Assassinatos teleguiados - Le Monde Diplomatique

ESTADOS UNIDOS

Assassinatos teleguiados

Edição - 29 | Paquistão
por Laurent Checola e Edouard Pflimlin
3 de dezembro de 2009
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Nos últimos meses, os ataques feitos por aviões americanos não-tripulados se intensificaram nas zonas tribais do Paquistão. Quer os seus alvos sejam militantes da Al-Qaeda, quer talibãs afegãos ou paquistaneses, os robôs vêm travando a custos reduzidos uma guerra permanente contra todos os insurgentes

No dia 5 de agosto de 2009, por volta da 1h30 da manhã, dois mísseis Hellfire (“fogo do inferno”) disparados por um robô americano atingem seu alvo em Laddah, uma aldeia remota do Waziristão do Sul, no Paquistão. A casa alvejada pertence a um dirigente religioso que apoia os talibãs, Maulana Ikram-ud-Din. Entre as doze vítimas do ataque está Baitullah Mehsud, chefe carismático dos talibãs paquistaneses.

Em 22 de julho de 2009, a morte de um dos filhos de Osama bin Laden, Saad, foi anunciada por militares americanos, mas, desde então, não chegou a ser confirmada.

Em 1º de janeiro, a eliminação de Osama Al-Kini, o chefe das operações da Al Qaeda no estrangeiro, que vinha sendo procurado pelo seu envolvimento nos atentados contra as embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia em 1998, também havia despertado a satisfação das autoridades americanas. “Os robôs têm um impacto importante sobre a Al Qaeda, eliminando seus personagens-chaves, afastando seus membros das zonas tribais e comprometendo suas capacidades operacionais”, afirma Christine Fair, da Rand Corporation, uma especialista em questões religiosa.

Nos últimos meses, os ataques perpetrados por aviões não tripulados (UAV em inglês, para “Unmanned Aerial Vehicle”) se intensificaram nas zonas tribais do Paquistão. Quer os seus alvos sejam militantes da Al Qaeda, quer talibãs afegãos ou paquistaneses, os robôs vêm travando uma guerra permanente contra todos os insurgentes. E a eliminação do inimigo número um paquistanês seria o exemplo mais flagrante do êxito dessa estratégia, que também destruiu vários objetivos “muito valiosos”.Contudo, o relativo sucesso desses ataques a alvos precisos, que começaram em 2004 no Paquistão, foi manchado por um grande número de danos colaterais. Conforme levantamento feito em 30 de setembro de 2009, a intensidade crescente dessas operações – no ritmo de um ataque por semana  – teria causado a morte de 432 pessoas desde o início do ano, incluindo civis, insurgentes e responsáveis pela onda terrorista. Apenas no período de junho/julho de 2009 – o mais sangrento –, 154 pessoas foram mortas, enquanto, em 2008, 36 ataques haviam ceifado 117 vidas. O alvo principal dos robôs sempre foi a região montanhosa do Waziristão do Sul, no oeste do Paquistão, dominada pelo mulá Nazir, por Mehsud  e pela rede Haqqani, nome de um antigo comandante afegão.

A milhares de quilômetros dali, a partir da base de Creech, em Nevada, Estados Unidos, a agência central de inteligência (CIA) controla os robôs. Este é um espaço fechado, repleto de telas e monitores, onde técnicos manuseiam teclados e joysticks. É nesse ambiente asséptico e sem risco para os pilotos que as máquinas são manobradas. Dotados de uma extensa e fina fuselagem arqueada na frente para receber uma antena conectada a satélites, além de asas estreitas e lemes traseiros inclinados, esses aparelhos mais se parecem com insetos ameaçadores.

Economia em primeiro lugar

Como qualquer outro conflito, a guerra a distância acarreta inúmeros problemas. “Ela altera radicalmente o ‘ato final’ do combatente, ou seja, aquele que consiste em infligir a morte. Com o robô, será que a guerra se tornou uma banal atividade de escritório, ou até mesmo um videogame? De modo a evitar todo risco de ‘comportamentos irresponsáveis’, o Pentágono envia regularmente os pilotos para o terreno, onde permanecem por quatro a seis semanas1”. Mas esse tipo de preocupação facilmente passa para o segundo plano, atrás dos interesses econômicos em jogo: a formação de um piloto de caça americano custa US$ 2,6 milhões, enquanto a de um piloto–robô é avaliada em apenas US$ 135 mil2.

