Argentinofobia ou formação de compromisso
A construção de identidades nacionais utilizou o esporte para promover o branqueamento populacional e o apagamento de raízes negras e indígenas. Enquanto o Brasil sustentou o mito da democracia racial, a Argentina consolidou a imagem de uma nação europeia, processo que reverbera no atual apoio à extrema direita
Que futebol e política sempre caminharam juntos, nenhuma novidade. Basta lembrar da campanha ufanista do regime militar durante a Copa de 70 interferindo na definição do técnico da seleção brasileira;1 assim como nas copas em que os países sedes viviam sob regimes autoritários, como a Itália de Mussolini, em 19342, e a Argentina de Videla, em 1978,3 gerando fortes suspeitas de que tenham contribuído para a conquista dos primeiros títulos mundiais para as anfitriãs. Na última década, assistimos à captura da camisa amarela da seleção brasileira pela extrema direita, que a transformou em um símbolo político associado a anseios golpistas.
Em tempos de xenofobia exacerbada, através da política imigratória dos EUA, a Copa do Mundo de 2026 ocorreu sob intensos debates geopolíticos de cunho racista escancarado com o impedimento do arbitro somali Omar Abdulkadir Arta participar do mundial e das violações claras de condições dignas para a seleção do Irã, bem como a proibição de circulação da bandeira da Palestina.4
É nesse contexto complexo que devemos analisar como as recorrentes manifestações racistas de uma parcela expressiva da torcida argentina simbolizaram e expressaram uma elite que hoje se sente representada pelo presidente Javier Milei e pelo projeto político da extrema direita para a América Latina, marcado pela reabilitação de discursos eugênicos e excludentes.
Historicamente a rivalidade entre as seleções de futebol do Brasil e da Argentina foi construída não só pela disputa de placar e vitórias, mas pelo componente racial. A origem do racismo como capítulo da rivalidade entre essas duas nações provavelmente surgiu da charge do jornal argentino La critica, em 1920, em que os jogadores brasileiros foram retratados como macacos após um amistoso entre as duas seleções, em 1919. Em 1996, o problema volta a aparecer quando a Gazeta desportiva Olé estampou na manchete de capa “Que vengan los macacos” referindo-se a semifinal entre Brasil e Nigéria que definiria a final dos jogos Olímpicos.5 No mesmo ano o presidente Carlos Menen declara: “Na Argentina, negros não existem, isso é um problema do Brasil”.6 Menen não só afirmava que ter negros é um problema como o fazia comparando-se ao Brasil.
Talvez a novidade dessa copa seja justamente uma mudança e ampliação do foco quando parte da torcida da Argentina passou a utilizar dos mesmos insultos que sempre foram direcionados para o Brasil, para torcedores de outras nações.
Finalizada a copa, Javier Milei acusou o governo brasileiro de ser responsável por financiar campanha anti-argentina.7 A rivalidade futebolística Brasil X Argentina ganha, através do componente racial, uma dimensão geopolítica que fermenta os projetos de uma extrema direita. Mas isso faria da Argentina o país mais racista do mundo como afirmou o ator Samuel L. Jackson? É importante destacar que essas manifestações são proferidas por um público que pagou em média R$ 10 mil pelo ingresso. Estamos diante de um fenômeno de uma elite que se autoidentifica como europeia e que historicamente se esforçou para branquear o povo argentino. Mas nos deslocamos das arquibancadas para o campo de futebol, os gritos racistas de parte da torcida ecoam sobre a única seleção em todo continente americano que não tem nem um jogador negro. Como é possível um país com história de escravidão não ter nenhum jogador negro entre os componentes da seleção argentina?
Há diferenças históricas que determinaram os rumos do racismo na Argentina se comparado ao Brasil. No final do século XVIII, auge da economia escravagista, enquanto no Brasil a estimativa do percentual de negros era de 60% da população, na Argentina era de 30% da população. Atualmente negros no Brasil (pretos e pardos) são 56% da população enquanto na Argentina são menos de 1%, mas que se declaram afrodescendentes somam 4% da população. Os dados não falam por si, pois implicam processos de autoidentificação e construção da categoria negro são frutos de lutas históricas.
