As eleições americanas e futuro do mundo - Le Monde Diplomatique

Incertezas

As eleições americanas e futuro do mundo

por André Luiz Cançado Motta e Yury Machado de Moura
6 de novembro de 2020
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A eleição presidencial nos Estados Unidos ocorre em um cenário extremamente polarizado. O pleito é visto por diversos analistas políticos, inclusive os escritores deste artigo, como uma batalha a ser travada por muitos cidadãos americanos pela retirada de um presidente com legado de ingerências na política exterior

A crise de 2008 intensificou e evidenciou processos que vinham acontecendo desde a década de 1980, perpassando por todos os governos presidenciais estadunidenses, sendo eles democratas ou republicanos: o enfraquecimento de políticas sociais, reformas trabalhistas agressivas em detrimento dos direitos das e dos trabalhadores e a flexibilização de instituições regulatórias do mercado. Os direitos construídos e firmados no contrato social americano durante o período pós Segunda Guerra Mundial, que foram o pilar do american dream, agora são entendidos como empecilhos para o crescimento econômico e a geração de empregos em todo o mundo.

A eleição do democrata Barack Obama para a presidência gerou esperanças de mudança desse cenário para seus apoiadores. Porém, apesar da eleição de um presidente afro-americano representar uma grande conquista para uma sociedade marcada por um histórico de segregação racial ainda muito recente e persistente, seu governo não favoreceu as necessidades econômicas dos trabalhadores da classe média e pobres.

Isso não significa dizer, no entanto, que o governo Obama não trouxe conquistas para seus cidadãos. Seu governo implementou medidas para promover igualdade e justiça para a membros da comunidade LGBTQI+, sendo a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo nacionalmente, em 2015, uma das medidas mais significativas nesse sentido. Além disso, o Obama Care – Affordable Care Act (ACA) ampliou significativamente a cobertura de saúde do país, regulamentando aspectos importantes dos planos de saúde e oferecendo cobertura para as populações mais vulneráveis economicamente.

Ainda assim, o que grande parte do povo americano observava durante o governo democrata, tanto apoiadores quanto opositores, é que, ao mesmo tempo que viam suas garantias sociais desaparecendo, seu poder de consumo diminuindo e empregos se tornando cada vez mais escassos e precarizados, a Casa Branca ainda disponibilizava bilhões de dólares para evitar que grandes empresas do setor financeiro tivessem que lidar com crise que eles mesmos criaram. Somou-se a isso o constante aumento do consumo de recursos do Estado pelas forças armadas, para lidar com conflitos em terras estrangeiras e ameaças internacionais.

Nesse sentido, ficou cada vez mais claro que, independentemente do partido na presidência, as questões econômicas tangentes a maior parte das e os cidadãos norte-americanos não seriam tratadas em seu favor. A principal evidência disso é que 93% do capital adicional criado em 2010 nos EUA, cerca de 288 bilhões de dólares, foi retido por apenas 1% dos contribuintes e 37% pelos 0,1% mais ricos do país, aumentando o capital desses indivíduos em 22%, ao passo que a classe média e os pobres tinham que lidar com precarização dos seus empregos e o aumento do estresse financeiro nas famílias e, por conseguinte, nas comunidades,  desencadeados, em grande parte, pelo prolongamento das horas de trabalho e pela descontinuidade de auxílios sociais. Tudo isso em prol de uma recuperação econômica cujo ônus recaiu apenas sobre eles e o bônus apenas e tão somente em uma parcela minúscula da população – os 1% mais ricos, persistentes em todos os dados de análise de concentração de renda.

Uma sociedade dividida

A insatisfação com tal cenário vem diminuindo a confiança dos cidadãos na política para lidar com a situação, em especial entre os eleitores com as menores rendas, muito em função do acirramento da precarização da vida. O ressentimento contra o establishment político liberal é interpretado por estudiosos da área, como a professora de Ciência Política e Social da New School de Nova Iorque, Nancy Fraser, como uns dos principais propulsores da intensa polarização na atual política norte-americana. Aqui, essa aversão aos políticos tradicionais observa-se com o aumento da visibilidade de políticos que se caracterizam como outsiders do establishment político, como o democrata Bernie Sanders e, consequentemente, Donald Trump, eleito na corrida presidencial de 2016.