“Desde meados de 2008, o governo Bush havia tomado a decisão de transformar a CIA numa força aérea de contrainsurreição com a missão de apoiar o governo do Paquistão”, sublinha o cientista político Micah Zenko, do Council on Foreign Relations (Conselho para as Relações Exteriores). “Os ataques da CIA são secretos, o que exclui a possibilidade de um debate público efetivo a respeito da sua eficácia”, prossegue. Aliás, ao que tudo indica, a companhia de segurança privada americana Blackwater, marcada por uma péssima reputação desde o seu envolvimento em vários escândalos no Iraque, está encarregada de certas tarefas relacionadas aos robôs e vem exercendo-as de maneira totalmente ilegal e sem nenhuma transparência3

A vantagem dos robôs está em sua autonomia. Os mais utilizados são os modelos Predator, chamados de MALE (sigla em inglês para Média Altitude, Grande Resistência e Longevidade), construídos pela firma General Atomics. Um robô MQ-1 Predator A pode permanecer voando por mais de 24 horas, superando um avião de combate, e com isso monitorar os deslocamentos do inimigo. Ele vem sendo progressivamente auxiliado pelo seu sucessor, o MQ-9 Reaper (em tradução livre, a ceifeira, a morte), uma máquina duas vezes maior, quatro vezes mais pesada e dez vezes mais capaz de carregar armamentos.  Como a unidade custa US$ 8 milhões, este robô continua sendo muito mais barato de construir do que um avião de combate. A mais recente criação, o Predator C Avenger (“vingador”), conta com um reator que lhe proporciona uma velocidade de 740 km/h, contra 400 km/h do Reaper.

Assim, em poucos anos as autoridades americanas se tornaram dependentes dos aviões não-tripulados. Entre 2002 e 2008, a sua frota de robôs passou de 167 aparelhos para mais de seis mil. Enquanto essa multiplicação pode ser explicada em primeiro lugar pela explosão do número de modelos leves, destinados a identificar, mapear e vigiar territórios, a quantidade de robôs lança-mísseis também aumentou.

Em 2008 havia 109 Predators em atividade contra 22 em 2002, aos quais se acrescentavam 26 Reapers. Segundo um levantamento elaborado em janeiro de 2009, o número de horas de voo efetuadas por todos os aparelhos alcançou quatrocentos mil em 2008, ou seja, mais que o dobro de 2007.

Os Estados Unidos apostam cada vez mais nessa ferramenta de combate. Para o ano fiscal de 2010, a administração de Barack Obama liberou uma verba de US$ 3,8 bilhões destinada ao desenvolvimento e à aquisição de robôs. Está prevista a compra de 24 Reapers para a US Air Force, além de cinco Global Hawk. Esse desenvolvimento acelerado ocorre dentro de um contexto de um crescimento de 74% do orçamento militar entre 2002 e 2008, chegando a US$ 515 bilhões. Assim, desde 2001, as quantias alocadas para os robôs militares quase duplicaram, o que consequentemente permitiu o desenvolvimento de uma indústria robótica militar.

Os robôs Predator estão concentrados na enorme base de Kandahar, no sul do Afeganistão. Há também suspeitas de que Washington esteja operando a partir de estruturas militares paquistanesas, graças a um acordo tácito fechado entre George W. Bush e Pervez Musharraf, ex-presidente do Paquistão.  “Com a morte de Mehsud, os talibãs ficaram mais desacreditados, enquanto a cooperação entre os Estados Unidos e o Paquistão vai se firmando”, comenta Imtiaz Gul, responsável pelo Centro para a Pesquisa e os Estudos sobre Segurança em Islamabad. “O exército paquistanês fe
z um pedido por robôs e reivindicou a possibilidade de se servir deles como armas”, acrescenta Christine Fair, da Rand Corporation. “Os paquistaneses não se opõem mais ao princípio dos ataques com robôs, ao contrário da posição que defendiam no passado”.

