JOÃO PINHEIRO, UM ARTISTA BRASILEIRO

As marmitas amassadas como centro do mundo

A obra Marmitas Amassadas (2025) materializa a verve de rebeldia do autor. Trata-se de um balanço de sua trajetória, apresentado em forma de miscelânea, em meio a uma era dominada por edições de luxo, definitivas e omnibus. Mas, afinal, quem foi que disse que as periferias não são o centro do mundo?

João Pinheiro é um artista brasileiro das quebradas do mundo do Jardim Brasília de São Paulo. Periférico de nascença e com orgulho. Artista gráfico e autor de quadrinhos dos mais respeitados – não só no cenário nacional, quanto também o internacional1 – com uma carreira consolidada na labuta diária em se produzir de maneira independente, cultura urbana periférica e underground. Circulando e se fazendo presente ao meio editorial nacional, através de eventos de quadrinhos, literatura, seminários e palestras. Sempre primando por sua liberdade artística, ao qual não aceita nenhuma forma de ingerência ou patrulhamento. Que se localiza e se coloca a margem dos padrões vigentes da indústria cultural brasileira.  

Práxis artística que se dá a partir de uma construção lúdica, não em sentido de ilusão, mas de concepção poética de tornar pública a ocorrência de vidas e (re)encantamentos da realidade, que fogem, em muito, dos noticiários de conflitos, tragédias e mortes que diariamente se fazem presentes nos noticiários jornalísticos de sangue. Que agem por reafirmar toda uma série de estereótipos e concepções de cunho preconceituoso, em relação as populações ocupantes das áreas urbanas socialmente precarizadas da sociedade brasileira.  

Um cronista da vida em concreto da periferia paulistana, mas que passa longe de qualquer bairrismo ou xenofobismo, ao apresentar um cotidiano que se revela universal a qualquer um que vivencie ou circule por alguma periferia brasileira. Seja em seus personagens antropomórficos, cartunescos ou naturalistas, somos apresentados a um sensível e contumaz retrato dos habitantes de nossas periferias. O que em São Paulo ganha ares que ampliam o cosmopolitismo da cidade por exaltar e tornar visíveis as particularidades e regionalidades que tornam a pauliceia desvairada uma grande malha de retalhos.  

Uma perspectiva social e antropológica das mais sofisticadas, ao qual transborda em suas pictografias contemporâneas, em oposição a normativa histórica de uma elite que tradicionalmente renega todo viés popular – em especial o negro, o nordestino e o feminino – que se dê em confrontação com o ilusório ideário de modernidade europeia que se instituiu como único prumo a reger o desenvolvimento da sociedade brasileira e as suas relações sociais de convivência e poder.  

Crédito: arquivo pessoal

Marmitas amassadas (2025) se dá enquanto a materialização dessa sua verve de rebeldia. Um processo de balanço em relação a sua obra, em forma de miscelânia, em meio a uma época de quadrinhos publicados em edições de luxo definitivas e omnibus. Um ato de sutil provocação ao compilar os “lados B” de uma década (2015 – 2025) de traços, poesias, manifestos e esboços realizados em seus cadernos de desenhos. Uma compilação de caráter artesanal, maloqueira, que recebeu seu nome a partir de uma analogia, referente ao conceito estampado na capa do Zine, entre uma marmita amassada e a arte das quebradas, “porque a arte da periferia vem com marcas, mas nunca sem tempero”. Nos inserindo, desde a sua capa, em meio a um fluxo gráfico e narrativo frenético. Tal qual um processo criativo de poesia visual beatnik, entremeada e influenciada pelas improvisações livres do jazz – como John Coltrane interpretando e reinventando “My favorite things” – em que o leitor acaba literalmente jogado em meio a um contínuo e aparentemente desconexo, num olhar desatento, emaranhado de imagens, desenhos, traços e versos não sequenciais. Aparentemente fora de ordem, mas que ao seu final se revelam plenamente articuladas ao objetivo de seu autor em nos oferecer uma amostragem do seu universo cotidiano de vivência inspiradora, retratado em suas histórias gráficas.  

É um grito de afirmação tanto a sua trajetória enquanto autor, quanto do compromisso ideológico que a rege. Sem deixar de homenagear e reverenciar os legados humanistas e pensatas libertárias (políticas, estéticas, musicais, cinematográficas, poéticas, literárias e gráficas) de tantos artistas e autorias que lhe influenciaram ao longo de sua formação pessoal e artística. Para assim se revelar um intérprete do Brasil, que através da periferia da capital paulista desenvolve uma obra que opta por retratar os amores, sonhos, tensões, tesões, conflitos, desejos que dali se originam, se dando em sentidos e outras lógicas de se viver em meio a loucura de uma megalópole como São Paulo. Não por um viés unidimensional e niilista de resistência, pois através de sua sensibilidade artística Pinheiro sabe que a vida é muito mais do que resistir e sobreviver. Mas de se reinventar contra todas as dificuldades que lhe são impostas. De retratar através de sua arte os constantes processos de reinvenções que compõe os cotidianos das vidas periféricas em nosso país. Um outro jeito de se encarar e viver o mundo. 