Assim como no Brasil, o povo negro foi usado como linha de frente em guerras que no caso argentino se tornou elemento chave na dizimação da população negra, como nas guerras dos espanhóis contra ingleses, no fim do século 18 e na guerra do Paraguai. Nelas, boa parte dos negros morreu, engajados como soldados. Com forte influência das ideias propagadas pela Revolução Francesa, a independência argentina aconteceu em 1816, levando ao surgimento de uma república, que foi conquistada por companhias apenas de negros, os Batalhões de libertos. Com a promessa de liberdade, eles ocuparam as posições mais perigosas. Morreram quase todos. No Brasil, a guerra do Paraguaia e o Massacre dos Porongos onde os chamados Lanceiros Negros foram assassinados pós combate pelos seus próprios “aliados” não foram suficientes para dizimar os negros, dada a população negra brasileira ser a maior fora da África, mas, certamente, aproximou o sul do país a um padrão mais próximo ao argentino.8

Outro motivo para a dizimação negra na Argentina foi epidemia de febre amarela, em 1871. Os negros libertos, vivendo em condições de extrema miséria em guetos, foram os mais afetados. Soldados argentinos impediam a saída deles dos bairros em que moravam, com medo de a epidemia se alastrar entre os brancos. Assim, eles morriam sem atendimento médico.
Lá e cá, numa sinistra linha de passe, as políticas de branqueamento seguiram seu rumo num intenso incentivo à imigração de mão de obra europeia. As teorias eugenistas ganhavam força entre as elites dos dois países. Uma outra estratégia de branqueamento da nação tanto na Argentina quanto no Brasil foi o incentivo de imigrantes com favorecimento ao acesso a terra. No entanto, se caminhando por qualquer cidade argentina você vê poucas pessoas negras, argentina não pode ser hoje chamada de país branco. Argentina é marrom.
Supor que o povo argentino é mais racista que o povo brasileiro ou mesmo mais racista que outras nações do mundo é uma das ciladas que essa copa pode produzir. O racismo explícito expresso tanto pelas ofensas racistas de uma torcida elitizada quanto por uma seleção branqueada expõe uma ferida aberta da América Latina, para parafrasear Eduardo Galeano. Esse ponto parece fundamental, pois o Brasil sob seu manto do mito da democracia racial sempre adorou encontrar em outras nações que exercem formas mais explícitas de racismo a verdade de seu mito.
Se do lado do Brasil vemos como o futebol foi uma peça-chave para construção do mito da democracia racial através de um assimilacionismo do povo negro e apagamento dos povos indígenas, do lado da Argentina vemos como o futebol foi peça chave para a construção do mito de um país branco, através da assimilação dos povos indígenas e um apagamento do povo negro.
A assimilação indígena, expressa na seleção argentina foi também fenotípica, uma vez que o contraste racial se dilui. Mas um olhar mais atento à seleção argentina veremos a falácia do mito de um país branco, pois atrás do delírio construído pelo véu de uma identidade nacional branca vemos uma seleção com fortes traços indígenas e suas ambivalências.
Do lado brasileiro, essa copa também foi um marco desse apagamento histórico uma vez que tivemos o primeiro jogador da seleção autodeclarado indígena, o volante Ederson dos Santos da etnia Terena, sem esquecer que em 2018 quando o meia-atacante Paulinho teve um papel importante ao se declarar como descendente do povo Xucuru. O racismo argentino é um estranho familiar, como diria a psicanálise, e de certo modo expõe os não ditos, os apagamentos e as estratégias racistas dessas duas nações. O projeto de branqueamento dos países da América Latina historicamente construiu identidades nacionais que visavam uma estética europeia, de tal modo que indígenas e negros ao buscarem se identificar com os brancos não pudessem se reconhecer mutuamente. De onde surge a necessidade argentina de se diferenciar dos brasileiros, seus maiores rivais em campo, a partir de expressões racistas como “macaquitos” sendo eles uma seleção de forte presença indígena? O próprio Maradona que se orgulhava de sua ascendência indígena já fez uso de insultos racistas contra jogadores brasileiros.
Freud descreveu no Mal-estar na civilização (1931) que uma das defesas mais comuns ente povos irmãos e comunidades próximas é o “narcisismo das pequenas diferenças”. Uma hostilidade relativamente inócua (do ponto de vista do extermínio material e concreto do outro) que permite a criação de uma escora entre o “nós” e os “outros”. Em tempos de redes sociais, deveríamos nos interrogar sobre o efeito de produção de ódio midiático encarnado por este último campeonato mundial, no qual pareceria que o jogo (atividade sublimatória por excelência) perdeu seu lado lúdico e deu lugar a fenômenos de produção de subjetividade que se tornaram assustadores.
