DOS VELHOS AOS NOVOS MONOPÓLIOS

As transmissões de futebol no Brasil em 2025

Negócios bilionários expõem desigualdades e necessidades de políticas públicas para democratizar o acesso às transmissões esportivas e reparar o abismo de gênero criado ao longo de décadas no futebol

Neste primeiro quarto do século XXI, o futebol mudou, a mídia mudou, a tecnologia nem se fala, mas muita coisa permanece como antes. E, assim, quase dez anos após o primeiro artigo publicado pelo Intervozes a respeito dos dilemas das transmissões de futebol no Brasil, seguimos longe de chegar a uma solução. A fim de aprofundar os impasses nesse campo pantanoso, o Observatório das Transmissões de Futebóis tem produzido um robusto levantamento de dados sobre os principais campeonatos exibidos no Brasil, via TV e streaming, fornecendo bases para uma análise do direito à comunicação a partir de um dos maiores patrimônios culturais do país. Para Amanda Trovó, coordenadora do projeto, “O Observatório atua neste período para ampliar as pesquisas dentro do futebol e compreender o mundo e as atuais condições socioeconômicas do território brasileiro através do futebol – principalmente, através das transmissões e seus agentes transmissores”.

Crédito: Intervozes

Panorama das transmissões de futebol no Brasil em 2025

No ano que marcou o centenário do jornal O Globo e seis décadas da TV Globo, pela primeira vez, desde 1995, outra emissora de televisão aberta comprou os pacotes de transmissão da Série A do Campeonato Brasileiro masculino. Isso aconteceu após mudanças na divisão dos direitos de imagem do Brasileirão, em meio à aplicação da Lei do Mandante (14.205/2021) e às expectativas de quebra do monopólio da família Marinho no futebol. Em negociação liderada pelos clubes, cindidos em dois blocos comerciais (Libra e Liga Forte União), firmaram-se contratos de cinco temporadas (2025-2029), atingindo um total de 2,5 bilhões de reais, para exibição dos jogos na Record, Youtube (Cazé TV) e Prime Video (Amazon), além da Globo, que segue lucrando fartas cifras publicitárias ao fechar acordo com ambas as ligas – exibindo nove entre dez partidas por rodada, sendo oito exclusivas.

A sustentação do poder do grupo Globo passa ainda pela transmissão de outras competições relevantes do futebol masculino em 2025 (Libertadores, Copa do Brasil, Mundial de Clubes, Intercontinental, amistosos da seleção brasileira, eliminatórias europeias e oito campeonatos estaduais), além de maior investimento no futebol de mulheres (Brasileirão, Libertadores, Copa do Brasil, Supercopa, Copa América e dois campeonatos estaduais) e da inauguração do canal GE TV no Youtube. Em compensação, consolidam-se novos players globais no mercado nacional: ESPN/Disney+ (Libertadores e ligas europeias), Max (Champions League), Prime Vídeo (Copa do Brasil), DAZN (campeonatos europeus, Série C e Sul-Americana) e Paramount+ (Libertadores e Sul-Americana). Vale destacar a atuação da CazéTV/LiveMode, forte concorrente da Globo no país, exibindo um jogo por rodada do Brasileirão (clubes da LFU), além do Mundial de Clubes, do Paulistão e de competições europeias e femininas.

Fonte: Observatório das Transmissões de Futebóis, 2025.

Em uma perspectiva histórica, conglomerados midiáticos disputam cada palmo de um setor extremamente rentável, passando de uma concorrência mais direta entre Globo, Band, Disney e Warner para uma relativa pulverização das transmissões entre novos e velhos monopólios. Com a TV 3.0, empresas de tecnologia da informação costuram parcerias voltadas ao e-commerce, promovem incursões na TV on-demand e proporcionam batalhas homéricas pelo controle de gigantes da comunicação global. Observamos, ao mesmo tempo, a entrada de novos atores: X-Sports, propriedade do grupo Kalunga (Série B do Brasileirão, fases finais do Paulistão A2 e campeonatos internacionais); NSports, que tem Galvão Bueno como sócio (Brasileirão Feminino e campeonatos internacionais); Romário TVl, que transmitirá a Copa do Nordeste e a Copa Verde em 2026; entre outras iniciativas – GOAT, UOL, Nosso Futebol, Canal do Benja, Esporte Mais TV, Pluto TV etc.

