OS NÚMEROS COMO ARMA

As vítimas de chacinas que a estatística oculta

Se os nomes fossem divulgados, poderíamos identificar quantas dessas pessoas são inocentes e quantas não têm qualquer relação com o crime. Mas, sem isso, elas seguem reduzidas a simples números pela mídia

Você já assistiu muitas vezes. Depois da morte de alguém, as redes de televisão se aproximam. Pessoas são entrevistadas. Detalhes do crime são transmitidos e especialistas são consultados. Os filhos deixados para trás são destacados e mães são filmadas à beira do caixão, em lágrimas. Mas não é sempre assim.

Às vezes – como nas operações policiais em favelas –, o que os meios de comunicação com mais alcance nos mostram não são pessoas. São números. Estatísticas. 27 pessoas foram mortas na chacina do Jacarezinho, incluindo três vítimas de bala perdida que estavam no metrô ou em casa. 23 no Complexo da Penha e 16 no Complexo do Alemão. Até 2023, em média 300 menores de 18 anos foram baleados nas operações no Rio de Janeiro desde 2016. Poucos de seus nomes são conhecidos. Um dos motivos para isso é que, se descobrirmos seus nomes, poderemos verificar, e descobrir quantas delas são inocentes, quantas não tem qualquer conexão com o crime. Se conhecermos suas famílias e vidas, vai ser mais difícil enxergá-las como uma simples “infelicidade”, um efeito colateral de uma operação. É isso que aconteceu com o menino Marcos Vinícius, de 14 anos, baleado e morto a caminho da escola; um menino que perguntou para a mãe, enquanto sangrava até a morte: “Ele não viu que eu estava com roupa de escola?” Ele não sabia que, na verdade, seus assassinos não se importavam.

Os nomes das sete pessoas mortas no Complexo da Maré nesse dia nunca foram divulgadas, segundo dados do Chacinas Policiais, site que reúne dados sobre as chacinas ocorridas no Rio de Janeiro e região entre agosto de 2016 e julho de 2023. Esperamos que algum outro veículo reúna os dados e mantenha a memória da maior chacina até hoje, ocorrida no dia 28/10/2025 – dois dias antes da escrita desse texto. Até agora, 121 mortos foram encontrados – vários deles executados, até mesmo com as mãos amarradas; alguns, segundo o deputado e pastor do MDB Otoni de Paula, eram membros da igreja, que nunca seguraram um fuzil em suas vidas.

Mas existe uma outra razão que leva grande parte da mídia e a polícia a esconderem os nomes dessas vítimas por trás de estatísticas: números são abstratos. Não existem na vida real, não são filhos de uma pessoa específica. Dizer que os 121 mortos eram “bandidos” não é acusar ninguém que tenha nome e possa processar; não é acusar uma criança, um idoso, uma mãe. É o ato covarde de quem sabe que, se essas pessoas não forem identificadas, o assassinato bárbaro de inocentes não poderá ser constatado.

Manifestantes protestam a favor das vítimas. Levantam um cartaz escrito "Claudio Castro assassino terrorista"
Crédito: CDDHC/Divulgação

Não é de hoje que a mídia brasileira sabe muito bem disso. Se querem dizer que há um grande desemprego no país, nem sempre mostram estatísticas, mas nunca faltam as entrevistas com pessoas desempregadas, mostrando as dificuldades que elas têm em seu dia a dia. Se querem afirmar que a criminalidade aumentou, não importa se isso é fato numérico: eles procuram vítimas de crimes recentes, deixam a população amedrontada e aumentam, assim, o apoio às ações mais letais da polícia. Isso porque o ser humano é empático demais para o gosto de quem defende essas ações. O número está descolado da realidade, e, portanto, muitos conseguem acreditar que a chacina é algo positivo quando veem estatísticas em sua tela, conseguem imaginar que diminuirá a criminalidade, mesmo que a história já tenha provado que isso não é fato.

Mas se os números são apenas sinais matemáticos, a imagem da pilha de corpos no interior do Carandiru é chocante. E mais chocante ainda é saber que um número ainda maior de corpos foi estendido no chão da favela no dia 29, logo após o massacre. É uma visão extremamente dolorosa. É doloroso sequer imaginar os moradores do lugar caminhando por ruas manchadas de sangue, buscando e carregando em suas costas, um por um, os cadáveres de amigos, de parentes, de pais, de filhos, colocando corpo ao lado de corpo ao lado de corpo ao lado de corpo, alguns decapitados, outros com seus rostos completamente irreconhecíveis graças a um executor que atirou de tão perto na pessoa amarrada que não sobrou nada além de uma massa sangrenta. O número é incapaz de transmitir o horror dessas imagens e dessas mortes. E se essas moradores e moradores de favela fizeram o mais terrível dos esforços para buscar esses corpos, para alinhá-los numa fileira de dezenas de metros, é porque não querem que as mortes de seus amigos e amados passem em branco – mesmo que parte deles possa ser associada ao crime.

Em 2004, o chileno Roberto Bolaño escreveu um livro chamado 2666. É uma obra ao mesmo tempo fantástica e insuportável, porque nela o escritor faz algo que talvez devêssemos fazer como forma de respeitar nossos mortos. Ele, através da ficção, retrata um número enorme de feminicídios, num comentário sobre número de mulheres mortas em certas regiões do México – e a leitura é quase insuportável. Ao longo de centenas de páginas, vemos morte após morte, narradas incansavelmente. O estômago se embrulha, a alma pesa, e ficamos melancólicos porque sabemos que muitas das descrições foram inspiradas em jornais, em notícias reais, em corpos verdadeiros encontrados numa das regiões mais perigosas do mundo para as mulheres – e que o número verdadeiro de mulheres mortas, na realidade, era muito maior. Se fosse possível criar um livro, um filme como esse, que mostrasse em detalhes cada um desses 121 mortos, cada uma de suas vidas, cada detalhe de suas mortes por bala perdida, tiroteio ou execução – eu não conseguiria encarar. Não suportaria.

É por isso que admiro tanto o trabalho de jornalistas como Daniela Arbex, que há pouco ganhou um Jabuti por seu livro sobre a morte dos meninos do ninho – mas mesmo admirando tenho dificuldades em enfrentar. Os detalhes das mortes, o sofrimento das famílias, o descaso das autoridades policiais, políticas e jurídicas com as vítimas – é difícil demais de suportar.

Mas infelizmente, é disso que precisamos. Números e estatísticas são importantes e necessários, mas é o contato genuíno com pessoas que nos move. É quando ouvimos suas vozes, aprendemos seus nomes e conhecemos suas histórias e famílias que nos tornamos capazes de tratar a memória dos mortos com dignidade. Só assim poderemos parar de fingir que elas não passam de números, de efeito colateral. Do resultado infeliz de uma operação que não tem nada de abstrata.

 

Bruno Nogueira é escritor, tradutor e doutorando em estudos literários pela UFPR. Autor da coletânea de contos A Síndrome do Impostor e do romance Grito Distante.

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