BRASILEIROS DE PARIS NOIR

Brasis negros em Paris Noir

Em que medida a sociabilidade artística e intelectual negra “transnacional” sediada em Paris constituiu as experiências desses sujeitos, a possibilidade de realização de suas aspirações, os constrangimentos específicos com os quais tiveram que se haver?

Desde o dia 21 de março, até 30 de junho deste ano, está aberta a última exposição temática do Centre Georges Pompidou, que em breve fechará suas portas por alguns anos para reforma. “Paris Negra: circulações artísticas e lutas anticoloniais, 1950-2000”, de curadoria de Alicia Knock, reúne mais de 150 artistas negros dos continentes africano, americano e europeu, com experiências sociais naturalmente heterogêneas, mas que, em algum momento de suas trajetórias, passaram por Paris. O recorte temporal tem como marcos a criação das revistas Présence Africaine, em 1947 e Revue Noire, nos anos 1990. Coincide, também, segundo as organizadoras, com o longo processo de luta por independência das nações colonizadas e com o fim do aApartheid na África do Sul. O acervo se constitui principalmente de obras de pintura, mas reúne também fotografias, esculturas e vídeos. Documentos, como revistas, livros, cartas o complementam. O pensamento do martinicano Édouard Glissant inspira o projeto curatorial, notadamente o seu conceito de “tout-monde” e o próprio intelectual tem a ele dedicada uma sala, em espiral, no centro da exposição.  

Segundo a curadoria, trata-se de dar visibilidade, literalmente, a obras que, muitas delas, nunca haviam sido exibidas na França, apesar das vivências parisienses de seus autores. Reivindica-se que tais artistas “marginalizados”1, cujas obras foram reunidas praticamente uma a uma, sobretudo nos acervos familiares, algumas delas em mau estado de conservação, foram fundamentais para os modernismos da segunda metade do século XX. E, como o título da exposição deixa evidente, há um cunho profundamente político e contestador na construção dessas estéticas modernistas, indissociáveis das reconfigurações geopolíticas daquelas décadas.  

Crédito: Divulgação/Paris Noir/Centre Pompidou/The Kilbourn Collection – © Estate of Gerard Sekoto/Adagp/Foto: Jacopo Salvi

É notável que uma instituição francesa se proponha a tal empreitada, especialmente ao reivindicar Paris como “capital negra” no seio de um Estado que recusa determinantemente a categoria racial, profundamente enredado em um grande mito universalista. No entanto, quando se trata de refletir um pouco mais a fundo sobre as assimetrias de poder e o significado das lutas – muito diversas – de todos os artistas reunidos, muito do seu caráter disruptivo se dilui. O que a exposição parece propor, acima de tudo, é celebrar Paris. Não importa o quanto a política sirva como o “pano de fundo” que nos conduz em um longo percurso ao mesmo tempo cronológico e temático, qualquer pessoa que não tenha Paris como umbigo fica rapidamente desconsertada. Tudo se passa como se a capital do império colonial – que perdura – fosse o grande berço fraternal do panafricanismo e do advento anticolonial. E há mais. A curadoria convoca as instituições museológicas francesas a incorporarem esses artistas em suas coleções (a que preço?) e às instituições de pesquisas a investiga-los mais a fundo, pois, até o momento, “todo o conhecimento produzido sobre eles provém do mundo anglo-saxão”. Ou seja, persiste uma disputa por hegemonia cultural, na qual parecem existir apenas a França e os Estados Unidos, possivelmente a Inglaterra também. Nós, “o resto do mundo”, tão centrais ao conceito mesmo da exposição, não contamos como produtores de conhecimento. 