Enquanto no contexto brasileiro da primeira metade do século XX o racismo caminhou para o mito da convivência pacífica entre as três raças, na Argentina prevaleceu o mito do país mais europeu das américas. Ambas serviram para operar a divisão entre negros e indígenas como peça estruturante do projeto de branqueamento das nações latino-americanas, como já analisou o pensador haitiano René Despetre9. Um importante exemplo tomado por Depestre, foram os estudos do socialismo indo-americano do início do século XX, proposto pelo peruano José Carlos Mariátegui10 – “Nosso socialismo, pois, não seria peruano – sequer seria socialismo – se não se solidarizasse, primeiramente, com as reivindicações indígenas” (pp.120).
René Depestre, aponta, entretanto que, embora atento à cultura ameríndia, Mariatégui reproduz, assim como outros socialistas americanos, a divisão entre negros e indígenas como se fossem universos políticos e sociais apartados. E não só. Ao tomar um dos povos como modelo e inspiração, o racismo retoma a cena, reforçando divisões que interessam ao processo de dominação colonial. Como bem analisa Depestre o próprio socialista peruano que defende os indígenas reproduz uma lógica colonial e racista:
“A contribuição do negro, vindo como escravo, quase como uma mercadoria, parece ainda mais insignificante e mais negativa. O negro trouxe sua sensualidade, sua superstição, seu primitivismo. Não estava em condições de contribuir para a cultura, senão a de entravar sob o influxo acre e vital de sua barbárie” (MARIÁTEGUI apud DEPESTRE, pp.8, 1980)
A depreciação e negação da participação de negros, como o faz Mariategui são, para Depestre, traços da lógica colonial racista que fundamenta as sociedades latino-americanas e que atualizam tanto entre as quatro linhas quanto nas fileiras das arquibancadas: o delírio do projeto de branqueamento da América Latina, suporte histórico fundamental para o sucesso da extrema direita contemporânea.
Se em campo vemos a única seleção do continente americano, e uma das pouca no mundo, sem um único jogador negro, ao mesmo tempo em que das arquibancadas ouvimos insultos racistas, do lado de fora do estádio vemos o caldo engrossar em torno das alianças entre o atual governo argentino de Milei, Netanyahu e Trump dentro de um contexto de retomada de uma política intervencionista para a América Latina nos moldes da Doutrina Monroe. Talvez aqui esteja a especificidade do racismo Argentino: ele não é maior nem menor, mas possivelmente o exemplo de branqueamento mais bem sucedido das Américas, que pode servir de plataforma político-ideológica para os projetos da extrema-direita para a América Latina. Embora saibamos que o racismo não seja uma exclusividade argentina, o antirracismo parece ser uma marca dessa seleção. O posicionamento firme e frontalmente contra o racismo na voz de ídolos nacionais como Kylian Mbappé pela França, Lamine Yamal pela Espanha, Vini Junior pelo Brasil, Jude Bellingham pela Inglaterra contrastam com o silencia de Lionel Messi que parece indicar a fragilidade do debate na sociedade argentina e ausência de mecanismos institucionais para enfrentá-lo. Sabemos o poder simbólico que o silêncio de um ídolo exerce quando deixam as imagens dizerem por si. Por isso não basta que essa pauta seja exclusividade dos ídolos negros do futebol. Basta lembrar na icônica voadora que Eric Cantona, craque do Manchester United, proferiu contra num torcedor racista.11 Engrossando a fileira de jogadores brancos antirracistas destacam-se o goleiro espanhol Unai Simón (que criticou a postura de torcedores na Europa), o meio-campista alemão Joshua Kimmich, o zagueiro holandês Virgil van Dijk. 12 Até que ponto o silêncio de Messi e dos demais jogadores expressam um projeto de uma nação supostamente branca? Até que ponto esse silêncio narra as dominações exercidas sobre o povo argentino?
