China e Arábia Saudita: uma nova Rota da Seda? - Le Monde Diplomatique

ECONOMIA/ÁSIA

China e Arábia Saudita: uma nova Rota da Seda?

por Alain Gresh
3 de janeiro de 2011
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Na primeira década do novo milênio, a China abriu caminho para o comércio com o Oriente Médio, sempre em busca de petróleo, e a Arábia Saudita firmou-se como um dos grandes parceiros econômicos dos chineses. Está longe o tempo em que o país asiático apoiava movimentos revolucionários em todo o mundoAlain Gresh

Acompanhando a estrada, ao lado do Carrefour, estende-se o letreiro luminoso do China Mart, um imenso shopping que acaba de ser inaugurado, abrigando lojas que expõem os mil e um produtos diretamente importados do China. A agência de notícias chinesa Xinhua anuncia a chegada de 322 muçulmanos da província de Gansu – e essa é apenas a primeira leva dos milhares que são esperados para a peregrinação à Meca. Em junho de 2010, cientistas da China e da Arábia Saudita conseguiram terminar o mapeamento do DNA do dromedário (de uma corcova), e Pequim ofereceu a Riad, capital saudita, 37 camelos (de duas corcovas). Símbolo dessa exótica simbiose, o restaurante chinês Le Mirage colocou no cardápio um prato de carne de camelo à moda de Pequim.

Essas poucas imagens já bastam para dar uma ideia da espetacular aproximação entre os países, especialmente no campo econômico. Em 2009, a China passou os Estados Unidos como o maior comprador de petróleo da Arábia Saudita, com o equivalente a 11,3% de suas importações, contra apenas 4% em 2000. Em 2008, ela vendeu mais automóveis aos sauditas do que os americanos.

Daí a imaginar uma inversão na aliança, uma relação entre Pequim e Riad dispensando Washington, há uma boa distância. Alguns comentaristas insistem em suprimi-la rápido demais, segundo Raed Krimli, conselheiro do ministro dos Assuntos Estrangeiros: “As relações com a China nada têm a ver com nossas importantes relações estratégicas com os Estados Unidos, embora saibamos que elas despertam alguns temores em Washington”. Krimli observa, não sem alguma malícia, que muitas vezes é justamente a pedido do “amigo norte-americano” que Riad intercede junto a Pequim, como no caso do programa nuclear iraniano.

Essa prudência é compartilhada por John Sfakianakis, do Saudi Fransi Bank, que insiste no caráter puramente econômico das relações entre Pequim e Riad: “É verdade que a China está exportando mais para nós, mas ela está exportando mais para a maioria dos países1. Os sauditas também querem ter um pé na China. Essa relação será política quando a China decidir ter um papel político na região, coisa que até o momento não o fez”.

Em busca do petróleo

Ninguém contesta que o petróleo é o liame dessa aliança, selada no início dos anos 2000, momento em que o consumo do ouro negro estagnava nos Estados Unidos e na Europa e deslanchava na China. Riad queria garantir um mercado de longo prazo, e Pequim almejava a perenidade de seu abastecimento. As autoridades chinesas são peritas em tornear a linguagem diplomática, evocando o destino comum dos povos, a necessidade de coexistência e o caráter mutuamente vantajoso da cooperação.

Buscando reduzir sua dependência, Pequim não se contentou em fazer acordos comerciais com a Arábia Saudita, mas tratou de desenvolver investimentos cruzados na área dos hidrocarbonetos. Assim, a companhia nacional saudita de hidrocarbonetos, a Aramco, junto com a Exxon Mobil e a companhia chinesa Sinopec, instalou uma refinaria na província chinesa de Fujian com capacidade para 240 mil barris diários. Outra empresa saudita, a Saudi Basic Industries Corporation (Sabic), construiu um vasto complexo petroquímico que acaba de entrar em funcionamento em Tianjin. De sua parte, empresas chinesas fizeram investimentos na Arábia para construir complexos petroquímicos e, pela primeira vez, foram autorizadas a realizar a exploração de gás.

O petróleo e os produtos petroquímicos representam o essencial das exportações sauditas para a China, que por sua vez se afirma em segmentos cada vez mais diversos do mercado da Arábia: da instalação de linhas de trem de alta velocidade à construção de usinas de dessalinização, alumínio e cimento. Seus produtos baratos (tecidos, confecções, brinquedos) têm saída entre os trabalhadores imigrados e na parte mais pobre da população saudita; também há espaço para se estabelecer no mercado de produtos finais de maior valor agregado, como computadores, celulares e automóveis.

As empresas chinesas demonstram extrema agressividade nos mercados da construção civil e obras públicas, o que revela não somente a competitividade do país, mas também sua capacidade para tecer relações estreitas com aqueles que tomam as decisões no campo da política. E elas ainda contam com a vantagem de obter uma mão de obra de baixo custo diretamente importada – 40 mil pessoas, de acordo com a embaixada chinesa –, estando sempre disposta, segundo as palavras de um homem de negócios saudita, a assumir o compromisso de “entregar tudo para ontem”.