Sem pretender reproduzir o mesmo etnocentrismo, gostaria de esboçar algumas reflexões acerca das “circulações” negras que Paris Noir nos propõe e que nos implicam diretamente. Gostaria de atentar para a riqueza e a diversidade das linguagens artísticas, mas também das experiências de três artistas brasileiros que compõem o percurso expositivo. Representando a América do Sul, eles se somam a um pintor venezuelano e outro colombiano. Isso me intrigou desde o início, uma vez que, em se tratando de “circular”, ser um estado-unidense, um exilado do Apartheid, um colonizado na “metrópole” ou um latino-americano nos sugerem maneiras muito diversas de aterrissar em Paris. E a partir do momento em que isso acontece, quais são os fios que os unem ou, ao contrário, como são explicitadas suas diferenças? Em que medida essa sociabilidade artística e intelectual negra “transnacional” sediada em Paris constituiu as experiências desses sujeitos, a possibilidade de realização de suas aspirações, os constrangimentos específicos com os quais tiveram que se haver? Quais foram os debates entre esses agentes? Quais não dialogaram entre si, porque não se encontraram pelas ruas da capital francesa ou porque simplesmente escolheram não o fazer? Essas eram as minhas próprias expectativas, e talvez fossem ambiciosas demais para o contexto de uma exposição. No entanto, não deixa de ser significativo que nenhum artista sul-americano seja mencionado durante a visita guiada. Ao indagar a gentil senhora que nos conduzia a esse respeito, ela me explicou que “são mais de 150 artistas e ela não tinha como conhecer todos”. Todavia, como todo silêncio, esse também é revelador.  

O gaúcho Wilson Tibério (1916-2005), o cearense Antônio Bandeira (1922-1967) e o mineiro Sebastião Januário (1939), aparentemente, não se cruzaram em Paris, como nos conta Paulo Miyada, no texto Paralelos Diaspóricos, dedicado aos autores brasileiros no catálogo. Isso é curioso sobretudo no caso dos dois primeiros, que chegaram a Paris na mesma época e frequentaram a mesma escola – a Académie de la Grande Chaumière, em Montparnasse. Se não é possível saber se eles se conheceram, foram a museus ou a cafés juntos, suas obras revelam diferenças importantes. De fato, cada um dos três artistas ocupa um lugar diferente, com significado distinto, dentro do circuito expositivo. Ademais, além de Paris, é a cidade do Rio de Janeiro que os une – é para lá que se dirigem, seja em busca de formação artística, como os dois primeiros, ou de oportunidades de trabalho, como o mais novo entre eles. Wilson Tibério se formou na Escola Nacional de Belas Artes na década de 1930. No Rio, conheceu Abdias do Nascimento e se envolveu com o Teatro Experimental do Negro. Ele parte a Paris em 1947, ano de fundação da revista Présence Africaine, da qual participará. Ele residirá naquela cidade até o fim da vida – exceto em períodos que percorreu o continente africano no âmbito da luta anticolonialista e de sua ânsia por conhecer “o povo”. Desde cedo, Wilson Tibério travou amizade com o pintor sul-africano Gérard Sékoto, exilado em Paris, que ocupa grande destaque em “Paris Noir” e cujo autorretrato encontramos assim que adentramos à galeria do Pompidou, bem como na capa do catálogo da exposição. É, portanto sob o olhar de Sékoto que encontramos as duas telas do pintor brasileiro (Chanteurs Noirs e Scène de la fête du Voudhou au Dahomey, ambaos sem data), na sala dedicada aos intelectuais e artistas de Présence Africaine. 

 Enquanto tantas vezes na bibliografia encontramos referências à influência do movimento Négritude sobre Abdias do Nascimento e outros intelectuais de sua geração, a trajetória de Wilson Tibério nos revela uma dimensão menos unilateral das mobilizações antirracistas dos dois lados do atlântico. Ele é um brasileiro que contribuiu para a formação mesma da Négritude. Ele participou do I Congresso Internacional de Escritores e Artistas Negros realizado, em Paris, em 1956, ao lado de figuras como Franz Fanon, Léopold Sédar Senghor e muitos outros. Em 1959, ele estará em Roma para sua segunda edição.2 Participa, ainda do primeiro Festival Mundial das Artes Negras, em Dakar, em 1966. Se a trajetória de Wilson Tibério pode parecer um tanto sui generis face aos artistas e militantes negros brasileiros, sabemos que ele não foi o único a combater pela libertação do continente africano. Basta lembrarmos que Thereza Santos (1930-2012), intelectual, artista e ativista negra brasileira que também lutou em países como Guiné Bissau e Angola – ainda que não tenha passado por Paris.  

