REPORTAGEM

As mulheres de Nelson Rodrigues

Peças do clássico da dramaturgia brasileira ocupam palcos da cidade de São Paulo com interpretações que destacam protagonismo feminino

“O ator que não interpretou Nelson Rodrigues não tocou os demônios do homem brasileiro”, disse Fernanda Montenegro ao Fantástico em 1980, na ocasião da morte do escritor e dramaturgo pernambucano. Seu primeiro trabalho no cinema foi justamente interpretando uma das mais emblemáticas personagens de Rodrigues, Zulmira, de A Falecida, uma mulher adoecida pelo desejo e pela obsessão.

Ela é apenas uma das protagonistas vigorosas da obra do dramaturgo, que estreou nos teatros cariocas com a A mulher sem pecado (1941) e colocou grandes mulheres no centro do palco em obras como Vestido de noiva (1943), Senhora dos afogados (1947), Valsa nº6 (1951) e Os 7 gatinhos (1958). Todas essas peças foram apresentadas recentemente em teatros paulistas, evidenciando um interesse constante, se não crescente, em seus retratos assombrosos dos demônios da mulher brasileira.

“Nelson desmascara muita coisa”, diz Joana Medeiros, diretora da montagem de 7 Gatinhos em cartaz desde dezembro de 2024 no Teatro Oficina Uzyna Uzona. Ela, que define a peça como “uma revanche do feminino”, interpreta o patriarca da família Noronha, que vive da prostituição das filhas enquanto deposita todas as expectativas na caçula Silene, mantida em um internato como símbolo de pureza. A volta inesperada da jovem, porém, faz ruir a frágil ordem familiar e expõe a violência e a hipocrisia que sustentam a casa.

Crédito: Pedro Martins / Arquivo Pessoal

“Mas não espere por personagens bonzinhos”, continua a diretora, que encena o texto do dramaturgo com tanta fidelidade que chega a anunciar rubricas e marcas de pontuação na fala dos atores. Afinal, é uma obra que, para Joana, remove as máscaras sociais dos artistas, que se veem obrigados a enfrentar sua própria subjetividade e realidade ao mesmo tempo.

A realidade em que se insere a montagem de 7 gatinhos diz respeito a um momento de crise para o teatro brasileiro, com espaços de resistência como o Teatro de Container fechando e entradas insuficientes para a remuneração dos funcionários – a montagem do Oficina, como forma de desafiar essa ordem, paga a mesma quantia a técnicos e artistas.

A crise mais espantosa, no entanto, diz respeito à onda de violência contra a mulher que o país atravessa. Desde a estreia do espetáculo, em 24 de dezembro de 2024, o Brasil manteve um ritmo de, em média, quatro feminicídios e 240 estupros por dia, segundo os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Nesse contexto, o coletivo Viradas da Encruza, responsável pela encenação da peça, tomou a liberdade de interferir no texto de Rodrigues inserindo uma sequência de notícias recentes de feminicídio e estupro, chamando atenção para o presente. A atualização, incluída na reestreia da peça em 20 de junho, chama atenção para a concretude da violência denunciada pelo texto original. “7 Gatinhos é uma divina tragédia, ninguém sai ileso dela. Vemos todo tipo de abuso em uma só peça. É uma tragédia dos costumes, da família, daquilo que não temos coragem de dizer que já aconteceu com minha irmã, com minha mãe. Por isso Nelson é implacável”, diz Joana.

A violência também é tema central de outra peça de Nelson Rodrigues em cartaz em São Paulo neste momento, o monólogo Valsa nº6, interpretado pela atriz Carol Costa sob direção de Jorge Farjalla. Em sua segunda curta temporada, de 10 a 28 de setembro, no Teatro Sérgio Cardoso, a peça acompanha Sônia, uma adolescente assassinada aos 15 anos que, entre lembranças fragmentadas e delírios, tenta reconstruir o mistério de sua morte. Ao evocar as pessoas que atravessaram sua vida, a personagem expõe uma trama marcada por violência, desejo e repressões familiares.

