Biodiversidade na cozinha para enfrentar a crise climática
O problema não está no arroz com feijão – uma combinação fundamental para a cultura e a nutrição brasileiras – mas no fato de que, entre a enorme diversidade de espécies e variedades existentes, apenas um pequeno conjunto realmente chega à mesa da população
Pela primeira vez, os sistemas alimentares aparecem como um eixo prioritário da agenda climática da COP 30. A escolha não é casual: a forma como produzimos, transportamos, consumimos e descartamos alimentos responde por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa. Trata-se de um desafio complexo, que exige repensar modelos de produção, promover mudanças culturais, incentivar a restauração ambiental e adotar práticas alimentares que respeitem a biodiversidade e os ciclos naturais dos ecossistemas.
Mas, afinal, o que significa na prática ter uma alimentação biodiversa?
Antes de entender a importância da biodiversidade no prato, é preciso entender o que significa biodiversidade ambiental. O termo se refere à variedade de formas de vida existentes em um ecossistema, incluindo animais, plantas, fungos e microrganismos, e às relações que esses organismos estabelecem entre si e com o ambiente ao redor.
Esses ecossistemas podem ser terrestres ou aquáticos, e a interação entre os elementos vivos e os elementos não vivos (como solo, rochas, água e gases) gera o que chamamos de “serviços ecossistêmicos”. Esses serviços trazem uma série de benefícios diretos e indiretos para a espécie humana e para o equilíbrio do planeta.
O Brasil é um dos países com maior biodiversidade do mundo: nossos ecossistemas estão repletos de vida, com mais de 116 mil espécies animais e mais de 46 mil espécies vegetais conhecidas em nossos ecossistemas terrestres e aquáticos. No entanto, essa riqueza não está refletida em nossa alimentação: apenas 1 em cada 100 brasileiros consome regularmente alimentos biodiversos. Quando falamos de alimentação, essas relações são representadas pelo termo “agrobiodiversidade” ou biodiversidade para alimentos e a agricultura.

Das 350 mil espécies de plantas conhecidas, os seres humanos vêm se alimentando de apenas cerca de 3 mil ao longo da história. Hoje, esse número caiu para cerca de 300 variedades, dentre as quais 90% da produção e consumo do mundo está concentrada em apenas 15 espécies (arroz, trigo, milho, soja, sorgo, cevada, cana-de-açúcar, beterraba açucareira, feijão, amendoim, batata, batata doce, mandioca, coco e banana).
Espelhando o contexto mundial, no Brasil, embora existam centenas de espécies animais e vegetais disponíveis, o prato que consumimos no dia a dia costuma ser praticamente o mesmo: arroz branco, feijão preto ou carioca, carne bovina ou frango como proteína e a clássica salada de alface, tomate e cebola.
O problema não está no arroz com feijão – uma combinação fundamental para a cultura e a nutrição brasileiras – mas no fato de que, entre a enorme diversidade de espécies e variedades existentes, apenas um pequeno conjunto realmente chega à mesa da população.
Apenas no Cerrado, por exemplo, existem cerca de 75 variedades de mandioca. Também há 145 tipos de maracujá, dos quais aproximadamente 70 produzem frutos comestíveis. E a lista continua: diversas variedades de banana, arroz, feijão, milho – espécies que, apesar da enorme diversidade biológica, chegam ao consumidor de forma bastante limitada, o que impacta também na produção desses alimentos.
Essa perda de diversidade não se restringe aos vegetais. No passado, várias espécies animais faziam parte da alimentação cotidiana, mas foram sendo substituídas por um pequeno conjunto de carnes padronizadas, hoje predominantes nos frigoríficos e açougues dos supermercados.
O que essa monotonia representa para o meio ambiente?
A biodiversidade que temos hoje no planeta é resultado de um extenso processo evolutivo. Ao longo dos séculos, diferentes espécies vegetais e animais se adaptaram a condições específicas e desenvolveram formas próprias de interação com o ecossistema. Essas espécies também apresentam níveis variados de resistência a doenças causadas por fungos, bactérias e vírus.
Quando reduzimos drasticamente a biodiversidade presente na nossa alimentação, abrimos mão não apenas de novos sabores e possibilidades, mas também corremos o risco de homogeneizar as espécies cultivadas. Isso as torna mais vulneráveis a pragas e doenças capazes de dizimar plantações inteiras em pouco tempo.
Além disso, a perda da diversidade compromete os serviços ecossistêmicos, afetando outros organismos que interagiam com as espécies desaparecidas.
Em 2009, pesquisadores do Stockholm Resilience Center publicaram na revista Nature o artigo “A Safe Operating Space for Humanity” [Um espaço seguro de operação para a humanidade, em tradução livre]. Nele, apresentaram pela primeira vez um conjunto de nove limites ambientais cuja ultrapassagem pode gerar consequências potencialmente irreversíveis para o planeta e para a humanidade.
A perda de biodiversidade está diretamente relacionada a dois desses limites planetários: as mudanças climáticas e as mudanças no uso do solo – isto é, a conversão de áreas naturais que abrigam uma grande biodiversidade, como florestas, pântanos e outros tipos de vegetação, em terras destinadas a atividades econômicas, especialmente agricultura e pecuária, que, em sua grande maioria, não são cultivos e criações biodiversas. Essa transformação reduz habitats, altera ecossistemas e acelera o desequilíbrio climático.
Os prejuízos não se limitam ao meio ambiente: ao adotar uma alimentação cada vez mais monótona, também perdemos tradições, saberes culinários e receitas que fazem parte da cultura. Além disso, também se perdem os inúmeros efeitos benéficos que uma alimentação biodiversa tem na proteção da saúde, como maior disponibilidade de nutrientes e compostos bioativos e menor risco de doenças, especialmente obesidade e suas comorbidades, como já apontado pela Organização Mundial de Saúde. Um estudo europeu publicado em agosto de 2025 na Nature Foods, por exemplo, identificou que uma alimentação mais rica em biodiversidade, especialmente a vegetal, estava associada a maior adequação nutricional e menor mortalidade, além de menores emissões de fases de efeito estufa e menor uso do solo.
O desaparecimento da biodiversidade no prato não se restringe às espécies silvestres encontradas em regiões distantes dos grandes centros urbanos. Alimentos comuns no passado, como o quiabo e o jiló, hoje correm o risco de se juntarem ao grupo das chamadas Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), tamanha a queda no consumo ao longo das últimas décadas. As PANCs são espécies comestíveis, nutritivas e muitas vezes altamente versáteis na cozinha, mas que recebem a etiqueta “não convencional” porque raramente fazem parte do cardápio cotidiano dos brasileiros.
O futuro do planeta passa pela cozinha
Garantir uma transição justa e sustentável dos sistemas alimentares é uma tarefa complexa, que exige mudanças culturais, políticas públicas consistentes e ação coordenada entre diferentes setores da sociedade. Um estudo publicado em outubro de 2025 pela Cátedra Josué de Castro, da Universidade de São Paulo, e pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento indica que, apesar dos avanços recentes, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer para consolidar uma política integrada e coerente de transição sustentável dos sistemas alimentares.
No entanto, além das políticas públicas e leis, há outras ações que vêm sendo apontadas pela comunidade científica como fundamentais para transformar a lógica contemporânea da alimentação – e muitas delas podem ser colocadas em prática imediatamente, por governos e cidadãos.
São elas:
- Fortalecimento das feiras e dos laços comunitários: Para garantir uma alimentação saudável, é fundamental considerar não apenas como os alimentos são produzidos, mas também como chegam ao seu destino final. Muitas regiões enfrentam hoje aquilo que chamamos de desertos alimentares – locais onde o acesso a alimentos frescos e minimamente processados é extremamente limitado. Há também os pântanos alimentares, onde predominam produtos ultraprocessados de baixo valor nutricional. Em muitos casos, deserto e pântano coexistem no mesmo território, acentuando desigualdades.
