Braço de ferro em Honduras - Le Monde Diplomatique

RESISTÊNCIA AO GOLPE

Braço de ferro em Honduras

por Maurice Lemoine
1 de junho de 2011
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A reaproximação diplomática entre Colômbia e Venezuela abriu caminho para a reintegração de Honduras à OEA. Nessa perspectiva, o governo de Porfirio Lobo – fruto do golpe de Estado de junho de 2009 – aceitou o retorno do presidente deposto Manuel Zelaya, uma das quatro reivindicações da resistência hondurenhaMaurice Lemoine

Cenário de infortúnio, trezentas barracas de lona de plástico azul se espalham sob as folhas de um oceano de dendezeiros. O zumbido dos insetos é insuportável e o ar tem consistência de lã molhada. Nessa pestilência, a malária domina. Há muitas crianças e idosos. Com o nariz entupido pelos espirros, uma camponesa pronuncia o nome de Miguel Facussé. “É um homem poderoso, que, com seu dinheiro, move montanhas. E nós, nós temos medo dele.”

Don Miguel Facussé: oligarca de Honduras, senhor da região do Baixo Aguán, ao Norte do país, na costa do Caribe. No dia 9 de dezembro de 2009, camponeses ocuparam “suas” terras – em realidade, griladas –, das quais foram violentamente expulsos por jagunços em dezembro de 2010. Obstinados, os camponeses voltaram ao mesmo lugar: Paso Aguán. Mostram a estrada que, ao longe, atravessa a plantação do terrateniente.1 “Esse caminho leva à estrada e pertence a todo mundo, é público, mas os guardas de Facussé não nos deixam passar. Impedem-nos de chegar a nossas terras, nossas plantações de banana, e de pescar no rio. Estamos, literalmente, presos aqui.”

Facussé deu suas ordens: nenhuma galinha, nenhum porco, nenhuma cabeça de gado desses “miseráveis” devem se aproximar de sua propriedade. “Se, por azar, os animais escapam à nossa vigilância, os jagunços os matam. E se reclamamos…”, o homem gesticula com tanta raiva quanto impotência.

É em virtude da lei de reforma agrária de 1962 que o Estado decidiu colonizar a região de Aguán. Financiado por bancos internacionais, o governo reformista do general Oswaldo López Arellano construiu na época estradas asfaltadas e caminhos de terra, pontes, sistemas de drenagem, escolas e centros de saúde. Agrupados em cooperativas, os assentamentos de camponeses transformaram a região numa das mais produtivas do país. Terratenientes e políticos reagiram: sob forte pressão desses setores, a lei de modernização e desenvolvimento do setor agrícola, promulgada em 1992 pelo governo de Rafael Leonardo Callejas, permitiu a concentração de terras e deu início à devastação do território hondurenho.

Com uma dose letal de violência e cinismo, pressionaram os camponeses a abandonar essas terras. “Não estávamos de acordo! Vendemos as terras por pressão”, brada Jeramiah Martínez, do assentamento La Concepción. Pistoleiros não hesitavam em assassinar aqueles cuja morte parecia necessária à execução dos planos de seus patrões. Além disso, bastou corromper certos dirigentes para que 29 cooperativas passassem para as mãos de grandes proprietários: René Morales, Reinaldo Canales e Miguel Facussé. A monocultura da palmeira de dendê devorou a paisagem e, cada vez mais sem alternativas, os camponeses não encontraram outra opção a não ser retomar os dendezeiros, o que vem ocorrendo desde 2001 – apesar das expulsões, prisões e assassinatos.

A chegada ao poder de Manuel Zelaya, em 27 de janeiro de 2006, trouxe certo alento. Oriundo do Partido Liberal (PL), ele tomou distância de certos grupos do poder político e econômico e abriu as portas do governo aos movimentos sociais. Em 19 de junho de 2009, ao assinar o Decreto 18-2008, outorgou aos camponeses as terras ocupadas havia mais de três anos – e indenizou os “proprietários” afetados. Montados em seus grandes cavalos, os membros da Federação Nacional dos Agricultores e Cultivadores (Fenagh) se uniram a outros setores da oligarquia – igualmente divididos em duas grandes formações políticas tradicionais, o PL e o Partido Nacional (PN) – para organizar o golpe de Estado que tiraria Zelaya do poder no mesmo mês de junho de 2009.

