Eleições americanas: as ondas coloridas e seu mar agitado

Eleições americanas

As ondas coloridas e seu mar agitado

por Diego Viana
16 de novembro de 2020
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A disputa interna dos democratas reflete o impasse da política partidária contemporânea

Vale a pena se deter sobre a maneira como as esquerdas reagiram à vitória de Joe Biden nas eleições americanas. Ao menos dois campos são evidentes. De um lado, o alívio com a derrota de Donald Trump produziu uma onda de simpatia pelo futuro presidente da potência ao Norte. Neste campo, Trump se parece com o elefante na sala do provérbio, cuja remoção faz parecer que tudo está bem quando, na verdade, nenhum dos problemas reais foi tocado. Do outro lado, temos o desconforto de quem se sentiu compelido a celebrar um resultado eleitoral que, tudo somado, consagra um político da velha guarda, plenamente identificado com o neoliberalismo no contexto doméstico e, nas relações exteriores, com o belicismo imperial.

Partindo do princípio de que aspirar a um presidente americano mais progressista e menos intervencionista seria esperar demais, faria sentido acusar uma ingenuidade tanto no espírito de “já podemos criticar?” de uns quanto na quase-adesão de outros. Mas é importante notar que ambas as posturas traduzem uma cisão presente na realidade, bem além da conjuntura, perfeitamente inserida nas dinâmicas políticas e sociais que estamos atravessando. Essa é a realidade que merece reter nossa atenção, para além do perfil de Biden.

As disputas internas no Partido Democrata, instaladas tão logo o vencedor foi anunciado, refletem ainda melhor essa realidade e, pode-se dizer, são decisivas para determinar o perfil da década que começa. A ala progressista, herdeira da candidatura de Bernie Sanders em 2016 e do Black Lives Matter, impulsionada pelas vitórias legislativas de 2018, particularmente a das combativas deputadas Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib e Ilhan Omar, pressiona por espaço para suas políticas no futuro governo. AOC e seu grupo lembram que sua atuação e capacidade de mobilização foram determinantes para a vitória de Biden, particularmente na conquista do voto da população negra. A ala dominante e mais conservadora, dita “centrista”, a que Biden pertence, procura subestimar e por vezes negar a importância da atuação dos progressistas, ressaltando a necessidade de mediação com um eleitorado que se revelou menos propenso às pautas da esquerda do que se chegou a esperar[1].

As condições concretas em que Biden vai governar a partir do próximo ano não são o cerne dessas disputas, embora elas tenham sido colocadas nesses termos. O crescimento da ala progressista e a resistência dos grupos dominantes no interior do partido são um reflexo local do processo histórico que se arrasta desde, pelo menos, a crise de 2008. Outros reflexos, em outros locais e outras escalas, são a própria eleição de Trump, a ascensão da extrema-direita em várias partes do mundo, os movimentos progressistas que também ascendem, as mobilizações pelo clima. Ao longo da década, houve várias encarnações dessa dinâmica pós-crise, que ainda não encontrou uma resolução razoável que não seja um aprofundamento neoliberal associado a bancos centrais mais agressivos.

Para ficar só na disputa intra-democrata, comecemos por lembrar que, nas primárias de 2016, o Comitê Nacional Democrata sabotou a pré-candidatura de Bernie Sanders, consagrando Hillary Clinton, que acabaria derrotada por Trump[2]. Desde então, estabeleceu-se nos círculos da esquerda democrata o mantra de que “Bernie would have won”. É uma sentença inverificável, claro. Não se pode saber o que sairia da eleição que confrontasse duas mensagens com forte apelo de base, uma delas, como se verificou depois, já mais adiantada em termos de organização – a de Trump. Por sinal, a votação de Trump este ano, superando o recorde de Obama em 2008, também parece desmentir o princípio de que necessariamente Bernie venceria. O ponto é que, por maior que fosse o apelo de Bernie para o eleitorado progressista, para esperar que ele vencesse e governasse sem entraves, seria preciso ignorar a correlação de forças da política americana e o processo histórico pós-crash.

