Como a infância sem acesso gera adultos despreparados
Cortar livros é cortar oportunidades, é empobrecer o repertório cultural, científico e social de milhões de crianças
Em um país onde se espera que a educação seja a chave para o futuro, o presente revela barreiras cada vez mais difíceis de transpor. A recente decisão do Ministério da Educação (MEC) de restringir a compra de livros didáticos para o ensino fundamental a apenas duas disciplinas, português e matemática, acende uma realidade preocupante: a dificuldade progressiva do sistema educacional brasileiro, que começa nos primeiros anos escolares e reverbera até a universidade.
A notícia, publicada no dia 21 de julho, informa que crianças do 1º ao 5º ano da rede pública federal receberão, a partir de 2026, somente os materiais dessas duas áreas. O corte, motivado pela falta de verbas, deixa de fora livros essenciais de ciências naturais e biológicas, história, geografia e outras disciplinas fundamentais para a formação de um pensamento crítico e interdisciplinar.
Trata-se de um retrocesso pedagógico preocupante e não é um exagero. Essa medida reduz o escopo do aprendizado infantil, concentra o ensino em áreas instrumentais e ignora que a educação de qualidade é, por natureza, ampla, plural e integrada. Cortar livros é cortar oportunidades, é empobrecer o repertório cultural, científico e social de milhões de crianças.
As consequências desse desmonte não param na infância. Elas se acumulam e explodem mais adiante, logo ali nos exames que levam as universidades. Chegamos, assim, a um dos sintomas mais alarmantes da crise educacional brasileira: a defasagem com que os alunos ingressam no ensino médio e, posteriormente, na universidade.
Diversos indicadores apontam uma realidade alarmante: no ensino superior, aproximadamente 38% dos estudantes não dominam habilidades básicas de leitura e escrita, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), realizado pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa e 50% dos estudantes de 15 anos (início do ensino médio) estavam abaixo do nível 2 em leitura, o nível considerado mínimo para exercer a cidadania plena.

Os cursos de graduação, que deveriam aprofundar e especializar conhecimentos, acabam assumindo funções de reforço escolar. Professores universitários se veem obrigados a retomar conteúdos básicos, prejudicando o andamento curricular e afetando diretamente a qualidade da formação acadêmica. Isso ocorre quando os alunos da rede pública conseguem uma oportunidade de ingressar na universidade e não são barrados já nos exames vestibulares.
Não é raro encontrar, em faculdades públicas e privadas, alunos com dificuldades para interpretar textos, escrever com coesão ou resolver problemas simples. A raiz dessa defasagem está no ensino fundamental, mais especificamente, em sua fragilidade estrutural. E agora, diante de uma política de cortes que atinge diretamente o acesso aos materiais didáticos, a situação tende a se agravar ainda mais, reforçando, sem exageros.
O impacto é maior nas camadas mais vulneráveis da população, onde a escola pública é, muitas vezes, a única chance real de transformação social. Sem livros, sem estímulo, sem horizontes, o ciclo da desigualdade se perpetua. O jovem periférico que ingressa no ensino superior já o faz em desvantagem e essa impraticabilidade começa com a ausência de um livro na infância.
É preciso compreender que educação se faz com conhecimento contínuo. O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que por décadas garantiu o mínimo de equidade no acesso ao conhecimento, está sendo esvaziado. O risco é institucionalizar uma educação de dois pesos e duas medidas: aquela que forma cidadãos plenos e aquela que apenas “diploma” sem transformar.
Se o Brasil quiser, de fato, se tornar um país desenvolvido, precisa começar pelo começo. Valorizar a educação fundamental é valorizar o futuro de nossas universidades, de nosso mercado de trabalho e, sobretudo, de nossa economia. A escola precisa voltar a ser um lugar de possibilidades, de esperança, de transformação e de resgate da dignidade e isso começa com o direito básico de todo aluno: o acesso irrestrito ao conhecimento.
Rodrigo Bouyer é docente, avaliador do INEP e VP de RelGov da Somos Young.