“Precisamos da terra. Ela é nossa!”: esse era o lema das 2.500 famílias agrupadas no Movimento dos Camponeses Unidos de Aguán (Muca), que, em dezembro do mesmo ano, recuperaram 20 mil hectares cultivados de dendezeiros. Maldita palmeira! A guerra eclodiu imediatamente. “No dia 12 de fevereiro [de 2010], eles atiraram a sangue-frio em dois companheiros, que ficaram feridos mas sobreviveram”, contou Martínez. Eles? Cerca de sessenta pistoleiros mascarados chegaram em veículos da polícia e de Facussé.

“Os guardas de Facussé entraram nos quartos, destruíram as camas, os pertences e amedrontaram as crianças”, denuncia uma mulher de pele marcada e maçãs do rosto salientes, em Lempira. Um morador de Maranañones também se manifesta: “Os pistoleiros capturaram dois companheiros, tiraram suas roupas e os usaram como escudo humano enquanto atiravam em nós”. Um camponês mostra seu celular: “Há três dias, recebi uma ameaça de morte à meia-noite. Foi a terceira vez que aconteceu; eu já havia trocado de número, mas eles conhecem, sabem onde estamos, o que fazemos! E se você não pagar, será alguém da sua família”.

Em Guadalupe Carney, os membros do Movimento Campesino de Aguán (MCA) se fixaram nas terras do antigo Centro Regional de Treinamento Militar (Crem). Criado em 1983 pelos Estados Unidos para formar tropas hondurenhas, foi desmantelado em 1993 e transferido para o Instituto da Reforma Agrária (IRA). Na mais completa ilegalidade, a municipalidade de Trujillo vendeu a terra a fazendeiros locais, antigos militares e, diz-se, narcotraficantes. Facussé se apropriou de 550 hectares. Em 6 de abril de 2010, membros do MCA ocuparam essas terras, mas foram violentamente expulsos. Nova tentativa foi realizada no dia 5 de novembro, mas cinco deles foram assassinados pelas balas de um comando formado por militares e jagunços.

Desde então, com o apoio da polícia e do exército, a repressão nunca mais cessou. De janeiro de 2010 a 10 de maio de 2011, o conflito pela terra custou a vida de sete camponeses e do jornalista Nahum Palacio (e de sua companheira), que relatava os acontecimentos com “muita honestidade”. Como porta-vozes oficiais dos poderosos, os meios de comunicação privados nacionais – pertencentes às famílias mais ricas do país – têm a própria versão dos fatos: ajudadas e financiadas pela Venezuela, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e os narcotraficantes inseriram na região “rebeldes” armados com fuzis AK47 e M-16 – que as forças de segurança nunca encontraram em fugas ou perseguições.

Com a chegada ao poder em 29 de novembro de 2009, após eleições organizadas pelo governo ilegítimo de Roberto Micheletti, o atual presidente Porfirio Lobo colocou em marcha a segunda fase da operação: um golpe de Estado social. Se não morrerem antes, todos os camponeses e os demais cidadãos serão duramente atingidos com a revogação do Decreto 18-2008, que outorgou a terra aos camponeses; a suspensão do salário mínimo; a lei do emprego temporário, que permite a contratação de trabalhadores “por hora”;2 a destruição do estatuto do professor e a privatização das escolas (sob o vocábulo “municipalização”); a aprovação de uma lei de concessão dos recursos naturais que permite a privatização de fontes de vida essenciais, como a água; e a desagregação pura e simples do território nacional (ver box).

Em San Pedro Sula, principal cidade econômica de Honduras, Tirza Flores Lanza era juíza na corte de apelação. Chocada com a expulsão manu militari de Zelaya e com seu exílio na Costa Rica, entrou no dia seguinte com um recurso de amparo.3 “O artigo 112 da Constituição afirma que nenhum hondurenho pode ser extraditado de seu próprio país. Com o pretexto de que esse recurso era incompatível com minha função de magistrado, neutra por definição, fui destituída.” Três outros juízes tiveram o mesmo destino: um deles, Guillermo López, foi destituído por ter participado de uma manifestação de 200 mil pessoas em favor da legitimidade do chefe de Estado, em 5 de julho de 2009. Num comunicado emitido alguns dias antes, a Corte Suprema de Justiça (CSJ) havia convidado todos os funcionários a participar de uma manifestação de apoio ao golpista Micheletti.

