Como a direita norte-americana desviou a cólera popular - Le Monde Diplomatique

ESTADOS UNIDOS

Como a direita norte-americana desviou a cólera popular

por Thomas Frank
4 de janeiro de 2012
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Impotente diante do desemprego e da escalada da dívida pública, Obama chega enfraquecido ao final de seu mandato. Conservadores, bem posicionados para vencer as eleições em 2012, lutam para encontrar um candidato confiável. Mas já estão conseguindo fazer o povo se esquecer do desastre ideológico que a crise significouThomas Frank

Um candidato, James Richard (“Rick”) Perry, é incapaz de se lembrar do nome dos ministérios que pretende suprimir. Outro, Herman Cain, parece ignorar completamente a estratégia norte-americana na Líbia.1 Um terceiro, Newton Gingrich, não hesita em qualificar o povo palestino de “invenção”. O espetáculo oferecido pelo Partido Republicano em sua busca por um candidato suficientemente “autêntico” para satisfazer sua base eleitoral parece às vezes um lento suicídio.

Mas estaríamos enganados se pronunciássemos a oração fúnebre dos conservadores norte-americanos. É cedo demais. Por muitas vezes eles demonstraram capacidade de sacudir a poeira e se levantar. Derrubados pelo fracasso flagrante da ideologia neoliberal depois do naufrágio da Bolsa de 2008, eles pareciam estar com o pé na cova. Dois anos depois, nas eleições de meio de mandato, eles ganharam a Câmara dos Representantes. E o fizeram sem manifestar o menor recuo ideológico e com entusiasmo redobrado na defesa dos princípios que conduziram o mundo para a beira do abismo.

Essa radicalização em resposta a uma crise do capitalismo constitui um evento único na história norte-americana. O clima político de 2008 não permitia vislumbrar nada de bom para os conservadores. Na época, os comentaristas não tinham dúvidas: a nação ia entrar numa nova via. Desde abril, o jornalista Sidney Blumenthal predizia a “morte da América republicana”.2 Um ano depois, outro analista político, Stuart Rothenberg, prognosticava: “As chances de que os republicanos ganhem o controle de uma das duas câmaras em 2010 são iguais a zero. Não próximas de zero. Não poucas ou fracas. Zero”.3

Pois, em regra geral, o “roteiro dos tempos difíceis” parece com o dos anos 1930: os mercados despencam, as demissões explodem, os confiscos começam. E depois as pessoas descem às ruas, angustiadas, desesperadas, revoltadas; elas pedem ao Estado que aja, que puna os culpados, que socorra as vítimas.

De seu lado, os conservadores entram em pânico e temem uma revolução. Eles veem no menor sinal de contestação uma ameaça comunista: “O New Deal tenta impor na América um governo totalitário”,4 exagerava em 1936 Jouett Shouse, presidente da American Liberty League5 e antigo deputado do Kansas. Mas naquela altura a bandeira vermelha do totalitarismo se mostrava ineficaz: graças ao apoio maciço de operários, camponeses e pequenos trabalhadores, o presidente democrata Franklin D. Roosevelt foi reeleito em 1936, com mais de 61% dos votos. A partir de 1937, os democratas ocuparam três quartos das cadeiras da Câmara dos Representantes.

O paralelo com os anos 1930 – e o bom senso! – sugeririam que o crash de 2008 iria dar início ao script habitual. Foi o que aconteceu num primeiro momento, em que os republicanos perderam a Casa Branca. Em seguida, os democratas aumentaram o salário mínimo, criaram uma comissão de investigação sobre a crise financeira e adotaram um plano de incentivo de US$ 787 bilhões. O presidente Barack Obama fez que se votasse uma lei em favor do seguro de saúde universal. Todo mundo comparava o período com o da Grande Depressão e identificava as políticas de Obama com o “New Deal verde”.6 Depois, as coisas tomaram outro rumo…

Charles Koch, magnata da indústria petrolífera e influente financiador de organizações libertárias, foi um dos primeiros a fazer soar o alarme, em janeiro de 2009: “Confrontados à maior perda de liberdade e de prosperidade desde os anos 1930”, cometemos “os mesmos erros” que nossos antepassados, analisou ele.7

