ARTIGO

Arte e design: possibilidades de desenhos de novos mundos e futuros

Pensar imagens no contexto do colonialismo de dados e da inteligência artificial implica perguntar que tipo de política está em jogo quando fotos são rotuladas 

Urano é visto como a casa dos deuses ou, para seguir a semântica onírica, o lugar distante e etéreo onde as divindades habitavam. Na mitologia, Urano é o filho que Gaia, a Terra, concebeu sozinha, sem inseminação ou acasalamento. A mitologia grega é uma espécie de conto de ficção retrô que antecipa, no modo do it yourself, as tecnologias de reprodução e transformação do corpo que surgiram ao longo dos séculos XX e XXI.

É a partir dessas elaborações apresentadas por Paul B. Preciado em seu livro Um Apartamento em Urano (Companhia das letras, 2020) que decido articular as experiências vividas por uma criança viada/queer/estranha/desmunhecada à pesquisa que venho construindo, aproximando as fronteiras do campo do design, da arte e da memória. Antes de o termo “homossexual” ser cunhado, um dos primeiros ativistas e teóricos dos direitos sexuais, o alemão Karl Heinrich Ulrichs, propôs, em 1864, o termo Urning (uraniano) para descrever homens que amavam outros homens.

Por décadas, ser “uraniano” foi a principal forma de identidade para quem vivia fora da heteronormatividade, ligando o nome do planeta diretamente à dissidência política e afetiva. Urano é o “estranho” do Sistema Solar em termos físicos, enquanto os outros planetas giram como piões quase verticais, Urano tem uma inclinação axial de cerca de 98 graus.

Tal qual Urano, tomado aqui como uma metáfora para a dissidência, retorno neste texto ao ambiente da minha infância que me fez um artista/designer ou um designer/artista, em potência. Cresci no interior da Bahia. Meus pais possuíam um comércio alimentício, e passei a infância rodeado de cores, tipografias e embalagens de produtos diversos.

Gosto de imaginar que esse foi o meu primeiro contato com a fabulação. Era um ambiente no qual eu podia desenhar figuras femininas, alienígenas, e imaginar futuros e seres possíveis. Talvez por isso eu me interesse tanto por ficções especulativas, por gênero, por arte e por design. A trilogia Xenogênese (também conhecida como Lilith’s Brood), escrita por Octavia Butler no final dos anos 1980, é um dos marcos mais profundos da ficção científica especulativa. Composta pelos livros Despertar (Dawn), Ritos de Maturidade (Adulthood Rites) e Imago, a obra usa a lente do contato alienígena para discutir conceitos de raça, sobrevivência, colonialismo e, de forma muito central, gênero. 

A história começa após a humanidade praticamente se extinguir em uma guerra nuclear. Os poucos sobreviventes são salvos pelos Oankali, uma raça alienígena nômade de comerciantes de genes. Eles não comercializam mercadorias, mas sim DNA, viajam pelo universo cruzando-se com outras espécies para evoluir e evitar a estagnação genética. A protagonista humana, Lilith Iyapo, é acordada de uma animação suspensa e recebe a tarefa de liderar o primeiro grupo de humanos de volta a uma Terra reflorestada. Porém, há um preço: os humanos não podem mais se reproduzir entre si. A sobrevivência da espécie agora depende da hibridização com os Oankali.

A obra de Octavia Butler influencia ativamente a maneira como vejo a identidade e a ficção especulativa. Sua narrativa nos ajuda a lidar com o complexo mistério do que significa reconhecer o “monstro interior”, porque, ao realizar o trabalho imaginativo de escrever sobre relacionamentos interespécies com empatia, encontramos uma maneira de não precisar ver o Outro como uma ameaça. 

É nesse sentido que o meu trabalho se cruza com a ficção especulativa, ao mesmo tempo que dialoga com referências de autores e artistas dissidentes como Judith Butler, Preciado, Foucault, Jota Mombaça e Arca, uma aventura onde a teoria queer se confronta com a cibernética, o pós-humanismo, as tecnologias generativas e o design.

Mas em que momento isso se cruza com minha pesquisa de mestrado? Tenho investigado as possibilidades de diálogo entre o design e os estudos queer, propondo práticas contranormativas a partir de uma abordagem crítica e transfeminista. A pesquisa articula questões de visualidade, memória e estéticas da dissidência. 

Pensar o design como um arquivo vivo significa compreender que a própria experiência de navegação e interação com o acervo, seja em uma plataforma digital ou em um espaço físico, é parte integrante do processo de arquivamento. O arquivo não está apenas guardado, ele acontece na relação entre sujeito e objeto, no encontro entre corpo e linguagem visual. Essa abordagem rompe com a linearidade temporal e permite que a memória seja reativada de formas diversas, incorporando vozes marginalizadas e abrindo espaço para outras narrativas.

Como projetar arquiteturas de informação que abrigam memórias dissidentes? Ao projetar sistemas que reconhecem a trajetória trans e travesti, o design deixa de ser um instrumento de padronização universalista para se tornar uma estrutura que acolhe o registro vivo de existências que desafiam a norma, transformando a tela em um território de reparação e fabulação histórica. O design de um acervo dissidente não deve buscar apenas preencher lacunas com dados, mas sim reconhecer a potência política do rastro e dos “corpos-em-fuga”, que resistem à tentativa de serem totalmente legíveis ou domesticados pelas categorias institucionais. 