Little Caesars, Dunkin Donut’s, Popeyes, Burger King, Denny’s, Pizza Hut, Wendy’s, DK’D Donuts, McDonald’s… Tegucigalpa é, teoricamente, a capital de Honduras (mas alguns dizem de Washington). Se os grandes grupos midiáticos pertencem a dez famílias da oligarquia, a Rádio Globo, apesar de comercial, não se mostrou muito de acordo com a situação. Condenada ao silêncio duas vezes, retomou suas emissões. “Sobre nossa atuação, não nos submetemos a pressões do poder; há uma relativa liberdade de informação. Contudo, dez jornalistas foram assassinados em diversas circunstâncias desde o início da administração de Lobo [o décimo primeiro jornalista morto apareceria em 10 de maio de 2011]. São mensagens indiretas, muito preocupantes.”

Bertha Oliva, coordenadora-geral do Comitê das Famílias de Desaparecidos de Honduras (Cofadeh), denunciou o assassinato de mais de cem membros da Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP).4 “As pessoas não podem nem sequer dar queixa! Tivemos inúmeros casos de testemunhas que se apresentaram à Justiça e, um mês depois, foram executadas”, relata indignada.

O desafio da resistência

Contudo, apesar da polícia, do exército e de paramilitares, a oposição reunida no seio da FNRP ganha cada vez mais poder. “A Frente foi constituída logo após o golpe de Estado, no meio da multidão, em frente ao palácio presidencial. Chamamos o povo a se organizar e, muito prontamente, eles responderam”, lembra Juan Barahona, atual vice-coordenador. A Frente agrupa uma massa de gente em toda sua diversidade: a resistência do Partido Liberal (traído pelo golpista Micheletti) e outros partidos; ONGs; sindicatos; movimentos camponeses, indígenas, afrodescendentes, estudantes, feministas; artistas, intelectuais, moradores de bairros não pertencentes a qualquer instituição. “E, evidentemente, não é fácil lidar com essa diversidade, essa riqueza. Aqueles que dirigem o processo devem saber escutar, ler e conduzir toda essa energia”, sorri Gloria Oqueli, presidente do Parlamento Centro-Americano no momento do golpe e “liberal em resistência” desde então. O que fazer com essa heterogeneidade política e social? Em que direção a Frente deve se mobilizar?

“Transformar esse movimento em partido pode nos enfraquecer, porque os partidos são percebidos, em geral, como instrumentos de dominação. Mas faz um ano e meio que estamos debatendo a questão! E alguns querem ignorar as eleições. Se não formos pragmáticos, não vejo como podemos avançar”, analisa Beatriz Valle, ex-vice-ministra de Relações Internacionais.

A participação ou não nas próximas eleições tornou-se um tema de discussão interminável. Além disso, alguns setores desaprovam os líderes oriundos de movimentos sociais – Barahona, Carlos H. Reyes, Rafael Alegría, Rásel Tomé – e também pessoas como Oqueli, professores e dirigentes de sindicatos, a coluna vertebral da resistência, por suas relações com os movimentos e a radicalidade.

Essa força em gestação sem meios ou qualquer capital, contudo, conseguiu reunir, entre os dias 20 de abril e 17 de setembro de 2010, 1,342 milhão de assinaturas pedindo a convocação de uma assembleia nacional constituinte. Amparada por esse apoio, a FNRP organizou uma assembleia geral nos dias 26 e 27 de fevereiro de 2011, da qual participaram 1.500 delegados de todo o país. Em meio a debates às vezes muito acalorados, a grande maioria decidiu preservar a coesão coletiva e afirmar três prioridades comuns.