Seja como for, a comparação com as primárias deste ano é reveladora. Desta vez, não foi necessário fazer a sabotagem de 2016 para que Bernie Sanders ficasse para trás, sobretudo porque a estratégia da cúpula democrata era muito mais sólida. Envolveu um controle rígido do processo eleitoral, a limitação do acesso desse grupo à imprensa e, sobretudo, a escolha de um candidato visto domesticamente como pouco polêmico – ou, mais explicitamente, inofensivo. Foi um projeto evidente de mediação, para recuperar uma proporção suficiente de eleitores dos estados pendulares que estivessem arrependidos do voto em Trump. Apesar das expectativas criadas no campo da esquerda, assim como ocorreu com Corbyn no Reino Unido no ano passado, a capacidade de superação das barreiras construída ao longo dos últimos anos (desde 2016) se mostrou bem menor do que o imaginado. O sucesso dessa estratégia em escolher seu candidato mostra que a derrota para Trump não implodiu a cúpula democrata; mais ainda, sugere que nem mesmo uma segunda derrota levaria a essa implosão – embora tenhamos aqui, mais uma vez, uma proposição indemonstrável.

*

Uma das razões pelas quais a proposição é indemonstrável está no próprio crescimento da ala progressista, que se tornou o único verdadeiro ponto de contato entre os democratas e o eleitorado, para não dizer com a sociedade em geral. O grupo à esquerda não saiu nada enfraquecido das primárias, muito pelo contrário. Mesmo que a cúpula dos democratas deseje abafar a ascensão de AOC e da esquerda em geral, claramente sua capacidade de mobilização se tornou indispensável para o partido, se ele pretende ter votações relevantes daqui para frente.

A expressiva votação de Trump, não menos que a de Biden, é indício de que o partido deve sim aos progressistas a conquista da Casa Branca. Some-se a isso que, em dois anos, vai ser preciso um novo esforço para tirar os eleitores de casa: nas eleições de meio de mandato, manter o controle da Câmara dos Representantes e uma nova investida pelo Senado são o mínimo necessário para qualquer pretensão de longo prazo, o que envolve a reconquista de setores do eleitorado perdidos para os republicanos ou simplesmente alienados.

Com a capacidade de confrontar os republicanos em comissões e investidas no terreno em que Trump nadou de braçada em 2016 – as redes sociais –, o grupo de AOC foi a verdadeira oposição efetiva no quatriênio, muito além de Nancy Pelosi ou qualquer outra liderança. A cúpula democrata, Biden e sua campanha sabem disso. A linha em que podem atuar, no entanto, é tênue: devem manter sob controle sua ala mais combativa e eficaz, sem aliená-la ou tirá-la do jogo. Daí uma série de gestos, em geral tímidos, pelos quais seu trabalho conciliatório não se fundou só no aceno amistoso para o eleitorado da direita que poderia ser simpático a Trump. Claramente, como se vê pela ineficácia do “Lincoln Project“, em que tantos democratas enterraram tanto dinheiro, se fosse só isso, Biden teria fracassado estrondosamente.

Embora sem um décimo da potência do Green New Deal, o programa de Biden incorporou uma série de propostas em que se reconhece o dedo da ala progressista. É o caso da ampliação de gastos em infraestrutura, traduzida no “build back better” (US$ 1,6 trilhão). É também o caso do aumento de impostos corporativos (embora muito aquém da taxa anterior à redução de Trump) e para as classes altas. Por pressão da ala progressista, a equipe de Biden incluiu no programa uma expansão de gastos com educação (US$ 1,9 trilhão), moradia (US$ 650 bilhão), saúde (US$ 352 bilhão) e previdência (US$ 291 bilhão). Estamos falando de transição energética, sistema de saúde público (“single payer”), Estado de bem-estar social? De modo algum. E, de fato, com o provável fracasso em tomar o Senado, que continuará sob o comando de Mitch McConnell, mesmo esses projetos estão comprometidos. Mesmo assim, fica evidente que é possível vociferar contra os progressistas, mas não é possível ignorá-los.

Algo semelhante transparece na mística que vem se formando em torno de Kamala Harris, a próxima vice-presidente. Seu perfil dificilmente poderia ser mais distante da ala progressista: é uma ex-procuradora da Califórnia conhecida por aumentar a taxa de condenação, e que se auto-definiu como “top cop“. No entanto, é a primeira mulher a chegar à vice-presidência, é não-branca e teve influências heterodoxas dos pais[3]. O maior ativo de Harris, da perspectiva das esquerdas, é sua representatividade, ou seja, o gênero e a raça. Parece pouco? Não é. A tal ponto que a filósofa Angela Davis passou por cima do passado de Harris para celebrá-la com a fórmula “representativity matters”. No cômputo geral, essas características bastaram para que sua escolha fosse encarada como um aceno, ainda que limitado, às pautas da esquerda. E na lógica política em que atuam Biden, Obama, Clinton, Pelosi e os demais, provavelmente foi, de fato, um aceno; ou melhor, uma mensagem: deixou claro até onde o partido está disposto a ir. Não é muito longe, pelo menos por ora.