Provocando agitação com a ameaça de um aumento dos impostos, a revista Forbespreveniu seus leitores afortunados: “O Tio Sam quer seu dinheiro e, atrás da porta, a multidão quer sua cabeça”.8 De fato, em março de 2009, a cólera popular atingiu seu ápice: os dirigentes do American International Group (AIG), um supermercado das finanças socorrido pelo Estado, acabavam de anunciar bônus enormes (US$ 165 milhões) para o serviço que tinha inventado os derivativos que provocaram a falência da empresa. O desgosto da população foi vulcânico: no dia 18 de março a Bloomberg Businessweekconstatou que “os norte-americanos querem ver cabeças rolar”. Em abril, o próprio Obama advertiu os banqueiros de Wall Street: “Minha administração é a única proteção entre vocês e os revoltosos”.9

No entanto, os republicanos conseguiram se restabelecer e ganharam triunfalmente as eleições legislativas de novembro de 2010. Como? Desviando o descontentamento popular de Wall Street para Washington e transformando a cólera contra os banqueiros em revolta contra o Estado e os impostos. Por muito tempo, os sucessos da direita foram imputados às mistificações da “cultura da guerra” (culture war). Dos anos 1970 aos mandatos de George W. Bush, as grandes questões econômicas não eram tratadas em praça pública: elas eram resolvidas em Washington, com um grande consenso entre os dois partidos. Durante esse período, o debate público focalizava o aborto, a imigração ou até a teoria da evolução.

 

A doutrina do mau vizinho

O retorno conservador, em 2009, é de uma natureza muito diferente. A direita quer agora debater publicamente a economia. A névoa da cultura da guerra parece – temporariamente – dissipada. No fórum de discussões on-line dos “Patriotas do Tea Party”, uma das principais organizações da direita revigorada, “as discussões sobre os assuntos sociais não estão autorizadas”. Os participantes devem se limitar às seguintes temáticas: “A diminuição do Estado, o rigor orçamentário e o livre-comércio”. No entanto, o “Contrato com a América”, publicado pelo Partido Republicano em 2010, não menciona nenhum dos temas que constituem o coração das polêmicas das décadas precedentes.

A direita não renunciou às virtudes da mistificação. Ao contrário: ela conseguiu defender o modelo capitalista, mas sem evocar o capitalismo real, os créditos subprime ou a desregulação. Como repetem sem parar seus porta-vozes, o problema é a liberdade, mandada às favas por um plano de resgate com tônica socialista.

O chamado às armas vem de uma disputa, difundida pela televisão, entre o jornalista Rick Santelli e os membros da Câmara do Comércio de Chicago. Santelli já tinha criticado aspectos do plano de resgate em curso nos meses precedentes; mas, em 19 de fevereiro de 2009, diante dos ouvidos da nação, sua cólera visava a um dispositivo preciso: o que previa ajudar os proprietários endividados a modificar os termos de seus empréstimos, a fim de tornar suas mensalidades mais abordáveis e assim prevenir os confiscos. É a única parte do plano de resgate que devia beneficiar diretamente os devedores individuais, e não os agentes institucionais. Segundo Santelli, essas medidas “encorajam os maus comportamentos” ao “subvencionar os créditos dos perdedores” com dinheiro público. Ora, “quem aceitaria pagar os créditos de um vizinho que tem um banheiro que é uma verdadeira sala de banho, mas que não é capaz de acertar suas contas?”. A crítica provocou muito barulho, e os conservadores aproveitaram a oportunidade para redefinir os termos do debate.

“Deixemos os perdedores falir”, clama o Tea Party. Esse slogan, que aparece durante as reuniões republicanas, constitui a chave do sucesso da direita. Dos bancos ao vizinho de Santelli que dilapida seu dinheiro, que todos declarem falência!

Num capítulo do “Manifesto do Tea Party”, Richard Armey e Matthew Kibbe escrevem: “Muitos entre nós sabíamos instintivamente que o plano de resgate era uma coisa ruim. Para que o capitalismo funcione, entendíamos que era preciso ser capaz de manter os lucros ao abrigo dos riscos, mas também aceitar a possibilidade de perder o investimento. Todos temos um vizinho, todos ouvimos falar de alguém que vive acima de seus meios, durante tempo demais. E nos perguntamos por que somos obrigados a pagar por ele”. São esses “ajudados” que devem ir à falência; em geral indivíduos, raramente transnacionais.

