“Bonjour, Brésil!”
A derrota no primeiro turno acabou nos dando gás para uma manifestação popular nunca antes vista, que nos levou à Presidência
Às 17 horas, ao término do segundo turno, ouvi um tumulto na porta da PUC, ao lado do Parque Augusta – e foi assim que fiquei sabendo das restrições ao transporte público, da manifestação do Kassio Nunes Marques, de que “isso será analisado no seu tempo” (?) e da decisão de Cristiano Zanin, ministro do STF, de prorrogar o horário de votação.
Acompanhei a apuração como quem está de regime e espera engordar enquanto está em cima de uma balança. Depois da arrancada do Bolsonaro, quando Lula assumiu a liderança, pouco antes da metade dos votos terem sido apurados, colei na apuração do segundo turno de 2022 – de semelhante dinâmica – e segui, passo a passo, a atual estrondosa vitória, com mais de quatro milhões de votos de vantagem.
Pouco antes das eleições, esperávamos uma vitória de Lula no primeiro turno e, muito provavelmente, uma derrota no segundo. Por linhas tortas, foi a derrota no primeiro turno – que deprimiu a todos – que acabou nos dando gás para uma manifestação popular nunca antes vista, que nos levou à Presidência.

Crédito: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
A colcha de retalhos
O fenômeno bolsonarismo, que tomou conta da vida política brasileira, da Câmara e do Senado, é uma colcha de retalhos, costurada em oposição a Lula e ao PT. Em torno da família Bolsonaro gravitam profetas messiânicos, defensores da moral e dos bons costumes, gigantes da tecnologia e da IA (a Meta, entre eles), banqueiros (Daniel Vorcaro, do Banco Master), representantes da mídia (Frederic Kachar, da Rede Globo), juristas (Kassio Nunes Marques, do TSE) e adeptos de orgias milionárias envolvendo prostitutas ucranianas, além da direita internacional capitaneada por Donald Trump. Para manter unida essa gama de atores mais ou menos incompatíveis e irreconciliáveis, a mentira passa por liberdade de expressão. Sem o Lula e o PT, o bolsonarismo se transformaria em um saco de gatos.
Eu tinha um amigo que alimentava em sua casa os gatos da vizinhança do Parque Domingos Luís, na Zona Norte de São Paulo, mas acabou se rendendo e, para se livrar deles, colocou todos os gatos num mesmo saco, levou e soltou-os a quilômetros de distância de sua casa. Quando voltou, com os braços feridos, arranhados, mas triunfante, encontrou todos os gatos, que haviam chegado antes dele e já estavam devidamente acomodados, percorrendo sua casa e a vizinhança.
Mas minha amiga Maria Luiza Simões, esposa do psicoterapeuta junguiano Pethö Sándor, morava com 23 gatos e um cachorro que tinha um olho castanho-escuro e outro verde – e todos viviam em harmoniosa comunhão.
Políticas populares, um estudo de caso
Em seu pronunciamento durante o evento “Em Defesa da Democracia e Contra o Extremismo”, na sede das Nações Unidas, em 24 de setembro de 2025, Lula fez uma autocrítica contundente por se afastar da organização popular e, ao governar, atender mais aos interesses dos adversários do que aos de sua própria base.
Entre os dois turnos, Lula anunciou a proposta que prevê transporte público gratuito aos sábados, domingos e feriados nas cidades brasileiras que dispõem de transporte coletivo. Minha sugestão é radicalizar a iniciativa, propondo tarifa zero universal – resgatar as Jornadas de Junho de 2013, por muitos acadêmicos denominada o “ovo da serpente” que acordou a direita. De acordo com a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, 143 municípios brasileiros já adotaram catraca livre para todos os passageiros, todos os dias da semana.
O financiamento da catraca zero, já reduzido dos elevados custos de fiscalização e de cobradores, poderia ficar a cargo dos proprietários de automóveis, por meio do IPVA – com a vantagem adicional de desafogar os congestionamentos nas grandes cidades – e das empresas, que se beneficiariam com a mobilidade de seus trabalhadores.
Bonjour, Brésil!
Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de 1968, sonhos e pesadelos.