*

Os pontos evocados acima mostram que, por trás da disputa por espaço entre os caciques e a juventude progressista do Partido Democrata, o problema não é se Bernie ganharia em 2016 ou 2020: nem a política, nem a história se fazem no subjuntivo. O que transparece é o tanto de transformações que o mundo atravessou, e deixou de atravessar, nos últimos quatro anos. Os movimentos iniciados por Bernie e outras figuras (não nos esqueçamos de Jeremy Corbyn) tiveram papel relevante em algumas das mudanças. Há uma profunda conexão entre o Black Lives Matter, a ascensão das jovens deputadas progressistas em 2018 e a irrupção de Greta Thunberg no cenário mundial, embora lidem com problemas diferentes, conceituados diferentemente[4].

Para não sair do âmbito da política americana, é evidente que a mensagem e, sobretudo, a atuação da ala progressista reverberaram. Inseriram no coração do debate público americano uma série de questões que seriam impensáveis uma década atrás. Basta lembrar que a plataforma de Obama em 2008 era considerada transformadora e hoje parece pálida, em comparação com ideias como renda básica universal, Green New Deal e salário mínimo a US$ 15. Este último, por sinal, foi objeto de plebiscito na Flórida e foi aprovado com 60% das vozes, apesar de ser um Estado vencido por Trump. Não estou nem sequer falando das políticas efetivamente conduzidas em seu governo, que no plano interno, sobretudo econômico, foram limitadas pela oposição republicana no Congresso, e no plano internacional seguiram à risca a tradição imperial, favorecida pelo desenvolvimento dos drones, que permitiu ampliar os bombardeios sem arriscar soldados e aviadores americanos.

As vitórias de AOC e seu grupo são a ponta-de-lança de vibrações que vêm tomando corpo no campo social. A derrubada de estátuas confederadas causou polêmica, sem dúvida, no sentido de que sofreu rejeição não só da direita saudosa da confederação escravista, mas também do assim-chamado centro, horrorizado com a eliminação de monumentos, tratando-a como ato digno do Talibã, um apagamento da história ou da arte. No entanto, o mesmo gesto de derrubar estátuas teria sido muito menos polêmico em 2010 ou 2000, simplesmente porque quase ninguém teria sido favorável. Até então, só nichos restritos de ativistas reconheciam a herança escravocrata e mal ousavam formular a exigência de que fosse desmanchada. Neste ano, ao contrário, o Mississippi, um Estado do Sul profundo que deu a Trump uma vitória de 60%, removeu a cruz confederada de sua bandeira estadual, algo impensável menos de uma década atrás.

Some-se ainda a descriminalização da maconha em diversos Estados, quatro deles agora nesta eleição; o apoio à ampliação do sistema público de saúde e ao controle de armas; além de uma série de pautas ligadas à atuação econômica do Estado e principalmente ao clima. São sinais claros da força que esses movimentos alcançaram no debate público americano. Em 2016, essas pautas estavam associadas apenas a Sanders, como exemplos de seu “radicalismo”. Hoje, são o cerne da plataforma de esquerda nos Estados Unidos e muitas vezes atraem até uma parcela dos republicanos. Não há mais condições para simplesmente abafá-las.

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As alas dominantes entre os democratas se sentem em posição confortável na disputa com os progressistas, em boa medida, graças a uma certa interpretação dos resultados eleitorais. Sobretudo a frustração com a esperada “onda azul”, que deveria ter trazido uma vitória acachapante contra Trump. Segundo algumas projeções, eram esperados a conquista do Senado e triunfos em Ohio, Flórida e até no Texas. A informação de que, antes de 3 de novembro, mais de 90 milhões de eleitores haviam votado antecipadamente trouxe expectativas altíssimas à cúpula democrata, que fez campanha pelo voto por correio.

Com a derrota para Trump em Ohio e Flórida, as esperanças se tornaram angústia. Não só porque a perspectiva de governar sem freios se mostrou fantasiosa – em outubro, falava-se abertamente em aparelhar a Suprema Corte –, mas também porque, depois de quatro anos erráticos e por vezes vergonhosos, Trump conseguiu inclusive superar o apoio que o levou à Casa Branca. Isto sugere que sua mensagem é mais eficaz do que pensávamos, e que ele é bem menos dependente de tramóias do que o “russiagate” e a ênfase em Steve Bannon levaram a crer[5].