Valsa nº6 conta, como 7 Gatinhos, histórias de estupro e violação, mas na chave da memória e da intimidade da garota. Na mesma entrevista ao Fantástico, Fernanda Montenegro disse que foi Nelson Rodrigues quem expressou, pela primeira vez em um palco nacional, “elementos da subjetividade, do inconsciente e da memória, ao lado de uma realidade tratada com crueza, tragédia e poesia”, quando estreou Vestido de Noiva em 1943. Com a peça de 1951, o dramaturgo leva tais expressões do sofrimento silenciado do íntimo da mulher às últimas consequências, denunciando-o após o feminicídio. Na montagem de Farjalla, Carol Costa segue a proposta de Joana Medeiros no Oficina e aproxima a ficção da realidade ao discursar sobre as estatísticas de estupros no Brasil.

Mas o olhar feminista sobre a obra de Nelson Rodrigues não é necessariamente evidente, já que o dramaturgo também é autor de frases provocadoras como “Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais”, interpretada como apologia à violência de gênero. Ao longo de sua carreira, o dramaturgo repetiu muitas vezes que era um reacionário. Mas para a pesquisadora Angela Leite Lopes autora de Nelson Rodrigues: trágico, então moderno, é impossível dizer que não há algo de feminista em sua obra.

“Ele era um anticomunista ferreiro, acreditava na liberdade do indivíduo. Ele apoiou o golpe militar, embora tenha se arrependido e militado pela abertura depois do envolvimento de seu filho com a luta contra a ditadura. Mas a obra do Nelson é transgressora. Ele adorava provocar. Naquela frase ele está lidando com o senso comum do machismo brasileiro, provocando-o.”

Ela se lembra da cena em que a Zulmira de A Falecida conta ao amante Pimentel o porquê de trair seu marido:

 

ZULMIRA (dolorosa) — Começou na primeira noite… Ele se levantou, saiu do quarto… Para fazer, sabe o quê?

 

PIMENTEL — Não.

 

ZULMIRA (num grito triunfal) — Lavar as mãos!

 

PIMENTEL — E daí?

 

ZULMIRA — Achas pouco? Lavava as mãos, como se tivesse nojo de mim! Durante toda a lua de mel, não fez outra coisa… Então, eu senti que mais cedo ou mais tarde havia de traí-lo! Não pude mais suportá-lo… Aquele homem lavando as mãos… Ele virava-se para mim e me chamava de fria.

 

(Zulmira altiva, empinando o queixo, como se desafiasse a plateia.)

 

ZULMIRA — Fria, coitado!

 

(Zulmira, rápida e amorosa, volta-se para Pimentel. Apanha o rosto do amante entre as mãos.)

 

ZULMIRA (veemente) — Sou fria, sou?

 

PIMENTEL (alvar) — Você é um espetáculo!

 

ZULMIRA — Odeio meu marido!

Para Lopes, trata-se de uma fala muito contundente de uma mulher que anuncia a insuficiência do homem. “Isso sempre foi muito claro para mim. Várias de suas peças são sobre a construção do feminino, exploram o que é se tornar uma mulher e os conflitos disso”. Tendo se aproximado de Nelson Rodrigues pela via da criação, não da análise ou da pesquisa, Joana exprime impressão similar:

“Como não sou estudiosa de Nelson, não consigo acreditar que ele é conservador, porque colocar as mulheres naqueles papéis é uma denúncia. Fazendo o papel do patriarca percebo que ele está claramente denunciando a violência. A obra dele dá um flagra tanto na classe média, quanto nos ricos, quanto nos pobres. Em todo ser humano.”

Ela volta ao tema da “revanche do feminino” ao apontar que, no final de 7 Gatinhos, quem morre é o patriarcado: “É um florescer do feminino. As mulheres saem da claustrofobia da violência masculina. Mas elas não se curam depois de matar o patriarcado. Essa é a força da tragédia”.

 

Crédtio: Pedro Martins / Arquivo Pessoal

Quando denunciaram suas peças como violentas ou absurdas, imorais ou moralistas, Nelson Rodrigues respondeu: “Não tenho culpa que a vida seja como ela é”. A força do teatro, seja pela repulsão ou pela atração, está em sua forma de colocar o espectador de frente com “a finitude, com a incompletude e com a palavra humana”, descreve Lopes.

“O lado mais bonito, que é cívico, do teatro é a forma como ele constrói uma relação de estrangeiro com a nossa própria língua. Somos obrigados a descobrir novos sentidos na língua. A palavra é uma construção, você tem que ser ativo nela. Essa é a contribuição do Nelson, por isso fico feliz que ele seja revisitado”, conclui a pesquisadora.

 

Carolina Azevedo é jornalista, mestranda em teoria literária na USP e coordenadora do projeto Cultura SP no Le Monde Diplomatique Brasil.

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