Arte e cultura da ponte pra cá - Le Monde Diplomatique Brasil

NA MIRA DO TIRANO

Arte e cultura da ponte pra cá

por Helena Silvestre
1 de setembro de 2020
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Aprendemos a escrever, aprendemos a ler, aprendemos sobre nossa ancestralidade e nossa capacidade de produzir mundos diferentes daquele que encontramos ao chegar aqui. Em saraus espalhados pelas periferias, nós nos alfabetizamos de fato quando não tínhamos dinheiro nem sequer para um busão até o centro da cidade.

Eu tinha pelo menos 12 anos quando descobri que era negra, afrodescendente, mestiça, afroindígena. Pareceria estranho dizer isso se não soubéssemos que o Brasil é um país estruturalmente racista e que há tempo demais temos sido coniventes. Nesse mesmo processo descobri coisas sobre minha identidade, meu bairro, meu lugar no mundo e também sobre mundos do lado de lá da ponte – antes mesmo de vê-los com meus olhos. Foram os portais do rap, da cultura, da produção cultural exercida como profissão de fé por artistas favelados que não ganham nem nunca ganharam o suficiente para viver apenas de sua arte.

Em meio a chacinas, violências de toda sorte, desemprego e diásporas forçadas, as rimas dos anos 1990 contavam não somente sobre a vida dura, mas também sobre uma ética que se constituía entre iguais – tentando sobreviver ao movimento do capital e sua expansão neoliberal que tragava nossa vida para a ciranda do dinheiro. O rap narrava a tragédia das estatísticas, nomeava mortos que antes figuravam apenas como números e apontava um desejo de futuro para a fratria órfã:1 vida tranquila “num terreno no mato […], sem luxo, descalço, nadar no riacho, sem fome, pegando as frutas no cacho”.2

Esse desejo não se realizou: o adensamento das metrópoles e seu decorrente problema habitacional – de falta, inadequação ou insegurança – foi ampliado, com a moradia consolidada definitivamente entre as mercadorias que só acessa quem tem dinheiro. A alimentação possível para nós, antes marcados pela chaga da fome, se deu pela via do mercado de comodities, convertendo nossa fome em ativos da Bolsa de Chicago, regados a agrotóxico. A água está prestes a ser privatizada por esse desgoverno genocida.

Mas outros desejos se realizaram, e eles reafirmam tanto a arte e a cultura quanto a educação como inimigas do fascismo, do autoritarismo e do conservadorismo. Aprendemos a escrever, aprendemos a ler, aprendemos sobre nossa ancestralidade e nossa capacidade de produzir mundos diferentes daquele que encontramos ao chegar aqui, sobre nossa capacidade de organização e nosso poder quando estamos juntos, caminhando na mesma direção. Em saraus espalhados pelas periferias, nós nos alfabetizamos de fato quando não tínhamos dinheiro nem sequer para um busão até o centro da cidade.

Cultura e arte possuem o poder de desenhar realidades que ainda não existem, de vislumbrar modos diferentes de viver, revelando que o modo como vivemos não é natural e pode ser mudado, transformado, revolucionado. Como um respiro de lucidez no meio da guerra, a arte oferta ao motoka entregador a possibilidade de elaborar a própria vida em rimas que partilha com seus iguais. Oferta a possibilidade de parar por um segundo e olhar para nós mesmos e nossa vida, de sermos – como Carolina Maria de Jesus – elaboradores de nossa própria experiência, protagonistas de nosso destino, escritores do nosso drama e da nossa rebelião.

Por essas razões, a arte e a cultura figuram sempre entre os maiores inimigos da tirania e da opressão e, do rap em diante, quase três décadas depois, olhar as crianças nas escolas com seus cabelos black power, orgulhosas de seu rosto e de seu nariz, me explica de certa maneira por que é que o presidente e seus asseclas declararam guerra.

Para quem quer conservar as coisas como elas estão, a cultura e a arte são mesmo perigosíssimas, e elas também habitam as veias dos movimentos de mulheres, nos feminismos que revelam invisibilizadas existências femininas. Para as vidas brancas e sempre nomeadas talvez seja difícil compreender o tamanho do passo que é perceber-se a si próprio e reconhecer-se em si mesmo. Para o marxismo, poderia ser chamado de em si e para si, mas direi apenas que a cultura e a arte permitiram que nos reconhecêssemos como negras e passássemos a questionar representações sempre brancas, que não dizem respeito à representatividade, mas, ao contrário, revelam dispositivos de controle e/ou tutela. Visibilizar para questionar nossos piores salários, nossa maioria entre desempregadas e trabalhadoras precárias, o porquê de vivermos aglomeradas, de sermos os mais assassinados e a maioria absoluta entre famintos e encarcerados?

Cultura e arte não são apenas sobre obras, mas sobre modos de viver.

Esta é a potência que localiza tanto a cultura e a arte (como também a educação) entre os principais inimigos do atual governo. A arte, assim como a política, é exercício de desnaturalização do agora e possibilidade de criação consciente do futuro.