Por outro lado, em quatro anos, os democratas passaram de 65,8 milhões para 77,6 milhões de votos[6]. Infelizmente para eles, a onda vermelha foi apenas um pouco menor, com crescimento de 11 milhões, em vez de 12. Ainda assim, para a sorte dos democratas, a distribuição por Estado foi mais favorável, ao contrário do que ocorreu a Hillary, e Biden venceu. Onda azul frustrada de verdade foi a de 2018, quando os democratas perderam a chance de tirar o Senado de Trump – não fosse por isso, ele provavelmente seria defenestrado no ano seguinte. Aquele momento de forte mobilização, em que Bernie atuou com força, trouxe ganhos – incluindo a eleição de AOC, Tlaib, Omar e outras –, mas aquém do esperado. Deveria ter servido de alerta para este ano também, mas em vez disso as esperanças se renovaram nos mesmos níveis irrealistas. Sobretudo porque já em 2018 ocorreu um aumento considerável da participação dos eleitores.

Neste ano, os democratas, particularmente a ala progressista, se dedicaram a um grande esforço para convencer a população a se registrar e votar, confiando que os contingentes silenciosos e desiludidos com a política pendiam decisivamente para a rejeição a Trump – não que isso se traduza imediatamente em apoio a Biden; muito pelo contrário. Acontece que um esforço paralelo foi feito pelos republicanos, talvez alarmados com a movimentação no campo adversário. Esse esforço foi muito pouco noticiado, mas uma pesquisa um pouco mais cuidadosa no Google revela que a campanha de Trump contactou 150 milhões de eleitores, mais que o dobro de 2016 (71 milhões).

Com o aumento simultâneo dos dois eleitorados, podemos afirmar com razoável segurança que, bem, esses eleitores de fato existem. Há, de verdade, mais de 70 milhões de americanos que não se importam com os dedos pequenos de Trump, sua pronúncia esquisita do nome “China”, sua misoginia, seu racismo, seu chauvinismo. Seja porque votam com o bolso e a economia vinha ou parecia vir bem até a chegada da pandemia; seja porque veem em Trump a manutenção de privilégios sem os quais julgam não poder viver (de raça, gênero, origem, mas também clima); seja por ódio ao elitismo do Partido Democrata – seja qual for o motivo, não se pode dizer que sejam um acidente ou gente iludida por notícias falsas.

Fatores demográficos foram determinantes para o crescimento dos democratas, mas não da maneira absoluta como se pensava. De fato, populações negras, articuladas desde a emergência do Black Lives Matter, foram cruciais para virar alguns Estados, sobretudo a Geórgia. Têm circulado mapas mostrando que a única categoria em que Trump vence com tranquilidade é a dos homens brancos; mas um olhar mais próximo mostra que, em relação a 2016, sua votação melhorou entre negros, nativos, não brancos em geral e, sobretudo, latinos[7]. Não só em termos absolutos, o que se explicaria pelo aumento absoluto do eleitorado, mas relativamente aos democratas.

Estamos confrontados, portanto, com duas ondas: a azul e a vermelha. A cúpula democrata se sente confortável para abafar a ala progressista porque acredita em seu maquinário político, das assessorias eleitorais até os contatos na mídia e no mercado. Interpretam a força da “onda vermelha” à luz da existência do eleitorado conservador, apostando convenientemente no esforço de cooptá-lo. É uma estratégia compreensível do ponto-de-vista de sua própria posição, que segue dominante no acesso a recursos e no controle das estruturas.

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Mas o ponto que essa estratégia deixa a descoberto é o mais importante. As “duas ondas” do processo eleitoral americano quebraram em um mar agitado, reforçando um diagnóstico já bastante claro: os sistemas políticos que reivindicam o legado da democracia representativa e partidária se tornaram incapazes de dar conta das divisões que permeiam o campo social. Como resultado, essas divisões e as disputas que as realizam transbordam da política institucional e se concretizam cada vez mais no dia-a-dia: nas ruas, nas redes sociais, na mídia. Muito da força de Trump, assim como a de Bolsonaro, Salvini e outras lideranças do mesmo campo, reside em sua capacidade de capturar as energias liberadas por esse conflito. Jovens lideranças progressistas, muito diferentes entre si, do movimento climático de Greta às deputadas americanas, passando pelo Momentum no Reino Unido, têm conseguido um efeito semelhante, embora menos intenso, mas talvez mais sólido e estruturado.

