O homem lata: como a educação transforma gente em capital humano

ENSINAR NÃO É TRANSFERIR CONHECIMENTO

O homem lata: como a educação transforma gente em capital humano

por Raphael Silva Fagundes
dezembro 5, 2017
Imagem por JD Hancock
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A educação escolar está submetida a propósitos intencionais, a uma doutrinação ideológica que está interessada em formar “homens latas” úteis para a reprodução das relações de produção capitalista

A velha escola era a escola do estudo livresco, obrigava as pessoas a assimilar uma quantidade de conhecimentos inúteis, supérfluos, mortos, que atulhavam a cabeça e transformavam a jovem geração num exército de funcionários talhados todos pela mesma medida.
Vladimir Lenin

 

Eu poderia estar contando a história do personagem do conto do Mágico de Oz, ou alguma de ficção científica, mas é de educação que trata este artigo.

Há um grande interesse das classes dominantes em manter a educação em seu modelo tradicional desde a consolidação do capitalismo. Uma educação que tem como objetivo transformar pessoas em capital humano, de modo que “será mais fácil, para conseguir seus objetivos, ver o homem como uma ‘lata’ vazia que vão enchendo com seus ‘depósitos’ técnicos”.[1]

Roberto Leher mostra que essa visão é legitimada por prêmios Nobel (Friedman, Schultz e Becker), por intelectuais coletivos do capital como o Banco Mundial, a OCDE, Fundação Ford, a Open Society Foundation de George Soros etc., e por entidades empresariais. O objetivo é “converter o conhecimento e a formação humana em ‘capital humano’”.[2] Em um mundo em que a tecnologia vem avançando, homens que pensam cada vez menos estão sendo programados para construir máquinas que pensam cada vez mais.

Neste contexto, o ódio a Paulo Freire passa a ter sentido. A sua proposta de educação libertária, que compreende o ser humano em sua totalidade, produtor de uma consciência crítica, acaba se tornando um óbice para esse mercado que comercializa seres humanos. A educação proposta pelo mercado é exatamente aquela que tem o objetivo de transformar o aluno em um objeto, um investimento que irá se adaptar à cadência da produção capitalista. O homem deve ser domesticado, doutrinado, embrutecido. O educando passa a ser um depósito de informações úteis para resolver os problemas técnicos, sendo incapaz de criar: “perde assim seu poder de criar, se faz menos homem, é uma peça”,[3] conclui Paulo Freire.

Educa-se para ser individualista, para cultivar o particular, a autoconservação. Para se resolver a própria vida, ou para se ter uma noção de um eu que não se vê como parte de um todo. A educação passa a servir apenas para o indivíduo internalizar as normas que guiarão a sua vida prática.[4] Tem que estudar para arrumar um emprego! Contudo, para uma educação libertadora, o emprego deveria ser apenas um dos elementos e não o único objetivo da educação.

Mas essa pedagogia encabeçada pelas corporações não se baseia em conceitos arcaicos. Ela criou uma roupagem pós-moderna. Adotando um psicologismo exacerbado e destemperado, a Pedagogia Nova tem como objetivo fazer a criança agir, mas não se preocupa tanto com o que ela está aprendendo. O professor tem sua função enfraquecida, assim como o conhecimento e o intelecto, úteis para a reflexão. A liberdade é dada através de uma experiência imediata. Nesse sistema, o indivíduo fica incapaz de escolher porque não teve a compreensão das necessidades históricas.[5]

Essa educação forma indivíduos, não só para o processo produtivo, mas também para o consumo. Daí o bum de uma cultura infantilizada comercializada no cinema e nas redes sociais, onde pais e filhos são consumidores com o mesmo nível mental de reflexão.