Sem deixar se levar por um exercício criativo autoindulgente ou alienante, mas de não se prender ou se deixar levar, pela construção de narrativas sociais violentas e aterrorizantes por si só. Mas não espere com isso, encontrar uma obra conciliatória e alienatória de que a favela (periferia) venceu. Nesse sentido, ela se dá como navalha afiada talhando fundo na imagética do público leitor. Um retrato de uma vida urbana pulsante, criativa, insolente e que sempre foi muito mais do que seus detratores sequer imaginam, mas muito menos do que ainda poderá vir a ser de fato. E um dia será!  

Crédito: arquivo pessoal

São desenhos, pinturas, narrativas e grafias, que não carregam em suas tintas as dores do mundo como se lhe fossem características unas e exclusivas. E Marmitas Amassadas demonstra a construção desse recorte artístico, desse conceito que se fez burilar ao longo dos anos, desde os primeiros desenhos xerocados e mimeografados em fanzines, passando por estudos de cenas e paisagens, esboços de personagens, manifestos borrados, poesias, pixos e montagens. Nos possibilitando a compreensão de como se deu o desenvolvimento e lapidação de João Pinheiro, para um autor independente que se coloca contra as armadilhas e normas do “Sistema”, mantendo sua liberdade artística e preceitos ideológicos inabaláveis, mesmo por vezes tendo possibilidades de caminhos mais fáceis e legitimados para corroboração e maior circulação de seu conjunto artístico. 

Em uma sociedade na qual a indústria cultural sempre objetiva domesticar toda forma ou traço de rebeldia, podando ou domesticando suas insurgências contestadoras, faz de sua arte um manifesto de permanente não aceite ante a ordem dominante. Um exemplo de radicalidade romântica, de um artista consciente e cioso do exercício de seu ofício enquanto possibilidade de transformação social e alteridade histórica. Não aceitando ou fazendo de sua obra produto de consumo acrítico e descartável. Sem abdicar ou desvirtuar de seus princípios éticos ou ideológicos nesse processo. Feito nada desprezível numa normalidade social baseada em acomodações e conciliações, sempre visando a manutenção de nosso arcaísmo civilizatório discriminatório, elitista e excludente.  

Rebeldia em diferentes traços e formas, que faz por contextualizar em seu zine de guerrilha, que é Marmitas Amassadas, mostrando a existência e a pujança de uma produção cultural de origem e perspectiva periférica que foge, rompe, com os estereótipos de origem burguesa que buscam pretensiosamente por validar aquilo que é uma verdadeira arte periférica, uma autêntica arte de periferia.  

A acidez crítica juvenil de personagens como Wellington Jacaré ou o tensionamento mordaz antipatriarcal, negro feminista e antirracista da Preta Maravilha, são exemplos dessa produção artística. Sem se preocupar ou se sujeitar ante um reconhecimento falsamente legitimador. Apenas para ser rotulado de acordo com as normas e preceitos vigentes por aqueles que vivem inseridos em suas restritas e elitistas bolhas sociais.  

Crédito: arquivo pessoal

João Pinheiro é daquela pertença artística que só consegue produzir, a partir do momento que está sendo verdadeiro, antes de tudo, consigo mesmo. Para a partir daí estabelecer diálogo com seu público.  Que para ele possuí rosto, voz, cores, gingado, endereço, história, sonhos… Ao qual ele, orgulhosamente, também faz parte.  

Não é arte pela arte, muito menos enquanto hobby, mas engajada em seu sentido mais pleno e soberano, enquanto representação libertária de um artista tendo como único compromisso em retratar, problematizar e transformar o mundo a sua volta, começando por ele próprio. Colocando ao centro, em destaque, os periféricos do mundo, a partir do universo da sua “quebrada”. Que lhe situa em seu tempo e espaço, enquanto sujeito ativo e consciente da História. A partir da laje de sua casa no Jardim Brasília, e de sua redondeza com os bairros: Fazenda Aricanduva, Jardim Arize, Jardim Eliane, Jardim Fernandes, Jardim Ipanema, Jardim Marilia, Jardim Santa Terezinha, Parque Savoi City, Vila Santa Rita e Vila Savoy, constituí o seu centro no mundo, com suas referências e interações, ao qual desenvolve e amplia em seus quadrinhos!  

Da Zona Leste paulistana, faz de seu quintal – literalmente – o centro do universo do mundo. Não existindo para o artista, pessoas, paisagens e narrativas mais bonitas e interessantes do que as que se dão cotidianamente a sua volta! O que já nos situa estarmos diante de um autor de refinada sensibilidade e apurada construção de discursiva. Nos contextualizando e nos inserindo como parte integrante de seu universo estético e imagético. Como se o público leitor fosse parte inerente da narrativa ao qual faz por ler. Ao qual não escapa os mínimos detalhes e cujo foco da ação nunca está em um primeiro plano evidente ou num close mais fácil, mas sempre em perspectiva daquilo que comumente se procura evitar em dar destaque, que se esconde e máscara. Sua narrativa discursiva e gráfica se dá em privilegiar aquilo que em geral não se destaca ou não se dá valor, do que se ojeriza e causa repulsa, do que se coloca como esquecido e apagado.  

