Como o capitalismo consegue se manter
Nas últimas décadas, os pensadores críticos enfatizaram o papel da “cultura” na fabricação do consentimento, a ponto de, às vezes, esquecer que a hegemonia também – e talvez antes de tudo – se apoia em forças materiais, em estruturas tangíveis. Diante daquilo que Karl Marx chamava de “a surda pressão das relações econômicas”, o importante é não se resignar
Em 1983, Stuart Hall fez algumas conferências em Illinois sobre os cultural studies [estudos culturais]. Hall era uma das figuras centrais da Nova Esquerda britânica.[1] Ele evocava então as razões que, nos anos 1950, levaram os intelectuais britânicos a voltar o olhar para as realidades culturais (religião, ideologia, artes, literatura...): “O conceito de cultura foi proposto não como resposta a alguma ampla questão teórica, mas como solução para uma questão e um problema políticos muito concretos: o que aconteceu com a classe operária num contexto de prosperidade econômica?”. De fato, a questão coloca-se em termos bem mais precisos: por que o movimento operário, ferozmente combativo no entreguerras, foi tão facilmente absorvido pelo sistema? Se as mudanças econômicas desempenhavam certamente papel determinante, Hall lembra que “as principais transformações eram evidentemente menos políticas e econômicas e mais culturais e sociais”. A dificuldade consistia, portanto, em explicar como os fatores “culturais e sociais”…

