Coletivismo e populismo na era dos antivacinas - Le Monde Diplomatique

Negacionismo

Coletivismo e populismo na era dos antivacinas

por Paulo Boggio e Carolina Botelho
28 de outubro de 2020
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Neste artigo, discutimos como fundamentos morais podem influenciar na aderência à vacinação e como as campanhas de vacinação podem melhorar sua comunicação. Essa discussão será ilustrada com o cenário brasileiro atual uma vez que trata-se de um dos países que lidera mundialmente em número de casos e de óbitos pela Covid-19

No meio da maior pandemia de nossa geração, muitos estão trabalhando intensamente para descobrir uma vacina. Apenas com vacinação em massa será possível atingirmos a chamada imunidade coletiva. No entanto, algumas pessoas argumentam que os indivíduos devem ter liberdade para decidir se querem ou não ser vacinados. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro disse: “ninguém pode obrigar ninguém a tomar a vacina” e a secretaria de comunicação de seu governo publicou propaganda com os dizeres “o governo do Brasil preza pelas liberdades dos brasileiros”. Infelizmente, a mensagem do presidente encontra ressonância em boa parte da população. Estudo de Amin, Bednarczyk, Melchiori, Graham, Huntsinger e Omer (2017) mostrou que liberdade é um fundamento moral altamente valorizado em pessoas com perspectiva antivacina. Neste artigo, discutimos como fundamentos morais podem influenciar na aderência à vacinação e como as campanhas de vacinação podem melhorar sua comunicação. Essa discussão será ilustrada com o cenário brasileiro atual uma vez que trata-se de um dos países que lidera mundialmente em número de casos e de óbitos pela Covid-19.

O discurso contrário a obrigatoriedade da vacina usa a liberdade individual como argumento. (Crédito: Unsplash)

Depois de passar meses negando a gravidade da Covid-19 e de anunciar e mandar produzir com recursos públicos uma medicação testada e comprovadamente ineficaz contra a doença, o presidente Jair Bolsonaro dá início estrategicamente a uma nova polêmica: a liberdade estaria acima da vacinação. Utilizamos a palavra estratégia, pois toda e qualquer ação ou fala por parte de uma autoridade oficial tem caráter público, portanto, interessada em passar algum tipo de mensagem pública.

Essa mensagem começa a ecoar e a ganhar fôlego no debate público no Brasil. Um dos elementos centrais da mensagem é a ideia de preservação e garantia da liberdade individual. A preocupação com a liberdade não é exclusiva dos brasileiros. Na verdade, essas ideias não partiram daqui. Elas fazem parte de um processo que ocorre em várias partes do mundo e desafiam as sociedade modernas baseadas em conhecimento científico. Esse tipo de pensamento repousa em um ideário dos chamados anti vax, grupos contrários à vacinação em massa da população. Entre outros motivos que não serão abordados neste texto, há, especialmente, o pressuposto segundo o qual grupos de indivíduos podem negar serem vacinados em razão de acreditarem que a imunização compulsória restringiria suas liberdades individuais. Afinal, quem gostaria de ter sua liberdade tolhida?

Em 2017, os pesquisadores Amin, Bednarczyk, Melchiori, Graham, Huntsinger e Omer captaram essa relação entre pessoas contrárias à vacinação em massa e a maior preocupação com liberdade (e pureza). Os autores partiram do modelo de fundamentos morais de Graham e Haidt que descreve a moral sob os seguintes aspectos: Cuidado, Liberdade, Autoridade, Pureza, Justiça e Lealdade. Em geral, tendemos a pensar que justiça e cuidado seriam fundamentos morais que pautariam as decisões das pessoas em direção a um maior apoio à vacinação da população. Com isso, muitas campanhas fazem uso de mensagem sobre o cuidado com a saúde e a proteção de todos. No entanto, o que esse estudo captou é que os fundamentos de liberdade e de pureza pesam muito mais nas escolhas. Alguns políticos parecem também ter captado essa ideia.

Quando ouvimos de autoridades do  governo brasileiro, como o próprio presidente e seu vice, frases como “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina” e “não há como o governo — a não ser que nós vivêssemos numa ditadura — obrigar todos a se vacinar”, mostra que estas lideranças enxergaram um terreno fértil para um novo empreendimento populista. Mas por que chamar de populismo argumentos que defendem a liberdade? Porque simplesmente esse tipo de argumento parte de uma premissa falsa e pode trazer graves consequências. Esse tipo de pronunciamento público de lideranças nacionais legitimam o comportamento individualista utilizando a falsa premissa de liberdade individual, quando na verdade a liberdade coletividade sofre cerceamento e riscos. A sobreposição do indivíduo sobre a coletividade implica no frágil controle das doenças – vide o reaparecimento de doenças que a humanidade já havia erradicado. São os esforços coletivos que garantirão o pleno exercício da liberdade.