Fonte: Observatório das Transmissões de Futebóis, 2025

Em paralelo, acompanhamos nos últimos anos a ampliação do acesso à internet no Brasil, ainda que permeada por desigualdades sociais, raciais e regionais. Nesse contexto, a oferta de canais online e transmissões gratuitas impõem certas implicações técnicas e financeiras, como a contratação de pacote de internet, a compra de aparelho eletrônico para exibição de vídeo e o letramento digital. Sobre o assunto, a TIC Domicílios 2025, pesquisa conduzida pelo Cetic/NIC.br, órgão vinculado ao Comitê Gestor da Internet (CGI), mostra que 86% dos lares brasileiros acessam a internet, mas somente 20% dos usuários experimentam alta conectividade significativa. Por isso, apesar da popularização da rede e do smartphone, bem como da plataformização e algoritmização do cotidiano, diversos fatores têm fortalecido o mercado informal de transmissões, sendo a pirataria uma alternativa encontrada para driblar o alto custo do streaming e da TV fechada.

Abismos, desigualdades e boas práticas nos estaduais e no futebol de mulheres

Torcedoras e torcedores, das arquibancadas aos botequins, vivem a expectativa da realização da Copa do Mundo na América do Norte em 2026 e da Copa do Mundo Feminina no Brasil em 2027. Como parte do planejamento para receber o megaevento no país, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou uma série de ações visando fortalecer o futebol de mulheres. Entre as medidas, estão a oferta de contrato profissional para atletas da primeira divisão, custeio da viagem de profissionais lactantes com seus filhos, ampliação do calendário (712 partidas em 2026, aumento de 26,4% em relação a 2025), investimento de R$685 milhões nas competições entre 2024 e 2029, além da garantia de transmissão para todas as partidas do Brasileirão A1, da Copa do Brasil e do Brasileiro Sub-20 e Sub-17.

Um olhar atento para as ações da CBF percebe, porém, o abismo entre o futebol de mulheres e o futebol masculino, ainda que a desigualdade de gênero não seja um problema apenas do Brasil. O Relatório de Benchmarking do Futebol Feminino, publicado pela FIFA em 2025, examinou a situação de 677 clubes em 90 ligas pelo mundo e revelou que o salário médio de uma jogadora é de R$ 5.182, rendimento puxado por alguns clubes de elite, que possuem, por sua vez, uma média de 1.713 torcedores por partida. Em competições e clubes de menor expressão, o salário das jogadoras e o público nos estádios são ainda mais baixos. A presença feminina em funções de comando é outro desafio, já que mulheres ocupam apenas 22% dos cargos de treinadoras e 42% das equipes de arbitragem.

A fim de compreender a maneira como o esporte tem sido realizado no Brasil, o Relatório Campeonato Brasileiro Feminino de Futebol A1 2025, produzido pelo Observatório Social do Futebol, sob coordenação da professora Leda Maria da Costa, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), aponta problemas na organização da principal liga nacional. Dentre as 120 partidas realizadas durante a primeira fase do torneio, apenas metade (61) foi transmitida por canais de televisão (SporTV e TV Brasil). Enquanto Corinthians e Flamengo (14), Palmeiras e São Paulo (12), tiveram a maior parte dos seus jogos televisionados, Bahia (2), Instituto 3B (3), RB Bragantino (4), entre outras equipes, sofreram com poucas transmissões. Chama atenção ainda a alternância no uso de estádios, a falta de investimento no marketing esportivo, a dificuldade na compra de ingressos e o alto índice de alterações das partidas (troca de data, horário e localização), em geral solicitadas com poucos dias de antecedência, prejudicando o comparecimento da torcida e a preparação das equipes. A título de exemplo, o Sport Club do Recife teve 17 mudanças ao longo de 15 partidas. Por vezes, os ajustes foram pedidos pelas emissoras responsáveis pela transmissão do campeonato.

Os problemas do futebol de mulheres no Brasil são históricos, enfrentando a proibição pelo Estado entre 1941 e 1983. A presença recente nos meios de comunicação de massa enseja um novo caminho para a modalidade, que conviveu com o ostracismo ao longo de décadas. Frente à oscilação das exibições televisivas, enquanto campeonatos internacionais e nacionais recebem maior visibilidade, torneios estaduais (com raras exceções) dependem de federações ou clubes e somente nas fases decisivas ganham espaço na imprensa, o que dificulta a consolidação da audiência – caso semelhante ao de algumas competições regionais e locais masculinas.