Em primeiro lugar, o retorno incondicional e seguro do coordenador da Frente, o ex-presidente Zelaya (que no dia 22 de maio assinou um acordo com Porfirio Lobo para voltar a Honduras). Em segundo, a não participação em qualquer eleição convocada pelo atual governo. “Não podemos ser convocados para votar enquanto Zelaya estiver no exterior, enquanto não tivermos um tribunal eleitoral e uma Corte Suprema de Justiça nas quais as pessoas possam confiar, pois, do contrário, os golpistas e o regime do qual se originam serão legitimados por uma ‘lavagem’ de golpe de Estado”, explica Alegría. Outro dirigente, Reyes, completa o raciocínio: “O poder? Não se trata de tomar por tomá-lo, de qualquer forma ele está fora do Estado! É preciso reconstruir desde baixo”. Em terceiro lugar, a autoconvocação de uma assembleia nacional constituinte para 28 de junho próximo. “Muitos diziam que não seria possível realizá-la sem estar no poder, como foi feito na Bolívia, no Equador ou na Venezuela. Mas nesses países havia governos constitucionais! Nós vivemos, aqui, um regime de exceção”, expõe Reyes.

Está implícito que os trabalhos de uma constituinte como essa teriam como consequência apenas manter a pressão e preparar o futuro no contexto de uma situação bloqueada. “Assim que as circunstâncias permitirem, já teremos preparado um instrumento amplamente discutido com a contribuição de todos os setores sociais”, segue Reyes. Mas esse esforço simbólico acontecerá realmente no dia 28 de junho? Há algumas semanas, depois da memorável assembleia, a situação transformou-se bruscamente.

De fato, o poder tenta se mostrar seguro, mas, internamente, treme. A resistência… resiste. O isolamento do país – excluído da Organização dos Estados Americanos (OEA) pela força dos governos de esquerda latino-americanos5 –revela-se cada vez mais prejudicial (interditando, por exemplo, o acesso a empréstimos de organismos financeiros multilaterais). A economia está afundando: até a ruptura com a Venezuela, “odiada” pelos golpistas, estrangula o país. Quando Honduras pertencia à Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba), Caracas, por meio do acordo Petrocaribe, fornecia petróleo a Tegucigalpa a preços inferiores aos do mercado.

O presidente Lobo se viu obrigado, urgentemente, a abrir o aparelhamento do Estado. Assim, a vontade de Zelaya de consultar a população sobre a eventual convocação da famosa assembleia nacional constituinte foi o pretexto para a decisão judicial que permitiu seu retorno. Antes, afirmava-se, a Constituição não permitia (o que é falso: o artigo 5 da lei de participação cidadã votada em janeiro de 2006 o autorizava). É muito curioso, portanto, que em 17 de fevereiro de 2011 o Congresso tenha reformado a dita Constituição para autorizar plebiscitos e referendos… direito tirado à força do chefe de Estado anterior. Definiram, contudo, uma “pequena” condição: se 2% dos eleitores ou dez deputados podem solicitar uma consulta popular, é o Congresso que decidirá, em última análise, se ela será organizada ou não. Oqueli se diverte: “O governo está tentando vender a ideia de que a constituinte não é mais necessária se dispusermos de instrumentos de participação cidadã reclamados a gritos”.

No exterior, os aliados de Tegucigalpa encabeçados por Washington pressionam para que Honduras se reintegre à OEA, cuja assembleia geral será dia 5 de junho, em São Salvador. Em 9 de abril, o presidente colombiano Juan Manuel Santos aproveitou uma reunião em Cartagena para forçar uma reunião entre Chávez e Lobo, inimigo do venezuelano, e negociar uma “mediação”. Alguns dias depois, enquanto muitos especulavam sobre essa espetacular virada na situação, Chávez, por sua vez, reuniu-se em Caracas com os dirigentes da FNRP, Zelaya (vindo de Santo Domingo) e Barahona (vindo de Tegucigalpa).

Como faria posteriormente a coordenação nacional da Frente, reunida nos dias 27 e 28 de abril, eles colocaram sobre a mesa de negociações quatro condições para solucionar a crise em Honduras e reintegrá-la à OEA: sem surpresa, o retorno dos exilados, entre os quais Zelaya; a realização de uma assembleia constituinte “participativa e democrática”; o fim das políticas repressivas, com a punição dos responsáveis e o desmantelamento da estrutura golpista; e, por fim, o reconhecimento da FNRP como partido político.

Mas a Frente vai ser “reconhecida” por um governo que ela mesmo denunciava por considerá-lo ilegítimo? No seio da FNRP, alguns se questionam. A operação não arrisca revelar as fraquezas de um movimento heteróclito que a denúncia do golpe de Estado ajudou a unir? E mais, imaginemos que no futuro a FNRP participe de eleições: como não acreditar numa nova ruptura da ordem constitucional?