Em seu artigo “Do Neoliberalismo Progressista A Trump – E Além”, Fraser discorre sobre formação de uma ambivalência na sociedade estadunidense entre dois movimentos chamados por ela de neoliberalismo progressista e neoliberalismo (ultra) reacionário. O primeiro seria a junção de políticas econômicas de cunho neoliberal a pautas identitárias progressistas, que formou o bloco hegemônico político até o governo Obama. Já o segundo, seria uma resposta ao primeiro, caracterizado por uma perspectiva nacionalista, anti-imigração, antiglobalização, pró-valores cristãos e fortemente crítica de quaisquer políticas associadas aos governos democratas – como o Obama Care.

Essa ambivalência não diminuiu após a vitória de Trump. Muito pelo contrário, percebe-se uma significativa radicalização dos apoiadores do mesmo, em especial aqueles contrários aos apoiadores das manifestações realizadas pelo movimento Black Lives Matter (BLM). Estes, que levantam palavras de ordem contra a violência policial e racismo após a morte de George Floyd, em Portland em maio deste ano, confrontam-se recorrentemente com aqueles que apoiam Trump ou, se não, pautas ainda mais radicais e fundamentalistas – como o apelo pelo americanismo, isso é, os direitos fundamentais dos norte-americanos que, a despeito do avanço liberal, estaria morrendo.

É neste cenário polarizado que mais uma vez, mas dessa vez ainda pior, a eleição presidencial nos EUA ocorre. O pleito é visto por diversos analistas políticos, inclusive os escritores deste artigo, como uma batalha a ser travada por muitos cidadãos americanos pela retirada de um presidente com legado de ingerências na política exterior, políticas discriminatórias e um das piores respostas à crise sanitária representada pela pandemia da Covid-19.

No entanto, o desafio posto é de que Donald Trump ainda possui um grande contingente do eleitorado a seu lado. Uma verdadeira legião de apoiadores, que defendem suas políticas negacionistas em relação a pandemia e sua postura repreensiva com as manifestações do BLM.

Biden e a alternativa progressista

O apreço por candidatos que faziam fortes oposições as políticas econômicas neoliberais fizeram com que o senador pelo estado de Vermont, Bernie Sanders, ganhasse muito espaço entre os democratas no período de campanha das eleições primárias americanas. Assim como em 2016, o senador auto intitulado socialista, era visto com muito entusiasmo para disputar a presidência contra Trump, em especial por seus discursos que favoreciam políticas sociais de distribuição de renda, a saúde pública gratuita e ensino superior gratuito, ao mesmo tempo se mostrando fortemente combativo as políticas que beneficiavam os 1% mais ricos do país.

Essas expectativas foram frustradas quando Sanders retirou sua candidatura e declarou apoio ao também senador e vice presidente na gestão Obama, Joe Biden. O democrata que, de acordo com as previsões do The Economist, possui 96% de chances de vencer a eleição, aposta sua vitória fortemente na oposição às ingerências do governo de Trump, em especial sua nociva gestão da crise do coronavírus, o intervencionismo em instituições políticas caras a democracia estadunidense e o enfraquecimento das relações internacionais dos EUA, que levaram ao comprometimento de sua hegemonia global.

Ao contrário de Sanders, Biden não possui propostas para uma extensa reforma tributária. Sua perspectiva econômica é bem mais amena. O que Biden tenta fazer e, de acordo com previsões citadas, tem conseguido é conquistar os votos de trabalhadores que viram Trump como a solução, mas que se frustraram com a péssima gestão do presidente, em que não só falhou em cumprir suas promessas de campanha – entre elas aumentar o salário mínimo e aliviar os impostos para a classe média -, como aprovou uma reforma tributária que beneficiou ainda mais as camadas mais ricas da população.

E se Biden ganhar?

Cientistas políticos sempre se aventuram, com base nas suas análises de dados, a deduzirem hipóteses do que poderá ocorrer quando um candidato ou outro converta o resultado ao seu favor. Aqui, não faremos diferente. Com base nas evidências levantadas, podemos fazer uma reflexão acerca da vitória de Biden, e o que isso significa para os Estados Unidos e para o mundo.

