Brasília é cenário de romance que se passa no ano 2060
Relatório máquina-máquina é o primeiro romance de L.K. Nogueira. A obra é uma prosa experimental e afiada que imagina um Brasil distópico
A ficção permite dar forma a cenários hipotéticos e que pareciam inimagináveis. É o caso de Relatório máquina-máquina, publicado pela Cachalote, primeiro romance do escritor e diplomata Luiz K. Nogueira. Nele, o futuro consiste em um mundo onde a única cidade que sobrevive a uma catástrofe global é Brasília.
O ano é 2060 e a região resistiu, não se sabe como, a uma catástrofe que devastou a humanidade quase por completo. Esta é a premissa do sólido romance de L.K. Nogueira, autor nascido em São Carlos, São Paulo, e que atualmente vive em Pequim.
Nesta narrativa distópica, fragmentos textuais e imagens resultam em um relatório atípico: uma inteligência artificial do futuro refaz a vida de pessoas mortas através de seus rastros digitais. Logo no início do romance, o leitor é inserido no funcionamento da trama: “O Sistema de Catálogo e Memória Coletiva (SCMC), fundado pelo governo central do Brasil em 2123, é responsável por preservar a memória de cada cidadão após sua morte.”

Logo se apresenta o protagonista Jafé, um dos sobreviventes, que segue às voltas com sua condição humana, carregando a responsabilidade de estar entre os últimos representantes da espécie. Enquanto se apresenta, o personagem dá o contexto histórico da obra: “Eu estava no distrito federal em 2061, quando a catástrofe aconteceu. Me salvei, com mais uns poucos milhões de pessoas. A preservação de Brasília como último grande núcleo humano pode ter garantido a sobrevivência da nossa espécie. Parece, então, não ter sido de todo descabido transferir a capital do Rio de Janeiro para cá.” E insere uma observação sobre a cidade: “Me pergunto se, caso a gente consiga reconstruir a civilização, vamos replicar o modelo urbano brasiliense, que tem como valor mais importante a livre e inobstruída observação do céu, dos pássaros e dos ipês.”
A concretude planejada de Brasília, e toda a estrutura de sua vida política, vira cenário para uma série de encontros e desencontros existenciais. Além de também ser o novo ponto de partida para o repovoamento do planeta, como na narrativa bíblica do dilúvio e da barca de Noé: a catástrofe vem para eliminar da terra a corrupção, deixando a cargo de alguns reconstruí-la. O que se desdobra numa espécie de sátira, onde sobraram “muitos políticos e servidores públicos para pouco território.”
O autor, influenciado pela arte e pelo pensamento modernos, da arquitetura de Lucio Costa à filosofia de Jürgen Habermas, elegeu Brasília como palco do romance. E ali se debruça sobre “a sátira do absurdo na política internacional, a violência da catástrofe e a beleza na arte e no amor”.
A prosa é precisa e atravessada por uma série de temáticas contemporâneas, tais como inteligência artificial, fluidez de gênero, extremismo religioso, as bets, aplicativos de relacionamento, etc. A certa altura, por exemplo, o protagonista Jafé inicia uma relação ambígua com outra personagem. A indefinição inicial quanto ao teor da relação, e mesmo a inconclusão de seu desfecho, é reflexo da mobilização do debate em torno das convenções e formatos relacionais, e como poderiam se desdobrar no futuro.
No romance, espécie de relatório em que a emoção não fica de fora, a combinação de temáticas, temporalidades e gêneros narrativos, aliada a uma ampla pesquisa histórica e profundo conhecimento sociopolítico, fazem com que o futuro narrado, apesar de distante, soe familiar.
Ana Luiza Rigueto é jornalista, poeta e crítica de literatura.


Adorei o livro!