Fonte: Observatório das Transmissões de Futebóis, 2025

Entre os 27 torneios estaduais masculinos disputados na temporada de 2025, somente o campeonato tocantinense não teve transmissão na TV, sendo exibido no Youtube. Enquanto Globo e Record (e suas afiliadas) adquiriram os direitos de imagem de mais da metade das competições, 21 torneios foram exibidos no Youtube, a partir de canais privados (dez), federações (oito), clubes (dois), emissoras de TV públicas (quatro) e privadas (dois). Já em relação ao futebol de mulheres, somente seis campeonatos estaduais foram transmitidos na televisão, restando às próprias federações (11) e aos clubes (8) mostrarem os jogos em seus canais no Youtube. Ainda assim, seis competições estaduais femininas não foram exibidas por nenhum veículo.

Fonte: Observatório das Transmissões de Futebóis, 2025

Nesse cenário de concentração da comunicação e domínio das transmissões por poucas corporações nacionais e estrangeiras, parece haver espaço nos interstícios das redes virtuais para outros agentes, ampliando a cobertura esportiva em lugares onde falta investimento da mídia hegemônica. Mantém-se, porém, o abismo entre o futebol masculino e feminino no Brasil. Após a edição de 2019, que impulsionou o futebol de mulheres a nível global, a expectativa é que a Copa de 2027 estimule a modalidade no país, catalisando pesquisas, campanhas, debates e o compromisso de clubes, emissoras, federações e patrocinadores. Seria um modo de “reforçar o processo de reparação a todas as mulheres que foram proibidas de jogar futebol, a todas as mulheres que desejaram jogar futebol, mas viam um lugar inóspito a elas, a todas as mulheres que gostam de futebol e pouco foram legitimadas como alguém capaz de conhecer e saber jogar futebol, um reconhecimento que os homens têm pelo simples fato de serem homens”, analisa a professora Leda Maria da Costa.

Cabe destacar, por outro lado, o papel da comunicação pública, a partir da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Fato comum em vários países, a transmissão esportiva pelo sistema público tem sido fundamental para a efetivação do direito à comunicação no território nacional. Um exemplo é a TVE da Bahia, a qual “desde o ano de 2016 tem dedicado um espaço importante na sua programação para transmissão de diversas modalidades, […] entre elas o futebol, […] exibindo competições nacionais, locais e até mesmo internacionais, com participação de atletas, times e seleções representantes do estado”, afirma Flávio Gonçalves, diretor do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb), responsável pela emissora.

A TVE aparece como um modelo a ser seguido por outros estados exibindo o campeonato baiano, na íntegra e de forma ininterrupta, desde 2021, no caso do estadual masculino, e desde 2017, no caso do feminino. A transmissão da série A do campeonato baiano masculino, a partir de exibições ao vivo e gratuitas, levou o veículo à liderança de audiência na televisão, ultrapassando a marca de 1 milhão de visualizações em um clássico BA-VI exibido no YouTube. Nesses quase 10 anos, com o investimento na equipe profissional e na aquisição de equipamentos, a TV pública se popularizou, aproximando a população baiana dos times de Salvador e do interior, que tiveram uma visibilidade nunca antes alcançada. Antes de a TVE assumir os direitos de imagem do estadual masculino, eram apenas 13 jogos transmitidos via Rede Bahia, afiliada da Globo no estado. Agora a TVE transmite 100% do torneio, totalizando entre 48 e 51 partidas. “E nós fazemos isso pensando no torcedor, que tem o direito de assistir seus clubes e as competições que acontecem no seu estado, […] fortalecendo a relação dos torcedores com seus clubes, evitando o que aconteceu em décadas passadas de muitos baianos torcerem para times do Rio e de São Paulo”, conclui Flávio.

Não é coincidência o apreço de nordestinos a clubes do Sudeste, fato explicado por um sistema de radiodifusão marcado pelo oligopólio. O fortalecimento da comunicação pública seria uma forma eficiente, portanto, de romper com a cultura sudestina imposta pela mídia hegemônica, o que acaba por influenciar o futebol. As transmissões abertas são ainda mais relevantes em um país com dimensões continentais, onde a torcida tem dificuldade para acompanhar seus times nos estádios, sobretudo por conta de tempo, dinheiro e logística. Conforme destaca Flávio Gonçalves, a democratização do acesso ao esporte constitui uma nova geração de torcedores e espectadores da mídia pública, possibilita a divulgação de outros temas de importância jornalística, como as campanhas contra o feminicídio, além de auxiliar rádios que não se deslocam para os campos, narrando os jogos a partir das transmissões da TV.

