Chá, bolinhos e boas ideias no Shangri-La Palace - Le Monde Diplomatique

GRANDE MERCADO TRANSATLÂNTICO

Chá, bolinhos e boas ideias no Shangri-La Palace

por Renaud Lambert
7 de julho de 2014
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O que dizem lobistas, grandes empresários e dirigentes políticos quando os reunimos nos salões de um grande hotel?Renaud Lambert

 

“Graças a Deus não há muito público aqui, pois são discussões como estas que alarmam os adversários do Grande Mercado Transatlântico (GMT). Francamente, alguns dos comentários que ouvi hoje de manhã os deixariam arrepiados.” 

Sob o imenso lustre de cristal do salão privado do hotel Shangri-La, a deputada europeia Marietje Schaake desperta a assistência, mergulhada no torpor do falatório.

Nesse 10 de abril de 2014, o cinco estrelas parisiense – cujo apartamento mais barato custa 850 euros – sedia uma conferência organizada pelo Washington Post, a mais recente aquisição de Jeff Bezos, dono da Amazon, e pelo semanário britânico European Voice.1 Objetivo: discutir o “futuro do comércio transatlântico”. Um futuro que todos aqui desejam tão róseo quanto o mármore dos banheiros do hotel.

“Uma reunião em salões chiques só pode agravar os temores”, prossegue Marietje. “Curvemo-nos às evidências: para muita gente, o GMT é um coquetel tóxico composto por Estados Unidos, Europa e setor privado.” Funcionários norte-americanos, burocratas europeus e representantes de empresas – todos levantam a cabeça.

Marietje não é de forma alguma contrária à globalização. Membro do grupo dos liberais e democratas, essa holandesa sempre acreditou nas virtudes do livre-comércio. Mas parece duvidar da pertinência de semelhante coreografia: “Se quisermos que o GMT tenha sucesso, devemos tomar consciência da necessidade de uma mudança de estratégia”.

Enquanto isso, umas 150 pessoas se reúnem diante do hotel para denunciar o encontro. Não exatamente diante do hotel – oito furgões da Compagnies Républicaines de Sécurité (CRS) garantem a tranquilidade dos hóspedes –, mas um pouco mais longe, na elegante Avenida d’Iéna. Os manifestantes também desejam uma mudança de estratégia, mas diferente: “Exigimos o fim das negociações do pacto transatlântico”, lê-se no panfleto coletivo do Stop Tafta.2 Os cartazes propalam sua recusa a ver chegar às mesas europeias o frango com cloro e a carne com hormônios ou a aceitar que as populações sejam submetidas aos caprichos das multinacionais.

Do outro lado das portas envidraçadas do Shangri-La, onde garçons de libré oferecem café, chá, suco de laranja fresco e bolos de chocolate, reconhece-se que “os meios de comunicação mal informados se inquietam”. Inquietam-se e inquietam os outros. “Mas vocês sabem”, explica-nos Shéhérazade Semsar de Boisséson, diretora-geral do European Voice, “que não nos reunimos para dizer ‘o GMT é ótimo’ ou ‘é péssimo’. Só queremos abrir o debate.” Em sua introdução, horas antes, a jornalista do Washington Post, Mary Jordan, garantira: “É com imensa satisfação que apresentaremos aqui todos os pontos de vista”.

Nem por isso a tribuna se transformou numa arena. Às exposições dos negociadores norte-americanos sucederam-se as de seus colegas europeus, igualmente defensores do tratado. E às críticas dos empresários contra as “regulamentações absurdas que custam muito caro, oneram o investimento e fragilizam o emprego”, fazem eco as declarações dos sindicalistas que não exigem muita coisa: os dois únicos convidados representam a Confederação Europeia dos Sindicatos (CES) e a Confederação Francesa Democrática do Trabalho (CFDT). Decididos sem dúvida a não evitar nenhum assunto desagradável, Mary Jordan e seus colegas moderadores organizam os debates em torno de duas grandes questões: “Que benefícios podemos esperar do GMT?” e “Que podemos recear de um impasse nas negociações?”.