 

Uma máscara para os privilégios

A ideologia empresarial tem um papel determinante no retorno conservador. Os membros do Tea Party falam de “núcleo de competência” para descrever seu ativismo, de “empresários políticos” para designar os dirigentes, de “compradores precoces” para nomear os militantes de base.10 A figura do pequeno empresário é constantemente valorizada. Don Crist, um dos ideólogos do movimento, autor de uma brochura intitulada What can I do? After the Tea Party[O que posso fazer? Depois do Tea Party], apresenta-se como um “consultor para pequenas empresas”; enquanto Jim DeMint, senador da Carolina do Norte, explica a seus seguidores que suas convicções anti-Estado foram forjadas por sua experiência de “pequeno empresário”.11 Em campanha para levar a cadeira de senador do Illinois, em novembro de 2010, o republicano Mark Kirk propunha, por sua vez, promulgar uma “Declaração dos Direitos das Pequenas Empresas”. Segundo um estudo do New York Timessobre as eleições de meio de mandato de 2010, 40% dos novos eleitos republicanos na Câmara dos Representantes são pequenos empresários.12

“Não é o Estado que cria os empregos, é você!”, lançava Nan Hayworth, deputada de Nova York, para os chefes de empresa de sua circunscrição.13 Foi esse tipo de discurso que permitiu que a direita escapasse do “roteiro dos tempos difíceis”. Pois, nos Estados Unidos, o pequeno empresário é tradicionalmente rodeado das virtudes do heroísmo. Assim como o fazendeiro no passado, ele é visto como sagrado; ele é o individualismo encarnado, o corajoso combatente que desde sempre permite que a economia norte-americana prospere.

Em 1983, num discurso celebrando a “Semana da Pequena Empresa”, o presidente Ronald Reagan era lírico: “Todas as semanas deveriam ser a da pequena empresa, porque a América é a pequena empresa […]. Os empresários são heróis esquecidos”; eles são os “fiéis que ajudam nossas igrejas, nossas escolas, nossas comunidades”.14 O renascimento conservador desses últimos anos tornou-se possível graças à hostilidade histórica dos pequenos empresários contra os bancos, essas instituições “grandes demais para falir” que sugam o dinheiro dos contribuintes.

Mas essa hostilidade não se traduz em uma demanda de regulação. Ao contrário: “A maior parte dos membros do Tea Party que encontrei são pequenos comerciantes”, conta o jornalista Matt Taibbi. “Eles têm lojas de material de informática ou restaurantes e entendem a regulação como a vinda de um inspetor de higiene que viria incomodá-los e lhes daria multas por besteiras. Essa é a experiência de regulação que têm. Então, quando eles pensam em JP Morgan, Chase, Goldman Sachs, a ideia de regular esses bancos para eles é a mesma coisa.”15 E o Partido Republicano encoraja a confusão entre esses dois tipos de prática.

O pequeno empresário encarna o rosto do conservadorismo porque seu mau humor contra as transnacionais e seus equivalentes políticos se casa com a tendência atual. Isso não impede que os parlamentares republicanos eleitos continuem oferecendo favores a eles, opondo-se ao aumento dos impostos para os mais ricos ou pedindo a diminuição do orçamento dos serviços sociais.

Nos anos 1950, o sociólogo Charles W. Mills observava que o “fetichismo do pequeno empresário norte-americano” não vinha de seus sucessos econômicos, mas da “utilidade de sua imagem para os interesses políticos dos patrões mais poderosos”. O pequeno empresário “se tornou o homem que faz que a utopia capitalista seja sedutora”.16

Os impostos sobre a herança devem então ser suprimidos não porque desagradam aos ricos, mas porque ameaçam as famílias de agricultores; é preciso conservar as reduções de impostos decididas por Bush, pois as pequenas empresas afundariam sem elas; a desregulamentação dos bancos tinha por objetivo ajudar os pequenos comerciantes a obter créditos; o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) constitui antes de tudo uma boa ocasião para os pequenos começos… Um dia, sem dúvida, vão concluir que não há diferença entre os interesses dos banqueiros e os do Sr. Todo Mundo.

Thomas Frank, jornalista, autor de Pourquoi les pauvres votent à droite. Comment les conservateurs ont gagné le coeur des Etats-Unis (et celui des autres pays riches) [Por que os pobres votam na direita. Como os conservadores ganharam o coração dos Estados Unidos (e o dos outros países ricos), Agone, Marselha, 2008. Acaba de publicar Pity the billionaire: the hard-times swindle and the unlikely comeback of the right [Pobre bilionário: o embuste dos tempos difíceis e o improvável retorno da direita], Metropolitan Books, Nova York, 2012.



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