio], Le Monde Diplomatique, set. 2017.

2 Ler Benjamin Fernandez, “Murray Bookchin, écologie ou barbarie” [Murray Bookchin, ecologia ou barbárie], Le Monde Diplomatique, jul. 2016.

3 Cf. Michel Gilquin, “Retour sur la crise turco-syrienne d’octobre 1998: une victoire des militaires turcs” [Retorno à crise turco-síria de outubro de 1998: uma vitória dos militares turcos], Cahiers d’Études sur la Méditerranée Orientale et le monde Turco-Iranien, n.33, Paris, jan.-jun. 2002.

4 “‘Ne faites pas l’idiot!’: l’incroyable lettre de Trump à Erdoğan” [“Não banque o idiota”: a incrível carta de Trump a Erdoğan], Le Figaro, Paris, 16 out. 2019.

5 Ler Didier Billion, “La Turquie, allié capricieux, ennemi impossible” [Turquia, aliado caprichoso, inimigo impossível], Le Monde Diplomatique, out. 2019.

6 “Erdoğan says it’s unacceptable that Turkey can’t have nuclear weapons” [Erdoğan diz que é inaceitável que a Turquia não possa ter armas nucleares], Reuters, 4 set. 2019.

7 Fatma Ben Hamad, “Enquête: des images établissent les exactions d’une milice proturque en Syrie” [Investigação: imagens estabelecem os abusos de uma milícia pró-turca na Síria], Les Observateurs, 21 out. 2019. Disponível em: <https://observers.france24.com>.

8 “Turquie: Erdoğan sous pression pour renouer avec le voisin syrien [Turquia: Erdoğan sob pressão para se reconectar com o vizinho sírio], RFI, 28 set. 2019.

9 Al-Hayat, Beirute, 12 out. 2019.



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