Cida Bento no seu O pacto da branquitude nos ensina: “é urgente fazer falar o silêncio, refletir e debater essa herança marcada por expropriação, violência e brutalidade para não condenarmos a sociedade a repetir indefinidamente atos anti-humanitários similares” (p.24) 13
Esse “fazer falar o silêncio” implica também a inclusão das lutas e das resistências negras e indígenas na historiografia oficial. A memória coletiva não pode ser inscrita sobre um fundo de amnésia coletiva. Cida lembra então da contribuição de Charles Mills com o conceito de “ignorância branca”, lembrando-nos que as sociedades escolhem o que lembrar e o que esquecer. 14 Se Maradona nos últimos anos mudou de posição e se tornou um crítico do racismo por que não esperar isso dos atuais ídolos? Se falamos do principal ídolo argentino em campo, e o que falar do nosso? Faria Neymar um papel muito diferente de Messi no caso de um contexto de governo de extrema-direita brasileira? Até que ponto o racismo explícito dos argentinos não fala alto ao nosso e demais modos de racismo dissimulado? Não se trata de relativizar. Em grande medida a onda de revolta mundial contra os argentinos se deve a uma real indignação contra o racismo. Por isso, urge que medidas antirracistas sejam adotadas tanto pela AFA (Asociación del Fútbol Argentino)15 quanto pela FIFA como punições de torcedores racistas. Enquanto isso, sigamos distinguindo os projetos nacionais racistas dos povos que historicamente sofrem com esses projetos, sob o risco de fortalecer novas e velhas xenofobias que nutrem o avanço da extrema direita na América Latina e apagamento das memórias dos povos latinos.
A memória é – para Cida Bento – um território de construção simbólica. Território vivo por tanto, que revela os valores com que são lidas as experiências passadas e que influencia o tipo de valores que vigoram em uma dada sociedade. Quais seriam esses valores na sociedade brasileira e argentina de hoje? Com quais estratégias e ações seriam os brancos capazes de contribuir na demolição desse pacto de branquitude? Cida nos convida a deslocar nosso olhar para aqueles que, a fim de se manter no centro, impelem todos os outros à margem.
Homi Bhabha em no seu “O lugar da cultura” nos diz: “como criaturas literárias e animais políticos, devemos nos preocupar com a compreensão da ação humana e do mundo social como um momento em que algo está fora de controle, mas não fora da capacidade de organização” (2013, p.36, grifos do autor)16
Para Bhabha, a ideia da contiguidade permitiria uma saída às armadilhas do binarismo modernista sem cair na abdicação da teorização dita pós-moderna. Conduzir a indignação rumo à construção de compromisso exige evitar posturas maniqueístas que vilaniza uma nação para que assim nos coloquemos do lado do bem como se estivéssemos todos em situações muito melhores. Fato esse que marca a delicada e fundamental fronteira entre a indignação e o ódio, entre o antirracismo e a xenofobia.
A história, que se repete primeiro como tragédia e depois como farsa, já nos indicou que futebol sempre foi uma forte fonte de propaganda de regimes autoritários. Em tempos, lembremos e saudemos sempre todos nossos hermanos que lutaram por uma América Latina libre e autônoma e que falam em nome da pluralidade do povo argentino, dos “marrones” nas ruas, das Mães de Maio, das feministas aguerridas, às vozes de Mercedes Sosa desaguando no atual movimento político-artístico dos “marrones” nas letras de Milo J17.
Leminsky escreveu que “distraídos venceremos”, pode até ser, agora, como povos latino-americanos irmãos, divididos é que estaremos fritos nas mídias de nossas elites mais retrógradas. Tomara que saibamos cuidar dessa proximidade a que Renè Despetre, Cida Bento e Homi Bhabha nos convida!
Tadeu de Paula é professor do Departamento de Saúde Coletiva e do PPG em Política Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Coordena o Grupo de Pesquisa Egbe: negritude, clínica e políticas do comum e o Selo Diálogos da Diáspora. E-mail: [email protected]
Rosana Onocko-Campos é médica formada pela Universidade Nacional de Rosário (Argentina), com residência em Medicina Interna, especialização em Gestão Hospitalar, mestrado, doutorado, livre-docência e título de professora titular pela Unicamp. É professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp desde 2004, psicanalista e pesquisadora na área de Saúde Coletiva, com atuação em saúde mental, gestão em saúde, políticas públicas e avaliação de serviços. Foi professora visitante da Universidade de Yale (2018–2019), presidiu a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) entre 2021 e 2024 e chefiou o Departamento de Saúde Coletiva da Unicamp de 2021 a 2025. Também coordena programas de residência, pesquisa e pós-graduação, além de orientar mestrandos e doutorandos.