Em 23 de janeiro de 2009,  apenas três dias depois de tomar posse, o recente prêmio Nobel da Paz ordenou ataques nas zonas tribais do Paquistão4. Oito pessoas morreram na primeira operação, no Waziristão do Norte, e outras sete, algumas horas mais tarde, no Sul. Até 30 de setembro, 39 ataques haviam sido desfechados no Paquistão, contra 36 durante todo o ano de 2008. “Bush se mostrava cauteloso no que dizia respeito ao Paquistão. Para Obama e sua equipe, o problema é mais global. Está havendo uma forma de radicalização em termos de poder de fogo: adotaram o método do ‘buscar e destruir’ e estão querendo amparar-se numa espécie de ‘direito às perseguições’”, comenta o especialista Joseph Henrotin5.

Assassinatos de civis

A partir de 2008, o poder americano tentou justificar a utilização generalizada dos robôs alegando a impossibilidade de intervir diretamente em território paquistanês.Antes disso, irritado com a falta de vontade ou a incapacidade das autoridades do país em dominar as zonas tribais, o presidente Bush havia autorizado as forças especiais a intervirem no Paquistão. Em setembro do ano passado, uma equipe das Navy SEALs (forças especiais da marinha), baseada no Afeganistão, atravessou a fronteira e matou cerca de 20 pessoas, incluindo mulheres e crianças. Os dirigentes paquistaneses condenaram firmemente o ataque, dando a entender que outra intrusão não seria mais tolerada. E o presidente Obama teria desistido de operações dessa natureza.

As novas regras do jogo

Portanto, os robôs estão plenamente integrados nos planos futuros do exército americano. Eles tornaram-se “um auxiliar do soldado”, explica Henrotin, mas “não tomam o seu lugar”. Segundo um relatório da US Air Force (USAF), apresentado em 23 de julho último, as forças aéreas “devem estar posicionadas de modo a utilizar sistemas de robôs sempre mais autônomos, permitindo maximizar a eficiência no século XXI”. O relatório acrescenta que “os robôs são considerados como uma alternativa para uma série de missões tradicionalmente conduzidas pelo homem”.

A evolução deles seria tão acelerada que eles próprios acabariam substituindo os pilotos de caça? É possível. O documento da USAF sublinha que “os robôs remodelarão as regras do jogo no campo de batalha num futuro próximo”. Essa inovação comportaria diversas consequências previsíveis que extrapolam amplamente o conflito afegão, já que, muito em breve, esses robôs poderiam levar a bordo cargas nucleares6.

Vários outros países também lançaram programas para fabricar robôs de combate concebidos especialmente para ataques contra alvos no solo, operações de bombardeio e até mesmo para o enfrentamento aéreo. Neste campo, mais uma vez os Estados Unidos estão na frente, com o projeto do bombardeiro X-47 B, da Northrop Grumman.

Por fim, a utilização dos robôs a outras funções voltadas para atividades de segurança, inclusive na luta contra o tráfico de drogas ou para deter imigrantes clandestinos, vem sendo objeto de estudos muito sérios. Na França, robôs já foram utilizados para operações de vigilância, como por exemplo para garantir a segurança da viagem oficial do Papa Bento XVI a Lourdes, nos dias 14 e 15 de setembro de 2008. Mais recentemente, o pequeno robô Elsa sobrevoou Estrasburgo por ocasião da cúpula da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Por enquanto, o balanço das vantagens e dos inconvenientes desses aparelhos merece reflexão, tanto de um ponto de vista operacional quanto estratégico. Serão os ataques contra alvos precisos realmente eficientes? Entre os insurgentes do Paquistão e Afeganistão, eles só fazem reforçar o sentimento de orgulho diante de um inimigo que se mostra incapaz de enviar seus soldados para arriscarem sua pele em terra. Além disso, após a morte de Mehsud, tanto a infraestrutura talibã quanto as condições econômicas e sociais que levaram à radicalização permanecem solidamente implantadas nos 27 mil km² das zonas tribais7.

Por fim, esses ataques alimentam o ressentimento da população paquistanesa. Esta, que já vem acusando os governantes de corrupção, enxerga nos ataques uma ameaça à legitimidade do poder nacional. E no momento em que a grande maioria dos países do mundo atribui uma confiança maior aos Estados Unidos de Barack Obama, no Paquistão a opinião favorável ao novo presidente supera por pouco os níveis de aprovação extremamente reduzidos de George W. Bush. “Os robôs são um recurso, mas não solucionam as causas profundas, que exigirão muito tempo para serem resolvidas”, conclui Micah Zenko.

 

*Laurent Checola e Edouard Pflimlin são jornalistas.



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