Futebol, comunicação e tecnologia para além das telas e dos holofotes

Em um mercado tão concentrado, cabe ressaltar ainda o papel da comunicação comunitária e popular na valorização da diversidade e pluralidade cultural. Nesse sentido, desde 2019, o Várzea ao Vivo faz uma cobertura especializada do futebol de várzea nas periferias de São Paulo (SP), acumulando mais de 3,6 mil vídeos em seu canal no YouTube. Assim também faz o Deu Bera, projeto de extensão desenvolvido  por estudantes de jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), que buscam ampliar o reconhecimento dos clubes locais através de podcasts e transmissões dos jogos. Na Bahia, o Jornal Atualize realizou em 2025 a cobertura do 1° Campeonato Maria Felipa de Futebol Feminino da Ilha de Itaparica, mostrando que “o esporte tem o poder de mudar o mundo”.

Seguindo esse lema, artistas e trabalhadores lutam pela permanência de campos de várzea e espaços culturais na capital paulista. Assim como ocorreu com o Santa Marina, clube centenário removido no bairro da Água Branca, estão ameaçados de despejo o Teatro Popular União e Olho Vivo, grupo que completa 60 anos de existência no bairro do Bom Retiro, além do Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança, fundado em 1958 no bairro da Casa Verde. Espaços que deveriam ser tombados como patrimônio, pois são verdadeiros redutos da cultura negra e popular paulistana, serão demolidos pela Prefeitura para abrigar projetos privatistas.

Ameaças neoliberais compõem o escopo perverso da globalização, que atingiu o futebol por meio da reconfiguração geopolítica sob o poder dos EUA, do alargamento do mercado de apostas, do avanço do capital financeiro por meio das redes multi-clube, assim como da adoção do reconhecimento facial nos estádios brasileiros, obrigatório desde junho de 2025, em acordo com a Lei Geral do Esporte (nº 14.597/2023). Visando diminuir a violência e eliminar cambistas, a tecnologia provoca uma série de prejuízos relacionados à vigilância massiva, racismo algorítmico, privacidade, criminalização de torcedores e outras intercorrências. De acordo com Pablo Nunes, coordenador da pesquisa Esporte, Dados e Direitos: o uso de reconhecimento facial nos estádios brasileiros, realizada pelo CESeC no âmbito do O Panóptico, monitor da implementação de tecnologias de vigilância no Brasil, além do risco relacionado ao cruzamento dos dados pessoais de torcedores por empresas privadas para fins de propaganda, em um contexto de dataficação (big data), outro grave problema diz respeito ao desacordo no cumprimento de obrigações de transparência e à adequação do tratamento de dados de crianças e adolescentes, previstos na Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).

Em contrapartida, longe das arenas, em campos de terra, nos rincões do país, excluídos dos businesses, resistem os futebóis que mantêm vivo o esporte mais popular do planeta. Todavia, para além das telas e dos holofotes, os desafios são inúmeros. Sendo o futebol um elemento basilar da cultura brasileira, torna-se fundamental a democratização das transmissões. Do mesmo modo, se cultura é necessidade básica, igual arroz e feijão, como propôs Gilberto Gil, cabe à comunicação atentar-se para o esporte enquanto direito. E para isso, relembrando os ensinamentos de Cicilia Peruzzo, há que existir canais abertos e desobstruídos de participação, o que só é possível a partir da quebra do monopólio da mídia, do investimento na comunicação pública, comunitária e popular, da ampliação do acesso à internet, do investimento no futebol de mulheres, bem como da derrubada de projetos neoliberais, calcados no consumo e no vigilantismo.

Esse artigo faz parte da série “Relatório Direito à Comunicação 2025”, produzido pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. O relatório, divulgado anualmente, traz reflexões, análises e contribuições para o debate ligado ao direito à comunicação, a partir dos principais fatos que marcaram o Brasil.

Iago Vernek Fernandes é mestrando em Planejamento e Gestão do Território pela UFABC, coordenador do Observatório das Transmissões de Futebóis e associado ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

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