Como o fundamentalismo do Ocidente matou seus inimigos

Capitalismo

Como o fundamentalismo do Ocidente matou seus inimigos

por Bruno Ribeiro Oliveira
25 de maio de 2021
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No fundamentalismo capitalista não há espaço para dissidências. Os países Ocidentais, baseado em uma epistemologia própria que eles julgam ser universal, desenvolveram receitas de liberdade, progresso e felicidade que devem ser aceitas por todos

Houve um período em que o mundo parecia estar em chamas. Não era o aquecimento global, ainda que ele estivesse em andamento, mas as sociedades, em diversos continentes, pareciam estar em busca de algum tipo de mudança. Mudanças na cultura, na política e na economia. Contra o que se destinavam essas mudanças? Contra um sistema de exploração, de privilégios econômicos e raciais, contra um sistema de acumulação que se provou incapaz de tolerar divergências e ameaças à sua dominação.

A Segunda Guerra Mundial demonstrou que a suposta superioridade dos povos ocidentais os levava para a autodestruição. O mundo colonizado assistia e participava do conflito em nome da liberdade, mas em suas próprias terras, eles viviam sob governos europeus autocráticos. Não era possível manter a incongruência de lutar contra o fascismo enquanto se mantinha colônias. De outra forma, não havia como afirmar lutar pela humanidade quando a humanidade era negada para a maior parte da população do planeta. O colonialismo estava com seus dias contados, mas o fundamentalismo capitalista que o sustentava não.

Da década de 1950 até os anos de 1970, impulsos revolucionários estavam presentes em diversos países e continentes. Suas formas foram variadas, mas, em grande medida, o inimigo era o mesmo, o capitalismo e o poder do Ocidente. Diversos países emergiram na segunda metade do século XX em meio uma onda de descolonização enquanto os antigos impérios lutavam para manter sua hegemonia. Indubitavelmente, isso criou conflitos.

No sopro de libertação anticolonial, muitos foram os caminhos propostos para se desenvolver. Nenhum desses caminhos foi aceito pelas forças capitalistas. Os países do considerado “mundo livre” não toleravam nenhum outro caminho que não fosse o seu. Trata-se de uma doença do Ocidente, que acredita em uma superioridade inata a si mesmo e o torna incapaz de aceitar formas diferentes de vida. Isso ocorre porque o sistema capitalista que o sustenta depende do subdesenvolvimento dos outros povos.

Diversas formas de se opor ao capitalismo emergiram. A maioria delas inspiradas no exemplo soviético, no socialismo e no marxismo. Mas havia um problema. Ao buscar criar sociedades diferentes das sociedades capitalistas, havia o capitalismo e sua liga de defensores no caminho. Enquanto os países capitalistas e colonizadores eram derrotados ou negociavam sua retirada na África e Ásia, eles permaneciam como o centro do sistema que ainda controlava grande parte do planeta (sendo oposto pelo Pacto de Varsóvia que apoiava as descolonizações).

Grafite em Berlim: “Capitalismo mata” (Unsplash)

O capitalismo, o livre mercado, as democracias liberais, o estado de direito dos países ocidentais não toleravam, de modo algum, que países periféricos se recusassem ao papel que foi lhes dado pelos colonizadores, o de países dependentes. A segunda metade do século XX presencia uma história de lutas, de muitas derrotas para os países que tentavam construir soberania e de extrema violência na defesa do fundamentalismo do livre mercado. Na defesa do capitalismo, muitas pessoas foram assassinadas por tentar alterar a ordem das coisas.

O primeiro-ministro congolês, Patrice Lumumba, foi assassinado em 1961 por ameaçar os interesses capitalistas do Ocidente. Che Guevara foi executado na Bolívia em 1967 por suas ações revolucionárias que ameaçavam as hegemonias capitalistas. O indonésio Sukarno foi derrubado por um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos (país líder do mundo do mercado livre), em 1967, devido ao seu apoio a causas antiimperialistas. O revolucionário, pan-africanista, socialista e presidente de Gana, Kwame Nkrumah foi derrubado em 1966, também por um golpe que teve apoio americano. Todos esses nomes tentaram criar um caminho de desenvolvimento social, político e econômico divergente das democracias liberais. Todos esses nomes enfrentaram a violência de armas que serviam ao capitalismo e aos privilégios do Ocidente.

No Brasil não foi diferente. Carlos Marighella foi assassinado em 1969, Carlos Lamarca foi assassinado em 1971, Soledad Viedma foi assassinado em 1973. Todos eles praticaram algum tipo de resistência contra uma ditadura que odiava o seu próprio povo. A ditadura brasileira era um forte exemplo de um governo guiado por uma fé absoluta no capitalismo e nos dogmas de Washington.

Isso pode ser lido da seguinte forma: os assassinatos de dissidentes, de críticos ao capitalismo, são justificados pela própria lógica capitalista. Eles ameaçavam a acumulação de capital da elite e criavam riscos aos interesses estrangeiros. A crueldade do sistema é tanto que no desenvolvimento da sociedade capitalista brasileira, durante a ditadura, foi necessário levar à morte 8.350 indígenas para enriquecer uma minoria de pessoas e eliminar um mundo que não segue as lógicas do capitalismo.

No fundamentalismo capitalista não há espaço para dissidências. Os países Ocidentais, baseado em uma epistemologia própria que eles julgam ser universal, desenvolveram receitas de liberdade, progresso e felicidade que devem ser aceitas por todos.

As democracias liberais são especializadas em fazer morrer os seus inimigos. Seu trunfo é utilizar-se de uma fachada democrática, desde que essa democracia não impeça o bom viver de uma minoria privilegiada. As democracias do Ocidente, que se defendem mutuamente através da OTAN e de interesses em comum, são representantes do poder do capitalismo e durante as décadas de 1960, 1970 e 1980 elas agiam para eliminar qualquer ameaça ao seu domínio. E isso não ocorria apenas nas periferias do mundo.

Dentro dos Estados Unidos, revolucionários também foram mortos. Malcolm X foi assassinado em 1965, Martin Luther King em 1968 e Fred Hampton em 1969. Eram antirracistas que ameaçavam uma estrutura de poder racializada; eram anticapitalistas que denunciavam os privilégios das classes altas; eram lideranças que mobilizavam e propunham mudanças contra o fundamentalismo do livre mercado.

Buscavam-se muitas formas de mudar o mundo, mas o capitalismo possui um largo histórico de violência contra seus inimigos. Mesmo os vitoriosos, sofreram para lhe causar derrotas. Sete milhões e quinhentas mil toneladas de bombas foram atiradas contra o Vietnã durante a guerra contra os Estados Unidos. Trata-se da maior campanha aérea de bombardeamento da história da humanidade. Realizada, não por um governo considerado autoritário, mas por uma democracia que se compreende como pináculo da liberdade.

Não é curioso que todos esses assassinatos e golpes tenham, como base, os interesses do capitalismo? E, não é identicamente curioso que todos esses mortos e alijados do poder tenham tentado alterar a ordem capitalista do mundo? Vivemos, atualmente, na derrota desses movimentos, dessas ideias e desses intelectuais que tentaram erigir novas formulações de mundo.



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