Como está surgindo o neotalebã - Le Monde Diplomatique

FUNDAMENTALISMO

Como está surgindo o neotalebã

por Syed Saleem Shahzad
1 de outubro de 2008
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No Paquistão e Afeganistão articula-se uma convergência letal entre os que têm acesso à ideologia da Al Qaeda e grupos islâmicos com formação militar. Por que isso é o triste resultado da ofensiva anti-islâmica dos EUASyed Saleem Shahzad

A partir de 2003, a guerra travada pelo Estado paquistanês contra organizações muçulmanas na região da Caxemira provocou a evasão de muitos combatentes islâmicos. Perseguidos, os combatentes islâmicos migraram para o Waziristão do Norte e do Sul, perto da fronteira com o Afeganistão, e lá acabaram se aproximando das tribos do país vizinho, em luta contra a ocupação estrangeira em seu território. O encontro foi decisivo para modificar a estratégia de guerrilha em solo afegão.

Pudera: os paquistaneses foram formados nas mais modernas técnicas de guerrilha urbana pelo Inter-Service Intelligence (ISI), o serviço secreto do Paquistão, e contam com o reforço de inúmeros oficiais que pediram demissão do exército após a guinada pró-Washington operada pelo ex-presidente Pervez Musharraf.

Os procedimentos antes primitivos transformaram-se numa doutrina militar sofisticada, inspirada na estratégia dos
“três passos” do general vietnamita Vo Nguyen Giap, vencedor da batalha de Dien Bien Phu, em 1954, contra os franceses. Os resultados foram expressivos para os afegãos. Primeiro, um bem-sucedido ataque maciço em abril de 2008, seguido por uma série de ataques isolados contra postos de segurança e quartéis das tropas inimigas. Depois, a extensão da insurreição para os
centros urbanos e a capital, Cabul.

Essa revisão das orientações foi acompanhada pelo surgimento de uma aliança composta por militantes oriundos dos países
árabes e da Ásia Central, além de integrantes
da organização paquistanesa Tehrik-i-Talibans, dirigida por Baitullah Mehsud e por
um veterano das lutas contra as forças indianas, o maulana [1] Ilyas Kashmiri. Juntos, eles
elaboraram uma estratégia militar para toda
a região afegã-paquistanesa e para a Índia.

Depois dos ataques de 11 de setembro,
todos os grupos islâmicos da Ásia do Sul
passaram por momentos difíceis, principalmente em razão do recrudescimento da
repressão, reforçada pelos governos da região a pedido de Washington. As forças militantes se reagruparam então no front do
Afeganistão para se concentrarem nos
combates contra a ocupação ocidental. Foram necessários alguns anos para que essa estratégia amadurecesse. No decorrer desse período, os militantes começaram a falar na “Batalha do fim dos tempos”, numa alusão a um hadith [2] do profeta Maomé que
anunciava uma guerra no Khorasan – território que abrange o Afeganistão moderno,
as zonas tribais do Paquistão e uma parte
do Irã. Segundo os planos, uma vez vencida
a batalha, e dentro de uma visão escatológica do fim do mundo, os voluntários de lá
deveriam partir rumo ao oriente Médio,
com o objetivo de apoiarem a luta do Mahdi
– o bem-guiado, ou o messias – contra “as
forças do anticristo” na Palestina.

Em
menos de dois anos, nasceu um poderoso
braço armado paquistanês que reivindicava sua filiação à Al Qaeda, e conseguiu revolucionar a estratégia da resistência afegã
sob a condução dos talebãs

Vários eventos ocorridos na Ásia do
Sul desde 2001 contribuíram para preparar
essa ofensiva liderada pelos talebãs, que chegou ao apogeu foi atingido em maio desse ano. Um pouco por acaso, personalidades provenientes de
diferentes lugares se reuniram na fronteira
afegã-paquistanesa. A sua estratégia transformou-se numa insurreição de baixa intensidade, uma verdadeira guerra.