Adiante na exposição, chegamos à sala dos “Surrealismos Afro-Atlânticos”, onde nos deparamos com três telas de Sebastião Januário, entre as quais Sobre uma Ilha Africana. Mais novo que seus outros dois compatriotas, antes de se tornar pintor, Januário atuou na força aérea brasileira. Sua estadia em Paris, entre 1964 e 1966 decorreu, como nos conta Paulo Miyada, de uma proposta de um general de brigada para que aquele trabalhasse como mordomo para sua família. Como podemos notar, ele tinha muito menos autonomia que Wilson Tibério parece ter tido e, certamente, sua estadia em Paris foi muito mais breve. Se foi possível conhecer museus e parte da elite brasileira radicada em Paris, o trabalho doméstico não lhe permitiu se envolver plenamente com a cena cultural local. A obra exposta em Paris Noir, Numa Ilha Africana, data de 1968 e foi, portanto, realizada no Brasil, provavelmente no Rio de Janeiro onde, novamente, Abdias do Nascimento foi uma referência importante, e principalmente, um ponto de apoio para que ele pudesse passar a se dedicar exclusivamente à pintura. 

Um pouco adiante na exposição, encontramos a tela Les Arbres de Antônio Bandeira (1958). Se Wilson Tibério se interessara pelo acervo do Museu do Homem, e seus motivos expressassem a vida cotidiana e as tradições culturais afro-brasileiras e africanas, Bandeira preferiu investigar os movimentos de vanguarda europeus. Segundo nos informa o catálogo da exposição, contrastando com os dois outros pintores brasileiros que a compõem, Antônio Bandeira não tinha pretensão alguma de desenvolver uma pintura com motivos étnicos ou regionalistas. Ao contrário, ele aspirava a uma pintura “internacional”. É nesses termos que ele desenvolveu sua própria linguagem estética, como notamos na obra situada   n’ O salto na abstração de Paris Noir. Sua primeira ida a Paris resultou de uma bolsa de estudos de dois anos. Ele retornaria ao continente europeu entre 1954 e 1959 e depois entre 1964 e 1967, ano de sua morte prematura. 

Viajar desloca o corpo e, ao mesmo tempo, a mente. Viajar transforma o olhar. O que vejo nos brasileiros de Paris Noir não é tanto Paris, mas o modo como esse deslocamento, realizados em circunstâncias tão diversas, constituiu, de alguma maneira, suas trajetórias artísticas. Tibério buscava o povo afro-brasileiro e continuou a buscar o povo em África. Januário buscou, antes de tudo, possibilidade de autonomia para ser artista. Paris não foi a realização de sua plena autonomia, mas talvez tenha sido uma parte importante desse percurso. Bandeira, entre os três, foi o que menos se preocupou com motivos “negros” ou “africanos” em sua obra. Ao contrário, aspirava a uma arte “internacional” e abstrata. Em Paris Noir, me encontrei com três homens negros nascidos do norte ao sul do Brasil, que viajaram e que fizeram escolhas bastante precisas, dentro de certos limites de possibilidades, sobre o sentido que tais viagens teriam em suas vidas. A diversidade entre suas histórias, aspirações e linguagens mostra que, se a cor no país “sem raça”, como a raça no país “sem racismo”, ainda demanda que se incorpore o significante negro para defini-los, eles expressaram através de sua pintura o seu ser – não necessariamente ou apenas seu ser negro. Apenas ser.  

 

Renata Siqueira é pesquisadora do Afro Cebrap. Integra o Programa Internacional de Pós-Doutorado do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Doutora em História e Fundamentos Sociais da Arquitetura e do Urbanismo pela FAU-USP. Investiga as interseções entre a história das cidades e das relações raciais. Esse artigo foi redigido durante um estágio de pesquisa de pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, financiado pelo CNPq. 

Leia mais sobre o tema: