Canadá-Brasil: parceiros em ciência e tecnologia - Le Monde Diplomatique

COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

Canadá-Brasil: parceiros em ciência e tecnologia

por Jamal A. Khokhar
1 de junho de 2011
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Brasil e Canadá estabeleceram um diálogo ambicioso para estimular parcerias a fim de desenvolver uma ciência de vanguarda e uma tecnologia que possam nos ajudar a construir um futuro mais sustentável. Ambos somos países das Américas, enfrentamos desafios semelhantes e temos muito a compartilharJamal A. Khokhar

“Força e liderança em ciência, tecnologia e inovação é o preço que se paga para a plena participação na economia global baseada no

conhecimento, neste século XXI. Para prosperar na nova economia global, um país deve inovar.”

(State of the Nation Report do Canadá, 2008)

Inovação para o crescimento sustentável

O século XXI será uma época de grandes desafios com problemas diversos − energia, agricultura, saúde, água, ecossistemas e crescimento populacional −, globais em alcance e profundamente interligados. Inovação e, mais especificamente, as colaborações globais podem ajudar a encontrar soluções para esses desafios. Inovação é a chave para abrir as portas para a prosperidade na economia global deste século.

A inovação tecnológica e científica não se resume apenas a cientistas trabalhando em laboratórios isolados. Ela refere-se a pessoas da vida real e a aplicações práticas que são utilizadas em nosso dia a dia. A inovação envolve alimentos e agricultores; medicina e médicos; comunicação e estudantes; e segurança e países. Trata-se de estabelecer uma visão e construir parcerias para criar e aplicar uma nova geração de conhecimento que é essencial para o crescimento sustentável e a prosperidade.

A inovação é a maior geradora de riqueza na economia global de hoje. De mãos dadas com o conhecimento, irá determinar a vantagem econômica em nosso mundo moderno e competitivo. Um relatório publicado pelo Canadian International Councilconsidera a inovação uma peça determinante no jogo do século XXI, pelo qual “as idéias substituíram a indústria no posto de comando da economia pós-industrial”.1 Além disso, o estudo observa que, enquanto todas as nações prosperam com a propagação da inovação (por exemplo, eletricidade, computadores ou telefones móveis), os que saem à frente se beneficiam desigualmente. É por isso que estratégias e prioridades de inovação devem adaptar-se – e adaptar-se novamente – para construir as economias do futuro.

Para dar frutos, a inovação exige visão, investimento e educação. Investimento nacional sólido e sustentado é essencial, com incentivos para ativar a interação pública e privada para levar as ideias dos laboratórios para o mercado – e para a vida de pessoas comuns.

Os esforços canadenses

Ao elaborar nossa estratégia nacional de inovação, a visão do Canadá é chegar a parceiros ao redor do mundo que apresentam um incrível potencial. A inovação é importante para o nosso país, e reconhecemos o valor de trabalhar com nossos parceiros globais para expandir as fronteiras da ciência, tecnologia e inovação em direção ao futuro.

Como ponto de partida, o Canadá selou acordos em ciência, tecnologia e inovação com alguns países, incluindo Brasil, China, Índia, Israel, Japão e Coreia. Nosso acordo com o Brasil, por exemplo, promoverá uma maior colaboração em pesquisa e desenvolvimento em áreas de interesse mútuo, tais como aeroespacial, agrícola, bio e nanotecnológica, farmacêutica, de tecnologia da informação e de comunicação e desenvolvimento de energias renováveis.

A inovação também está em alta na agenda educacional do Canadá. O país possui universidades de elevada qualidade, além de escolas de engenharia, hospitais-escola e escolas técnicas. O Canadá também produz ciênciade ponta. Uma forma pela qual o país vem se destacando nas instituições de ensino superior é a promoção de intercâmbio de educação, na medida em que abre possibilidades para inovação por meio de ideias novas e divergentes – um ingrediente fundamental no desenvolvimento de tecnologias novas ou adaptáveis. É interessante notar que mais de um terço da capacidade de pesquisa do Canadá é encontrado em nossas universidades – a proporção mais elevada entre os países do G8.

A pesquisa e a inovação são também elementos centrais da agenda comercial do Canadá e um crescente ponto de convergência mútua em nossas relações com economias estratégicas, tais como Brasil, China e Índia. Exemplos estão se multiplicando, nos quais a descoberta científica se encaixa em empresas que podem explorar os elementos inovadores como vantagem comercial. Alguns exemplos notórios ilustram a amplitude das possibilidades previstas por meio dos acordos canadenses para Cooperação em Ciência, Tecnologia e Inovação.

Um exemplo é a colaboração entre pesquisadores do Canadá, China, Índia e Israel para a utilização da nanotecnologia para enfrentar os desafios globais da água e aproveitar as oportunidades do mercado de tecnologia da água no planeta, que gira em torno dos US$ 400 bilhões. Para avançar e obter novos modelos de colaboração multidisciplinar em tecnologias marinhas, em maio de 2011, o Canadá juntou-se a pesquisadores seniores do Brasil, China, Índia e Israel a fim de estimular a inovação que promete benefícios econômicos e sociais para as gerações futuras.

