A menina mártir entre a devoção popular e o debate sobre feminicídio
Benigna Cardoso dá nome a complexo turístico em construção no Ceará. Embora seja exaltada como símbolo de pureza, sua história reacende reflexões sobre a violência contra mulheres
Todos os dias 24, as ruas de Santana do Cariri (CE) se enchem de meninas e mulheres trajadas de vestidos vermelhos de bolinhas brancas. Essa era a roupa usada por Benigna Cardoso da Silva quando foi morta a facadas, aos 13 anos, em 24 de outubro de 1941. Mensalmente, a comunidade de Santana, cidade natal da menina, reúne-se no dia de seu assassinato para homenageá-la.
Beatificada em 2022 pela Igreja Católica, Benigna já era considerada santa popular desde que a comoção por seu brutal assassinato se alastrou pela região do Cariri nos anos 40. A história da menina órfã, modesta e religiosa, que morreu numa tentativa de estupro ao “proteger sua pureza”, não demorou a respaldar boatos de uma suposta santidade. Devotos começaram a se dirigir às proximidades do local do crime para fazer pedidos, orações e pagar promessas.
O movimento popular virou pauta oficial na Igreja Católica em 2012, quando foi enviado ao Vaticano o pedido para a abertura do processo de beatificação, concluído 10 anos depois. Hoje, a Diocese de Crato (município a 50 km de Santana do Cariri) trabalha em prol da canonização, reunindo relatos de milagres pelos quais a beata teria intercedido. Ao mesmo tempo, o Governo do Ceará se encaminha à conclusão do Complexo Benigna Cardoso, um projeto ambicioso que pretende fomentar o turismo católico na região, transformando-a em uma “segunda Aparecida”. Composto por um santuário, uma estátua de mais de 20 metros de altura, estacionamento e altar para missa campal, o espaço tem capacidade para mais de 100 mil romeiros espalhados em seus 48 mil m². O projeto teve um custo de aproximadamente R$ 15 milhões.
Desde sua primeira inauguração, em julho de 2024, a estátua da beata recebeu muitas críticas. O rosto, diz a população, nada tem a ver com o da menina — que não teve fotografias tiradas de si. Sua imagem popularmente conhecida tem base nos relatos orais de contemporâneos, nas estátuas e quadros produzidos ao longo dos anos e, mais recentemente, na análise dos rostos de seus irmãos e sobrinhos.
De fato, a face quase plana do monumento tem feições mais maduras, que não se assemelham às da “santinha”. A estranheza resultou na determinação de refazer a estátua, decisão anunciada em abril deste ano pelo governador Elmano de Freitas. Em fotos divulgadas pela Superintendência de Obras Públicas do Ceará, já é possível ver os primeiros contornos do novo rosto — agora, com feições suaves e juvenis.
Na nova estátua, ainda não se pode enxergar a marca no dedo anelar esquerdo. O sinal está sempre presente nas imagens da menina, representando a lesão provocada por uma das facadas desferidas por seu algoz. Esse foi o golpe que “selou o casamento entre a virgem mártir e Jesus Cristo”, conforme dizem alguns devotos.
“O Cariri tem um histórico triste de feminicídio, e Benigna não deixa de estar dentro dessa estatística”, afirma Raimundo Sandro Cidrão (62), professor que participou da comissão paroquial para a beatificação de Benigna. Devoto desde a infância, Cidrão empreendeu pesquisas sobre a vida e morte da menina, publicadas em uma série de livros. Foram levantados por ele alguns dos detalhes sobre o martírio.

Em 1941, Benigna estudava em uma escola no distrito de Inhumas, a dois quilômetros da cidade de Santana do Cariri. Ela frequentava uma classe multisseriada – uma sala de aula em que alunos de diferentes séries estudam juntos, com o mesmo professor – algo que era comum em regiões rurais e que ainda pode ser encontrado hoje, ao redor do Brasil, em cidades pequenas.