Está cada vez mais robusta e disseminada pelo campo social a linguagem da renda básica, da transição energética, da tributação redistributiva. Essa linguagem fez, até agora, poucos avanços para dentro do coração dos sistemas políticos, ao contrário do que conseguiram seus adversários da direita, extrema-direita em particular. Uma possível exceção é o quase-consenso em torno do clima, que ainda precisa se traduzir, no plano político, em algo além de expressões de intenção[8]. Outra possível exceção é o reconhecimento do imperativo de políticas fiscais e de reduzir a desigualdade.

São passos relativamente tímidos, mas dão a ver o vetor da problemática contemporânea, na qual se inserem as disputas internas dos democratas após a eleição e as reações à esquerda. Ainda vivemos sob a égide do neoliberalismo, que pareceu balançar na crise de 2008 mas, desde então, só fez se radicalizar, com a crescente financeirização da vida quotidiana e a atuação cada vez mais agressiva dos bancos centrais. O cenário é tal que a posição central, encastelada nos sistemas políticos e nas instituições que controlam o fluxo monetário, busca a todo custo lideranças capazes de esticar essa questionável normalidade, enquanto as sociedades se inflamam, buscam alternativas onde estiverem mais à mão – ou, como se diz, “se polarizam”.

Este é, com efeito, o retrato do momento americano, quando se disputam os espólios de Trump, forma aberrante da resposta conservadora às tribulações da época. Entre os vencedores, o esforço agora é para manter a temperatura sob controle, concedendo o mínimo possível às reivindicações que vêm do campo social e que são transmitidas pela ala progressista. Situações semelhantes se encontram em todas as tradicionais democracias do Ocidente e em suas periferias, onde forças da direita radical avançaram violentamente nos últimos anos, mas agora sofrem reveses.

Não parece ser uma conjuntura muito estável e, de fato, já tem produzido instabilidades recorrentes em vários países. Na periferia do capitalismo, América Latina em particular, esse conflito latente tem se manifestado em conflagrações de todo tipo, de golpes de Estado a terremotos eleitorais. Nos países centrais, os sistemas partidário-eleitorais ainda têm sido capazes de manejá-lo, com dificuldade crescente. Mas o conflito não dá o menor sinal de ir embora e, com as ondas de choque da pandemia, só tende a se aprofundar. Os próximos ciclos eleitorais prometem fortes emoções.

 

Diego Viana,  jornalista, doutor em Humanidades pelo programa Diversitas da FFLCH-USP

[1] Sobretudo para a mídia, muitos democratas têm ido além, pondo a culpa na ala à esquerda por alguns dos reveses da eleição.

[2] Nunca é demais lembrar que a campanha democrata via Trump como adversário de preferência, supostamente mais fácil de bater do que os demais.

[3] Essas influências parecem ter se dissipado, se não por inteiro, o bastante para Wall Street comemorar sua escolha.

[4] Um exercício interessante consistiria em comparar o peso da presença desses movimentos com o que conseguiram lograr o Occupy e outros movimentos de 2011. Desses, os mais bem-sucedidos foram provavelmente os espanhóis, que tomaram a via partidária e, como as deputadas americanas, buscam empurrar a esquerda tradicional para pautas mais progressistas.

[5] A alta da participação eleitoral dificulta as comparações que vêm sendo tentadas. Por exemplo, o quanto diminuiu a vantagem democrata no condado de Miami-Dade de Clinton para Biden; o aumento do universo torna a variação mais opaca. Outro exemplo: a vitória de Biden é notável porque é difícil vencer um presidente que tenta a reeleição; mas nunca houve uma eleição tão plebiscitária em relação a um indivíduo. Mais um: o mercado de trabalho aquecido pré-pandemia favorece Trump; faz todo sentido, mas será que isso explica os mais de 71 milhões de votos do atual presidente?

[6] No momento em que escrevo, a apuração não acabou, faltando cerca de 4%.

[7] Por sinal, justamente entre homens brancos houve uma transferência de Trump para Biden

[8] Valeria acrescentar que o reconhecimento da emergência climática ainda está longe de se traduzir em políticas efetivas por parte dos principais atores, privados e públicos, da economia global; daí as intenções de chegar à neutralidade de carbono sem abrir mão do crescimento, por exemplo.



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