Uma estratégia importante – e muitas vezes mais econômica do que os supermercados tradicionais – é o fortalecimento das feiras livres, onde alimentos da estação, cultivados por pequenos produtores, são geralmente mais abundantes e acessíveis. Para ampliar ainda mais a diversidade alimentar, especialmente no caso das PANCs, vale considerar também cestas agroecológicas (geralmente entregues em domicílio e encomendadas de coletivos de agricultores locais), hortas comunitárias ou domésticas e o fortalecimento de laços entre vizinhos: mesmo em locais onde não é possível cultivar em áreas comuns, como em alguns prédios, é viável organizar trocas de alimentos. Cada pessoa cultiva uma espécie diferente e compartilha com o grupo, criando redes de cooperação, ampliando o acesso a ingredientes variados e fortalecendo a vida comunitária.
- Valorização dos conhecimentos e das comunidades tradicionais: A alimentação não é apenas uma fonte de nutrientes – ela também reflete nossa história, cultura e a forma como nos relacionamos com o mundo. Comunidades tradicionais como povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, entre muitas outras, frequentemente desafiam a lógica dominante do sistema alimentar atual. São esses grupos que, há gerações, preservam práticas agrícolas, sementes, modos de preparo e relações com a terra que sustentam a biodiversidade em seus territórios.
Graças a seus conhecimentos e modos de vida, espécies nativas continuam a ser cultivadas e protegidas, mesmo diante de um sistema que insiste em nos empurrar para a monotonia alimentar. Valorizar, aprender e garantir a proteção dessas comunidades é um passo essencial para preservar a biodiversidade, fortalecer culturas alimentares diversas e reconhecer a importância de quem mantém viva uma relação sustentável com os ecossistemas brasileiros.
- Educação alimentar: Transformar a forma como nos alimentamos não é simples. Muitas vezes, a falta de acesso é o principal obstáculo, mas há questões culturais que não devem ser ignoradas. Em muitos lugares, alimentos locais e tradicionais passaram a ser associados à falta de recursos financeiros para adquirir alimentos industrializados e padronizados vendidos nos supermercados. Essa percepção reforça desigualdades e contribui para o abandono de ingredientes e práticas sustentáveis que fazem parte da nossa história alimentar.
A educação alimentar surge como um caminho importante para enfrentar essas tensões. Segundo o Instituto Comida e Cultura, que desde 2021 desenvolve ações voltadas à comunidade escolar e à infância, esse processo envolve resgatar a história, a cultura e a biodiversidade brasileiras. Por meio desse resgate, é possível reconstruir a relação das pessoas com ingredientes locais, recuperar tradições culinárias e valorizar conhecimentos que ajudam a preservar a diversidade alimentar do país.
No passado, algumas teorias sustentavam que preservar a biodiversidade e garantir a segurança alimentar eram objetivos incompatíveis. Hoje, sabemos que o simples aumento da produção de alimentos não resolve o problema da fome. O Brasil é um exemplo claro dessa contradição: mesmo sendo um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, milhões de pessoas ainda vivem em situação de insegurança alimentar.
A integração da biodiversidade na alimentação cria demanda e estimula um modelo de produção de alimentos que ajuda a reduzir emissões de gases de efeito estufa, fortalecer a economia regional e preservar culturas e tradições, atuando como uma verdadeira rede de segurança em períodos de escassez. Investir na biodiversidade brasileira é investir em um futuro mais seguro, saudável e sustentável, para a humanidade e para o planeta.
Gabriela Rigote é nutricionista e mestre em Ciências (USP) e atua como pesquisadora no Sustentarea (FSP/USP), com ênfase em sistemas alimentares e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Juliana Furlaneto é bióloga, mestre em Gestão Ambiental e Sustantabilidade e cofundadora do Instituto Comida e Cultura
Mariana Ceci é jornalista especialista em Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT/Fiocruz) e mestranda em Divulgacão Científica e Cultural (Labjor/Unicamp).


Muito boa a matéria. Parabéns.