O que é dado hoje na escola pública, principalmente na educação básica, “está limitado a livros didáticos e, cada vez mais, a apostilas elaboradas por corporações que, no lugar de conhecimentos científicos, veicula os referidos descritores de competências” aos interesses empresariais. Os diretores passam a ser gestores que adotam o léxico da administração: metas, eficiência, qualidade total etc. “As escolas e os professores tornaram-se reféns de índices que esvaziam o sentido público da escola, reduzem o que é dado a pensar (competências em português e matemática, desconsiderando as demais dimensões da formação humana)”, coloca Leher.[6]

Eugenio Hansen, OFS

A consciência ingênua

O interesse de menosprezar Paulo Freire pelo projeto conservador “Escola Sem Partido” faz parte de um plano de poder que vem se desenrolando desde o período militar. Menosprezo que os governos neoliberais do PSDB e do PT ajudaram a revitalizar. O tipo de cultura que sempre esteve vigente é a voltada para a massificação do ser humano. Dessa forma, para se construir produtores e consumidores em potencial desse tipo de cultura é necessário apenas uma consciência ingênua. A existência de ilhas de criticidade acaba sendo importante nesse mundo, mas revela claramente a concentração do saber em poucas mãos.

Paulo Freire destaca que sem o objetivo de desenvolver uma consciência crítica nas pessoas pode até haver um desenvolvimento industrial e tecnológico, mas a consciência torna-se fanática. Cria-se um homem massificado. O autor, partindo desse raciocínio, enumera o que vem a ser uma consciência ingênua e, sem dúvida, exatamente um tipo de ser desejado pela direita conservadora idealizada por Olavo de Carvalho, Bolsonaro e MBL.

Esse ser apoia-se em “um simplismo, na interpretação dos problemas, isto é, encara um desafio de maneira simplista”. Conclusões apressadas e superficiais. Está mais apto ao fanatismo e a “considerar que o passado foi melhor”. Subestima o homem simples. “É impermeável à investigação. Satisfaz-se com as experiências. Toda concepção científica para ele é um jogo de palavras. Suas explicações são mágicas.” Esse último ponto explica porque muitos dos seguidores de Jair Bolsonaro o chamam de mito.

O detentor de uma consciência ingênua “pretende ganhar a discussão com argumentações frágeis. É polêmico, não pretende esclarecer. Sua discussão é feita mais de emocionalidades que de criticidades; não procura a verdade; trata de impô-la e procurar meios históricos para convencer com suas ideias. É curioso ver como os ouvintes se deixam levar pela manha, pelos gestos e pelo palavreado. Trata de brigar mais, para ganhar mais”.[7] Esses elementos apontados por Paulo Freire é um prato cheio para que aqueles que almejam formar uma massa consumidora, de uma cultura de baixa reflexão e de reprodução fácil, o abominem.

É possível encontrarmos hoje um professor que saiba repetir exatamente os aspectos de uma educação crítica formulada por Paulo Freire, mas que em sala de aula é apenas um depositor. E (o que é mais bizarro) um professor que saiba de tudo isso e seja fiel à extrema direita. Prova de que as propostas de Freire nunca conseguiram ganhar espaço aqui no Brasil a não ser em termos ideológicos. A sua praticidade seria uma afronta aos interesses dominantes, um combustível para a democratização das lutas sociais, o que pode pôr em risco a estrutura tradicional.

 

Conclusão

A educação escolar está submetida a propósitos intencionais, a uma doutrinação ideológica que está interessada em formar “homens latas” úteis para a reprodução das relações de produção capitalista. Para romper com essa doutrinação, é preciso que o professor conceba a didática como um processo de ensino embasado em uma teoria da educação crítica capaz de formular diretrizes orientadoras da sua atividade.

Também é imprescindível um diálogo da educação com os movimentos sociais empenhados “na produção autônoma de conhecimento original, capaz de criticar os fundamentos da vida capitalista e apontar alternativas para além da sociedade do capital”.[8] Somente assim os trabalhadores terão acesso a uma educação que abrange o conjunto da existência e das potencialidades humanas: científica, artística, tecnológica, histórico-cultural, filosófica etc. e não atulhar um conhecimento inútil para a sua emancipação.

 

*Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

[1] Paulo Freire. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p.23.

[2] Roberto Leher. Organização, estratégia política e o Plano Nacional de Educação, 2014.

[3] Paulo Freire, op. cit., p.38.

[4] Zygmunt Bauman. Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p.79.

[5] Regina Lopes. Concepções pedagógicas e emancipação humana: um estudo crítico. Selma Garrido Pimenta (org.). Saberes pedagógicos e atividade docente. 5ed. São Paulo: Cortez, 2007, p.78.

[6] Roberto Leher, op. cit., p.4.

[7] Paulo Freire, op. cit., p.40.

[8] Roberto Leher, op. cit., 20.



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