Esforços coletivos podem ser vistos mundo afora. Burocracias e governos têm sido organizados de maneira a diminuir os danos causados por doenças infecciosas. Há pouco, a Organização Mundial de Saúde anunciou a erradicação da poliomielite em Angola. Uma excelente conquista para a humanidade. Assim como o exemplo angolano, o mundo tem experimentado políticas públicas orientadas a reduzir doenças e os danos das mesmas sobre suas populações. Todo este esforço revela a ação de governos para prover políticas de saúde às populações. No caso do novo coronavírus, após mais de 6 meses de convivência com o vírus e de muitas consequências negativas de sua propagação sobre as populações mundiais, diversos centros de pesquisa do mundo têm anunciado respostas bem-sucedidas no desenvolvimento de vacinas capazes de contê-lo, tornando possível que logo uma ou algumas apareçam em breve. Governos e autoridades sanitárias nacionais e internacionais, por sua vez, se organizam para viabilizar a distribuição dos imunizantes em escala global, tendo em vista a possibilidade de sucesso das pesquisas. É esse esforço global e coletivo que permitirá sairmos dessa pandemia.

Há uma extensa literatura que aborda a emergência de políticas de saúde nas sociedades modernas. O sociólogo Abram de Swaan desenvolveu importante pesquisa na qual tratou da produção de bens coletivos em diferentes países da Europa e nos Estados Unidos. As epidemias teriam, em seus achados, espaços privilegiados para que elites se organizassem em prol da coletivização de serviços voltados ao combate ao vírus. O raciocínio é simples: com receio de serem afetadas com a contaminação, e consequentemente terem negócios prejudicados e em última instância, ficarem doentes, os diversos grupos de elites se juntam financeiramente e estruturalmente para trazer a solução para todos, incluindo, é claro, eles próprios. Estamos observando isso ocorrer no mundo. Em muitas e muitas décadas da história, não vemos tantos grupos, tantas instituições e nações se empenharem para encontrar o imunizante que combata a Covid-19.

Desde que apareceu pela primeira vez na cidade de Wuhan, na China, o vírus da Covid-19 logo se tornou pandêmico devido sua capacidade de transmissão. Até então desconhecido, o vírus percorreu todo o globo em menos de quatro meses, deixando um rastro de problemas nos sistemas de saúde, na economia e na política de diversas nações. O vírus tem causado problemas em quase todos os países atingidos e ano de 2020 tem sido um desafio de enormes proporções para lideranças nacionais que buscam saídas para o combate à epidemia. Os principais problemas encontrados foi a queda acentuada do PIB dos países, aumento do desemprego, crescimento do gasto governamental e pressão histórica nos sistemas de saúde públicos e privados. Entretanto, os países cujas respostas governamentais à epidemia foram rápidas apresentaram menores danos e menos gravidade do que aqueles com resposta lenta ou que negaram a gravidade do vírus. Estes últimos não só tornaram a crise pior, como também sofrem as consequências por muito mais tempo.

O Brasil está entre os primeiros países com maior quantidade de mortos. E ainda não acabou. Nosso PIB decresceu 10% e pela primeira vez na história e temos mais de 50% da força de trabalho formal e informal desempregada. Além disso, em quase seis meses de epidemia sem controle, atingimos a triste e inacabada marca de mais de 132 mil mortos. Após meses de média de mortes diárias em torno de mil pessoas, só agora se observa alguma redução compatível à desaceleração da contaminação.

O quadro inédito da Covid-19 no Brasil somado às falas de autoridades públicas como o presidente e seu vice mostram um quadro grave no país, o de que a doença em si não é o único obstáculo a ser vencido por governos e nações, há um desafio de natureza comportamental que vem ganhando fôlego ano a ano. Sendo assim, a discussão sobre vacinação merece ser ampliada para além das dimensões epidemiológica e sanitária, mas também daquelas relativas aos valores sociais e culturais. A própria Constituição Republicana brasileira diz que sobre a obrigatoriedade do ente público de vacinar a população. Diz no texto: “A Lei Nº 13.979, de 06/02/2020 Art. 3º Para enfrentamento da emergência(…) as autoridades poderão adotar (…): III-determinação de realização compulsória de: d) vacinação e outras medidas profiláticas”. A lei está correta porque estabelece a proteção da coletividade sobre os ímpetos individualistas que existem nas sociedades. Sendo assim, a lei garantiria um equilíbrio e a saúde de toda população. A liberdade só é garantida com o exercício da coletividade.



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