As camadas médias no levante árabe - Le Monde Diplomatique

O LUGAR DA CLASSE MÉDIA

As camadas médias no levante árabe

por Gilbert Achcar
4 de maio de 2012
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Nos países que conheceram os levantes de massa (Bahrein, Egito, Líbia, Síria, Tunísia e Iêmen), as amplas camadas dos menos favorecidos da sociedade se uniram com o fundamental das camadas médias: trabalhadores autônomos, artesãos, comerciantes e profissionais liberaisGilbert Achcar

A revolta árabe, desencadeada pelas manifestações de protesto que eclodiram na cidade tunisiana de Sidi Bouzid, após o suicídio do jovem Mohamed Bouazizi, em 17 de dezembro de 2010, reforça uma vez mais esta ideia: no momento em que um movimento de grande amplitude se une em oposição a um regime despótico e reivindica uma mudança democrática, é frequente vermos a associação da maioria das camadas médias com as menos favorecidas da sociedade.

Bouazizi, vendedor ambulante e miserável, representava o típico perfil dos manifestantes da Primavera Árabe: milhões de jovens, ou não tão jovens, pertencentes ao setor informal – os “desempregados disfarçados” que vivem de bicos até encontrar emprego – e o grupo dos desempregados formais. A essas massas se juntaram, na Tunísia e no Egito, os trabalhadores assalariados, organizados em um movimento operário, e suas lutas constituíram um preâmbulo direto para a Primavera Árabe.

Nos países que conheceram os levantes de massa (Bahrein, Egito, Líbia, Síria, Tunísia e Iêmen), as amplas camadas dos menos favorecidos da sociedade se uniram com o fundamental das camadas médias: trabalhadores autônomos, artesãos e comerciantes, profissionais liberais, principalmente advogados, engenheiros e médicos, professores de nível superior, jornalistas, colarinhos-brancos (funcionários e empregados de serviços comerciais e financeiros) e pequenos empresários.

Nos países onde os regimes não tinham imposto um clima de terror – como é o caso da Tunísia e do Egito principalmente –, lutas políticas e sociais precederam, nos anos 2000, os movimentos de revolta.

No Egito, elas ocorreram sobretudo a partir de ações da classe operária, tendo o país conhecido entre 2006 e 2009 a maior onda de greves operárias de sua história, até a revolução de 25 de janeiro de 2011.1

Na Tunísia, na maioria das vezes as manifestações estavam vinculadas à questão do desemprego e do nepotismo, principalmente no caso dos motins de 2008, desencadeados na área de mineração de Gafsa.2

Nesses dois países, outras ações em prol da democracia foram igualmente surgindo no decorrer dessa mesma década, de iniciativa sobretudo de advogados e jornalistas. Essas profissões foram vetores eminentes de protesto, uma vez que seus membros se engajaram diretamente nos embates políticos, por exemplo, dentro do movimento egípcio Kefaya! (Chega!), que durante um longo tempo se constituiu como a ponta de lança de contestação contra as manipulações eleitorais de Hosni Mubarak e seu projeto de preparar o filho para sucedê-lo na presidência do país.

Os jovens, na maioria provenientes das camadas médias, intensamente conectados à internet, estiveram em primeiro plano nas manifestações de protestos nos últimos anos, seja como blogueiros3 – alvos da repressão em vários países árabes –, seja de uma maneira mais organizada, como o movimento egípcio Jovens do 6 de Abril, criado originariamente em solidariedade à greve dos trabalhadores têxteis da cidade industrial de Al-Mahallah al-Koubra, em 2008.

Do Marrocos ao Bahrein, passando pelo Egito e pela Síria, as camadas médias são bastante representativas nas duas frentes de organização dos levantes: as redes sociais e os movimentos políticos. Mas ao contrário do que se acreditava, os usuários da internet também provêm das classes menos favorecidas e se conectam em casa ou em cibercafés – sem falar na telefonia móvel, que serviu igualmente para os manifestantes se comunicarem.

As forças políticas envolvidas nos levantes eram constituídas essencialmente por membros das camadas médias. Nesse sentido, o caso mais expressivo foi o do Ennahda, na Tunísia, pertencente ao movimento da Irmandade Muçulmana. Seus dirigentes se relacionavam com capitalistas como Khairat al-Chater, o riquíssimo empresário que a Irmandade Muçulmana escolheu para empunhar suas bandeiras na eleição presidencial egípcia.

As camadas médias, por sua própria composição, não sabem ter uma atitude homogênea a longo prazo. A tendência é haver uma cisão entre os dois polos da sociedade que as enquadram. Do Marrocos à Síria, o movimento Irmandade Muçulmana constitui um bloco heterogêneo de membros da camada média e da burguesia empresarial. Uma vez ultrapassada a fase democrática inicial, ocorre uma cisão no movimento popular, como na Tunísia e no Egito.

As organizações políticas se opõem à continuidade das lutas sociais dos assalariados, denunciados como “de categorias”, o que se choca com a maioria dos jovens das camadas médias, inclusive os que aderiram a essas organizações, decididos a dar prosseguimento à revolução.



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