 

Champanhe em Paris ou vodca em Moscou

Um dos primeiros a tomar a palavra, o português João Vale de Almeida, embaixador da União Europeia nos Estados Unidos, faz de tudo para se apresentar como uma pessoa de bom senso: “Vejo as coisas de maneira muito simples: o GMT é uma boa ideia. E quando uma ideia é boa, devemos fazer o possível para que se concretize”. De fato, todos aqui estão convencidos de que o tratado gerará empregos. Centenas de milhares de empregos. Não: milhões de empregos.

“Cada milhão de euros investido em comércio de bens e serviços garante 15 mil empregos na União Europeia”, afirma um documento da Comissão Europeia publicado em setembro de 2013. Baseia-se num estudo do Centre for Economic Policy Research (CEPR), um instituto de pesquisas londrino financiado por Deutsche Bank, BNP Paribas, Citigroup, Barclays, J.P. Morgan etc. O CEPR calcula que o tratado incrementará as exportações europeias em 28%, ou seja, em 187 milhões de euros. Conclusão da Comissão Europeia (para quem o cenário é “o mais otimista possível”): o GMT poderá “aumentar em vários milhões o número de empregos ligados ao setor de exportação na União Europeia”.3 Não há na sala nenhum desempregado a ser convencido, mas o argumento retorna como um leitmotivao longo das intervenções. O convidado de honra da ocasião, o comissário europeu para o comércio, Karel De Gucht, supervisiona as negociações em nome da União Europeia. Ele consagra boa parte de seu discurso preliminar a esse tema.

“De Gucht diz o que lhe vem à mente!” Na rua, diante do carro de som, o deputado europeu ambientalista Yannick Jadot se enfurece quando lhe transmitem as palavras do comissário. “Suas estimativas não têm nenhuma base sólida. Logo o veremos voltar atrás, como na questão dos benefícios do tratado para as famílias.” Em 14 de junho de 2013, com efeito, De Gucht pronunciou um discurso saudando o sinal verde dos Estados-membros à abertura das negociações entre Bruxelas e Washington. Evocando as “últimas estimativas”, proclamou: “Um futuro acordo comercial com os Estados Unidos traria em média quase 545 euros a mais anualmente para cada família europeia”4 − cifra que ele próprio e a Comissão Europeia espalharam aos quatro ventos.5

Ora, em 31 de março de 2014, um relatório encomendado pela confederação da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Ambientalista Nórdica (EUE/EAN) desmascarou o engodo de De Gucht.6 Jadot o interrogou sobre o assunto. O comissário se mostrou subitamente reservado. O que uma família pode esperar receber? “É impossível estimar isso com precisão. Eu não o faço.” Mas e a soma que ele havia anunciado? “Bem, existe um estudo segundo o qual cada família lucrará 545 euros por ano. Não sei como se chegou a esse número […]. Por isso, só o menciono raramente.”

Antes mesmo que Mary Jordan possa alfinetá-lo, o embaixador Vale de Almeida continua sua exposição: “Cumpre, sem dúvida, avaliar bem as vantagens do GMT. Mas também é necessário levar em conta o custo de um eventual impasse nas negociações”. Citando a crise ucraniana, acrescenta com ar de esperteza: “Eu preferiria brindar à assinatura do GMT com champanhe ou vinho do Porto a comemorar seu fracasso com vodca”. Sentado à sua esquerda, Daniel Hamilton retoma prontamente o argumento. O diretor do Center for Transatlantic Relations, um think tanknorte-americano, calcula que as considerações geopolíticas figuram entre as mais importantes motivações do projeto: “Esse é o acordo mais estratégico de que dispomos nos dois lados do Atlântico, bem mais importante do que o responsável pelo surgimento da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte]”. Antes da crise ucraniana, a energia não era uma das grandes preocupações dos negociadores, explica, lembrando que a Rússia exporta 70% de seu gás para a União Europeia. “Mas agora é!”