São esses tipos de parceria na vanguarda da inovação que estão fortalecendo a interação entre Canadá, Brasil e outras economias – de forma a criar as condições que permitem múltiplos resultados positivos para todos os países; de forma a aproximar a divisão entre público e privado, inventores e investidores, indústria e universidade. De forma a cultivar colaborações que ultrapassam as fronteiras a fim de encontrar soluções para desafios comuns; harmonizar a ciência sofisticada com o uso prático para melhorar a vida das pessoas e o mundo em que vivemos.

 

Ciência e tecnologia sem fronteiras

Os canadenses são inovadores globais que prosperam continuamente desenvolvendo tecnologias de ponta que estão mudando a face do planeta e melhorando o padrão e a qualidade de vida das pessoas ao redor do mundo. O Canadá é lar de grandes pesquisadores, cultivados por um ecossistema de inovação que apoia, incentiva e exige alta qualidade. As inovações canadenses estão presentes em nossa vida cotidiana. O telefone, por exemplo, é uma invenção canadense. O marca-passo e a insulina são ambos inovações canadenses que salvam vidas. Hoje, o Canadá tem talento excepcional em empresas baseadas na tecnologia, como saúde, Tecnologia da Informação e Comunicação e tecnologias limpas. O Blackberry, uma tecnologia que revolucionou a forma como nos comunicamos e como fazemos negócios, também é uma inovação canadense. O Canadá é líder mundial no setor de hidrogênio e células combustíveis. Os cinemas IMAX, outra inovação canadense, são apreciados pelos brasileiros cotidianamente. Na área de ciências biomédicas, o Canadá lidera o G-8 em patentes de pesquisa em saúde e é o quarto em todo o mundo na participação geral dos ensaios clínicos. Esses são apenas alguns exemplos das contribuições que os inovadores canadenses deram ao mundo.

Canadá e Brasil formam uma parceria lógica para uma agenda de ciência e tecnologia de apoio mútuo e estão prestes a se tornar parceiros mais próximos, se ambos os países jogarem suas cartas bilaterais da maneira correta. Canadá e Brasil têm o que o mundo mais precisa: energia, água, alimentos e commodities. A base de recursos naturais complementares de nossas duas economias e nosso foco em energia, mineração, transporte, agronegócios e infraestrutura oferecem enormes oportunidades para cooperação. Olhando para a frente, enquanto o Brasil desenvolve seus investimentos em infraestrutura e energia nos próximos anos, o Canadá precisa fazer mais para estabelecer alianças estratégicas e ancorar solidamente nossa estratégia de ciência e tecnologia para metas claras de comercialização. A visão da arquitetura emergente das relações de comércio e investimento do Canadá com o Brasil então se torna clara: tem menos a ver com a venda de mercadorias e mais com a construção de sistemas de apoio e integração mútuos das cadeias de valor por meio de inovação.

Para definir o quadro de parcerias de inovação, Canadá e Brasil assinaram o Acordo Quadro para Cooperação em Ciência, Tecnologia e Inovação, que entrou em vigor em março de 2010. O acordo incentiva parcerias entre empresas, universidades, institutos de pesquisa e governos canadenses e brasileiros, para estimular projetos conjuntos de pesquisa, conferências científicas e workshops, intercâmbio de equipamento e material e a mobilidade dos pesquisadores. A esperança é que esse tipo de colaboração leve à comercialização de novas ideias em áreas promissoras, como aeroespacial, agrícola, de tecnologia limpa, ciências biomédicas e energia renovável. Para fornecer orientação estratégica para aplicação do Acordo, Canadá e Brasil estabeleceram uma Comissão Mista de Cooperação em Ciência, Tecnologia e Inovação, que se reúne pela primeira vez em junho.

Como complemento ao presente acordo, Canadá e Brasil assinaram um Memorando de Entendimento sobre Educação para impulsionar a inovação em ambos os países, usando projetos conjuntos de pesquisa em equipe.

Esses acordos desenvolvem importantes relações comerciais do Canadá com o Brasil, a sétima maior economia do mundo. O Brasil é uma prioridade na estratégia canadense para cooperação hemisférica, além de ser um parceiro essencial para o Canadá. Depois do México, o Brasil é o principal parceiro comercial canadense, em termos de mercadorias, na América Latina e no Caribe.

Sendo construído sobre esse sólido fundamento econômico bilateral, o foco de Brasil-Canadá em ciência, tecnologia e inovação é potencialmente lucrativo. Assim como o Canadá, o Brasil tem uma economia altamente diversificada e industrializada e é um líder na agroindústria.

Mas o significado do Brasil para o Canadá excede a dimensão econômica. Ele desempenha um papel entre os quatro principais atores políticos e econômicos no hemisfério ocidental, junto com Canadá, Estados Unidos e México. Politicamente estável e democrático, o país é uma superpotência dentro da América do Sul, ao passo que seu papel de liderança global nas diversas instâncias internacionais é florescente.