Mas há o outro lado da moeda. Em outubro, pela segunda vez em poucos meses, trabalhadores chineses do canteiro de obras do metrô de Meca (inaugurado em novembro) fizeram uma manifestação, quebrando vidros e automóveis – um espetáculo pouco habitual na cidade santa. Eles protestavam contra os baixos salários e as rigorosas condições de trabalho a 45° C2. Provavelmente, não agradaram muito as autoridades sauditas…

Apesar de tudo, em tempo recorde a China conseguiu abrir uma trilha que se estendeu para todo o Oriente Médio: entre 2004 e 2009, o comércio entre eles saltou de US$ 37 bilhões para US$ 110 bilhões. Desde 2004, reúnem-se regularmente em fóruns sino-árabes, com responsáveis políticos, homens de negócios ou representantes de sociedades civis. Os intercâmbios culturais intensificam-se: Pequim lançou uma versão em árabe de sua rede televisiva de notícias CCTV3; a agência Xinhua está presente em Riad e na maioria das capitais árabes; e a rede Al-Jazira tem escritório em Pequim. A imprensa evoca o renascimento da Rota da Seda que, até o século XV, constituía a mais importante via do comércio internacional, ligando os confins da China ao Mediterrâneo. Essa empolgação deve ser ponderada, e as analogias históricas não provam coisa alguma. O apogeu da Rota da Seda corresponde ao apogeu dos impérios asiáticos, que garantiam, inclusive militarmente, as vias de comunicação. Não é essa a situação atual.

Algumas coisas em comum

Por ora, a discrição de Pequim é um trunfo. O príncipe Turki Al-Faisal é ex-chefe do serviço secreto, que dirigiu durante a luta contra a presença soviética no Afeganistão. Tendo se tornado, segundo suas próprias palavras, “um simples cidadão”, ele é um dos raros membros da família real a dar entrevistas aos Estados Unidos e receber jornalistas: “Nossas relações com a China são menos complicadas que com os Estados Unidos. Ela não tem lobbies que pesam sobre a política; nós não somos reféns de suas diferenças internas.” Ex-embaixador em Washington, onde enfrentou as campanhas antissauditas após o 11 de Setembro, ele sabe do que está falando. Em muitas questões internacionais – como a de Darfur –, Riad e Pequim compartilham uma abordagem similar, um mesmo respeito pela soberania nacional e pela não ingerência, o mesmo desprezo irônico pela diplomacia ocidental dos direitos humanos, percebida como puramente oportunista.

Confiança não é algo que se decreta, e entre as duas capitais ela foi forjada por um evento fundador, um episódio improvável, que parece saído de um romance de espionagem. Fevereiro de 1985: a guerra entre Irã e Iraque estava a todo vapor. Bagdá atirava mísseis em cidades e instalações petroleiras de seu vizinho; a “guerra dos petroleiros” atingiu embarcações sauditas. Riad, que não economizava apoio ao regime de Saddam Hussein, inquietou-se. O rei Fahd abordou o presidente Ronald Reagan com o objetivo de adquirir mísseis para proteger os sauditas.

Mas o presidente norte-americano negou, temendo a reação de Israel4. A quem recorrer? “Nós poderíamos procurar Moscou ou Pequim”, explica Rihab Massud, secretário-geral adjunto do influente Conselho Nacional de Segurança. “Mas o presidente Reagan chamava a União Soviética de ‘Império do Mal’. Então, preferimos recorrer à China, com a qual nem tínhamos relações diplomáticas.”

Essa missão delicada e confidencial foi confiada ao príncipe Bandar, então embaixador do reino em Washington, onde conseguiu encontrar discretamente diplomatas chineses. Falsas delegações econômicas, verdadeiras missões militares, encontros secretos em hotéis de Hong Kong, longas conversas sobre os termos do contrato… Tudo isso acabou levando à compra, em dezembro de 1986, de 50 mísseis Dongfeng 3, com alcance de mais de três mil quilômetros e que teoricamente poderiam transportar ogivas nucleares.

No início de 1988, satélites norte-americanos descobriram os mísseis, e a imprensa do país propagou a ideia de que esses aparelhos, “carregando ogivas nucleares”, podiam atingir qualquer ponto do Oriente Médio. O governo israelense ameaçou bombardear as bases sauditas onde estavam os foguetes5. Furiosos por terem sido deixados de lado, os Estados Unidos ofereceram três opções à Arábia Saudita: o desmantelamento dos mísseis, a sua devolução à China ou a inspeção por militares norte-americanos. A crise teve seu ápice quando o embaixador norte-americano entregou ao rei o protesto oficial do país, despertando a ira do soberano e a expulsão do diplomata, gesto sem precedentes nas relações entre os dois países.