Essas questões, porém (e não à toa), ainda não são realidade. Exercendo uma pressão não dissimulada sobre a Corte Suprema de Justiça, o presidente Lobo obteve a anulação, em 2 de maio, de dois processos de acusação (absurdas!) impetrados contra Zelaya. Desde então, para alguns, os motivos da mudança no cenário parecem emergir da nebulosa. Com a possibilidade do fim do exílio do ex-presidente, “a principal condição para o retorno de Honduras à OEA foi atendida”, declarou o secretário-geral da organização, Miguel Insulza.6 Hillary Clinton não fala de outra coisa no Departamento de Estado norte-americano: “Agora que os obstáculos […] foram eliminados, tenho certeza de que rapidamente desejaremos as boas-vindas a Honduras como membro integral do sistema interamericano”.7

Esses comentários ignoram o fato de que, do coração de Honduras, a FNRP tem levantado a voz para pedir ao presidente Chávez, assim como aos outros dirigentes de esquerda latino-americanos, para não “afrouxar” a resistência se os outros pontos do acordo não forem levados em conta. Enquanto isso, chuvas de balas, tempestades de gás lacrimogêneo, mortos e feridos aumentam a repressão.

CIDADES PARTICULARES DA FLORESTA

“Convido meu povo a sonhar e viver num lugar ideal, sem delinquência, num território autônomo e brindado com um bom sistema de educação e saúde”, proclamou o presidente Porfirio Lobo durante uma coletiva de imprensa1 em 18 de janeiro deste ano. Paul Romer pode considerar-se satisfeito.

“Economista brilhante” (a expressão nem tanto) e professor da Universidade de Standford, Romer percorre o planeta há muitos anos, em particular a África, em busca de um país onde possa colocar em prática sua teoria: “O obstáculo ao desenvolvimento dos países pobres são as ‘normas inapropriadas’ impostas pelos Estados aos investidores, desestimulando-os”.2 A solução seria criar, em territórios ainda desocupados, as “cidades-charter”: “cidades-modelo” nas quais investidores nacionais e estrangeiros possam erigir usinas, fábricas, ateliês, mas também infraestrutura, habitação, comércio, escolas, clínicas e serviços necessários à mão de obra desocupada deslocada para lá. Esses encraves possuiriam suas próprias leis, tribunais, polícia, autogoverno – e pagar impostos ao país hospedeiro seria facultativo.

Romer e sua teoria suscitavam pouco interesse até janeiro de 2011, quando por iniciativa de Xavier Arguello, hondurenho presidente da empresa imobiliária norte-americana Inter-Mac International, encontrou-se com Juan Orlando Hernández, presidente do Congresso desse pequeno país da América Central. Hernández, por sua vez, organizou uma reunião com o presidente Lobo e alguns assistentes em Miami.

Romer evoca o sucesso de Hong Kong, Cingapura e outras zonas econômicas especiais chinesas. Os mais céticos objetariam que as condições históricas, geográficas, econômicas e culturais sob as quais se desenvolveram os exemplos citados estão muito longe da realidade atual de Honduras. Mas isso não é suficiente para abalar as convicções de Lobo e de seus aliados.

No mês seguinte ao pronunciamento televisivo, para permitir o surgimento, do nada, de uma “cidade-modelo” de mil quilômetros quadrados, o Congresso modificou o artigo 304 da Constituição – “em nenhuma circunstância podem ser criadas jurisdições de exceção” – e acrescentou à redação: “com exceção [sic!] dos privilégios jurisdicionais das Regiões Especiais de Desenvolvimento (REDs)”.3

Segundo o decreto que estabelece o funcionamento da (ou das) cidade(s)-modelo, as leis hondurenhas – inclusive as trabalhistas – não serão aplicáveis a esses territórios, com exceção daquelas sobre soberania nacional (!), relações exteriores (embora as REDs possam assinar acordos e tratados internacionais de forma independente), eleições e emissão de documentos de identidade. Na hipótese de algum governo posterior desejar voltar atrás em relação a essa “liquidação” do território por um regime oriundo de um golpe de Estado, o acréscimo ao artigo afirma: “Os sistemas instituídos nas REDs devem ser aprovados pelo Congresso nacional com uma maioria qualificada de dois terços”, e “esse estatuto constitucional apenas poderá ser modificado, interpretado ou revogado com a mesma maioria, após plebiscito realizado entre a população habitante da RED”. “Minoria ultraminoritária” sob dependência total dos senhores do encrave!