A memória das existências trans e travestis tem sido historicamente marcada por uma tensão constante entre o silenciamento imposto e a urgência do autorregistro. No cenário contemporâneo, essa disputa desloca-se para o ambiente digital, onde as interfaces e os bancos de dados surgem como os novos guardiões da história coletiva. Há, contudo, um paradoxo nisso: como preservar memórias dissidentes em um ambiente digital marcado pela efemeridade? Projetar interfaces que acolham essas memórias não é, portanto, uma tarefa meramente técnica de organização da informação, mas um ato político de desobediência que busca transformar o dado digital em suporte para a sobrevivência e para a dignidade visual. 

A sociedade heteronormativa opera codificando o corpo como um arquivo legível e binário (homem/mulher). Esta norma é implementada por meio de instituições (medicina, psicanálise, lei, biologia) que agem como máquinas de produção de sexo. Historicamente, o design respondeu a essa temporalidade hegemônica ao estruturar arquiteturas, artefatos e sistemas de informação que reforçam a lógica da progressão em linha reta (nascimento, casamento, reprodução), contribuindo para o apagamento de existências que operam em temporalidades desviantes, marcadas pela espera, pelo improviso, pelo devir e pelas formas de parentesco escolhido. 

Ao tensionar tanto o design cronológico dos acervos quanto o planejamento rígido dos espaços, o tempo queer aponta para a urgência de metodologias de design que acolham a fragmentação, a circularidade e a não reprodutividade, possibilitando que memória e espaço sejam lidos e experienciados fora da lógica das normas prescritivas e de expectativas sociais normativas. Nesse sentido, a interface deixa de ser encarada como uma superfície estática de interação para ser compreendida como um dispositivo de produção de subjetividades. Ao habitar a arquitetura proposta por esses sistemas, a memória dissidente é confrontada por uma gramática visual que, em sua maioria, prioriza a transparência e a eficiência em detrimento da complexidade das vidas que busca registrar.  

Compreendo a interface, portanto, como território de disputa e infraestrutura política. É relevante pensar essas imagens no contexto do colonialismo de dados e da inteligência artificial. Que tipo de política está em jogo quando fotos são rotuladas? A interpretação automatizada de imagens é um projeto inerentemente social e político, e não puramente técnico. É um mito dizer que a IA e os dados que ela utiliza classificam o mundo de forma objetiva e científica; há ideologia, política e preconceito imbricados nesse processo. Todas as taxonomias ou sistemas classificatórios são políticos. 

O sistema panóptico de Foucault atualizou-se para a sociedade do controle discutida por Deleuze. Por isso, pode-se falar em reconhecimento facial, visão computacional e uma nova dimensão de controle social pelas imagens. 

Para além dessas discussões, como designer e artista, tenho negociado com tecnologias generativas para tensionar esse colonialismo de dados e ensaiar uma possível estética da dissidência, articulando ferramentas algorítmicas como um campo de prova. Ao investigar como os modelos de IA frequentemente replicam vieses normativos, utilizei-os para produzir imagens que desafiam as lógicas de apagamento, discutindo a memória não como um dado estático, mas como uma construção tecnopolítica em constante disputa.

A experiência tem sido importante, pois não estou pensando apenas na materialidade do corpo dissidente, mas em possibilidades transcendentais de explorar a dissidência, tentando traduzir visualmente as discussões conceituais levantadas na pesquisa. Neste percurso, enquanto busco desnaturalizar ideias hegemônicas por meio de uma inteligência maquínica, percebo que também reproduzo, ainda que inconscientemente, normas reguladoras enraizadas. Tenho notado que, ao projetar, não estou apenas fabricando ou compondo imagens, mas também me projetando nelas, nas formas, nos corpos e nos objetos que emergem do processo.

Portanto, quais visualidades estou produzindo? Que deslocamentos emergem a partir dessas criações? Que futuros queer consigo imaginar por meio delas? Esses questionamentos atravessam meu corpo e meu pensamento no instante em que me coloco corpo a corpo com a Inteligência Artificial. As imagens que apresento a seguir foram geradas nesse processo, elas articulam a fricção conceitual e a potência de dissidência que busco alcançar.

 

Rian Souza é designer, artista e pesquisador. Mestrando em Design pelo Programa de Pós-Graduação em Design da FAUUSP. Integra o Projeto Temático Fapesp Acervos Digitais e Pesquisa: arte, arquitetura e design, sob orientação da Profa. Dra. Giselle Beiguelman, e participa do grupo de pesquisa CNPq NUDE: Núcleo de Design, Corpo e Tecnopolítica, coordenado pelo Prof. Dr. Guilherme Altmayer, da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI/UERJ). Seus interesses de pesquisa concentram-se nas intersecções entre design, interfaces, arte generativa, memória e epistemologias queer. Seu site pode ser acessado em rianivys.com.

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