O primeiro desses eventos é a chegada
do maulana Ilyas Kashmiri, chefe do Karkatul Jihad Islami. Herói da luta armada na Caxemira, ele passou dois anos numa prisão indiana em razão dos seus supostos vínculos com os kamikazes que haviam arremessado seus veículos lotados de explosivos
contra uma comitiva do presidente Pervez
Musharraf, em 25 de dezembro de 2003.
Kashmiri decidiu pôr um fim ao seu envolvimento na luta pela libertação da Caxemira, e partiu junto com toda a sua família para o Waziristão do Norte. A sua mudança foi
interpretada pelos militantes, nos campos
da guerrilha na Caxemira, como uma verdadeira fatwa – decisão jurídico-religiosa
com valor de lei – que os conclamava a
abandonar essa província para irem enfrentar as tropas da OTAN (Organização do
Tratado do Atlântico Norte). Foi assim que
centenas desses jihadistas – combatentes
da “guerra santa” – acabaram implantando
um pequeno campo de treinamento na região de Razmak.

O mesmo caminho foi seguido pelo comandante Abdul Jabbar, chefe da organização clandestina Jaish-i-Muhammad, que
também combatia na Caxemira. Após ter sido preso em inúmeras oportunidades depois dos ataques de 11 de setembro de 2001,
ele acabou se instalando num campo de
treinamento para se preparar para os combates no Afeganistão. Por fim, uma trajetória similar foi seguida pelos oficiais que haviam sido destacados do exército paquistanês
para treinar os militantes caxemirianos.

Esses novos campos tornaram-se rapidamente populares, atraindo um número
crescente de militantes estrangeiros – tchetchenos, uzbeques e turcomenos – e de senhores de guerra das tribos locais. Eles
também atraíram a presença de ideólogos
árabes. Construiu-se assim o cenário que
se tornou palco da formação de círculos de
estudos ideológicos dirigidos inicialmente
por pensadores árabes, tais como os xeques
Essa, Abu Walid Asari e Abu Yahva al-Libbi.
Sem demora, chefes de guerra começam a
participar das sessões de discussão, e aos
poucos tomou forma um cenáculo que tem
em seu centro comandantes como
Baitullah Mehsud e Sirrajudin Haqqani –
que foi um dos dirigentes dos mudjahidins
durante a guerra contra os soviéticos -,
além de ideólogos árabes da Al Qaeda e de
veteranos da Caxemira. Foi assim que, em
menos de dois anos, nasceu um poderoso
braço armado paquistanês que reivindicava sua filiação à Al Qaeda, e conseguiu revolucionar a estratégia da resistência afegã
sob a condução dos talebãs.

A primeira conseqüência desta mistura
heteróclita não demorou a aparecer: a ideologia da Al Qaeda foi inculcada aos trânsfugas do movimento de libertação da Caxemira e o know-how militar adquirido nos
centros de formação do exército paquistanês, transmitido para os talebãs. A partir daquele momento, o teatro de operações afegão
passou a ser controlado pelos “neotalebãs”.

Entre 2006 e 2007, um novo tipo de combatente, bem treinado e ultra-radical, vai disseminar-se por toda a zona tribal. O Waziristão do Norte e do Sul sempre foram os
principais baluartes dos militantes, mas,
numa região tribal como Mohmand, onde os
talebãs eram praticamente desconhecidos
antes de 2006, é possível que tenham passado de 18 mil no final de 2007. No distrito vizinho de Bajaur, há mais de 25 mil deles.

“Cortar as linhas de abastecimento da
OTAN a partir do Paquistão é um elemento
importante da nossa estratégia. Se essas
operações forem realizadas corretamente
em 2008, isso resultará na retirada das tropas da OTAN em 2009. Talvez seja necessário um ano suplementar”, avalia um alto dirigente dos talebãs que pediu para não ter o
seu nome nome revelado

O comandante da OTAN no Afeganistão
não parece ter se dado conta da dimensão
dessas mudanças. Contudo, logo em 14 de
janeiro de 2008, os neotalebãs deram uma
primeira demonstração das suas novas capacidades. Naquele dia, membros da rede
Haqqani atacaram e ocuparam o Hotel Senera, em Cabul. Seguindo o exemplo dos
militantes da Caxemira, que tinham por hábito se infiltrar no sistema de segurança indiano para perpetrar seus atentados, os
guerrilheiros afegãos trajavam uniformes
da polícia. Outros exemplos deste esquema
culminaram na tentativa de assassinato do
presidente afegão, em 2008, e na bem-sucedida libertação de centenas de militantes talebãs presos em Kandahar.