Reconhecendo a necessidade de abordar a carência do Brasil em educação e recursos humanos, o governo da presidente Dilma Rousseff está enfatizando a contribuição da inovação científica e tecnológica para reforçar o crescimento e a produtividade. Como o Canadá, o Brasil está trabalhando para aumentar substancialmente a proporção do PIB dedicada à inovação e criar centros de excelência tecnológica. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) está atraindo parcerias internacionais para resolver o déficit de infraestrutura do Brasil. Como o Canadá, a inovação é uma prioridade para o Brasil, que está se esforçando para lançar uma base de infraestrutura compatível com seu enorme potencial. Em ambos os países, a ênfase é dada ao potencial de inovação por meio da priorização de ciência e inovação tecnológica, bem como da educação.

 

Momento de parcerias para a inovação

Existem encorajadoras histórias de sucesso. As relações entre os dois países tornaram-se mais sérias a partir de 2003, com grandes eventos organizados entre pesquisadores canadenses e brasileiros em biotecnologia, aquicultura, energias renováveis e geomática. Nossas universidades e pesquisadores têm trabalhado em conjunto obtendo muitos sucessos recentes, como a parceria entre neurocientistas da Universidade de Western Ontario e pesquisadores brasileiros que estão desenvolvendo novos tratamentos para o Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas.

O Canadá e o Brasil já iniciaram vários projetos de pesquisa e desenvolvimento, com financiamento do Programa Internacional de Ciência e Tecnologia do Canadá (International Science and Technology Program), em cooperação com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e outros parceiros brasileiros.

Há também exemplos de parcerias Canadá-Brasil concluídas para a expansão de uma vasta gama de novos modelos de colaboração em engenharia geomática, mídias sem fio e digitais, tecnologia oceânica e na aplicação segura da nanotecnologia. Empresas canadenses, como a Rutter, buscam contribuir com os sistemas brasileiros definindo um novo ritmo de processamento de dados e tecnologias de radar para a detecção de vazamentos de óleo.

 

Esses são exemplos perfeitos – alguns dos muitos que estão evoluindo – que contribuem para um quadro de inovação colaborativa entre os dois países. Um esboço que nos mostra como o intercâmbio de conhecimento e o encorajamento da inovação podem trabalhar em benefício dos cidadãos canadenses e brasileiros.

 

Conclusão

A inovação no século XXI é uma narrativa complexa. Em um mundo globalizado, altos níveis de investimento em pesquisa e inovação são essenciais – para competir economicamente e para produzir inovação em áreas tão diversas como a geomática, as telecomunicações sem fio e digitais e a nanotecnologia, que resultam em melhorias tangíveis para nossa qualidade de vida. Precisamos orientar investimentos e parcerias em inovação com ambição e visão para abrir caminhos para um futuro próspero.

Se pudéssemos visualizar, por exemplo, o ano de 2030, como os problemas que estão surgindo − alimentação, combustível, água, mudança climática e rápido crescimento populacional − seriam solucionados? Como podemos assegurar que nossos esforços hoje contribuirão para resolver os desafios de amanhã? Qual é a melhor maneira para estruturar a educação e as prioridades de pesquisa em ciência e tecnologia para enfrentarmos os desafios que temos pela frente?

Para responder a essas questões desafiadoras, Brasil e Canadá estabeleceram um diálogo ambicioso para estimular parcerias a fim de desenvolver ciência e tecnologia de vanguarda que possam nos ajudar a construir um futuro mais sustentável. Ambos são países das Américas, enfrentam desafios semelhantes e têm muito a compartilhar – temos habilidades mutuamente benéficas que oferecem uma riqueza de experiência para contribuir com a partilha de conhecimento. O Canadá possui um respeitado sistema de universidades públicas e colleges, que se encaixa perfeitamente na crescente necessidade brasileira por serviços de ensino superior. Nossos laços complementares fornecem uma oportunidade para a educação fomentar resultados inovadores.

As histórias de sucesso apresentadas acima são uma ilustração concreta de como canadenses e brasileiros estão agindo em conjunto para construir uma base comum de conhecimentos para inovações em saúde, energia limpa, construção, telecomunicações sem fio e mídia digital, nanotecnologia e tecnologia oceânica. Essas são as áreas que fazem parte do diálogo estratégico nas quais Canadá e Brasil estão empenhados para preparar o cenário para parcerias dinâmicas e mutuamente benéficas visando à inovação. Esse diálogo tem como base nossas aspirações comuns, nossos abundantes recursos mútuos e a diversidade cultural semelhante. A visão é de que o Brasil e o Canadá compartilhem conhecimentos para moldar as tendências que estão surgindo na região, na próxima década e além – para criar e comercializar novos conhecimentos em ciência e tecnologia impulsionando nossa prosperidade mútua.

Jamal A. Khokhar é Embaixador do Canadá no Brasil.



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