Sua arte é sem concessão ou acordos, é conflitiva e de briga. Sem que com isso seus preceitos estilísticos sejam prejudicados. Em outras palavras, ela não é menos – ou menor – arte – em sua magnitude. Pois a sua organicidade de pertença é real, não é fabricada ou meramente estética. Ela se destaca exatamente por ser o que é, pela autenticidade que manifesta em cada traço, enquadramento, ângulo e desenho seu! 

Crédito: arquivo pessoal

Com seus sujeitos e atores sociais que rompem o padrão de estética da fome-miséria-violência, que o rotula enquanto um “não lugar” de vivências, esperanças e poesias. Desconstruindo a percepção das periferias enquanto representação de um local de inumanidade, desprovida de qualquer beleza e leveza. Eternas reféns de nossos abandonos e descasos políticos. A produção artística, de primeiríssima grandeza e qualidade, de João Pinheiro se dá não apenas por isso, mas responde bravamente a isso. Se dá enquanto incomodo, revolta e nojo ante tal situação. E, acima de tudo, é o seu compromisso público em não compactuar com tal mediocridade, pois a vida é muito mais – ou assim, deveria ser – do que nela estarmos aqui apenas para sobreviver! Vivermos bem, em dignidade, direitos e poesia, a arte existe para nos lembrarmos dessa constância, dessa verdade que nos acaba legada! Mas que ganha novas expressões, sentidos e esperanças.  

Em cada traço, em cada desenho, que se torna narrativa gráfica, pela inspiração de mais um desses tantos “marmiteiros” nada comuns e ordinários que nos formam enquanto um Brasil que opta em não deixar de sonhar e lutar. Tendo em João Pinheiro, um de seus melhores e mais significativos cronistas e intérpretes, de alma e traço de poeta! Ao qual temos em Marmitas Amassadas um visceral e poderoso retrato de um conjunto artístico que tanto já gerou, mas que ainda está em plena construção.  

Um artista que através de suas críticas nos faz sonhar e imaginar por um país que ainda virá a ser! E em tempos de conformismo medíocre e alienante, tal mérito criativo não é nada desprezível! É a arte enquanto compromisso por um mundo melhor, mais digno e radicalmente humanista. Não havendo distinção entre política e sua práxis enquanto artista! Pois quem foi, insistimos, que disse que a(s) periferia(s) não são o centro do mundo?  

João Pinheiro é um autor de caminhada e luta. Daqueles que optam em ser Dom Quixote na vida, do que covardes gigantes de moinhos! Artista de criatividade efervescente, coração pulsante e de ginga nos dedos, que resultam em uma identidade gráfico-visual que se revela inconfundível num primeiro olhar, independente das formas, cores e narrativas que optou por utilizar. Autor de um estilo próprio, de uma identidade artística das mais instigantes a surgir na cultura nacional nas últimas décadas. 

Crédito: arquivo pessoal

Aquele que sabe ser Wellington Jacaré o menino do Brasil que desce a ladeira! Que corre, tropeça, as vezes se rala, chora, cai, mas se levanta!  Tirando a vida de passinho! Do forró, passando pelo funk, se acabando de suor numa roda de samba ou de punk! Sempre guiado e desbravando os caminhos, seguindo os passos de Elegebara.  Sempre pixando e grafitando os muros da cidade com os seus sonhos de amor e alegria. Reinventando a realidade e lógica que o cerca, rotula e o busca aprisionar sem grades! Sem parar com os seus corres em busca de seus sonhos que insistem em dele se distanciar. Na busca incessante de um dia se fazer merecedor do amor de sua musa Durvalina.  

Autor de esperanças e pela construção por um outro mundo. Utópico convicto, mas que não se deixa alienar e nem abdica de sua verve crítica – entre a lírica e acidez – amiúde e sempre mordaz em desnudar nossas contradições e mazelas sociais. Ou em dar luz as nossas melhores potências e qualidades enquanto povo. Que através do conjunto de sua obra, acaba por analisar e interpretar esse grande enigma chamado Brasil, por vezes circulando por entre tormentas e conflitos, mas nunca se deixando cair pela boca do precipício. 

Afinal de contas, no término de tudo, não estamos aqui todos, na busca diária dessa tal felicidade? A procura de um bom rolê, na tranquilidade, e de um amor para chamar de seu?  

João Pinheiro sabe, e para ele isso basta!  

E precisa, de algo mais?  

Christian Ribeiro é doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. Membro do grupo de pesquisa “Pensamento social: contextos, instituições, intelectuais e movimentos” do IFCH/UNICAMP. 

REFERÊNCIAS: 

PINHEIRO, João. Marmitas Amassadas. São Paulo: MALOCA QUADRINHOS, Outono de 2025. 

BARBOSA, Sirlene; PINHEIRO, João. Carolina. São Paulo: Editora Veneta, 2016. 

PINHEIRO, João. Burroughs. São Paulo: Editora Veneta, 2015. 

JOÃO PINHEIRO. In: https://www.jpinheiro.com.br, acessado em 24/05/2025. 

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