Mas, essas são apenas operações secundárias. A estratégia principal foi aplicada
num outro terreno: na província afegã de
Kandahar e na zona de Khyber no Paquistão, por onde transitam 80% das mercadorias e dos equipamentos que abastecem a
OTAN. Os talebãs se instalaram nessa área
muito discretamente. A partir de fevereiro
de 2008, os comboios da OTAN foram alvo
de ataques bem organizados. Essas operações foram tão bem planejadas e se revelaram tão eficientes que a OTAN se viu obrigada a assinar em Bucareste, em 4 de abril de
2008, um acordo com a Rússia no qual esta
autoriza o transporte de equipamentos e
materiais não-militares através do seu território. Esse itinerário, porém, pode onerar seriamente o orçamento das forças ocidentais.

“Cortar as linhas de abastecimento da
OTAN a partir do Paquistão é um elemento
importante da nossa estratégia. Se essas
operações forem realizadas corretamente
em 2008, isso resultará na retirada das tropas da OTAN em 2009. Talvez seja necessário um ano suplementar”, avalia um alto dirigente dos talebãs que pediu para não ter o
seu nome revelado. Em 9 de maio de 2008, o
responsável paquistanês pelas operações de
transporte do petróleo de Karachi ao Afeganistão foi seqüestrado. o seu paradeiro permanece até hoje desconhecido. Em agosto,
um grupo de 35 talebãs atacou um comboio
que transportava armas no exato momento
em que ele estava deixando Karachi, o que
comprova o detalhamento das suas informações. Um responsável ocidental pelas
questões de segurança explicou que certas
bases militares no sul do Afeganistão careciam de tudo, e que elas haviam “interrompido todas as movimentações e todas as
ofensivas por falta de combustível” [3].

Washington e a OTAN subestimaram amplamente essa nova estratégia, assim como as alianças ideológicas e estratégicas
que conduziram ao nascimento dos neotalebãs. Contudo, a coalizão ocidental constatou o recrudescimento da atividade nos
campos da Al Qaeda situados nas zonas tribais paquistanesas. A partir de janeiro de
2007, oficiais norte-americanos pediram que os dirigentes paquistaneses, não só perseguissem
militarmente os talebãs, como também destruissem seus apoios logísticos, como a
Mesquita Vermelha (Lal Masjid) de Islamabad, na qual estudavam 7 mil homens e mulheres, e cujos administradores
haviam anunciado publicamente sua fidelidade e submissão à Al Qaeda e aos talebãs. Outros alvos foram tribos, movimentos islâmicos e pequenas organizações [4].

Durante as visitas ao Paquistão – ao menos sete
delas foram efetuadas no espaço de seis
meses, entre janeiro e junho de 2007 -, os
emissários de Washington insistiram para
que Islamabad implementasse um conjunto de medidas próprias para mobilizar a
população em favor da sua “guerra contra
o terrorismo” e facilitar as operações contra os talebãs. Eles conseguiram que
Musharraf desistisse das suas responsabilidades de chefe das forças armadas e se
tornasse um chefe de Estado civil. Eles o
pressionaram igualmente a colaborar com
as forças liberais e os partidos laicos, e o incentivaram a formar um governo de coalizão em decorrência das eleições legislativas que estavam previstas para janeiro de
2008 – e que foram adiadas em algumas semanas, depois do assassinato de Benazir
Bhutto. Comandados por esse novo sistema, os militares paquistaneses poderiam
finalmente conduzir operações eficientes
contra os militantes radicais.

A partir de junho de 2007, tudo estava pronto para
uma confrontação decisiva contra os talebãs. Essa estratégia política e militar visava matar dentro do ovo sua ofensiva, que era esperada para a primavera de 2008

Dentro do quadro desse novo acordo,
os Estados Unidos e o Reino Unido desempenharam o papel de mediadores no processo que conduziu a uma reconciliação
entre a antiga primeira-ministra Benazir
Bhutto e o presidente Musharraf. Acordos
similares foram concluídos com diversos
pequenos partidos nacionalistas, tais como o Awami National Party e o Movimento
Mutehida Quami, e também com um partido conservador religioso, o Jamiat-i-Ulema-i-Islam Fazlur Rahman. A partir de junho de 2007, tudo estava pronto para
uma confrontação decisiva contra os talebãs. Essa estratégia política e militar visava matar dentro do ovo sua ofensiva, que era esperada para a primavera de 2008.

