Bolsonaro beija Stalin e no dia seguinte Mussolini

SUBMISSÃO DA VIDA PELA MORTE

Bolsonaro beija Stalin e no dia seguinte Mussolini

por José Isaías Venera
22 de fevereiro de 2022
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O que são as melhores piadas sobre Bolsonaro diante da piada que é seu próprio governo?

Um dia após homenagem a comunistas na Rússia, o presidente Jair Bolsonaro (PL) usa lema fascista na Hungria — “Deus, pátria, família e liberdade” — durante encontro em 17 de fevereiro com o premiê Viktor Orbán, um dos principais representantes da extrema-direita na Europa. O lema é da Ação Integralista Brasileira (AIB), movimento criado em 1932 com inspiração no fascismo italiano. Simbolicamente, ele deu um beijo em Josef Stalin e outro em Benito Mussolini.

Aqui cabe uma conhecida historieta judaica contada por Sigmund Freud para ilustrar que o sujeito mente quando diz a verdade e diz a verdade através da mentira: “Numa estação da Galícia, dois judeus encontram-se num trem. — Onde você vai? — pergunta um. — A Cracóvia — responde o outro. — Mas, vejam só que mentiroso! — exclama o primeiro, enfurecido. — Se você está dizendo que vai a Cracóvia, com certeza é porque quer que eu acredite que está indo a Lemberg. Só que eu sei que você está indo mesmo a Cracóvia. Então, por que mente?”.

Esse contrassenso serve, de forma invertida, para o presidente, já que, quando Bolsonaro foi à Rússia, na verdade queria se encontrar com seu “irmão”, Orbán, na Bulgária, ambos alinhados em combater os direitos humanos. Unem-se a isso as boas relações do presidente com personalidades de extrema-direita da Europa, como a deputada alemã Beatrix von Storch, líder do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), pelo qual seu avô foi ministro de Adolf Hitler por doze anos. Beatrix visitou Bolsonaro, no Palácio da Alvorada, em julho do ano passado.

 

A piada vem pronta

“O que é a melhor piada anti-stalinista diante da piada que é a própria política stalinista em si?”. A passagem, segundo Slavoj Žižek, é de Bertolt Brecht. Na versão brasileira atual cai como uma luva: o que são as melhores piadas sobre Bolsonaro diante da piada que é seu próprio governo?

Nas tensões entre Estados Unidos e Rússia envolvendo a crise de segurança em torno da Ucrânia, Bolsonaro manteve sua agenda em Moscou. Em 16 de fevereiro, ele rendeu homenagem aos soldados comunistas – stalinistas –, mortos nas trincheiras, no Túmulo do Soldado Desconhecido junto à muralha do Kremlin. O rito pode ser considerado o ápice do fetiche de um “terrivelmente” anticomunista. A homenagem se interpõe a Bolsonaro como um objeto estranho que rapidamente se torna o frenesi dos debates na mídia. E não poderia ser diferente.

Ora, a expressão fetichista pode ser compreendida com o mesmo sentido que se atribui no senso comum, aquele que se refere ao sujeito que goza por intermédio de objetos que apimentam as relações sexuais. São objetos estranhos que estão “a mais” nas relações. Deslizando do sexual ao social, o que caracteriza o fetiche na homenagem aos soldados comunistas é o fato de Bolsonaro se integrar ao rito tão emblemático quanto a transmutação cristã, quando o pão se transforma em corpo de cristo. Poderíamos dizer que Bolsonaro foi atrás desse objeto estranho – a potência comunista – por mais que a conjuntura não fosse favorável, com a iminência de uma guerra.

As milícias políticas de Bolsonaro tornaram públicas as fantasias de seu líder. Em uma delas Bolsonaro aparece na capa da revista Time com a manchete – Prêmio Nobel da Paz 2022 –, enquanto em outra a montagem se passa por uma matéria da CNN informando que o presidente evitou a terceira guerra mundial. Mais do que nomear como desinformação ou fake news, deveríamos interpretar essas produções como fantasias fetichizadas, ou seja, fantasia-se o que não se consegue realizar em ato e excita-se com a própria fantasia. O curioso é que as fantasias têm, ironicamente neste caso, ajuda do principal fantasma para Bolsonaro, o “comunismo”.

bolsonaro
Presidente da República, Jair Bolsonaro visita a praça Vermelha. (Foto: Alan Santos/PR)

 

Necropulsão

No centro da Teoria Crítica, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial e do regime nazista, Theodor Adorno analisou o fascismo e a personalidade autoritária. Em Antissemitismo e propaganda fascista, de 1946, o autor interpretou a “destrutividade como fundamento psicológico do espírito fascista”. Para atualizar o debate, poderíamos chamar esse fundamento de necropulsão, pois se desenvolve a partir de energias destrutivas. O espírito fascista não se limita ao fascismo de Mussolini, na Itália, ou ao nazismo de Hitler, na Alemanha, ambos marcados na história. No âmbito da política, governar a partir da submissão da vida pela morte caracteriza um modo fascista pautado na aniquilação das diferenças.