Benigna, aos 13 anos, estudava na mesma sala que seu assassino, de 17. Raul Alves Ribeiro teria lhe feito repetidas propostas de namoro, sempre recusadas. Até que em uma sexta-feira, 24 de outubro, Raul soube que a menina iria buscar água, de tarde, num poço na propriedade de sua família adotiva.
Quando Benigna chegou, às quatro da tarde, com seu vestido vermelho e levando um pote de barro, Raul já a esperava. O rapaz teria feito avanços sexuais, ao que a menina, mais uma vez, o rejeitou. A situação rapidamente se transformou em uma tentativa de estupro. Enquanto Benigna tentava se defender, Raul a atacou com um facão. Os golpes atingiram os dedos da mão, o tronco e o pescoço.
Ele fugiu após o assassinato, mas logo foi apreendido e levado ao município de Maracanaú, onde cumpriu as medidas socioeducativas previstas em sua sentença. Posteriormente, mudou-se para o estado de São Paulo.
Pouco tempo depois do crime, Cristiano Coelho, padre de Santana do Cariri, fez uma anotação na certidão de batismo de Benigna: “Morreu martirizada, às 4 horas da tarde do dia 24 de outubro de 1941, no Sítio Oiti. Heroína da Castidade. Que sua santa alma converta a freguesia e sirva de proteção às crianças e às famílias da paróquia. São os votos que faço à nossa Santinha”.
É comum ouvir entre seus devotos que Benigna “preferiu morrer do que pecar”, partindo do princípio de que sofrer um estupro significa cometer uma ofensa a Deus. Sua reação à tentativa de estupro não é vista, necessariamente, como uma afirmação da autonomia em relação ao seu corpo ou mesmo como necessidade de se proteger contra a violência. Para muitos, Benigna não rejeitou as investidas sexuais simplesmente porque não as queria – rejeitou porque as via como pecado.
“A pureza e castidade, quando postas como ideais a serem perseguidos, tornam mais pesado ainda o fardo que a sociedade já coloca sobre as mulheres, relegando seu papel aos extremos: ou você luta para ser santa, ou morrerá como pecadora”, diz a professora Jéssica Correia Duarte Nuvens, mestre em Ensino de História pela Universidade Regional do Cariri (URCA).
“Esse viés coloca sobre as mulheres a culpa pela atração sexual do outro, inclusive eximindo de responsabilidade o comportamento violento de homens”, salienta.
Em 2019, quando o Papa Francisco assinou o decreto que reconhece o martírio de Benigna (três anos antes da cerimônia oficial de beatificação, adiada pela pandemia), foi instituído por meio de lei estadual o Dia de Combate ao Feminicídio no Ceará, marcado no dia 24 de outubro.
“A beatificação abriu essa reflexão da comunidade sobre a valorização feminina”, afirma Raimundo Sandro Cidrão. “Quando o bispo [Dom Fernando Panico, da Diocese de Crato] diz que nós temos uma santa vestida de chita no céu, ele quer dizer que a mulher está ali em sua simplicidade, mas também no seu valor.”
Essa narrativa, no entanto, precisa ser analisada com cuidado, segundo a professora Jéssica Nuvens. “O martírio de Benigna precisa ser levado ao debate para além da religiosidade. É necessário contextualizar a sua história, lançar luz para as condições de vida de meninas que, como ela, são expostas diariamente a perigos oriundos das vulnerabilidades sociais”, afirma.
Hoje, o Brasil tem um total de 54 pessoas beatificadas, sendo 47 homens e sete mulheres. Dessas, quatro receberam o título de mártires, tendo sido assassinadas em tentativas de estupro. Além de Benigna, elas são Albertina Berkenbrock, morta aos 12 anos, em 1931, em Imaruí (SC); Isabel Cristina Mrad Campos, morta aos 20 anos, em 1982, em Juiz de Fora (MG); e Lindalva Justo de Oliveira, morta aos 39 anos, em 1993, em Salvador (BA).