A primeira etapa desse contra-ataque
tomou a forma de uma investida conduzida,
em 10 de julho de 2007, contra a Mesquita
Vermelha, que provocou pesadas baixas dos
dois lados. Esse ataque seria seguido por
uma operação conjunta americano-paquistanesa contra os campos implantados nas
zonas tribais, a partir de uma base instalada
em Peshawar. Um plano detalhado da coordenação entre as forças norte-americanas e paquistanesas, que foi revelado pela imprensa
nos Estados unidos, previa transferir uma
centena de instrutores para unidades escolhidas a dedo em meio às 85 mil formações
paramilitares paquistanesas, as quais deveriam constituir a vanguarda da ofensiva.

Contudo, muito rapidamente, logo depois do ataque contra a Mesquita Vermelha,
os militantes do talebãs voltaram suas armas contra o presidente Musharraf e concentraram seus esforços num confronto com
o exército paquistanês. Entre julho de 2007 e
janeiro de 2008, ondas sucessivas de violência perturbaram profundamente a vida social, política e econômica do país. O ataque
contra a comitiva de Benazir Bhutto, em Karachi, quando do seu retorno do exílio, em 18
de outubro de 2007, foi a primeira resposta
dos neotalebãs aos projetos norte-americanos. Por
um milagre, Benazir Bhutto conseguiu sair
ilesa daquele atentado devastador, que deixou no seu rastro mais de 200 mortos e 500
feridos. Ela foi a única liderança política do
país que se prontificou a apoiar a operação
contra a Mesquita Vermelha e aprovou publicamente a “guerra contra o terrorismo”.

O seu assassinado, perpetrado por ordem do comando do Waziristão, talvez tenha sido um ponto final nos planos norte-americanos para o Paquistão. Os eventos que se
seguiram à sua morte são conhecidos: eleições adiadas, suspensão das operações militares contra os talebãs. Procedendo
conforme um plano bem calculado, estes
últimos passaram então a lançar mão de
ataques de rara violência e provocaram um
caos tão grande pelo país que o aparelho de
Estado perdeu todo controle da situação.

Em 18 de fevereiro de 2008 foram realizadas as eleições legislativas. O resultado
obtido pela Liga Muçulmana Paquistanesa Nawaz (PML-N), liderada pelo antigo
primeiro-ministro conservador, superou
todas as previsões. Num primeiro momento, ela foi incluída na coalizão governamental [5]. Cutucando ainda mais a ferida, uma semana depois dessas eleições, um general, Mushtag Beg, foi
morto durante um ataque suicida contra a
guarnição de Rawalpindi.

Após terem conseguido desmantelar os
projetos norte-americanos de ação conjunta com
o exército paquistanês, os neotalebãs buscaram ganhar tempo para preparar sua
ofensiva. Eles tiraram proveito da participação da Liga Muçulmana no governo para
dar início a negociações com as forças de segurança paquistanesas. Mas a OTAN equivocou-se sobre o significado dessa tática ao
interpretá-la como uma suspensão das operações de ataque. Assim, acabou surpreendida pela ofensiva que se desenvolveu a partir de maio de 2008. Pela primeira vez, a
contagem dos soldados ocidentais mortos
no Afeganistão (70) superou o número de
baixas no Iraque (52).

O atentado suicida de 7 de julho de 2008
contra a embaixada da Índia em Cabul, que
matou 40 pessoas, ilustrou uma mudança
de paradigma na estratégia dos talebãs: tratava-se de dissuadir os países da região, começando com a Índia e o Paquistão, de
apoiarem a “guerra contra o terrorismo” dirigida pelos Estados Unidos. No Waziristão,
os ideólogos da guerra desenvolveram também uma estratégia mais ampla, que futuramente poderá incluir atentados contra os
interesses dos Estados Unidos na Europa.

Os observadores concordam com a análise de que o Paquistão está no cerne da estratégia da Al Qaeda e dos talebãs. Essa série de sucessos no Afeganistão oriental faz com
que estes últimos possam planejar com otimismo a próxima etapa. Desde que o número de árabes que vivem nas zonas tribais diminuiu em razão das migrações rumo ao
Iraque, dos mortos e das prisões, combatentes de outras n

Syed Saleem Shahzad é jornalista e dirige a sucursal paquistanesa do Asia Times Online, de Hong Kong.



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