Mas a tempestade se acalmou. Em março de 1988, a China assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) para deixar claro que não tinha ambições nesse campo. Os sauditas nunca esquecerão que, em um momento crucial, a China esteve a seu lado. E Riad teve o reconhecimento de Pequim por recusar a inspeção de seus foguetes por Washington.

O acordo sobre os mísseis calçou a via para o estabelecimento, em 1990, de relações diplomáticas formais entre os dois países. Abdul Karim Yaquob, diretor-executivo das Câmaras de Comércio e da Indústria, observa que, na época, “os sauditas estavam muito conscientes de que era de seu interesse não serem vistos sempre como aliados do Ocidente. Uma abordagem mais equilibrada era necessária, e a China era, desse ponto de vista, uma boa escolha”.

Ajuda e admiração

Em 2006, quando chegou ao trono, o soberano saudita Abdallah viajou pela Ásia em sua primeira turnê oficial no estrangeiro. Esteve na China, Índia, Malásia e Paquistão – era a primeira vez que um chefe de Estado saudita desembarcava em Pequim. A visita foi minuciosamente preparada, incluindo o envio de delegações da sociedade civil (25 pessoas), sendo que cinco delas tinham ascendência chinesa. Em abril de 2006, o presidente Hu Jintao esteve em Riad por uma semana: ele participou – privilégio raro – do Conselho Consultivo e assinou diversos acordos, um deles prevendo a introdução da medicina chinesa no reino.

Professa-se em Riad, como confidencia um intelectual, “uma sólida admiração pela China, sua civilização, sua grande muralha, a organização da Olimpíada. Muitos sauditas querem aprender chinês. Enquanto a maioria odeia os Estados Unidos, o interesse pela China é reconfortante”. Contudo, é sabido que a recíproca não é verdadeira: “Os chineses não admiram o mundo árabe, porque somos fracos e porque uma parte da imagem que eles têm de nós vem do Ocidente”.

Riad não mede esforços para mudar sua imagem. Após o terremoto de Sichuan, em maio de 2008, o reino doou mais de 40 milhões de euros para ajudar os chineses. Na Exposição Universal de Xangai, a Arábia Saudita construiu um pavilhão imponente, que foi um dos mais visitados: um barco gigante, em forma de lua, com palmeiras plantadas no convés, uma espécie de jardim suspenso simbolizando os oásis do deserto – mais uma referência à Rota da Seda.

Mas essa rota tem mil e uma armadilhas, das quais ambas as partes tentam escapar. A questão nuclear iraniana não é a menor delas. Há muitos anos, a China tem relações consolidadas com o Irã (seu terceiro maior fornecedor de petróleo); ela vende armas ao país e tem com ele um comércio dinâmico em todos os setores – em 2009, os números chegaram a US$ 30 bilhões, devendo chegar a US$ 50 bilhões em 2015. É por isso que Pequim mostra-se reticente no que diz respeito a qualquer extensão de sanções contra Teerã. Mas fontes diplomáticas sauditas confirmam: seu país deu garantias à China em caso de suspensão das entregas do petróleo iraniano.

O temor saudita em relação ao acesso do Irã ao material nuclear liga-se, em essência, a uma razão raramente evocada: as consequências desse salto sobre as relações entre Arábia Saudita e Estados Unidos. Washington não tentaria chegar a uma aliança com um Irã nuclear, em detrimento dos árabes? “Preocupa-nos a ideia de que nossos interesses possam ser esquecidos pelo Irã e pelos Estados Unidos”, revela o príncipe Turki Al-Faisal.

Essas peripécias não afetaram muito as relações entre Pequim e Riad, mas reforçaram a prudência da China quanto a se implicar na região. Vai longe o tempo em que o país apoiava movimentos revolucionários em todo o Terceiro Mundo, principalmente no Oriente Médio. Quem lembra que a China foi o primeiro país, junto com a Argélia, a ajudar o Fatah de Yasser Arafat? Agora ela atém-se a declarações apaziguadoras e abstém-se de qualquer envolvimento maior no conflito árabe-israelense.

Em dezembro de 2008, a China anunciou o envio de suas primeiras embarcações de guerra à Costa da Somália para proteger seus navios, o abastecimento de petróleo e as exportações para o Mediterrâneo pelo canal de Suez. Em março de 2010, dois de seus barcos ancoravam no porto Zayed, em Abu Dhabi. A imprensa da região destacou que era a primeira vez desde o século XV que embarcações chinesas navegavam no Oceano Índico. Na época, o almirante Zheng He, um chinês muçulmano, conduzia a frota do imperador e navegou nos mares de 1405 a 1433, chegando a Ormuz, ao mar Vermelho e à Costa oriental da África. De acordo com hipóteses ainda em aberto, ele teria realizado até a circunavegação da África e se aventurado nas Antilhas6. Recordando tais episódios, um intelectual saudita não esconderia seu desejo de voltar a essa idade de ouro chinesa, que permitiria a seu país escapar do cara a cara compulsório com Washington.

Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).



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