Enquanto todas as beatas foram assassinadas no século XX, apenas dois beatos o foram nesse período (em situações sem relação alguma com violência sexual). O sacerdote espanhol Manuel Gómez González e o coroinha brasileiro Adílio Da Ronch foram mortos em Três Passos (RS), em 1924, por rebeldes da Revolução de 1924.
Entre os beatificados, de modo geral, são reconhecidos os homens, por seu trabalho enquanto religiosos, e as mulheres, por terem sido mártires. Isso fica evidente, também, ao olharmos para as santas populares: pessoas que não receberam o título da Igreja Católica, mas que são cultuadas localmente, em suas comunidades.
Na região do Cariri, no Ceará, outras duas meninas, ambas vítimas de feminicídio, são reconhecidas pela população como “santinhas”. Francisca Augusto da Silva foi assassinada aos 16 anos, em 1958, no município de Aurora. O ex-noivo a matou a golpes de peixeira, por não aceitar o fim do relacionamento.
Já Maria Antônia da Conceição foi assassinada pelo marido, Severino Domingos da Silva, em 1926, no município de Várzea Alegre. Na ocasião, ela estava grávida de seu terceiro filho. Também inconformado com o fim do relacionamento (consequência de supostas traições dele com a irmã de Maria), Severino matou a facadas a esposa e o filho, ainda no ventre.
Diferentemente do caso de Benigna, o culto popular a Maria e Francisca não foi formalizado pela Igreja. Entre moradores locais, existem dúvidas sobre a razão por trás disso. Talvez, dizem, seria o fato de elas não representarem a virtude da castidade.
“A partir das análises históricas, podemos dizer que a Igreja Católica por milênios reforçou os estereótipos da mulher subserviente e casta, desprovida de sexualidade, desejos ou individualidade”, diz Nuvens. “Historicamente, podemos encontrar esses aspectos nas narrativas criadas, sobretudo, em torno da figura de Maria de Nazaré. Esse modelo mariano é ditado até hoje pela Igreja como o ideal a ser alcançado por todas as meninas e mulheres.”
Para Nuvens, esse ideal inalcançável de pureza não deve ser o centro das discussões sobre Beninga. É preciso que sua história não se limite à questão da castidade.
“É muito improvável que esse debate ganhe contornos diferentes entre as paredes eclesiásticas, que seguirá aplicando o marianismo como o faz desde sempre. Mas os espaços onde o debate floresce são muitos”, afirma. “Benigna desperta a fé naqueles que a conhecem e também acende a luta pela proteção de todas as meninas e mulheres, para que sua história não se repita.”
No entardecer de um dia 24, em Santana do Cariri, Maria Aurila Nogueira puxa uma cadeira colorida para a frente da porta de casa. Sozinha, ela se senta e observa o movimento de pessoas retornando da missa. Ela, assim como a multidão, usa um vestido vermelho de bolinhas.
Aos 80 anos, Aurila está pagando uma promessa feita há uma década. Em 2015, quando seu neto, Natan, ainda bebê, precisou ser levado a Crato para investigar uma doença que acometia sua garganta, a avó não hesitou em acionar a santinha.
“Eu disse: se Santa Benigna me alcançar a graça da cura de meu neto, eu desço [para a igreja], a qualquer hora que seja, e vou pagar essa promessa. Desço de joelho”, conta.
Natan se recuperou, Aurila foi de joelhos até a igreja e, desde então, nunca deixou de rezar para a “menina Benigna”. Em sua sala, há inúmeras imagens da beata espalhadas pelas paredes e móveis. No quarto, um terço fica sempre sobre a mesinha ao lado da cama.
“Rezo o terço dela todo dia. Eu não durmo se não ‘me pegar’ com ela”, diz. “E aqui, não foi só eu, não. Todo mundo tem história para contar.”
Amanda Andrade é jornalista.