Em geral, os acordos de livre-comércio visam derrubar as barreiras alfandegárias.7 Ora, como essas já foram limitadas entre os Estados Unidos e a União Europeia (a menos de 3% em média), o GMT procura reduzir as chamadas “barreiras não tarifárias”: cotas, formalidades administrativas e normas sanitárias, técnicas e sociais. É aí que os negociadores esperam grandes avanços. “No quadro de uma harmonização a partir de cima!”, como todos salientam no conforto do Shangri-La. O processo conduziria a um endurecimento das normas sociais e jurídicas, pois o tratado quer impor seus “padrões” ao resto do mundo. Contudo…

De coffee breaks a pausa para networking…

Marcelo Odebrecht, um dos maiores empresários brasileiros,8 atravessou o Atlântico para participar do encontro. Respondendo à pergunta: “Qual será o impacto do GMT nos países emergentes?”, confirma a hipótese de uma reação em cadeia: “Toda regulamentação combinada entre os Estados Unidos e a União Europeia afetará o resto do mundo, não há dúvida”. Mas esse seria um problema para ele, por exemplo? “Na verdade, não. Se aplicássemos as normas norte-americanas ao trabalho hoje, isso seria considerado escravidão pela lei brasileira.” A declaração é tão surpreendente que Mary Jordan lhe pede que a repita. Ele o faz, concluindo que um alinhamento das regulamentações brasileiras nos níveis estabelecidos pelo GMT “não se revelaria necessariamente complicado”. Sem dúvida, em momento algum se imagina aqui que a “harmonização social” possa trazer vantagens para os trabalhadores…

Chegada a sua vez de falar, Bernadette Ségol promete acabar com o otimismo ambiente. Mas logo de início a secretária-geral da CES ameniza as observações que se prepara para formular: “Por definição, os sindicalistas sempre exigem demais…”. O público, que decerto não apreciaria nada o mesmo comentário aplicado aos acionistas, ri com gosto. O objeto da inquietação de Bernadette? A falta de transparência nas negociações. Diante de uma Mary Jordan um tanto confusa, a sindicalista relembra o escândalo de Watergate, denunciado pelo Washington Post: “É isso o que precisaríamos fazer de novo!”.

De fato, há meses várias organizações vêm denunciando a opacidade das discussões entre Washington e Bruxelas. A CES se pergunta, por exemplo, sobre os perdedores do GMT: “Porque haverá perdedores, é inútil negar”. Será preciso então renunciar ao acordo? De modo algum: “Essa não é nossa posição”. Mas é preciso “dizer com todas as letras” em quais setores da economia devemos esperar perdas de emprego. Ou seja, defender o direito dos trabalhadores de… se preparar para a demissão. A exigência da sindicalista não abala muito o embaixador Vale de Almeida: “Ótimo, só precisamos então que os sindicatos se façam ouvir. Quanto ao mais, congratulo-me pelo fato de as palavras da senhora Ségol serem tão construtivas”.

E assim sucessivamente, até as 17 horas…

À medida que os grupos se dispersam, vê-se desfilar os crachás presos às lapelas dos paletós ou (mais raramente) aos tailleurs: HSBC, General Electric, Daimler, The Walt Disney Company, Mutuelle Familiale, Dow France, Total… No fim do dia, uma questão se impõe: foi mesmo para ouvir essas apresentações que cada membro da plateia pagou uma taxa de inscrição de 1.500 euros?

Por telefone, interrogamos os organizadores. “Quisemos reunir aqui gente de Bruxelas e Washington implicada nas negociações, para que todo mundo pudesse lhes fazer perguntas”, responde-nos Shéhérazade. “Essas pessoas, como todos sabem, não têm oportunidade de se encontrar com muita frequência.”

Entre os patrocinadores do evento estão as companhias de lobby Business Software Alliance (BSA) e APCO Worldwide. No folheto desta última, lê-se: “Graças a seu conhecimento profundo das questões ligadas ao comércio bilateral, as equipes da APCO já conseguiram promover os interesses de seus clientes em diferentes acordos de livre-comércio […]. Ao longo dos anos, a APCO estabeleceu sólidas relações de trabalho com especialistas em políticas comerciais de instituições europeias, governos nacionais e Washington. Portanto, sabemos como formular mensagens que se imponham aos olhos desse público”. Entre cada mesa-redonda, o programa prevê coffee breakse networking breaks, além de um almoço sem a presença dos jornalistas.

Enquanto os manifestantes exortam a Europa a não mais entregar as populações aos lobbies, no salão do Shangri-La o diretor-geral da General Electric-Europa, Ferdinando Beccalli-Falco, queixa-se dos corporativismos que poderiam atrapalhar a marcha das negociações: “Não deixemos que os interesses de alguns entravem o interesse de todos”.

Renaud Lambert é jornalista.



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