Localizada no coração do istmo centro-americano, Honduras se associou aos Estados Unidos e ao Canadá num tratado de livre-comércio que oferece a possibilidade de esses países produzirem e exportarem sem a necessidade de percorrer o imprevisível Canal de Suez (acossado por crises regionais) ou o Canal do Panamá. No dia 2 de março, em visita a Tegucigalpa, o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luis Moreno, cumprimentou o presidente Lobo efusivamente: “O BID encontrará a maneira de apoiar esse esforço considerado não somente inovador, mas de importância fundamental para o futuro de Honduras”.

Mas que futuro? Se admitirmos (com um sorriso cético) que o postulado inicial será respeitado – trabalho, moradia, educação, saúde, segurança, nível de vida superior à média –, não há dúvida de que essa ilha privilegiada atrairá centenas de milhares de despossuídos em busca de trabalho. Perante essa massa de gente, esses guetos fecharão suas portas e protegerão seus muros com cerca elétrica? Quando o presidente Lobo afirma que essas “cidades-modelo” criarão um “estilo de vida de classe A”, compreende que está instaurando constitucionalmente duas categorias de cidadãos?

Uma segunda hipótese, mais realista, não inclui a parcela de otimismo. O presidente do Congresso, Hernández, deixou transparecer esse aspecto: “É como uma maquiladora muito ampliada […]; é como viver o sonho americano em Honduras”.4 A não ser pelo fato das maquilas (usinas de subempregos) se parecerem muito pouco com o referido sonho! Desde o início dos anos 1990, esse sistema de trabalho é muito conhecido em Tegucigalpa e San Pedro Sula pela superexploração da mão de obra e entraves à criação de sindicatos. Atualmente, essas empresas empregam funcionários por contratos de duração indeterminada e praticam demissões em massa quando bem entendem, ocasiões em que também anunciam a recontratação dos melhores sob o sistema de recebimento por hora trabalhada – no qual o trabalhador perde seus direitos sociais.

O objetivo de uma “cidade-charter”, evidentemente, não é fabricar produtos têxteis como na primeira geração das maquilas, e sim alta tecnologia. Ao ser questionado se Honduras dispõe de mão de obra qualificada para essa empreitada, o deputado Romeo Silvestri respondeu com um sorriso: “Serei honesto: não. Mas quando as maquilas começaram a funcionar, também não havia pessoas preparadas. Hoje, são 150 mil trabalhadores empregados nessas indústrias”. Mais realista, a ex-deputada Elvía Argentina Valle (hoje “liberal em resistência”) reage: “Se esses centros de produção têm suas próprias leis e dependem de capital dos próprios investidores, as empresas chinesas trarão chineses, os coreanos trarão coreanos e não sobrará emprego para os hondurenhos”.

E se os hondurenhos inicialmente escolhidos para trabalhar na “cidade-modelo” não estiverem contentes com as condições? Essa possibilidade foi levada em conta por Romer, assim como a solução: eles poderão protestar com os próprios pés, ou seja, ir embora. E se quiserem defender seus direitos? A “cidade-modelo” exclui toda e qualquer presença de sindicatos. E se eles se revoltarem? A polícia privada restabelecerá a ordem, e a justiça de exceção decidirá sobre a pertinência do debate. E se a desordem persistir e se estender? Nada impediria a vinda de um corpo expedicionário da Ásia ou de outro lugar para restabelecer a ordem desse território que escapa da autoridade do Estado.

Sem dúvida pouco consequente em relação às suas palavras, Silvestri reflete em voz alta durante nosso encontro, no dia 3 de março: “Evidentemente, Cingapura funciona bem porque é um Estado totalitário. O presidente pode manter-se no poder por 24 anos; agora, seu filho governa… Está claro que Cingapura dispõe de muitas estruturas que não possuímos. É um grande desafio adaptar esse modelo para nossa realidade”. (M.L.)

Maurice Lemoine é jornalista e autor de “Cinq Cubains à Miami (Cinco cubanos em Miami)”, Dom Quichotte, Paris , 2010.



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