Artista come criancinha - Le Monde Diplomatique Brasil

CENSURA E HIPOCRISIA

Artista come criancinha

por Raisa Pina
14 de novembro de 2017
compartilhar
visualização

Enquanto o falso-moralismo mobiliza a opinião pública, a PEC 181 que proíbe interrupção da gravidez mesmo em casos de estupro é aprovada, deputados pedem a condução coercitiva de um artista e a filósofa estadunidense, Judith Butler, é agredida em um aeroporto: é a violência fascista acusando as artes e o pensamento crítico de serem cruéis

foto:midia ninja. Protesto contra Judith Butler em São Paulo

 

Em era de criminalização das artes, retrocessos falso-moralistas e cerceamento da liberdade de expressão, a CPI dos Maus-Tratos no Senado Federal aprovou o pedido de condução coercitiva do artista Wagner Schwartz, protagonista da performance “La Bête” realizada em setembro no MAM-SP, e do curador da exposição QueerMuseu em Porto Alegre, Gaudêncio Fidélis, na último dia oito de novembro. A decisão vem disfarçada de zelo, mas é tão somente tirania, hipocrisia e oportunismo. Em pleno 2017, o Brasil coloca em prática o clássico lema nazista: “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”. Pela dita boa família brasileira, pelos ditos bons costumes, prendem artistas e fecham museus, que já têm índices baixos de frequentação. Apesar da pouca audiência popular e do escasso incentivo governamental, a classe artística-cultural é em essência uma das maiores e mais legítimas unidades de resistência política, porque ainda consegue questionar comportamentos, fomentar o pensamento crítico e se fazer ser ouvida com as migalhas que recebe.

No país da desigualdade social, o que vem dos subjugados incomoda a hegemonia – dita intelectual –, que prefere criar ficções amedrontadoras do que dialogar e entender novos discursos. Cria-se então a historinha preocupante do “artista pedófilo”, o novo “comunista come criancinha”, outra mentira dita mil vezes há décadas atrás na intenção de se tornar verdade. Nunca se tornou. Uma mentira dita mil vezes, em regimes de fato democráticos, continua sendo inverdade.

Não houve pedofilia na exposição censurada do Santander, da mesma forma que não houve na performance de Schwartz no MAM-SP. Houve, sim, exposição de nudez e de cenas sexuais entre adultos, o que não configura de forma alguma pedofilia. O Estatuto da Criança e do Adolescente, reivindicado pelo presidente da CPI dos Maus-Tratos, senador Magno Malta (PR-ES), como argumento para a decisão de condução coercitiva, diz que o crime reside na participação da criança no ato sexual ou na exibição dos órgãos sexuais de uma criança para fins primordialmente sexuais. As obras expostas no QueerMuseu e a performance de Schwartz passaram longe disso.

A alegação contrária à exposição, levantada especialmente pelo MBL, tenta dissuadir a população na tentativa de aproximar equivocadamente os termos pedofilia e identidade de gênero que foge do padrão heteronormativo, um dos desrespeitos mais graves que reacionários apontam para as comunidades LGBT. A pluralidade de gênero, a diversidade de vivências, nada têm a ver com pedofilia ou perversão. Ao se posicionar contra discussão de gênero nas instituições culturais – para além das escolas, bandeira máxima do movimento –, e defender a autonomia da família sobre o assunto, o MBL se contradiz ao acusar a mãe que permitiu a criança tocar no pé de um artista nu que trabalhava no MAM-SP. Se a mãe deixou, se ela acompanhou, e se mesmo assim foi escrachada por isso, então não é questão de reivindicar para a família a conversa sobre tabus: é cerceamento cru mesmo. Não pode e pronto.

Não se pode falar sobre nudez, não se pode falar sobre sexo, não se pode falar sobre gênero. Enquanto isso, a PEC 181 que proíbe interrupção da gravidez mesmo em casos de estupro é aprovada pela comissão especial da Câmara, na mesma semana do pedido de condução coercitiva do artista e do curador em questão e a s filósofa estadunidense Judith Butler é recebida com manifestação popular contrária à presença dela no Brasil: É a violência fascista acusando as artes e o pensamento crítico de serem cruéis; o lobo disfarçado de ovelha repetindo mil vezes uma mentira que nunca será verdade.

 

*Raisa Pina é jornalista e pesquisadora, mestra em Teoria e História da Arte pela Universidade de Brasília.



Artigos Relacionados

Direito à cidade

As perspectivas para o Brasil pós 2 de outubro

por Nelson Rojas de Carvalho
Eleições 2022: a mídia como palanque

Internet abre espaço para a diversidade de perfis, mas impulsiona velhas práticas

Online | Brasil
por Tâmara Terso
A CRISE DA CULTURA

Lei Aldir Blanc: reflexões sobre as contradições

por Rodrigo Juste Duarte, com colaboração de pesquisadores da rede do Observatório da Cultura do Brasil
AMÉRICA DO SUL

A “nova onda rosa”: um recomeço mais desafiador

Online | América Latina
por Cairo Junqueira e Lívia Milani
CORRUPÇÃO BOLSONARISTA

Onde está o governo sem corrupção de Bolsonaro?

Online | Brasil
por Samantha Prado
CONGRESSO NACIONAL

Financiamento de campanhas por infratores ambientais na Amazônia Legal

Online | Brasil
por Adriana Erthal Abdenur e Renata Albuquerque Ribeiro
EDITORIAL

Só existe um futuro para o Brasil, e ele passa pela eleição de Lula neste domingo

Online | Brasil
por Le Monde Diplomatique Brasil
UMA ENCRUZILHADA SE APROXIMA

Os militares e a última palavra da legitimidade das urnas

Online | Brasil
por Julia Almeida Vasconcelos da Silva