Os poderes instituídos buscam desidratá-la de suas possibilidades revolucionárias, criminalizando o que não conseguem capturar ou domesticar. Um dos principais mecanismos utilizados em democracias liberais é arrancar as condições materiais necessárias à produção cultural e artística por parte dos pobres. Exemplifico. Os gastos do setor público com o financiamento à cultura sempre foram pífios e ainda assim vêm sendo reduzidos. Em 2011, destinou-se para a área cultural 0,28% do total de despesas consolidadas da administração pública. Nem meio por cento e, mesmo assim, em 2018, esse montante foi reduzido a 0,21%,3 restringindo o direito a produzir arte e cultura e, portanto, a produzir narrativa, registro, memória e identidade a quem tem poder econômico (ou amigos mecenas – o que dá no mesmo).

Mas ao longo dos anos, impulsionados pela fome da alma, os mesmos que foram privados do direito a produzir arte têm lutado por essa possibilidade com unhas e dentes. Programas como Cultura Viva, Pontos de Cultura, Programa VAI ou a Lei de Fomento à Periferia nasceram na marra, arrancados pela mobilização de artistas populares e/ou periféricos. Segundo a Pnad, o segmento da cultura soma mais de 5 milhões de trabalhadores, dos quais 44% são autônomos,4 dependendo de eventos e contratações sazonais para sobreviver, já que editais e fomentos públicos não alcançam a maioria.

A realidade geral é tanto mais dramática nas periferias. Aqui, o genocídio não é uma experiência nova, mas a pandemia e a política assassina dos governos exacerbaram ainda mais a tragédia, trazendo luto a muito mais que 100 mil famílias, já que padecemos a tristeza de perder crianças despencando pelo vão do elevador.

A fome, que nunca desapareceu completamente de nós, atingiu uma velocidade maior que a do vírus e muito maior que a das políticas públicas de assistência, fazendo artistas populares e produtores culturais periféricos – que já desenvolviam sua produção em condições absurdamente precárias – ficar em total desamparo: cancelamento de todas as atividades, redução ainda maior dos recursos empregados nos programas de fomento (vide o Programa VAI, por exemplo) e fim dos bicos que faziam em quaisquer outras áreas para pagar as contas.

O drama é grave, já que quase todos esses artistas ganham tão pouco que não possuem reservas e já no primeiro mês de emergência sanitária se encontravam em situação extremamente vulnerável, até mesmo para comer duas refeições por dia.

Além da falta de recursos e de todos os agravantes que pesam sobre a população periférica (como moradias superlotadas, falta de água, aumento da letalidade policial etc.), sofremos com o isolamento social que abala nossa saúde mental, já que os espaços de encontro onde nos realizamos como fazedores culturais são também aqueles em que elaboramos nossa existência como resistência, além da tragédia. São espaços que nos permitem vislumbrar outro mundo, em que nós, como artistas e como povo periférico, existiremos plenamente.

(Moisés Patrício)

Diante do caos, invocamos então as mesmas tecnologias que nos ampararam durante quinhentos anos de colonização, aquelas que nos preservaram quando nossos cultos e danças foram criminalizados e nos mantiveram de pé nos anos 1990. Para nenhum de nós há solução individual, e é apenas em comunidade que logramos manter-nos vivos, física e artisticamente.

O tão falado autocuidado, aqui, não se dedica exclusivamente a repensar práticas e hábitos que nos suportem individualmente: só existimos em comunidade e, portanto, autocuidado é cuidar da nossa existência e da existência de nossas comunidades, sem as quais não somos possíveis.

Os coletivos culturais de periferia, mais enraizados e com capilaridade maior do que muitas organizações monolíticas, passaram a atuar coletando doações de alimentos, distribuindo comida, fraldas, leite, ajudando pessoas a se cadastrarem nos auxílios possíveis, provendo acompanhamento psicológico aos mais fragilizados. Foi dessa maneira que os artistas de periferia construíram caminhos para sanar sua fome de comida, porque nosso destino se confunde com o destino de nossos territórios. Essa mobilização, stricto sensu, não se definiria como atividade artística, mas certamente como prática cultural, pois defende a vida dos nossos contra a necropolítica do poder, e nosso modo de viver contra o disciplinamento total.

A tarefa de primeira hora assumida pelo movimento de cultura da periferia foi a de defender a vida. É exatamente por isso que esse movimento, embora descentralizado, angaria apoio de parcelas cada vez maiores da população e provoca a construção de mediações como a Lei Aldir Blanc, que terá grande importância para todes, mas que não nos ilude em relação ao caráter nefasto de nossos governantes.

Isso porque, muito antes de a lei ser aprovada, nos organizamos em espaços autônomos e virtuais de produção, reinventando nossas possibilidades, ainda que apoiadas em condições precárias de conexão, como as que se impõem a todes nas bordas da cidade. Fizemos e seguiremos fazendo, para alimentar nossa gente de horizontes mais amplos do que este presente encarcerado, e porque não desistimos de debater, de formar e informar, de educar onde tudo falta; não desistimos de disputar o futuro.

 

Helena Silvestre é escritora periférica, editora da Revista Amazonas e educadora na Escola Feminista Abya Yala.

 

1 Termo de Maria Rita Kehl que dá nome a uma coletânea de textos seus publicada em 2008.

2 “Vida Loka, parte 2”, Racionais MC’s.

3 Carmen Nery, “Participação da cultura no orçamento reduz em todas esferas de governo em 2018”, Agência IBGE, 5 dez. 2019.

4 Pedro Stropasolas, “Primeiros a parar na pandemia, profissionais da cultura relatam abandono do governo”, Brasil de Fato, 30 abr. 2020.



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