A indiferença com a morte é marca do governo atual. Logo no início dos casos de Covid-19, há dois anos, Bolsonaro considerou a pandemia uma “conspiração comunista”. Entretanto fez e faz isso conspirando em suas lives nas quintas-feiras ou no chamado cercadinho do Palácio da Alvorada. Mas rapidamente cai no descrédito, tornando-se um governante fraco. Diferentemente de mandatários que se impõem como absolutos (Vladimir Putin), Bolsonaro se esforça para se mostrar como um líder forte (fálico); como não consegue, as milícias digitais vêm para produzir objetos fálicos – as fake news — a partir dos quais o presidente e seus apoiadores gozam.

Quando se fetichiza o poder, as formas autoritárias de governo funcionam como espelho do desejo fascista.

 

Pandemia e necropulsão

Quando o presidente Jair Bolsonaro minimiza as mortes por Covid-19 ou nega a eficácia da vacina, entre as vítimas estão seus próprios seguidores, atualizando a análise de Adorno sobre o fascismo: “Enquanto advertem de perigo iminente [como o comunismo], eles e seus seguidores se excitam com a ideia da ruína inevitável, sem sequer diferenciar claramente entre a destruição de seus inimigos e de si mesmos”. A ruína inevitável pode ser lida como um destino iminente ao espírito fascista. Destino que é traçado pela própria estrutura de pensamento e sob a qual o sujeito, mesmo que conscientemente afirme o contrário, acaba realizando. Na tragédia grega, Édipo Rei funciona como exemplo: quando Laio abandona o recém-nascido filho Édipo aos lobos no pé da montanha Cinterão como meio de evitar a tragédia enunciada pelo oráculo de Delfos, a narrativa do oráculo tornou-se o gatilho inicial para a sucessão de fatos que foram se revelando em destino.

Há um movimento pulsional destrutivo em ação (necropulsão ou pulsão de morte). Sigmund Freud considerava que o vínculo social servia para erotizar a agressividade — as paixões primitivas que se são afloradas. Não seria preciso muito esforço para encontrar matérias expondo práticas racistas, sexistas, xenófobas – as paixões primitivas, como o ódio, afloradas, mas isto ganha corpo quando compartilhadas por pares.

 

Apologia ao nazismo

“Você acha que é errado a Alemanha criminalizar o nazismo?”, pergunta a deputada Tabata Amaral (PSB). “Acho”, responde o deputado Kim Kataguiri (Podemos). O diálogo foi durante o Flow Podcast em 7 de fevereiro, quando o apresentador Bruno Aiub, conhecido como Monark, engrossou o coro com Kim, ao defender a existência de um partido nazista. A ascensão do nazismo na Alemanha se deu pelas vias legais, por meio de eleições. O assassinato em massa de judeus, ciganos, deficientes físicos e mentais, poloneses, comunistas, afrogermanos, homossexuais foi executado na legalidade do regime (1933-1945).

Neste contexto, a discussão sobre quem é matável no Brasil (necropolítica) não se limita ao outro na polarização política ou ao que escapa do padrão homem-branco-ocidental-adulto-heterossexual. Há sempre um mais-de-gozar. A autodestruição inclui todos. Essa síntese é também a conclusão de Adorno ao fenômeno do nazismo, mas que, em outras obras, inclui as democracias que se encaminham para o totalitarismo de mercado (neoliberalismo): “O desejo psicológico inconsciente de auto manipulação reproduz fielmente a estrutura de um movimento político que, em última instância, transforma seus seguidores em vítimas”.

Ser contrário à criminalização do nazismo na Alemanha ou favorável à legalidade de um partido nazista tem como pano de fundo o extermínio das diferenças. O Movimento Brasil Livre (MBL) tem se definido desde sua criação como um movimento de extrema-direita, o que torna coerente a enunciação de Kim contrária à criminalização do nazismo.

Paira no discurso da extrema-direita a noção de liberdade na perspectiva também observada por Adorno ao falar do fascismo: “As pessoas manipulam a tal ponto o conceito de liberdade, que ele acabou por se reduzir ao direito dos mais fortes e mais ricos de tirarem dos mais fracos e mais pobres o que estes ainda têm”. Boa síntese para entender a política desses movimentos de extrema-direita e do governo atual.

 

José Isaías Venera é jornalista e professor da Universidade da Região de Joinville (Univille).



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