O candidato presidencial democrata dos EUA Joe Biden e sua esposa Jill Biden participam de um evento de campanha drive-in na Pensilvânia (REUTERS/Kevin Lamarque)

A linha seguida por Trump, contrária a uma ordem liberal internacional, pode ser entendida como um tiro no próprio pé. O “America first” preconizado na agenda do presidente, apela por um retorno a um país livre de interesses ocultos, elitizados, distantes da população trabalhadora, que constrangem a “América” de ser “A verdadeira América”. A mensagem por de trás desse pensamento é, essencialmente, uma: devemos ser aquilo que não somos. Isso é, devemos mudar toda a estrutura que, até aqui, construímos. Desde 1945, as principais instituições criadas: Organização das Nações Unidas, Fundo Monetário Internacional, Bretton Woods, e tantas outras, serviram para construir relações e contatos entre países de todo o mundo, pelas vias multilaterais. O trauma do pós-guerra seguiu-se, no entanto, pela guerra fria entre a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e os Estados Unidos.

No entanto, após 1991, a dissolução da URSS e a criação do Estado russo, a ordem norte-americana alegou-se, e podia alegar-se, vitoriosa e triunfante: hegemônica no que podia ser, unipolar na frente internacional. Não cabe aqui discutir as consequências imediatas disso, mas é necessário dizer que, apesar de tudo, esse é a inércia que trouxe a ordem liberal internacional ao lado dos Estados Unidos, a qual estabeleceu um ambiente incontestável a seu favor: um mundo onde a maior parte das instituições ou foram criadas pelos norte-americanos ou tinham sua presença.

Essa inércia foi contestada por Trump, em sua plataforma política. O mundo não poderia, e nem deveria, ter a presença norte-americana em níveis como os formatados. Deveria, sim, abandonar a ordem criada por eles mesmos, em favor e benefício de voltar-se para dentro, novamente, e isolar-se e preocupar-se com seus próprios interesses, naquilo que interpretamos como uma forte aversão ao mundo globalizado.  É nisso que seus eleitores acreditaram, e por isso hoje ele é candidato a reeleição. Caso seu nome seja o vitorioso, instituições se enfraquecerão ainda mais: afinal, temos um exemplo claro disso, que revelou-se com a forma com que os Estados Unidos lidaram com a crise da Covid-19, e a falta de liderança chave na Organização Mundial da Saúde (OMS) em benefício de uma estratégia unilateral de combate ao vírus que é, por natureza, de alcance global, revelando e expondo a fraqueza da ordem internacional em lidar com problemas globais de forma coordenada e pacífica.

Biden, no entanto, poderá trazer de volta uma equipe com iniciativas progressistas, evitando a precarização das instituições internacionais e fortalecendo a presença norte-americana nos ambientes de negociação multilaterais. Isso, por conseguinte, será uma resposta positiva da fragilizada ordem liberal internacional, que se espera ser capaz, a partir de sua vitória, apaziguar conflitos e trazer de volta o protagonismo de liderança norte-americana. Espera-se, de maneira demasiada otimista, que isso facilite o consenso político e o diálogo para elaboração de propostas de solução de desafios globais que exigem coordenação e colaboração. Com isso, abandonam-se intenções e guinadas nacionalistas e isolacionistas, as quais provam ser decisões erradas dado ao nível de interação entre os países expostos pelo avanço globalizatório que apela por decisões integradas e multilaterais.

Por conseguinte, com a derrota da agenda autoritária de Trump, é claro o retorno de um ambiente mais favorável a candidaturas progressistas por todo o mundo, não apenas nos Estados Unidos. Em um momento onde se vive uma pandemia global que causará (e já causou) danos graves na economia, educação e saúde, espera-se que discursos menos individualistas e mais universais ganhem força para, daí então, transformarem-se em ações políticas que atendam às necessidades de quem está sofrendo com os atuais acontecimentos.

Para Biden, esse contexto será um desafio dada a necessidade de reconstruir o tecido social norte-americano – e global – por meio da criação de empregos com garantias trabalhistas para os países desenvolvidos e, principalmente, em desenvolvimento. Por fim, sabe-se que Biden é sujeito político passivo de muitas críticas. Não se espera dele nada mais que o fundamental: que se traga bons quadros do partido democrata para a o poder dos Estados Unidos e das instituições liberais. A esperança é que, numa ordem liberal consolidada, a história sopre os ventos mais a favor dos progressistas que dos reacionários.

André Luiz Cançado Motta, graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Mestrando em Política Internacional pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás (FCS-UFG) e Assessor Parlamentar na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás.

Yury Machado de Moura, graduado em Ciências Sociais com Habilitação em Políticas Públicas pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e mestrando em Ciência Política pelo Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL-UnB).



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